segunda-feira, setembro 25, 2017

IMAGINÁRiO – Extra: AS PESSOAS DE MINHA CASA de JÚLIO CONRADO

Originalmente publicado em 1985 (Círculo de Leitores), por recomendação do júri do Prémio Círculo de Leitores (1984), e reeditado em 1986 (Vega), o romance As Pessoas de Minha Casa, de Júlio Conrado, regressa em 2017, revisto e com alterações, sob chancela Âncora. Ou, como salienta o autor, «um trabalho de remodelação», «de maneira a clarificar certos aspectos indutores de moderada confusão», logo tratar-se de «um produto autobiográfico».
Em Apresentação, Júlio Conrado esclarece ainda haver uma «estrutura» «híbrida, isto é, a acção desenvolve-se a partir de uma personagem que em muitos momentos espelha a minha vivência juvenil […], sobrepondo-lhe uma outra figura, a mesma personagem em versão adulta, rigorosamente inventada, tendo como pano de fundo a vida quotidiana na cidade de Lisboa num período que vai do Verão quente de setenta e cinco aos primeiros anos oitenta do século passado». Assim também, a «Vila das Quintas do livro é a Carcavelos dos anos quarenta, cinquenta, a terra das minhas infância e adolescência». Por outro lado, incluem-se agora passagens de «um caderno cujas páginas [foram] preenchidas à mão, sob o título de Memórias Eróticas no Tempo dos Amores Difíceis, e com a assinatura de Serafim João» – supostamente, um pseudónimo do incidental protagonista, chamado Aurélio Romeira…
Eis, portanto, a estratégia recorrente de uma escrita múltipla, sobre a realidade e a imaginação, cuja arquitectura temporal se privilegia e reexpõe. Através de peripécias formuladas, de alusões suprimidas, de referências acrescentadas e de implicações em revitalização. Sem que a essência primordial se atenue, no âmbito narrativo ou por uma abrangente contextualização. Revelando, reflectindo, Júlio Conrado envolve-nos, com argutas ironia e subtileza, num jogo íntimo ou simulado de turbulência e coloquialidade, de encantos e decepções, sobre o autêntico e o actual, a experiência e a maturidade, a própria matéria pretérita e a consistente virtualização interactiva. Um criador versátil e prolífico em inquieta ou explícita evolução perante a sua obra, tornando o repositório matricial d’As Pessoas de Minha Casa em manancial de inesperadas, surpreendentes assunções e alternativas. Um testemunho fascinante e caprichoso, um novelesco volúvel e acutilante, conjugando os contrastes da ficcionação com os artifícios da existência.
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José de Matos-Cruz

domingo, setembro 24, 2017

Imaginário-Médio: newsletters de Junho 2012

Durante a passada semana, mais um mês de newsletters antigas, relativas à data virtual de Junho de 2012, foram recuperadas no blog Imaginário-Médio, partilhadas nos links #373, #374, #375 e #376, que permanecem disponíveis para visita.


terça-feira, setembro 19, 2017

IMAGINÁRiO #681

José de Matos-Cruz | 01 Novembro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

INOCÊNCIA
As tradicionais guerras entre cão e gato, que inspiraram as fábulas de outros tempos e se reflectiram pelos imaginários da animação, culminariam afinal num pacto de paz e cumplicidade, sob o signo da banda desenhada. Tudo, graças a Mutts (1994) - uma obra concebida e ilustrada por Patrick McDonnell.
Ingénuas, irónicas, surpreendentes, as proezas de Earl e Mooch transfiguram uma vivência quotidiana, estilizada pelo olhar humano - e, assim, reinvestidas à primordial dimensão realista. Tudo, para que cada um de nós se divirta e reencontre, pelas emoções mais genuínas. Como apreciou Charles M. Schulz - o privilegiado autor de Peanuts, e pai do irreverente Snoopy - «Mutts é tudo o que uma tira deveria ter. Dá sempre gozo lê-la, e as duas personagens principais são maravilhosamente inocentes. Patrick criou um pequeno mundo, que existe dentro de si próprio». Heróis por conta própria, irresistíveis, Earl descobre que, quando está em maus lençóis, o melhor é ir para debaixo da cama; já Mooch é mais simples e directo, enquanto dá largas à sua filosófica indolência: «Ronrono, logo existo!». IMAG.489

CALENDÁRiO

JUN-14JUL2017 - Em Lisboa, Espaço Novo Banco apresenta A Voz Na Cabeça - exposição de fotografia de Valter Vinagre. IMAG.248-538-580-584-614-640-671

JUN-31OUT2017 - No Porto, Antigos Armazéns da Croft apresenta Porto e Douro: Through the Lens - exposição de fotografia (1845-1975) de Emílio Biel, Domingos Alvão (Casa Alvão), António Beleza (Estúdio Beleza) e Frederick William Flower.

21JUN-12JUL2017 - Em Lisboa, Casa-Museu Medeiros e Almeida apresenta Passeio de Uma Rapariga Europeia - exposição de pintura e desenho de Manuel Vilarinho.

22JUN-09SET2017 - Em Lisboa, Galeria 111 apresenta #Nervosa - exposição de pintura de Rui Miguel Leitão Ferreira.

23JUN-29JUL2017 - Em Lisboa, Fundação Carmona e Costa apresenta Missão Fria - exposição de desenho de Pedro Casqueiro, sendo curador Bruno Marchand.

30JUN-09SET2017 - Bedeteca da Amadora expõe As Cadernetas e os Desenhadores - À Procura da Simbiose Perfeita, em parceria entre a Câmara Municipal da Amadora e o Clube Português de Banda Desenhada.

06JUL-22SET2017 - Em Lisboa, Museu do Oriente apresenta, com AJA / Associação José Afonso (1929-1987) e Câmara Municipal de Grândola, Desta Canção Que Apeteço - exposição sobre a Obra Discográfica de José Afonso 1953-1985, a partir de uma pesquisa de Miguel Gouveia e Cláudia Lopes. IMAG.6-119-170-237-269-328-421-422-427-599

08JUL2017 - Em Cascais, Bedeteca José de Matos-Cruz / Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana leva a efeito a 3.ª sessão das Conversa(s) Sobre Banda Desenhada, sendo convidados Jorge Magalhães & Catherine Labey.  
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13JUL-17SET2017 - Centro de Exposições de Odivelas apresenta O Corpo e a Cor - exposição de pintura de Sofia Bobone.

VISTORiA


Sem autenticidade, sem educação, sem liberdade no seu significado mais amplo – na relação consigo mesmo, com as próprias ideias pré-concebidas, até mesmo com o próprio povo e com a própria história – não se pode imaginar um artista verdadeiro; sem este ar, não é possível respirar.
Ivan Turgéniev
- A Propósito de ‘Pais e Filhos’

MEMÓRiA

1915-03NOV1998 - Robert Kahn, aliás Bob Kane: Artista americano de quadradinhos, criador do Homem-Morcego (1939) - «Toda a imortalidade de que Batman desfruta, provém do meu estilo original, que perdurou durante vinte anos, e não do new look que entretanto lhe atribuíram». IMAG.2-62-201-208-227-292-399-419-536-546

04NOV1908-2005 - Józef Rotblat, aliás Joseph Rotblat: Cientista britânico de origem judaico-polaca, físico, galardoado com o Prémio Nobel da Paz (1995) com a Pugwash, organização de luta contra as armas nucleares, da qual foi um dos fundadores. IMAG.56

1942-04NOV2008 - John Michael Crichton, aliás Michael Crichton: Escritor e produtor americano, de cinema e televisão, autor de Parque Jurássico - «Qualquer descoberta é sempre, mas sempre, uma violação do mundo natural». IMAG.26-223-391

09NOV1818-1883 - Ivan Sergueievitch Turgéniev: Romancista e dramaturgo russo - «No final, a Natureza é inexorável. Ela não tem razão para se apressar e, mais cedo ou mais tarde, tudo o que a ela pertence, a ela voltará, sempre inconsciente e inflexivelmente obediente às suas próprias leis, que não conhecem a arte, assim como não conhecem a liberdade e a bondade».  
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1792-13NOV1868 - Gioacchino Antonio Rossini, aliás Gioacchino Rossini: Compositor italiano - «Em criança, eu tinha uma bela voz… Os meus pais faziam-me cantar no coro da igreja. Foi quando um tio, barbeiro de profissão, os convenceu da oportunidade de impedir a mudança da minha voz, pois assim tornar-me-ia uma fonte segura de rendimento para toda a família». IMAG.320-323-360-440-585

TRAJECTÓRiA

Rossini - O Compositor de O Barbeiro de Sevilha

Gioacchino Rossini (Pesaro, 1792-Paris, 1868) foi um compositor de talento e, sobretudo, de sucesso - a ponto de ser o mais célebre da época, preferido pelo grande público ao seu contemporâneo Beethoven. Da longa lista de óperas (no seu repertório destaca-se também outro tipo de peças, com destaque para a obra sacra Sabat Mater) podem citar-se A Dama do Lago, Tancredo, A Italiana Em Argel, Otello, Cinderela, A Pega Ladra, Moisés No Egipto, Semiramis ou Guilherme Tell (talvez a sua obra-prima). Mas o nome de Rossini está sobretudo associado a O Barbeiro de Sevilha, essa popular ópera-bufa em dois actos, em que o conde Almaviva convence o amigo barbeiro Fígaro a ajudá-lo a conquistar Rosina (bela moça que vive com o médico Bartolo, que se quer casar com ela) numa sucessão de peripécias e disfarces, espiões a fingir e polícias de gargalhada. E mais do que a intriga rocambolesca, o que tem perdurado ao longo dos séculos são alguns trechos que se universalizaram. Sobretudo a ária inicial, Largo al Factotum, que toda a gente sabe trautear: «Fígaro qua, Fígaro la, Fígaro qua, Fígaro la / Figaru su, Fígaro giu, Figaru su, Fígaro giu».
17OUT2009 - Diário de Notícias

COMENTÁRiO

Michael Crichton

Era o melhor a misturar aspectos da ciência com grandes conceitos dramáticos, e isto deu credibilidade a um imaginário em que os dinossauros vivem de novo sobre Terra. Tinha um temperamento gentil, e reservou a sua faceta mais extravagante para as narrativas literárias. Não há ninguém em tal actividade que possa preencher a sua ausência, ou continuar o seu trabalho romanesco.
Steven Spielberg
PARLATÓRiO

Todos os sentimentos podem conduzir ao amor e à paixão. Todos: o ódio, a compaixão, a indiferença, a veneração, a amizade, o medo e até mesmo o desprezo. Sim, todos os sentimentos, excepto um: a gratidão. A gratidão é uma dívida: todo o homem paga as suas dívidas, mas o amor não é dinheiro.
O lugar insignificante que ocupo é tão minúsculo em comparação com o resto do espaço em que não estou, e onde não se importam comigo… A parcela de tempo que hei-de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive e nunca estarei… Neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa… Que estupidez! Que inutilidade!
Ivan Turgéniev
INVENTÁRiO

Uma obra de arte pertence, antes de mais, ao criador que a imaginou.
Contudo, também é um pouco dos que, apaixonadamente, dedicaram toda a sua vida, para que ela possa ser admirada, não só pelos seus contemporâneos, mas também por aqueles que ainda hão de vir.
É essa história, feita de pequenos e grandes relatos, que aqui é narrada.
Grão Vasco é o pintor Vasco Fernandes, mas é também o nome do museu que acolheu a sua obra e o fez ganhar o seu quinhão de eternidade.
Longe vão, pois, os tempos em que a criação deste museu não passava apenas de uma ideia. Depois, com Almeida Moreira, ela ganha finalmente forma, com a criação de um museu regional que, ao longo dos anos, vai crescendo e diversificando-se. Actualmente, e já com cem anos de existência, o seu acervo tornou-se tão importante, que é já considerado um museu nacional. 
E esse é, de facto, um prémio justo para todos os que, com paixão, construíram coleções únicas sobre Vasco Fernandes, o naturalismo português, a escultura medieval e as artes decorativas. E isto é, apenas, a história dos primeiros cem anos…

BREVIÁRiO

Edições Esgotadas lança Museu Nacional Grão Vasco 1916-2016 - Em Busca da Arte Perdida de João AmaralIMAG.7-149-155-204-416-430-431-446-539-596-678

segunda-feira, setembro 18, 2017

Imaginário-Médio: newsletters de Maio 2012

As newsletters #369, #370, #371 e #372, relativas à data virtual de Maio 2012, já foram carregadas no blog Imaginário-Médio, acessíveis por estes links.
Disponibilizou-se ainda o primeiro Imaginário-Extra, dedicado ao lançamento de O Infante Portugal e As Sombras Mutantes, onde José de Matos-Cruz conclui a trilogia publicada pela Apenas Livros, e onde participam como ilustradores Daniel Maia e Susana Resende.


segunda-feira, setembro 11, 2017

IMAGINÁRiO #680

José de Matos-Cruz | 24 Outubro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

CONSEQUÊNCIAS

Um prestigiado agente da polícia, Eddie Santos logra um encontro secreto, através de informador, com Vinnie Zapatti, um gangster sem importância, mas sobrinho do padrinho da Mafia. Subitamente, há um tiroteio fatal entre ambos, o qual vitima ainda um menino negro de seis anos, que passava por acaso na rua com o pai. A tragédia emociona a opinião pública de Nova Iorque, consternando o próprio mayor John Pappas. Um político hábil, veterano, cujas relações com o líder democrático local, Frank Anselmo, atravessam uma crise. Tal processo de compromissos e favores liga-se ao influente Paul Zapatti, envolvendo uma frustrada exploração de terrenos e um caso de não incriminação oficial, afecto ao insuspeitável juiz Walter Stern. Tudo isto descobre Kevin Calhoun, o novel e idealista assessor de Pappas, disposto a investigar até às últimas consequências… Uma narrativa fascinante adensa A Sombra da Corrupção / City Hall (1996) de Harold Becker, pela força testemunhadora segundo os modelos clássicos. Eivando um insinuante nexo de pulsões dramáticas, nos prodigiosos desempenhos centrados em Al Pacino e John Cussack. 
 
CALENDÁRiO

18ABR2017 - Em Lisboa, Museu da Marinha expõe Vikings - Guerreiros do Mar, sendo comissário Gonçalves Neves. IMAG.32-41-101-136-559-641

1935-16JUN2017 - John Guilbert Avildsen, aliás John G. Avildsen: Cineasta americano, distinguido com o Oscar pela realização de Rocky (1976) - «Mudou a minha vida, e estarei sempre em dívida para com ele» (Sylvester Stallone).

21JUN-18SET2017 - Em Lisboa, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia / MAAT expõe Fernanda Fragateiro: Dos Arquivos, à Matéria, à Construção, sendo curadora Sara Antónia Matos. IMAG.427-641

21JUN2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia expõe Loulé. Territórios, Memórias, Identidades, sendo coordenador-geral António Carvalho.

23JUN-24SET2017 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Vermelha - exposição de pintura de Marta Soares. IMAG.647-648

27JUN-27SET2017 - Em Lisboa, Centro Comercial Colombo expõe O Mundo Fantástico de Paula Rego, sendo curadora Catarina Alfaro.  
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TRAJECTÓRiA

Amadeo de Souza-Cardoso
Amadeo Ferreira de Souza-Cardoso nasceu em Manhufe, Mancelos (Amarante), a 14 de Novembro de 1887, numa família de lavradores abastados e afidalgados. Em 1905, iniciou o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Em 1906, partiu para Paris, instalando-se em Montparnasse. Dedicou-se ao desenho e à caricatura. Privilegiando a pintura, frequentou ateliers livres - em contacto com o impressionismo ou o expressionismo - e a Academia Vitti de Anglada Camarasa. Em 1911, apresentou trabalhos no XXVII Salon des Indépendants, relacionando-se com Amadeo Modigliani, Diego Rivera e Robert Delaunay. Em 1912, publicou XX Dessins par Amadeo de Souza-Cardoso, e ilustrou La Légende de Saint Julien L’Hospitalier de Gustave Flaubert. Em 1913, participou na exposição The Armory Show em Nova Iorque, seguindo-se Chicago, Bóston e Berlim. Em 1914, após intervenção no XXX Salon des Indépendants, e devido à Guerra Mundial, regressou a Portugal, encontrando-se com Antoni Gaudi na passagem por Barcelona. No Porto, casou com Lucie Pacetto. Em 1916, realizou a exposição individual Abstraccionismo, no Salão do Jardim de Passos Manuel no Porto, e em Lisboa na Liga Naval. Em 1917, participou no Movimento Futurista Português com Almada Negreiros, que o considerou a «primeira descoberta de Portugal no Século XX». Autor vanguardista, desenvolveu o cubismo analítico, tendo experimentado novas formas e técnicas. Vítima de pneumónica, faleceu em Espinho, a 25 de Outubro de 1918.

VISTORiA

Pássaros pontilhando a ramaria, o horizonte do mar por cima da copa das árvores e entre o céu e a linha de água uma luzinha fria a caminhar para o crepúsculo. Um petroleiro? Elias demora-se a olhar. Tempo ao tempo. Só no dia seguinte começará o inventário dos sinais e dos palpites, confiado como sempre no Velhaco das Algemas. Tempo ao tempo. Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo.
José Cardoso Pires
- Balada da Praia dos Cães (1982)

MEMÓRiA

25OUT1838-1875 - Georges Alexandre César Léopold Bizet, aliás Georges Bizet: Compositor francês, autor de Carmen - «Como músico, posso garantir que, se suprimisse o adultério, o fanatismo, o crime, o mal e o sobrenatural, seria incapaz de escrever uma nota». IMAG.200-439-464-517-663

1887-25OUT1918 - Amadeo de Souza-Cardoso: Pintor português, ligado aos primórdios do modernismo - «Reina incontestada a imagem do criador solitário, como se essa história e as contingências que lhe estão associadas não fizessem, a cada momento, a vida quotidiana das comunidades e dos cidadãos» (Joana Cunha Leal). IMAG.84-149-154-185-258-279-434-476-510-561-583-634-647-648

26OUT1908-1992 - Francisco Caldeira Cabral: Pioneiro em Portugal da Arquitectura Paisagista - «É tempo de afirmar que se a cidade é indispensável à organização da sociedade e ao progresso da humanidade, se a indústria muito tem contribuído para facilitar a vida e lhe dar conforto, é da paisagem rural que depende a sobrevivência da humanidade, porque é ela com o mar, a única fonte de alimentos, a única fonte de água potável, e o último suporte de actividade biológica autónoma e equilibrada, indispensável à continuação da vida na terra. Por isso a actividade da Sociedade Rural é a única que continua a ser obrigatória, sendo todas as outras facultativas, quer a sociedade urbana-industrial se aperceba ou não desse facto». IMAG.398

26OUT1928-2011 - Francisco Solano López: Artista argentino de banda desenhada, ilustrador de El Eternauta, criado por Héctor Germán Oesterheld - «A minha versão de Robinson Crusoé». IMAG.370

1925-26OUT1998 - José Augusto Neves Cardoso Pires, aliás José Cardoso Pires: Escritor português - «Tu­do o que diz res­pei­to à mor­te ou à sua apro­xi­ma­ção é vi­vi­do sem hu­mor, por­que, por na­tu­re­za, ela ins­pi­ra pâ­ni­co e não nos dei­xa ver es­se la­do. Quan­do nos sa­fa­mos de­la, fi­xa­mos. Sa­ta­nás de­ve­-se far­tar de go­zar, e com ra­zão, com os si­nais de hu­mor da mor­te. O que eu vi na­que­le hos­pi­tal, o que eu sen­ti… tu­do aqui­lo tem um hu­mor ter­rí­vel.» (De Profundis, Valsa Lenta - 1997). IMAG.53-200-226-227-314-366-367-533-581-602-609-615

30OUT1918-2006 - Jacques Faizant: Ilustrador, jornalista e escritor francês - «Um dilema é uma proposta filosófica cujo enunciado agrada às boas consciências e cuja prática põe em perigo as democracias». IMAG.76

31OUT1838-1889 - Luís Filipe Maria Fernando Pedro de Alcântara António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando de Bragança, El-Rei D. Luís I, o Popular: «Estava um tempo lindo com vento de NE e o mar socegadissimo. Apezar d’isso enjoei. Logo apenas sahi a barra comecei a sentir-me encomodado. Ainda me conservei na tolda até chegarmos ao Cabo da Roca, o que foi à uma hora. Fui então deitarme no meu beliche. Duas horas depois tive a consolação que não era o único enjoado».  
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31OUT1928-2012 - Andrew Sarris: Escritor e crítico de cinema americano, colaborador da Village Voice e precursor na defesa do filme de autor - «Há uma parte de mim que observa para além de tudo o que existe actualmente». IMAG.414

COMENTÁRiO

EL ETERNAUTA

«Era de madrugada, cerca das três horas. Nas casas vizinhas, não havia qualquer luz… De repente, um ruído - um ruído na cadeira à minha frente, onde costumam sentar-se os que vêm falar comigo…»
Assim principia El Eternauta, mítica saga argentina em quadradinhos, sobre as aventuras e os desaires de Juan Salvo, um viajante do espaço-tempo que tenta salvar a família de uma tragédia iminente. Em causa, a invasão da Terra por Eles - seres com uma tecnologia muito superior à humana, e capazes de escravizar qualquer outra civilização. Concebida por Héctor Germán Oesterheld (1917-1977) e ilustrada por Francisco Solano López (1928-2011), esta epopeia trágica - centrada na ocupação de Buenos Aires, e nos lances da Resistência - simboliza uma crítica ao individualismo social e um canto à união entre os homens. Originalmente publicado na revista Hora Cero Semanal entre 1957 e 1959, e relançado por editorial Frontera, El Eternauta teve expansão por Oesterheld através de uma remake (1969) e de uma sequela (1975), a que se seguiram múltiplas derivações por diversos argumentistas e desenhadores.

BREVIÁRiO

Dom Quixote edita Luz Em Agosto de William Faulkner (1897-1972); tradução de Ana Maria Chaves. IMAG.86-153-231-232-305-340-356-377-438-578-628-631

Onyx Classics edita em CD, Joseph Haydn [1732-1809]: Cello Concertos por Pavel Gomziakov, com Orquestra Gulbenkian sob a direcção de Erik Heide.  
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domingo, setembro 10, 2017

Imaginário-Médio: newsletters de Abril 2012

Um novo lote de Imaginários antigos têm sido disponibilizados no novo blog Imaginário-Médio, onde desta vez vos esperam os newsletters #365, #366, #367 e #368. Visitem nos links indicados.


quinta-feira, setembro 07, 2017

IMAGINÁRiO #679

José de Matos-Cruz | 16 Outubro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

PROXIMIDADES
Por um destino insólito, mas que tem antecedentes sociopolíticos, pouco existe disponível em edição portuguesa de banda desenhada por autores espanhóis. Tal reflecte, afinal, implicações da história recente, com significativo alcance cultural - lembre-se, por exemplo, a bizarra situação no âmbito cinematográfico, em que os filmes de Luís Berlanga ou Carlos Saura, anos atrás, chegavam até nós, através da distribuição francesa. É certo, mas chegavam! Este paradoxo ibérico - de lamentável reciprocidade, e que coloca uma relação entre-fronteiras pelo remetente além-Pirinéus - teve, aliás, uma rotura em quadradinhos, por intervenção directa da BaleiAzul. A obra em causa intitula-se, sugestivamente, O Artefacto Perverso (1996), trazendo a assinatura de Felipe Hernández Cava (argumento) & Federico del Barrio (ilustração). Na vivência familiar dum artista madrileno de bd, em finais da década de ’40 do Século XX, marcada pelas expectativas de carreira e pelos compromissos do passado, paira uma acção exemplar de fidelidades, repressão e traições, sob um expressivo / perturbante grafismo a preto-e-branco… IMAG.485

EPISTOLÁRiO

Estou sempre e sempre tentando interpretar a Vida em termos de vidas, não apenas vidas em termos de carácter. Mantenho-me sempre muito consciente da Força que está por detrás de tudo – Destino, Deus, nosso passado biológico criando o nosso presente, não importando o nome que se dê a isso – Mistério, com certeza – e da eterna tragédia do Homem em sua luta gloriosa, autodestrutiva para fazer com que essa Força lhe dê expressão, em vez de fazer que seja apenas, como um animal, um incidente infinitesimal da expressão dessa Força. Tenho a profunda convicção de que este é o único assunto sobre o qual vale a pena escrever e de que é possível – ou poderia vir a ser – desenvolver uma expressão trágica em termos de valores e símbolos modernos transfigurados no teatro, que pode, até certo ponto, fazer que uma audiência moderna possa experienciar uma enobrecedora identificação com as figuras trágicas em cena. É claro que isso é um sonho, mas, quando se trata de teatro, é necessário sonhar, e o sonho dos gregos na tragédia é o mais nobre de todos os tempos!
Eugene O’Neill
- A Arthur Hobson Quinn (1925)
RELATÓRiO


18NOV1980 – Filósofo Louis Althusser Estrangula a Mulher …Era domingo, uma manhã cinzenta de domingo quando o filósofo Louis Althusser, de 62 anos, anuncia aos gritos o que acontecera no interior do seu apartamento na École Normale Supérieure, em Paris: «Estrangulei Hélène!» No dia seguinte, já com o filósofo internado num hospital psiquiátrico, a autópsia confirma: apesar de não existirem quaisquer vestígios na pele do pescoço, nem quaisquer sinais de resistência, Hélène Rytmann, de 70 anos, companheira de Althusser há mais de 30, tinha sido estrangulada. Por ele, que um ano depois é dado como inimputável. Althusser, um dos principais filósofos comunistas, tinha um passado clínico de depressões e crises de melancolia, conhecera já vários internamentos. Continuará a entrar e sair de hospitais psiquiátricos até ao fim da sua vida, em 1990. Entre internamentos, revolta-se contra a privação da palavra que o seu acto acarretara, contra a ausência de testemunho. O resultado é uma autobiografia, L’Avenir Dure Longtemps, que começa assim: «É provável que se considere chocante eu não me resignar ao silêncio após o acto que cometi, e também o não-lugar que o sancionou e do qual eu beneficiei. Mas se eu não tivesse tido este benefício teria de ter comparecido. E se eu tivesse comparecido teria de ter respondido. Este livro é essa resposta…» Saído de «uma noite impenetrável», o que terá levado o filósofo a matar? O que terá levado Hélène a não resistir? «Estrangulei a minha mulher, que era tudo para mim, durante uma crise intensa e imprevisível de confusão mental, ela que me amava a ponto de querer apenas morrer, na falta de poder viver, e talvez eu tenha, na minha confusão, e na minha inconsciência, prestado esse serviço, do qual ela não se defendeu mas do qual morreu».
16NOV2007 – Público

MEMÓRiA

16OUT1888-1953 - Eugene Gladstone O’Neill, aliás Eugene O’Neill: Escritor e dramaturgo americano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1936) - «A solidão do ser humano não é outra coisa senão o seu medo de viver… Para cada um de nós, a vida é como uma cela solitária, cujos muros mais parecem espelhos». IMAG.199-444

16OUT1918-1990 - Louis Pierre Althusser, aliás Louis Althusser: Filósofo francês, nascido na Argélia - «A ideologia tem pouco a ver com a consciência - pelo contrário, trata-se de algo profundamente inconsciente». IMAG.199-295

18OUT1898-1975 - Leopoldo Neves de Almeida, aliás Leopoldo de Almeida: Artista e professor português - «É um escultor de forte marca classicizante temperada por alguma emoção, que sabe com eficácia responder à encomenda particular de gosto naturalista, bem como ao discurso do modernismo histórico e encapotado do SNI» (José Luís Porfírio). IMAG.55-639

1923-18OUT2008 - Xie Jin: Cineasta chinês, realizador de O Destacamento Vermelho Feminino (1957) - «O seu talento cintilou entre os contemporâneos que se afirmaram após a instauração da República Popular em 1949, e foi um dos poucos artistas que continuaram a dirigir filmes durante e após a Revolução Cultural. Acusado de humanismo burguês, foi condenado a fazer trabalho comunitário nas zonas rurais, e passou algum tempo em prisão domiciliária. Mais tarde, houve quem o denunciasse por oportunismo, quando a mulher de Mão Tsé-Tung, Jian Qing, o envolveu na produção de fitas segundo o modelo ópera, durante o Gangue dos Quatro» (Ronald Bergan). IMAG.222-443

1923-19OUT2008 - Gianni Raimondi: Tenor lírico italiano, distinguido com o Prémio Caruso (1990) - «Podia não ter uma grande voz, mas era excitante e de grande beleza, com um top cálido, pastoso, gradevole e um timbre homogéneo, cantando com um estilo elegante e um fraseamento requintado e muito agradável» (Joern H. Anthonisen). IMAG.222-415

COMENTÁRiO


Um estudo sistemático das actividades anarquistas do grande dramaturgo ainda não foi empreendido, que eu saiba, porém existem muitos ensaios sobre ele e os dados colhidos permitem estabelecer uma trajectória, se não completa, pelo menos suficiente. 
 
A mais pormenorizada das biografias interessantes para o nosso assunto é sem dúvida a do casal Arthur e Barbara Gelb, que chega quase a mil páginas, mas tem também duas obras de Louis Sheaffer que oferecem uma grande quantidade de informação. Descobre-se, assim, que um dos primeiros contactos que O’Neill teve com anarquistas data de 1907, quando conheceu Benjamin Tucker e começou a frequentar a livraria dele em Nova Iorque: The Unique Bookshop, situada na Sexta Avenida. Eugene não tinha ainda vinte anos, enquanto o pensador e escritor anarquista alcançara já os cinquenta, com mais de trinta anos de experiências como propagandista, redactor de periódicos, autor de ensaios. Foi através do Tucker que O’Neill travou conhecimento com a obra de Bacunin e Kropotkin, Proudhon e Tolstoi, Stirner e Nietzsche. Definiu-se então «anarquista filosófico», uma etiqueta pouco usada em outros países, mas que se tornou comum nos Estados Unidos e que equivale – ainda hoje – a «anarquista não-violento». Distinção necessária, pois a opinião pública tende a misturar anarquismo e terrorismo. Para bem da verdade, cabe reconhecer que naquela época a associação com Czolgosz (que tinha matado um Presidente) e Berkman (que atirara contra um capitalista inflexível e cruel contra operários grevistas) era comum. Quem apresentou O’Neill a Tucker foi Paul Holliday, outro anarquista, irmão de Polly Holliday, gerente de um café boémio no Greenwich Village, companheira de vida de outro militante activo muito conhecido, Hippolyte Havel. O Paul foi um grande amigo de O’Neill até sua trágica morte, poucos anos depois. Outro grande amigo anarquista (e futuro personagem de sua obra) foi Terry Carlin (verdadeiro nome Terence O’Carolan), que tinha a qualidade adicional de ser de origem irlandesa, como O’Neill. Companheiro de bebedeira, o escritor nunca o renegou quando ficou famoso e passou a mandar-lhe cheques mensais para que nunca lhe faltasse a bebida. Os Gelb escrevem «Carlin teve uma influência maior na filosofia de O’Neill do que qualquer outra pessoa». Não devemos estranhar isso, pois Carlin foi admirado por escritores importantes como Jack London e Theodore Dreiser. Mais uma amizade importante – e que durou até o fim da vida – foi a com Saxe Commins (verdadeiro nome Cominsky), dentista que se tornou autor teatral, e sobrinho de Emma Goldman. A ele se dirigiu O’Neill, para que lhe procurasse documentação sobre algumas personagens anarquistas em suas peças. Em gratidão pela hospitalidade recebida dele e de toda a família, e por lhe ter cuidado dos dentes de graça, O’Neill sugeriu a sua contratação pela Random House, onde se tornou seu editor pessoal. Saxe foi também quem manteve contactos indirectos entre O’Neill, com as duas primeiras esposas e os filhos que delas teve. Quando fugiu para a França, onde vivia incógnito com Carlotta, que se tornou sua terceira mulher, um dos poucos que sempre sabia onde ele se encontrava foi justamente Commins. Aliás, O’Neill não era o único que o estimava, pois tornou-se também amigo de Albert Einstein, que conheceu quando ambos ensinavam em Princeton.
Pietro Ferrua
- Verve (excerto)
CALENDÁRiO

15JUN2017 - Terratreme produziu, e estreia Terceiro Andar (2016) de Luciana Fina; com Aissato Baldé, Fatumata Baldé.

22JUN-24SET2017 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta Intricate Others - exposição de pintura, dança e  performance de Nick Mauss (EUA), sendo comissário João Ribas.

19SET1928-09JUN2017 - William West Anderson, aliás Adam West: Actor americano, protagonista de Batman no cinema (1966) e em série televisiva (1966-1968) - «Bastava-me pôr o capuz, e esperar que não me reconhecessem». IMAG.10-546

BREVIÁRiO

Livros do Brasil edita A Pérola de John Steinbeck (1902-1968); tradução de Clarisse Tavares. IMAG.35-360-635-656

Elsinore edita Crash de J.G. Ballard (1930-2009); tradução de Marta Mendonça. IMAG.46-247-298-638
 

domingo, setembro 03, 2017

Imaginário-Médio: newsletters de Março 2012

Prosseguindo com a recuperação dos Imaginários antigos, até aqui não difundidos on-line, o novo Imáginário-Médio, que referimos anteriormente, acabou de destacar os newsletters #361, #362, #363 e #364, da data virtual Março de 2012. A consulta pode ser feita através dos links aqui indicados.

quinta-feira, agosto 31, 2017

IMAGINÁRiO-MÉDIO

Concebido no final de 2016, mas iniciado apenas no passado fim-de-semana, o novo blogue Imaginário-Médio vem completar o testemunho público e a partilha de memórias, que se têm concretizado neste Imaginário-Kafre, ao recuperar para consulta on-line os newsletters difundidos, apenas por subscrição via e-mail, entre a suspensão do Imaginário original, inserido até 2009 no portal Truca.pt, e a criação deste seu sucessor na rede Blogger, em 2012.
Visamos, assim, preservar para informação futura, e apresentar a quem nunca a eles teve acesso, os newsletters do #358 ao #499, tal como os Extra aparecidos neste Imaginário intermédio.


Os carregamentos, feitos semanalmente, compreenderão todo um mês de newsletters, começando com #358, #359 e #360, de 2010 (mas referenciados pela data virtual de Fevereiro 2012), sendo cada conjunto posteriormente indicado aqui, num só destaque semanal, para mais fácil divulgação. Os newsletters actuais continuarão, como sempre, a ser partilhados neste Imaginário-Kafre.

quarta-feira, agosto 30, 2017

IMAGINÁRiO #678

José de Matos-Cruz | 08 Outubro 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

VICISSITUDES
Alan Parker estilizou As Cinzas de Ângela / Angela’s Ashes (1999) sobre um best-seller autobiográfico de Frank McCourt, reconstituindo a vivência de vicissitudes e miséria duma família de imigrantes celtas, em Brooklyn (Nova Iorque) por meados dos anos ’30. As sequelas da depressão, o alcoolismo e todas as carências, devastam o casal e determinam um regresso à Irlanda. Afinal, em Limerick, outras adversidades - inerentes ao jovem Frank, com os irmãos - estão reservadas aos McCourt, sob a prepotência religiosa, o flagelo social e económico… Numa notável mescla de sobriedade e extroversão, para contrastar essa memória perturbante, repassada de ironias, paira a actualidade da Irlanda - com a mais nova população da Europa, e o maior índice etário de desemprego - referenciando uma forte tradição criativa e cultural, lúdica e crítica. Aos desaires comuns e conflitos individuais, Alan Parker funde um fulgor histórico, sem profundidade clássica ou épico romantismo, mas detalhado na precariedade essencial de tais protagonistas - aliás, revertendo as contingências da sua matriz literária.

VISTORiA

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
- Manuel Bandeira

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo…
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume…
Há-de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.
Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.
Cristovam Pavia 
- 35 Poemas
MEMÓRiA

1929-09OUT1978 - Jacques Romain Georges Brel, aliás Jacques Brel: Cantor, poeta e compositor belga - «Tenho menos medo da morte do que de me tornar um velho cretino». IMAG.179-198-222

1886-13OUT1968 - Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, aliás Manuel Bandeira: Poeta brasileiro - «Assim eu queria o meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais / Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas / Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume / A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos / A paixão dos suicidas que se matam sem explicação» (O Último Poema - excerto). IMAG.93-559-639

1933-13OUT1968 - Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, aliás Cristovam Pavia: Poeta português - «O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias / Do último reduto das coisas, das profundidades intactas, / Nasce, adormece e referve-me no sangue / Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando, / Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel. / Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro / Instinto que eu, de longe, embalo e velo / E acordará (em frente!) às primeiras palavras / Do poema, quando ele despontar.». IMAG.165-339-345-438

15OUT1908-2006 - John Kenneth Galbraith: Escritor, diplomata, filósofo, economista, professor americano - «As pessoas com privilégios preferem arriscar a sua própria destruição, a perderem um pouco das suas vantagens materiais». IMAG.560 
 
CALENDÁRiO

10JUN-10AGO2017 - Nas Caldas da Rainha, Centro Cultural e de Congressos expõe World Press Cartoon 2017, sendo curador António Antunes. IMAG.35-195-247-353-407-558-568-574

24JUN-03SET2017 - Em Cascais, Fundação D. Luís I apresenta, na Cidadela Art District, Quadradinhos Portugueses | Olhares & Estilos - exposição colectiva de banda desenhada, com a participação de Renato Abreu, João Amaral, Luís Diferr, José Garcês, Penim Loureiro, Daniel Maia, João Mascarenhas, Pedro Massano, Baptista Mendes, Fernando Vilhena de Mendonça, Victor Mesquita, Susana Resende e José Ruy, tendo layout de Nuno Lemos e sendo curador José de Matos-Cruz.




INVENTÁRiO

Realizada pelo italiano Rino Lupo ao serviço da Iberia Film, no Porto, Os Lobos (1923) é, justamente, considerada uma das mais empolgantes e autênticas, entre as nossas fitas mudas de ficção. A acção, além de evocações da Foz do Douro, decorre na Serra da Cabreira - com rodagem na Estrela, apenas em exteriores, durante dois meses e meio - numa aldeia dominada pela tradição patriarcal.
Rino Lupo conduz Os Lobos com impecável justeza - quer no doseamento da tensão, quer na criteriosa ilustração das rudes massas arquitectónicas, e imponentes perfis montanhosos. Desde os primeiros instantes se define o clima incómodo, em desígnios funestos que, brutais, se desencadearão… 

 
Tanto mais que, partindo duma peça de Francisco Lage & João Correia de Oliveira, ambientada em Castro Laboreiro, o próprio Rino Lupo altera o esquema dramatúrgico, para uma confrontação latente, mantendo embora o espírito original de violência animalesca, que lhe sobrevirá. De facto, raramente o rigor e a grandiosidade se aliaram duma forma tão perfeita e eficaz, no cinema português.
A exemplar fotografia de Artur Costa de Macedo, pujante e luminosa, contribui decisivamente para um apreço excepcional - na mestria das representações, no realismo documental e na coerência etnográfica. Entre os intérpretes, distinguiam-se Branca de Oliveira, José Soveral, Sarah Cunha e Joaquim Avelar. Mas era famosa a caótica dispersão de Lupo, em termos de produção, ultrapassando, agora, cinco vezes o orçamento previsto de 50 contos. Sendo director financeiro Carlos Cudell Goetz, a Iberia Film encerrou actividade.

BREVIÁRiO

Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema edita em DVD, Mulheres da Beira (1921) e Os Lobos (1923) de Rino Lupo (1884-1933). 
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Porto Editora lança O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana de Mário de Carvalho.  
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Toccata Classics edita em CD, Fernando Lopes-Graça [1906-1994]: Música Para Quarteto e Piano - Vol. II por Olga Pratts, com Quarteto Lopes Graça.  
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EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

BUÇO COM LEITE MANCHA O COLETE - 4

- Adeus, minhas encomendas! gracejou Estácio Pastor, ao saber de tudo. Era o sábio que deu raia, como tem acontecido com outros lunáticos. Durante uns tempos, perscrutara de Nordeste o fenómeno ameaçador, no Observatório da Tapada. Até que decidira lançar-se em especulações, boatos e atoardas, que logo teriam eco no Diário de Notícias.
Continua