domingo, agosto 20, 2017

IMAGINÁRiO #675

José de Matos-Cruz | 16 Setembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO

FASCÍNIOS
Os rastos e os rostos da banda desenhada franco-belga atingiram uma fascinante, insólita identidade no talento de Didier Comès (1942-2013) - a par com Silêncio (1979), A Doninha (1983), A Árvore-Coração (1988) ou A Casa Onde as Árvores Sonham (1995) - em Iris (1991): por estilizado preto-e-branco, revelando uma recorrência estranha, sobre os múltiplos mistérios da concepção, o fantástico enigma do relacionamento, os signos e os poderes em que se ritualiza um contraste de vivências - quanto aos seres, às situações, às épocas e aos lugares. Afinal, um universo mágico, onírico, simbólico, cuja latente mas poética virtualidade, em quadradinhos, funde as referências artísticas e criativas, com o sortilégio da leitura, explicitamente conotada aos privilégios do olhar. «As pessoas têm medo daquilo que não compreendem… A intolerância de alguns não deve fazer esquecer a generosidade de outros. Além disso, o tempo não tem sentimentos…» Argumentista/ilustrador, Didier Comès lograria em Iris uma subtil conversão entre os dilemas e as expectativas da aventura humana - pela psicologia das personagens, ou nos prodígios da natureza. IMAG.457

CALENDÁRiO

1918-12MAI2017 - Antonio Candido de Mello e Souza, aliás Antonio Candido: Sociólogo brasileiro, professor e analista literário, distinguido com o Prémio Camões (1998) - «Um dos maiores mestres da língua portuguesa» (Diogo Ramada Curto).

14OUT1927-23MAI2017 - Roger George Moore, aliás Roger Moore: Actor inglês, protagonista de Simon Templar - O Santo / The Saint (1962-1969 - televisão) e de James Bond 007 (1973-1985 - cinema) - «Nos meus primeiros anos como actor, disseram-me que, para ter sucesso, era preciso personalidade, talento e sorte em igual medida. Dispenso essa afirmação. Para mim, foi 99% de sorte. Não serve de nada ser talentoso, se não se estiver no lugar certo e no momento certo». IMAG.63-96-115-174-527

25MAI2017-25FEV2018 - Em Cascais, Fundação D. Luís I apresenta, no âmbito do Bairro dos Museus, Percurso Lusitano - exposição de escultura de Robert Schad (Alemanha).

25MAI2017 - ZulFilmes estreia Por Onde Escapam as Palavras (2016) de Luís Albuquerque; com Bruno Manique e Leonor Nobre.

1931-26MAI2017 - José Manuel Castello Lopes: Distribuidor e exibidor português de cinema, herdeiro de Filmes Castello Lopes, co-fundador do cinema Londres (1972) - «Uma pessoa que sempre lutou pelo cinema de qualidade» (Lauro António). IMAG.115-180-201-342

27MAI-25JUN2017 - No Passeio Marítimo do Estoril, Câmara Municipal de Cascais apresenta, com Fundação D. Luís I, a 8ª Edição da Exposição ArteMar Estoril ’17, sendo comissária Luísa Soares de Oliveira.

02JUN-02JUL2017 - Em Setúbal, Casa da Cultura apresenta Festa da Ilustração, sendo artista convidado António Jorge Gonçalves.  
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COMENTÁRiO

Mauricio Kagel

Incontornável, não só por ser uma referência por tudo aquilo que trouxe de novo à música, principalmente na segunda metade do Século XX, mas também porque era uma figura carismática.
Luís Tinoco
MEMÓRiA

1773-16SET1848 - Marquês de Maricá, aliás Mariano José Pereira da Fonseca: Filósofo, escritor e político brasileiro - «Na decrepitude, não pioramos de condição pela morte; se deixamos de gozar, também cessamos de sofrer». IMAG.419

1897-18SET1948 - José Ângelo Cottinelli Telmo: Arquitecto e cineasta português, realizador de A Canção de Lisboa (1933) - «A corrida esbaforida de Vasco Santana, atravessando Lisboa de capa ao vento, dos Castelinhos até à Faculdade de Medicina, para fazer o exame, até à célebre frase do esternocleidomastóideo, é um monumento de cinema absolutamente genial, onde o arquitecto põe a cidade a correr no movimento da câmara» (José-Augusto França - Revista / Expresso - 29NOV2014).  
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1931-18SET2008 - Mauricio Kagel: Compositor, maestro e cenógrafo radicado na Alemanha, autor de Torre de Babel (2002) - «Embora nascido na Argentina, é o melhor músico europeu» (John Cage). IMAG.217-352

20SET1928-2007 - Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda, aliás Alberto de Lacerda: Poeta português, cofundador da revista Távola Redonda, autor de Exílio (1963) - «És linda como haver Morte / depois da morte dos dias. / Solene timbre do fundo / de outra idade se liberta / nos teus lábios, nos teus gestos. // Quem te criou destruiu / qualquer coisa para sempre, / ó aguda até à luz / sombra do céu sobre a terra, // libertadora mulher, / amor pressago e terrível, // Primavera, Primavera!» (Diotima). IMAG.163-624


TRAJECTÓRiA


Ministro da Fazenda de D. Pedro I nascido no Rio de Janeiro, RJ, conhecido por suas máximas, que retratam a mentalidade brasileira do período situado entre a independência e o início do segundo reinado. Filho do dono de uma padaria, condição que lhe valeria mais tarde o apelido de dr. Biscoitinho, formou-se em matemática e filosofia na Universidade de Coimbra (1793). Retornou ao Rio de Janeiro (1794) e passou a frequentar as reuniões clandestinas da Sociedade Literária, fundada (1786) pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa e dissolvida (1789), durante a devassa contra os conjurados mineiros. Envolvido na conjuração fluminense, esteve preso (1794-1797), mas recuperou o seu prestígio junto corte e com a vinda desta para o Brasil, obteve a confiança real e ocupou importantes cargos, entre os quais os de director-tesoureiro da Imprensa Régia e administrador-tesoureiro da fábrica de pólvora (1808-1821). Com a declaração da independência foi Ministro da Fazenda (1823-1825) e nomeado senador vitalício por D. Pedro I. Antiescravocrata e com ideias republicanas foi nomeado marquês (1826). Na literatura publicou três colectâneas de máximas (1837/1839/1841) e morreu no Rio de Janeiro. Mais de um século depois, a Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, lançou a edição Máximas, Pensamentos e Reflexões do Marquês de Maricá (1958), dirigida e anotada por Álvaro Ferdinando Sousa da Silveira.

Cottinelli Telmo

José Ângelo Cottinelli Telmo nasceu em Lisboa, a 13 de Novembro de 1897. Frequentou o Liceu Pedro Nunes. Em 1917, tornou-se decorador da Lusitania Film, trabalhando em O Homem dos Olhos Tortos, Mal de Espanha e Malmequer (1918) de Leitão de Barros. Em 1920, concluiu o curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes/ESBAL. Autor de banda desenhada, assinando como Tio Pirilau, fundou e dirigiu o ABC-zinho (1921). Responsável pelo grafismo da revista Kino (1930), foi ainda Arquitecto-Adjunto dos Caminhos de Ferro Portugueses/CP (1923-1948), colaborador do Ministério das Obras Públicas, membro da Comissão das Construções Prisionais (1934). Em 1932, orientou a construção dos estúdios da Tobis Portuguesa. Organizou o Pavilhão Português das Exposições do Rio de Janeiro (1922) e de Sevilha (1928), a Exposição do Mundo Português e a Fonte Monumental (1940), a Praça do Império e a Zona Marginal de Belém (1941), o Monumento das Descobertas, e a Cidade Universitária de Coimbra. Em 1938-1942, dirigiu a revista Arquitectos. Escritor, crítico, ilustrador, animador cultural. Professor de Desenho no Liceu Pedro Nunes. Distinguido com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Cineasta amador (entre outros, Canção de Santa Cruz), dirigiu como profissional A Canção de Lisboa (1933) e as curtas metragens Gente da Via, Máquinas e Maquinistas e Obras de Arte (1938). Faleceu em Cascais, vítima de uma onda quando pescava no Guincho, a 18 de Setembro de 1948.

BREVIÁRiO

Evidence edita em CD, sob chancela Harmonia Mundi, Die Stücke der Windrose de Mauricio Kagel (1931-2008), por Ensemble Aleph, sob a direcção de Michel Pozmanter.

Arte de Autor edita A Balada do Mar Salgado (1967) de Hugo Pratt (1927-1995), e Corto Maltese - Sob o Sol da Meia Noite (2015) de Juan Díaz Canales e Ruben Pellejero.  IMAG.1-26-47-65-69-75-157-256-286-308-360-382-418-423-431-454-527-536-614-636

Âncora edita As Pessoas de Minha Casa de Júlio Conrado. IMAG. 24-44-184-222-271-292-345-460-565

Naxos edita em CD, Portuguese Music for Cello and Orchestra por Bruno Borralhinho, com Orquestra Gulbenkian sob a direcção de Pedro Neves. IMAG.298

quarta-feira, agosto 09, 2017

IMAGINÁRiO #674

José de Matos-Cruz | 08 Setembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
IMPLICAÇÕES
Poderia comentar-se assim: o bom filho à casa paterna volta… em busca de inspiração. Tratando-se de alguém como Tim Burton, talvez pareça perverso - mas, perante um facto confessado e a motivação em causa, o estrito aforismo ganha pleno sentido. Trata-se de
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça / Sleepy Hollow (1999) - uma recriação extravagante, baseada no clássico popular de Washington Irving, The Legend of Sleepy Hollow. Em 1912, Étienne Artaud dirigira uma primeira transposição fílmica, com Alec B. Francis. Porém, foi a versão animada (de Clyde Geronimi e Jack Kinney) sob chancela Walt Disney, em 1949 com narração de Bing Crosby, que - meio século depois - aliciou Tim Burton à sua tão peculiar e determinante revisão em imagem real. Para explorar esta mesma expressão, Tim Burton - um obscuro mas talentoso animador - abandonara os Estúdios Disney, há uma quinzena de anos. O sucesso cumpriu-se, garantindo-lhe um especial estatuto em Hollywood. Criador insólito, artista mágico, Tim Burton sublima sobretudo - em temas e formas - um fabuloso imaginário: com referências infantis, de implicações nostálgicas, estigmatizando as sombras, estilizando uma irónica e vibrátil transfiguração.
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CALENDÁR
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03MAI-03SET2017 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe Splitting, Cutting, Writing, Drawing, Eating… de Gordon Matta-Clark (1943-1978).

11MAI-27AGO2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado apresenta Desterro - intervenção de desenho, fotografia e vídeo de Susana Anágua. IMAG.405

16MAI-09JUL2017 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta, em colaboração com Maria da Graça Carmona e Costa, Interferências - exposição de pintura e desenho de Jorge Martins. IMAG.102-333-341-386-392-460-486-617

18MAI2017 - Caos Calmo Filmes produziu, e estreia Uma Vida à Espera (2016) de Sérgio Graciano; com Miguel Borges e Isabel Abreu. IMAG.407-525

18MAI2017 - NOS Audiovisuais estreia Perdidos (2017) de Sérgio Graciano; com Dânia Neto e Afonso Pimentel. IMAG.407-525

19MAI-25JUN2017 - Em Odivelas, Centro Cultural Malaposta apresenta Cumplicidades | Encontro de Memórias - exposição de pintura de Eduardo Teixeira e Eduardo Santos Neves.

19MAI-03SET2017 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta Uma História Universal de Tudo e de Nada - exposição de pintura e desenho de Julie Mehretu (Etiópia).

20MAI-03SET2017 - Em Lisboa, Culturgest expõe O Fotógrafo Acidental - Serialismo e Experimentação Em Portugal, 1968-1980.

VISTORiA
Angústia

Esta noite, não vim domar o teu corpo, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar.

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos.

Pois o Vício, a roer a minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto o teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.
Stéphane Mallarmé
VISTORiA

Era Outono. Pela estrada real duas carruagens seguiam a trote rápido. Na da frente viajavam duas mulheres. Uma, a senhora, magra e pálida. A outra, a criada, gorda e de um corado lustroso. Os seus cabelos curtos e ressecados brotavam por baixo do chapéu desbotado, e a mão avermelhada, coberta por uma luva puída, ajeitava-os com gestos bruscos. O busto volumoso, envolto num lenço rústico, transpirava saúde; os olhos negros e vivazes ora espiavam pela janela os campos fugidios, ora observavam timidamente a senhora, ora lançavam olhares inquietos para os cantos da carruagem. A criada tinha bem junto ao nariz o chapéu da senhora pendurado na bagageira, um cãozinho deitado nos joelhos, os pés acima dos pequenos baús dispostos no chão, tamborilando sobre eles, em sons quase abafados pelo ruído dos solavancos das molas e do tilintar dos vidros.
De mãos cruzadas sobre os joelhos e de olhos fechados, a senhora balouçava levemente nas almofadas que lhe serviam de apoio e, com um leve franzir de cenho, dava tossidelas fundas. Tinha na cabeça uma touquinha branca de dormir e um lencinho azul celeste envolto no pescoço pálido e delicado. Uma risca brotava abaixo da touquinha e repartia os cabelos ruços, excessivamente lisos e empastados; havia qualquer coisa de seco e mortiço na brancura do couro daquela vasta risca. A pele murcha, um tanto amarelada, mal conseguia modelar as suas feições belas e esguias, que ganhavam um tom vermelho nas maçãs do rosto. Os lábios secos mexiam-se intranquilos, as ralas pestanas não se encrespavam, e o casacão de viagem formava rugas entre os seios encovados. Mesmo de olhos fechados, o rosto da senhora expressava cansaço, irritação e um sofrimento que lhe era familiar.
Recostado em seu banco, o criado dormitava na boleia; o postilhão gritava animado e fustigava a possante quadriga suada; uma vez por outra espreitava o outro cocheiro, que gritava de trás, da caleche. As marcas paralelas e largas das rodas estendiam-se nítidas e iguais pelo calcário lamacento da estrada. O céu estava cinzento e frio; a bruma húmida espalhava-se pelos campos e pela estrada. A carruagem estava abafada e recendia poeira e água-de-colónia. A doente inclinou a cabeça para trás e abriu devagar os olhos, grandes, brilhantes, de uma bela tonalidade escura.
Leon Tolstoi
- Três Mortes (excerto)

O Erro de Desconhecer o Passado

Uma obra não resolve nada, assim como o trabalho de uma geração inteira não resolve nada. Os filhos – o amanhã – recomeçam sempre e ignoram alegremente os pais, o já feito. É mais aceitável o ódio, a revolta contra o passado do que esta beata ignorância. O que havia de bom nas épocas antigas era a sua constituição, graças à qual se olhava sempre para o passado. Este, o segredo da sua inesgotável plenitude. Porque a riqueza de uma obra – de uma geração – é sempre determinada pela quantidade de passado que contém.
Cesare Pavese
- O Ofício de Viver (excerto)
EPISTOLÁRiO

A Sissi
Receio que tu não sigas o conselho do médico e continues a minar a tua saúde, até quando for tarde demais e não houver mais remédio. Nada mais posso fazer que rogar-te, sobretudo, que te alimentes.
Francisco José I
MEMÓRiA

1391-09SET1438 - D. Duarte I, o Eloquente: Décimo-primeiro Rei de Portugal, autor de Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela e de Leal Conselheiro - «Isto se deve fazer como faz Nosso Senhor, que posto que a direita carreira da perfeição seja tão estreita, que por mui poucos é seguida, porém vendo bom propósito e tenção todos traz a porto com saúde, dizendo que por muitos caminhos o podemos servir.». IMAG.194-266-322-446-552

09SET1828-1910 - Lev/Leon Nikolaievitch Tolstoi, aliás Lev/Leon Tolstoi: Escritor russo - «Os homens distinguem-se entre si, também neste aspecto: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, pelo contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam.». IMAG.56-194-299-305-358-363-444-506-515-527-593-602-616

1842-09SET1898 - Étienne Mallarmé, aliás Stéphane Mallarmé: Poeta francês, crítico literário - «E já morro, e já amo / Seja a arte o vitral, ou seja uma cruz mística / Renascendo, a erguer o sonho em diadema / A um céu anterior e que a beleza nimba!». IMAG.194-210-363-595

09SET1908-1950 - Cesare Pavese: Ficcionista e poeta italiano - «Chega o momento em que nos damos conta de que tudo o que fazemos se transformará, um dia, em memória. É a maturidade. Para alcançá-la, é preciso, justamente, ter já recordações.» (Diário 1935-1950). IMAG. 56-173-233-288-375

1837-10SET1898 - Imperatriz Isabel da Áustria, aliás Isabel da Baviera, aliás Elisabeth Amalie Eugenie von Österreich-Ungarn, aliás Sissi: «Deambulo solitária sobre a Terra, há muito tempo, alienada da vida e do prazer; não tenho e nunca tive uma alma que me entendesse.» (Diário). IMAG.395-518-640-651

15SET1938-2011 - José Manuel Niza Antunes Mendes, aliás José Niza: Médico, político, escritor e músico português, criador de E Depois do Adeus - «Foi o maior compositor da nossa geração e um homem de princípios que, desde a década de ’50, foi meu parceiro na poesia e na música, para além de companheiro na política. Tinha uma personalidade multifacetada» (Manuel Alegre). IMAG.377

BREVIÁR
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Ignota / Sr. Teste edita Brincadeiras Vagas - A Boneca de Paul Éluard (1895-1932); tradução de Aníbal Fernandes. IMAG.13-53

quarta-feira, agosto 02, 2017

IMAGINÁRIO #673

José de Matos-Cruz | 01 Setembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
TRANSGRESSÕES
Uma das convenções tradicionais da banda desenhada respeita à identidade secreta dos heróis, sujeitos a uma exposição pública, que os vulnerabiliza perante todos os perigos e as piores vinganças. Tal estimula os autores às mais insólitas especulações, as quais, muitas vezes, remontam às próprias origens de um desígnio justiceiro. Imagine-se então um homem privado de memória e, no entanto, constrangido por um passado obscuro, perturbante, que o torna vulnerável a volúveis suspeitas, sob ameaças que, simultaneamente, impelem o seu destino para um confronto de vingança… ou expiação! Eis os fundamentos de
XIII (1984 ) - uma das sagas mais aliciantes, com a marca da escola franco-belga. Mistério, aventura, disputam uma acção de contornos políticos - em flagrantes de espionagem, sob implicações militares - em que o poder absoluto se insinua, irreversível, pairando entre referências financeiras ou proezas criminais. Dois criadores veteranos - o argumentista Jean Van Hamme (lembrar Thorgal) e o ilustrador William Vance (lembrar Bob Morane) - conquistaram os fanáticos com as proezas do enigmático mas empolgante XIII. Entre muitos nomes, talvez mais próximo da verdade, mas o futuro é uma realidade instável…
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CALENDÁRiO

06MAI-19MAI2017 - Em Lisboa, Museu Militar apresenta
Delfim Maya [1886-1978] - Escultor Ibérico.

06MAI-03JUN2017 - No Porto, Cooperativa Árvore e Museu Nacional de Soares dos Reis apresentam
Espaços Imprevisíveis - exposição de pintura de Fernando Marques de Oliveira.

1934-09MAI2017 - Armando Baptista-Bastos: Escritor e jornalista português - «…A
actividade de escrever é demasiado natural, e de certa forma transcendente, para se reduzir às consequências de um ofício.» (O Cavalo a Tinta-da-China - 1995).  
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PRIORITÁRiO

BAPTISTA-BASTOS
Homem de coragem e convicções, autor de afeições e desafios, Baptista-Bastos celebra um envolvimento exemplar sobre a solidariedade, o compromisso, a militância, o testemunho quanto à realidade e à intervenção em Portugal, entre tanto do Século XX e tudo em pleno 3º Milénio. Ensaísta e jornalista prestigiado, a aliciante vocação do ficcionista expande-se em renovo e emoção, em sensibilidade e acuidade, em magia e fascínio. Eis a plenitude do humanista e a maturidade do escritor numa fluência propícia à inquietação, à descoberta, ao mistério, à partilha, ao desassombro, à solenidade, por quem a candura austera, a rude sobriedade inspiram e motivam, encerram e desvendam sobre a revelação e o pudor, o amor e a paixão, a identidade e a transferência, nessa inextrincável sagração de origens e inícios, de ciclos e pactos, de referências e inquietações que se assumem com pujante fruição ou sob o signo da mulher. História e memória, prenúncio e presença, retorno e futuro, constância e transfiguração, sublimam afinal Baptista-Bastos, ao forjar a criatividade sob um nexo lírico e trágico, onírico e afável, que tem a cultura como matriz, a vivência como alternativa.

José de Matos-Cruz

COMENTÁR
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David Foster Wallace

É um autor que pode escrever o que quiser. Pode fazer algo triste, divertido, descabido, arrebatador ou absurdo com igual mestria; até pode fazer tudo ao mesmo tempo.
Michiko Katutani


INVENTÁR
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O Primo Basílio
 


Em 1922, George Pallu realizou, para a Invicta Film, o drama cinegráfico O Primo Basílio, baseado no romance de Eça de Queiroz. Tudo gira, como se sabe, em volta dum adultério incómodo – entre Luísa, uma dama (bem) casada com Jorge, mas suspirante; e Basílio, um parente cosmopolita, leviano, que chega do estrangeiro… No contrato celebrado com os livreiros Lello & Irmão, estava prevista a venda da fita para o Brasil, estipulando-se quanto aos termos ficcionais e económicos: a Invicta podia «introduzir, modificar ou suprimir qualquer assunto», «segundo as exigências do cinematógrafo, desde que não fiquem alteradas as linhas gerais», «ou suprimidos os principais personagens»; a cessão foi feita «pela quantia de dois cêntimos em moeda francesa ao câmbio do dia, por metro de cada positivo vendido», «depois de deduzida a metragem dos títulos». Reproduzindo com bastante fidelidade os tipos característicos, bem como o clima fútil e a tensão expiadora, na obra literária, Pallu – também autor do argumento – não consegue, todavia, transmitir a toada sibilina, nem a feroz insolência sobre os costumes mesquinhos e a medíocre moral da época. Mesmo assim, um tema tão ousado e a sugerida escabrosidade levantaram significativa onda de protestos. Já a Invicta Cine – reconhecendo a «grande irreverência» de Eça – criticou os «delambidos púrrios, grotesca personificação da honestidade, que andam a ejacular a sua estupidez…»
A estreia comercial do filme esteve em risco, acabando por ocorrer – com distribuição Castello Lopes – em Lisboa (Condes), a 16 de Março; e no Porto (Jardim Passos Manuel), a 27 de Março de 1923. A fotografia de Maurice Laumann é sóbria mas envolvente, filtrando a mecânica do conflito (assédio, infidelidade, chantagem) através da transparência cénica (humilhação, doença, morte). O papel de Basílio, interpretado por um Robles Monteiro corpulento e bonacheirão, raro sugere o insinuante sedutor que implicaria a trama sentimental, bem servida por uma Amélia Rey Colaço na figura vulnerável e patética de Luísa. Arrebatador é, no entanto, o desempenho da notável Ângela Pinto, como Juliana, na sua única aparição em cinema: cria com o espectador uma distanciação ambígua que, no entanto, gera a cumplicidade, proferindo apartes em direcção à câmara…
Ainda no elenco, destacam-se Raul de Carvalho (Jorge), António Pinheiro (Conselheiro Acácio) e Arthur Duarte (Ernestinho). A pouco característica definição de situações, no acercamento desse estrato classista e pretensioso, algo parasitário em seus rituais de dissolução, para além das aparências morais, é contrabalançada pela dinâmica narrativa – assente numa montagem equilibrada, com recurso frequente a sequências paralelas. Assinalemos, pois, O Primo Basílio – como um exemplo marcante entre as versões cinegráficas, de ambiência urbana – sagrando corajosamente o polémico romance de Eça de Queiroz, duas ou três vezes adaptado no período sonoro: por Carlos Najera (Eurindia Films – México) em 1934; e por António Lopes Ribeiro (para Eduardo Costa) em 1959.

MEMÓRiA

1869-01SET1948 - Gabriel Georges Pallu, aliás Georges Pallu: Cineasta francês, trabalhou em Portugal ao serviço da Invicta Film, tendo dirigido várias transposições literárias, como Amor de Perdição (1921).
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02SET1928-2012 - Stuart Solomon, aliás Mel Stuart: Cineasta americano, produtor e realizador (A Maravilhosa História de Charlie / Willy Wonka and the Chocolate Factory - 1971, Brenda Starr, Reporter - 1976, Cães do Ódio / Mean Dog Blues - 1978), presidente da International Documentary Association. IMAG.278-421

02SET1928-2014 - Horace Ward Martin Tavares Silva, aliás Horace Silver: Compositor e músico americano de
jazz, saxofonista e pianista, co-fundador do hard bop, líder de The Jazz Messengers, tocou com Milt Jackson ou Paul Chambers, tendo criado «um legado entre as décadas de 1950 e 1960 altamente influente» (Diário de Notícias). IMAG.521

02SET1938-2013 – Eduardo José Nery de Oliveira, aliás Eduardo Nery: Artista plástico e fotógrafo português, ligado à
op art - «O seu trabalho em pintura, mais ligado à arte abstracta, foi inovador mesmo em termos internacionais e acompanhou Vasarely, um papel que nunca foi reconhecido» (Vítor Albuquerque Freire). IMAG.405-435-454



1910-06SET1998 - Akira Kurosawa: Cineasta nipónico, realizador de Rashomon - Às Portas do Inferno (1950) - «Por que razão se deixam os homens arrastar, sempre, para a fatalidade? Porque não podem viver em paz, com um pouco mais de bondade entre si, de uns para com os outros?». IMAG.193-267-531

1962-12SET2008 - David Foster Wallace: Escritor americano, autor de Infinite Jest (1996): «Estava a chover de um céu baixo, e a maré tinha vazado toda». IMAG.217-360
 
BREVIÁRiO

Apenas Livros edita Aurora Boreal e O Instinto Supremo de José de Matos-Cruz; terceiro universo de O Princípio Infinito, com visões de Susana Resende e Daniel Maia.