domingo, fevereiro 03, 2019

IMAGINÁRiO #755

José de Matos-Cruz | 16 Maio 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

PERCORRER
Após um período ressurgente na edição da banda desenhada por artistas nacionais, seguida de uma frustrante ausência quando ao panorama primordial dos álbuns em quadradinhos, verificou-se uma aliciante reconciliação, de que são primordiais beneficiários tanto os autores como os leitores. Sob chancela Meribérica/Liber, assim ressaltaria Pêro da Covilhã - Viagens (2000) por Filipe Sousa (argumento) & Rui Sousa (ilustração), através do qual se retoma ainda uma significativa tradição, explorada entre a história e o imaginário. Em causa estão as «aventuras & desventuras de um português andarilho & embarcadiço em terras do Egipto, Arábia, Índia, Costa da Cafraria & Etiópia, de onde não mais voltou…»
Patrocinada pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, esta notável publicação tem um duplo interesse lúdico e pedagógico - acentuado pelas criteriosas notas de rodapé; ou estilizado por um grafismo insólito mas apelativo. Exotismo, comunhão. Além das proezas de Pêro da Covilhã (1460-1530), sublimando um espírito nosso, repartido, sobressai o sentido errático de percorrer, para o perdido carácter lusitano.

CALENDÁRiO

1931-29SET2018 - António da Silva Barbosa, aliás Alves Barbosa: Ciclista português, protagonista de O Homem do Dia (1958 - Henrique Campos) - «Uma das maiores figuras da história do ciclismo português, tendo granjeado prestígio enquanto corredor - um dos melhores de sempre -, mas também como treinador e como dirigente» (Federação Portuguesa de Ciclismo/FPC). IMAG.116-398-466

1945-30SET2018 - René Pétillon: Ilustrador francês, autor de banda desenhada - «Trabalhou no Canard Enchainé, onde se tornou um dos principais cartunistas, devido ao traço original e ao humor sarcástico» (José Cutileiro).

VISTORiA

Como Eu Não Possuo
Olho em volta de mim. Todos possuem –
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?…

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!…

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.
Mário de Sá-Carneiro
SUMÁRiO

OS MARRETAS
A saga dos Marretas - um prodígio de animação mecânica em que se representa, com uma furiosa corrosão, o universo social americano em suas múltiplas vertentes - logrou um idêntico sucesso pela via da televisão ou nas salas de cinema. Trata-se de um salutar envolvimento de humor e recriação artística - que sobreviveu ao primordial autor, Jim Henson, cuja aliança com Frank Oz culminara a história fundamental dos Marretas. Oz e Henson tinham-se conhecido em 1963, durante uma Convenção sobre os (originais) Muppets. Em grande ecrã, e após As Aventuras dos Marretas (1978) por James Frawley, o próprio Henson dirigiu Os Marretas Contra-Atacam (1981). Depois, Oz realizou Os Muppets Conquistam Nova Iorque (1984), e produziu O Conto de Natal dos Marretas (1992) - a cargo de Brian Henson, e dedicado à memória de seu pai…

PARLATÓRiO

Qualquer mago lhes dirá que os cientistas são as pessoas mais fáceis de enganar do Mundo; nos seus laboratórios, os instrumentos são exactamente o que parecem. Não há espelhos ocultos, nem compartimentos secretos, nem imãs escondidos. O pensamento de um cientista é racional, baseia-se em toda uma vida de experiência com o mundo lógico. Pelo contrário, os métodos do mágico são irracionais, e totalmente alheios à experiência do cientista.
Martin Gardner
MEMÓRiA

16MAI1930-27JAN2000 - Friedrich Gulda: Compositor e pianista austríaco - fascinado por Wolfgang Amadeus Mozart, inspirado pelo jazz, professor de Martha Argerich ou Claudio Abbado. IMAG.500

1936-16MAI1990 - James Maury Henson, aliás Jim Henson: Artista americano, manipulador de bonecos, cineasta e produtor, criador de Os Marretas / Muppets (1963) e A Rua Sésamo / Sesame Street (1968) - «A minha maior esperança é deixar o mundo um pouco melhor, por ter estado aqui». IMAG.580

1445-17MAI1510 - Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, aliás Sandro Botticelli: Pintor italiano, renascentista, da Escola Florentina, autor de A Primavera e O Nascimento de Vénus, protegido pela família Medici. IMAG.189-214-505

1924-17MAI2010 - Yvonne Loriod: Pianista francesa, compositora e professora, mulher e intérprete de Olivier Messiaen - «Ele confessou, um dia, que estava disposto a prescindir das maiores excentricidades, ao compor para piano, sabendo que seria ela a incumbir-se da sua execução» (Paul Griffiths). IMAG.304-451

19MAI1890-1916 - Mário de Sá-Carneiro: Ficcionista e poeta português - «Como eu quisera, enfim de alma esquecida, / Dormir em paz num leito de hospital… / Cansei dentro de mim, cansei a vida / De tanto a divagar em luz irreal.» (Além-Tédio). IMAG.65-71-236-275-307-560-561-617-724

1864-22MAI1910 - Pierre-Jules Renard, aliás Jules Renard: Escritor francês, autor de Histórias Naturais (1894) - «Há pessoas tão aborrecidas que, apenas em cinco minutos, nos fazem perder um dia inteiro». IMAG.275-591

1904-21MAI2000 - Arthur John Gielgud, aliás John Gielgud: Actor britânico do teatro e do cinema - «Representar significa, ao mesmo tempo, vergonha e glória; vergonha por nos exibirmos, glória por não sermos esquecidos… Como actores, antes de sermos capazes de fazer alguma coisa, é indispensável termos a certeza de que somos alguma coisa». IMAG.131-275-387-462

22MAI1940-2011 - Jacques Michel Andre Sarrazin, aliás Michael Sarrazin: Actor canadiano da televisão e do cinema americanos - protagonista de Os Cavalos Também Se Abatem/They Shoot Horses, Don’t They? (1969 - Sydney Pollack) - «Não me interessa o dinheiro, nem ser propriamente uma estrela. Apenas pretendo ser eu, um actor determinado e rigoroso. Aceitem estas premissas, ou deixem-me em paz» (1966). IMAG.357

1914-22MAI2010 - Martin Gardner: Matemático americano, escritor e divulgador científico, especialista em Lewis Carroll - «A ciência moderna deve estimular em todos nós uma humildade face à imensidão do inexplorado, e uma tolerância perante as hipóteses bizarras». IMAG.305-487

23MAI1910-2004 - Arnold Jacob Arshawsky, aliás Artie Shaw: Clarinetista e compositor americano - «Já fiz tudo o que poderia fazer com um clarinete». IMAG.22

BREVIÁRiO

Porto Editora lança A Última Viúva de África de Carlos Vale Ferraz / Carlos Matos Gomes. IMAG.3-197-616-660

Relógio D’Água edita Porquê Este Mundo - Uma Biografia de Clarice Lispector (1920-1977) de Benjamin Moser. IMAG.158-301-375-399-458-484-638-667

EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS - Folhetim Aperiódico

A MELANCOLIA FIXA DO CONTROLADOR DE ONDAS - 15
Como num mistério, com os olhos bem abertos imagina o que vê. Como num enigma, vê o que imagina com os olhos bem fechados.
Continua
 

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