Já se encontram disponíveis nos respectivos links do blogue Imaginário-Médio, os posts desta semana, alusivos às newsletters recuperadas referentes ao mês virtual de Novembro de 2014; nomeadamente, os #489, #490, #491 e #492.
sexta-feira, abril 13, 2018
quarta-feira, abril 11, 2018
IMAGINÁRiO-Extra: PAULO MONTEIRO, Cineasta
Prestigiado
autor de quadradinhos, e director do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, Paulo Monteiro estreia-se como realizador com a
curta metragem de animação Porque É Este o Meu Ofício (2018),em produção de Animanostra com Filmanimática,
e financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual/ICA.
Também argumentista e criador gráfico, Paulo Monteiro concebe um filme sobre a voragem do tempo. E ainda sobre a infância e a forma como nos marca para a vida toda. É um filme que fala da relação de um filho com o seu pai. E das muitas palavras que nunca se dizem, porque estão escritas no coração.
Também argumentista e criador gráfico, Paulo Monteiro concebe um filme sobre a voragem do tempo. E ainda sobre a infância e a forma como nos marca para a vida toda. É um filme que fala da relação de um filho com o seu pai. E das muitas palavras que nunca se dizem, porque estão escritas no coração.
Porque
É Este o Meu Ofício inspira-se
em banda desenhada epónima de
Paulo Monteiro, inserida na sua antologia O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias
– sob chancela original de Polvo em 2010, e já com várias
edições – distinguida como Melhor Álbum Nacional (AmadoraBD –
2011) ou Melhor Publicação Independente (Troféus Central Comics – 2011),
e depois publicada em França (Prix Sheriff d’Or – 2013), no
Brasil e na Polónia.
Ver trailers em:
Porque é este o meu Ofício - trailer 1
Porque é este o meu Ofício - trailer 2
IMAG.36-149-226-384-452-514-568-616-668
sexta-feira, abril 06, 2018
IMAGINÁRiO #710
José
de Matos-Cruz | 08 Junho 2019 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal
– Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
ESPIONAGENS
Durante
décadas, a divisão do mundo em dois grandes blocos - os países do
leste, as democracias ocidentais - favoreceu e consolidou o
privilégio das agências de espionagem, com um poder quase
ilimitado. O termo da Guerra Fria tornou mais sofisticada a
respectiva intervenção, pelas margens da impunidade. A queda do
Muro de Berlim, as roturas na Cortina de Ferro, a dissolução da
União Soviética, alteraram profundamente o xadrez político
internacional. Mesmo nos Estados Unidos, o estatuto e as dotações
orçamentais dos serviços secretos passaram a suscitar uma
importante controvérsia. Alguns dos seus responsáveis parecem
inconformados com tal situação - enquanto os principais desafios
resultam, sobretudo, de chantagens subversivas, do tráfico de armas
ou de drogas…
Foi
neste panorama que em 1996, do pequeno ao grande ecrã, se precipitou
uma excitante Missão:
Impossível,
pelo veterano Brian
DePalma
- dando origem a um novo fenómeno sequencial, e que já cinematizara
outra popular série televisiva, Os
Intocáveis
(1987). Tom
Cruise
protagonizou o novo herói de Missão:
Impossível
- Ethan Hunt, um agente hábil e corajoso, acusado de corrupção e
perseguido pela própria Impossible Mission Force. Tudo, porque só
ele terá sobrevivido a uma operação forjada - para revelar um
traidor infiltrado na organização. Acossado, recorrendo a processos
de risco extremo, Hunt decide então resgatar a honra pessoal e
desmascarar o inimigo - afinal o seu tutor, mítico e sacrificado
comandante Jim Phelps! IMAG.101-134-452
CALENDÁRiO
28OUT2017-04FEV2018
- Em Lisboa, Atelier-Museu Júlio Pomar expõe Tawapayera
de Júlio Pomar, Tiago Alexandre, Igor Jesus e Dealmeida Esilva,
sendo curador SinopseAlexandre
Melo.
IMAG.19-312-449-495-505-534-552-553-562-582-596-604-610-620-631-635-646-652-676
06JAN-27FEV2018
- Em Lisboa, Galeria Diferença apresenta Gardens
- exposição de desenho de Luís Silveirinha.
11JAN-10MAR2018
- Em Lisboa, Galeria Filomena Soares apresenta Unbuilt
Memories
- exposição de escultura, fotografia e vídeo de Didier Fiúza
Faustino.
13JAN-24FEV2018
- Em Oeiras, Livraria-Galeria Verney apresenta Mythos
da Mesopotâmia - exposição
de pintura de Hugo Claro.
18JAN-04MAR2018
- Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta Obra
Prima - exposição de
fotografia de Matthias Schaller.
VISTORiA
Passara
o tempo. Todavia, não passava ele de modo diferente para cada um,
seguindo atalhos diversos? Como um rio, o tempo para o homem às
vezes escoa-se rapidamente, às vezes segue em ritmos mais lentos.
Acontecia também nem sempre se escoar, mas permanecer ali a
estagnar-se. Se o tempo cósmico se escoa à mesma velocidade para
todos os homens, o tempo humano, este varia conforme cada um. O tempo
escoa-se de modo semelhante para todos os seres humanos, mas cada
homem move-se dentro dele de acordo com um ritmo que lhe é próprio.
Yasunari
Kawabata
-
Beleza e Tristeza
(excerto)
Passámos
da máquina mediática de concessões, controlada pelo Estado directa
ou indirectamente, para a máquina mediática do mercado, em que a
lei da oferta e da procura estabelece que os mais poderosos sempre
acabem por controlá-la.
Manuel
Vázquez Montalbán
-
Manifesto do Planeta dos
Macacos (excerto)
MEMÓRiA
1924-08JUN1989
- António Maria de Matos, aliás Tony de Matos: Cantor e actor
português - «Cantou em quatro continentes, a sua voz está
implantada em milhares de discos, o rosto surgiu na tela grande, a
presença firmou-se na retina de quem o aplaude no teatro ou na
televisão, quem o escuta nas mais diversas horas do dia penetrando
em nossos lares.» (Antena -
1967). IMAG.483
1908-10JUN1979
- Joaquim
Belford Correia da Silva, aliás Joaquim
Paço d’Arcos: Ficcionista, poeta e ensaísta português -
«Escrever
é projectar-se além da Vida, / É vencer a Morte. / Um dia esta
virá, de surpresa, ou tardia, / Mas uma coisa não levará, não
reduzirá a cinzas, / E sobre ela a sua álgida mão não terá
poder.» (Escrever
É Vencer a Morte
- excerto).
IMAG.219-230-529-662
1907-11JUN1979
- Marion Michael Morrison, aliás John Wayne: Actor americano - «O
amanhã é o mais importante que temos na vida. Chega, sempre, à
meia-noite. É puro e perfeito, ao confiar-se em nossas mãos. E traz
a esperança de que tenhamos aprendido algo no dia de ontem».
IMAG.23-56-85-114-132-230-362-596-612
1924-13JUN2009
- Irisalva Moita: Arqueóloga portuguesa, historiadora, museóloga,
olissipógrafa, membro da Academia Nacional de Belas Artes, pioneira
de escavações em contexto urbano, realizadas no Teatro Romano de
Lisboa, Hospital Real de Todos-os-Santos ou Necrópole Romana na
Praça da Figueira, responsável por exposições de referência como
O Culto de Sto. António, Na
Região de Lisboa, Lisboa
e o Marquês de Pombal,
Lisboa Quinhentista. A Imagem
e a Vida Na Cidade e Faianças
de Rafael Bordalo Pinheiro.
IMAG.256-466
14JUN1899-1972
- Yasunari Kawabata: Escritor japonês, distinguido Prémio Nobel da
Literatura em 1968 - «A cameleira, quatro vezes centenária, exibia
a esplêndida profusão das suas flores. Os raios do sol poente eram
como que aspirados pelo interior da árvore, de tal forma que parecia
reinar dentro daquela massa de flores uma quente exalação. Embora
não houvesse um vento por aí além, a extremidade dos ramos
floridos abanava docemente.» (A Casa
das Belas Adormecidas -
excerto). IMAG.285-366-668
14JUN1939-2003
- Manuel Vázquez Montalbán: Escritor espanhol - «Por vezes,
costumo autoclassificar-me de conservador, porque não corrigi a
minha visão do mundo desde que fiz cinquenta anos, tendo então
decidido que já era responsável pela minha cara.» (Marcos:
O Senhor dos Espelhos
- excerto). IMAG.440
15JUN1949-2014
- Jorge Faustino Fallorca Gaspar, aliás Jorge Fallorca: Poeta e
tradutor português, jornalista e radialista - «Contaram-me que as
letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. /
Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que
nenhuma se compara / à que se leu primeiro.» (Telhados
de Vidro - excerto).
IMAG.411-507
VISTORiA
Numa
tarde de Julho de 1926 atravessava as florestas de Cheringona, no
território da Companhia de Moçambique, um expresso de uma só
carruagem da Trans-Zambézia Railway.
Regressava
da Zambézia à Beira o governador do Território. Acompanhavam-no,
além dos seus ajudantes, o autor destas linhas e uma pessoa estranha
à comitiva: Carlos Sobral.
Carlos
Sobral era ao tempo director em África da «Mozambique Industrial &
Commercial Coy. Ltd.», um desdobramento, para fins comerciais, da
Companhia de Moçambique.
Naquele
pequeno salão da carruagem de caminho-de-ferro conversaram durante
longas horas da monótona viagem, esses dois homens, tão profunda e
apaixonadamente portugueses, que o destino por ironia, mas por útil
ironia, colocara a dirigir interesses que meses mais tarde se haviam
de patentear tão opostos aos nacionais.
Eram
homens de diferentes idades: o governador aproximava-se dos
cinquenta, Carlos Sobral andaria pelos trinta.
Mourejando
por terras onde frequentemente o português se avilta, adoptando os
hábitos de indolência a que o clima convida, os usos mesquinhos
próprios dos meios pequenos, esses dois homens, ao contrário,
mantinham íntegras em si as melhores qualidades da raça. Eram dois
verdadeiros portugueses.
Carlos
Sobral estava em conflito aberto com os dirigentes londrinos da
companhia que superintendia em África. Admitia como muito provável
a hipótese de repudiar a situação em que trabalhava. Era um lugar
magnífico, e muitos outros homens, em circunstâncias idênticas,
transigiriam em tudo para não perder a situação que usufruíam.
Ele não transigia em nada e ao perguntarem-lhe o que iria fazer no
caso de se encontrar desempregado, respondia tranquilo, cheio de
confiança e de optimismo: trabalhar. E já se expandia por todo um
projecto de se dedicar à cultura do solo, à criação de gado, na
vida rude e fatigante do mato, que ele tanto amava.
É
preciso conhecer certos territórios de África e a eterna
dependência em que o português ali vive do Estado ou das grandes
companhias, alheado por completo das qualidades de iniciativa que
fazem dele um elemento tão útil no Brasil, é preciso conhecer
aqueles meios de parasitagem e de covardia, para admirar em todo o
seu valor a serena confiança com que Carlos Sobral, por ser
português de «antes quebrar que torcer», trocava uma cómoda e
rendosa situação pela tão mais humilde e ingrata profissão de
pequeno agricultor.
Nessa
tarde – curiosa coincidência do acaso! – esses mesmos homens
perante cuja arrogância Sobral não cedia, assinavam em Londres o
terceiro e último contrato sobre o porto da Beira. Meses decorridos,
por uma triste e dolorosa fatalidade, Carlos Sobral morria na
Zambézia, vítima de si próprio, da sua coragem magnífica.
Alguns
dias depois do seu falecimento chegavam à Beira, para conhecimento
do governador, e para serem executados, os contratos do porto.
O governador não os executou. Era a vez dele, agora, num assunto de muito maior gravidade, assumir a atitude para a qual, meses atrás, serenamente, dignamente, Carlos Sobral se encaminhava.
O governador não os executou. Era a vez dele, agora, num assunto de muito maior gravidade, assumir a atitude para a qual, meses atrás, serenamente, dignamente, Carlos Sobral se encaminhava.
Joaquim
Paço d’Arcos
-
Herói Derradeiro (Introdução
- excerto)
BREVIÁRiO
Saída
de Emergência edita Terrarium
de João Barreiros e Luís
Filipe Silva. IMAG.435-455-478
Relógio
D’Água edita Roma de
Nikolai Gógol (1809-1852);
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
IMAG.118-219-223-361-474-593-637-699
Douda
Correria edita Nada Natural de
Gary Snyder; tradução de Nuno Marques e Margarida Vale de Gato.
Companhia
das Letras edita A Rosa do
Povo de Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987). IMAG.79-384-392-543-623
quarta-feira, abril 04, 2018
Imaginário-Médio: newsletters de Outubro 2014
Alusivas à data virtual de Outubro 2014, as newsletters esta semana recuperadas para a internet - #485, #486, #487 e #488 - já estão disponíveis no blog Imaginário-Médio.
sexta-feira, março 30, 2018
IMAGINÁRiO #709
José
de Matos-Cruz | 01 Junho 2019 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal
– Fundado em 2004
A
única certeza é que nada é certo. Pasma, vermos até onde pode
chegar a arrogância do coração humano, estimulada pelo menor
êxito. A maior parte dos males que ocorrem ao homem é provocada por
ele próprio… Do que não se pode alcançar, baste-nos que o
tenhamos desejado.
Apalpou
novamente a crespa peruca loira e com grande cuidado – tinha as
unhas muito compridas – foi esticando as meias ensopadas presas
pelas ligas.
1936-03JUN2009
- John Arthur Carradine, aliás David Carradine: Actor americano,
filho de John Carradine, protagonista da série televisiva Kung
Fu (1970) e dos filmes Kill
Bill (2003-2004) - «Muitos
actores passam a maior parte do tempo a treinar a sua arte. É algo
que não se passa comigo. Limito-me a representar para o público, e
a deixar as coisas acontecerem».
PRONTUÁRiO
RECRIAÇÕES
Avigon
tem um problema. Vive encerrada num universo gótico, onde os
andróides são vendidos como gado, nuvens sombrias ocultam o sol, e
os rios escorrem negros como óleo. Avigon tem vontade de evadir-se -
mas como, e para onde? Avigon está num dilema. A sua mente vagueia
por dimensões para além da imaginação, o seu espírito revela-se
a verdades mais profundas que os segredos recônditos. Avigon precisa
de encontrar um caminho - mas por que preço? O destino virtual de
Avigon é uma cidade estranha e distante. Porém, logrará Avigon
assumir uma nova existência, e um futuro auspicioso, evitando que as
suas nefastas origens acabem por lhe destruir todas as expectativas?
Aparecida em 2001, sob chancela Image Comics, Avigon
- concebida por Che’
Gilson (argumento) &
Jimmie Robinson
(ilustração) - desvenda-nos um universo estilizado e surreal,
influenciado pelo onirismo visionário do cineasta Tim Burton.
Segundo Gilson, trata-se de «uma fábula pós-industrial, em que os
mitos e as lendas resistem, precariamente, a uma recriação massiva.
Avigon é um símbolo do seu mundo. A rainha quer corrompê-la. O
próprio criador tenta controlá-la, enquanto os políticos fazem
tudo para a destruir…»
CALENDÁRiO
15JUN2017-14JAN2018
- Em Bragança, Centro de Arte Contemporânea Graça Morais apresenta
A Coragem e o Medo
- exposição de pintura e desenho de Graça Morais, sendo curador
Jorge da Costa. IMAG.65-68-139-305-318-448-621-693
16NOV2017-20JAN2018
- Em Lisboa, Galeria Vera Cortês expõe 2
Desenhos, 2 Esculturas de
José Pedro Croft. IMAG.427-539-641-670
23NOV2017-06JAN2018
- Em Lisboa, Galeria Filomena Soares expõe Saga
de Pedro Barateiro. IMAG.349-556
25NOV2017-13JAN2018
- Em Lisboa, Galeria Carlos Carvalho apresenta Paisagem
Instável - exposição de
desenho, pintura, escultura e instalação de Catarina Leitão.
12DEZ2017-20JAN2018
- Em Lisboa, Fundação Portuguesa das Comunicações expõe (Podemos
Sempre Fugir de Carro) de
Luísa Jacinto.
13DEZ2017-17FEV2018
- Em Lisboa, Kunsthalle Lissabon expõe Indexing
Water de Irene Kopelman
(Argentina).
1950-02JAN2018
- Maria Margarida Gouveia Vaquinhas, aliás Guida Maria: Actriz
portuguesa de cinema, teatro e televisão - «Perfeccionista,
expressiva e desinibida, sem nunca roçar a vulgaridade» (Ana Sousa
Dias). IMAG.696
06JAN-21FEV2018
- Em Lisboa, Ermida de Nossa Senhora da Conceição apresenta Luz
Cega - exposição de
fotografia de Cláudio Garrido.
09JAN-24FEV2018
- Em Lisboa, Casa da Liberdade - Mário Cesariny apresenta
FotoFonias LusoGráficas -
exposição de fotografia da Colecção Lusofonias/Colectivo
Multimédia Perve, incluindo obras de André de Castro, Cabral Nunes,
Fernando Lemos, José Chambel, Mário Macilau, Rodrigo
Bettencourt da Câmara, Rui Simões, Sérgio Guerra, Sérgio
Santimano, Subodh Kerkar ou Suekí.
12JAN-25MAR2018
- No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Belas
Artes da Academia - Uma Colecção Desconhecida -
selecção de pintura e escultura da Academia Nacional de Belas
Artes, desde o início do Século XX até ao presente.
PARLATÓRiO
A
única certeza é que nada é certo. Pasma, vermos até onde pode
chegar a arrogância do coração humano, estimulada pelo menor
êxito. A maior parte dos males que ocorrem ao homem é provocada por
ele próprio… Do que não se pode alcançar, baste-nos que o
tenhamos desejado.
Gaius
Plinius Secundus, aliás Plínio, o Velho
VISTORiA
que
deus quis falar comigo
não
lhe dei ouvidos
quem
sou eu pra falar com deus?
ele
que cuide de seus problemas
que
eu cuido dos meus
Paulo
Leminski
-
Distraídos Venceremos
A
chuva deixara os boulevards
quase vazios, e só restava gente agrupada no café envidraçado
onde, havia meses, não a deixavam entrar.
Sonia,
de pé no vestíbulo da casa vazia, viu que a chuva passava,
fatigada, a manso chuvisco, viu-a cessar enquanto aumentava o frio do
vento, e pensou que aquilo era sinal de boa sorte. Um pouco mais
longe, do outro lado do amplo passeio, as luzes da cidade começavam
a acender-se. A noite tinha início, e, respirando o aroma tristonho
de seu casaco molhado, Sonia pensou que também a esperança tinha
início. Sorriu, sem realmente acreditar, como uma menina a quem
contaram uma história já ouvida e inverosímil.
Apalpou
novamente a crespa peruca loira e com grande cuidado – tinha as
unhas muito compridas – foi esticando as meias ensopadas presas
pelas ligas.
Sentiu
fome de novo, e lembrou-se que tinha uma sanduíche de presunto no
bolso. Mas não podia estragar o desenho da boca que fizera com
bâton,
e com tanto cuidado. Também se lembrou que, até o fim do mês,
estava em ordem com a polícia e obrigou-se a caminhar,
aproximando-se da beira das calçadas para sorrir para os carros,
rebolar e parar, fingindo procurar alguma coisa na bolsa enorme. Mas
nada, ninguém, e ela sem dinheiro para tentar a sorte em bares onde
ainda a deixavam entrar.
Era
noite e, depois, madrugada no bairro sujo da grande cidade. E Sonia,
já sem fome, quase sem esperança, continuava a caminhar sobre a dor
dos sapatos de salto agulha.
Juan
Carlos Onetti
-
Amanhã Será Um Outro Dia
(excerto)
MEMÓRiA
01JUN1909-1994
- Juan Carlos Onetti Borges, aliás Juan Carlos Onetti: Ficcionista
uruguaio, distinguido com o Prémio Cervantes (1960) - «Alguém
inventou para mim o termo e o destino de escritor comprometido. Estou
inocente. O único compromisso que aceito é a persistência em
escrever bem e melhor, e de tratar com sinceridade a vida que me
coube conhecer e as pessoas condenadas a converter-se em personagens
dos meus livros». IMAG.229-263-467
1925-02JUN2009
- Glória de Sant’Anna: Poetisa, ficcionista e professora
portuguesa - «Aquilo a que poderíamos, sem exagero, chamar a sua
glória,
nada tem de ruidoso… Foi sempre uma personagem de um pudor e retiro
exemplares» (Eugénio Lisboa - 1988). IMAG.253-516
1936-03JUN2009
- John Arthur Carradine, aliás David Carradine: Actor americano,
filho de John Carradine, protagonista da série televisiva Kung
Fu (1970) e dos filmes Kill
Bill (2003-2004) - «Muitos
actores passam a maior parte do tempo a treinar a sua arte. É algo
que não se passa comigo. Limito-me a representar para o público, e
a deixar as coisas acontecerem».
IMAG.20-253-590
06JUN1599-1660
- Diego Rodrigues da Silva y Velázquez, aliás Diego Velázquez:
Pintor espanhol e retratista, do barroco contemporâneo, principal
artista da corte de Filipe IV - «Uma mulher não é um ser humano, é
a razão dos seres humanos».
1944-07JUN1989
- Paulo Leminski Filho, aliás Paulo Leminski: Poeta e ensaísta
brasileiro - «Quando eu vi você / tive uma idéia brilhante / foi
como se eu olhasse / de dentro de um diamante / e meu olho ganhasse /
mil faces num só instante.» (Amor
Bastante). IMAG.480
07JUN1899-1973
- Elizabeth Dorothea Cole Bowen, aliás Elizabeth Bowen: Ficcionista
anglo-irlandesa, autora de A
Casa Em Paris (1935) - «Uma
pessoa não pergunta a si mesma – ‘o que estou eu a fazer?’ –
porque sabe. Mas aquilo que uma pessoa pergunta a si mesma – ‘o
que fiz eu?’ – jamais o saberá.». IMAG.653
ANUÁRiO
23-79
- Gaius Plinius Secundus, aliás Plínio, o Velho: Naturalista romano
- «A diversidade de copistas, e os seus comparativos graus de
habilidade, aumentam consideravelmente os riscos de se perder a
semelhança com os originais. As ilustrações são propensas ao
engano, especialmente quando é necessário um grande número de
tintas para imitar a natureza».
IMAG.209-448
BREVIÁRiO
IMAG.63-94-95-164-175-224-229-339-454-457-458-501-635
Dom
Quixote edita As Oito
Montanhas de Paolo Cognetti;
tradução de Maria do Carmo Abreu.
EXTRAORDINÁRiO
OS
HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico
BUÇO
COM LEITE MANCHA O COLETE -
12
Entretanto,
Eustacio Ferreira reconhecera o Remexido, um perigoso assassino, em
vias de regeneração. Inquieto, em escrúpulo, veio a encontrá-lo
no Hospital de Rilhafoles, prestes a exalar o último suspiro. Porém,
o facínora ainda lhe disse, em tom de saudade profunda:
- Ah,
Seu Ferreira, parece que já não me torna a prender…
– Continua
quinta-feira, março 29, 2018
Imaginário-Médio: newsletters de Setembro 2014
Entramos na proverbial recta final para a conclusão da recuperação das newsletters antigas no blogue Imaginário-Médio, faltando dessas carregar apenas quinze posts e, assim, encerrar este projecto, no espaço de cinco semanas. Até lá, esta semana disponibilizamos as newsletters #481, #482, #483 e #484, acessíveis nos respectivos links.
domingo, março 25, 2018
IMAGINÁRiO #708
José
de Matos-Cruz | 24 Maio 2019 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal
– Fundado em 2004
Levem-me
numa caravela,
Numa velha e doce caravela,
Na proa, ou se quiserem, na espuma,
E me percam, longe, longe.
No elo de uma outra era,
No veludo ilusório da neve,
No fôlego de alguns cães reunidos,
Na multidão de cansadas folhas mortas.
Levem-me sem me quebrar, nos beijos,
Nos peitos que se erguem e respiram,
Sobre os tapetes das palmas e seu sorriso,
Em corredores de longos ossos, e articulações.
Levem-me, ou melhor, enterrem-me.
É
que nessa noite, sonhou que a Santa Teresinha, sob a forma de uma
menina loira com cabelos encaracolados, lhe dissera: «Porque não
foste ter comigo no último domingo?» E a jovem Santa parecia
exactamente a sua própria filha que imaginara há anos. E ele que
não tinha filha nenhuma! E, no sonho, dizia à Santa Teresinha: «É
assim que falas comigo? Esqueceste-te que sou o teu pai?» A Santa
Teresinha respondia: «Desculpa, pai, mas faz-me um favor e vem ter
comigo depois de amanhã, no domingo, à capela de Ste Marie des
Batignolles».
PRONTUÁRiO
EVOLUÇÕES
O
cinema de animação americano recuperará, alguma vez, o
empolgamento, a magia e o maravilhoso que atingiu, por final dos anos
’30 do século passado, com os Estúdios de Walt Disney? Trata-se
duma questão aparentemente imponderável - pois o progresso
tecnológico, e uma contínua mutação dos requisitos artísticos,
abriram excepcionais expectativas à exploração de temas
apaixonantes - como fez história Toy
Story - Os Rivais
(1995) de John
Lasseter,
primeira animação longa sob o signo Disney, integralmente gerada
por computador. Ao prodígio electrónico correspondia o fascínio
aventuresco - pela mística dos heróis, em crise num imaginário
trepidante e inteligente, emocionante e divertido. Suscitando uma
serialização de Toy
Story,
que consolidou a aliança entre a Disney e a Pixar - pela qual se
exploram todas as virtualidades da sofisticação em CGI, e
respectivas vanguardas estéticas: uma fusão visionária entre a
pesquisa tridimensional, e os efeitos qualitativos de textura,
detalhe, luz e cor. Atributos em que a Pixar foi pioneira, com Os
Rivais
- e é justo realçar o aval de Thomas Schumacher, outro nome
determinante na Disney, para superar os meios tradicionais de
execução no vínculo apelativo ao artifício/artesanato.
Justamente, Toy
Story - Os Rivais
valeu a Lasseter um Oscar especial, pelo contributo para o êxito da
indústria, no domínio animatográfico. IMAG.80
CALENDÁRiO
26OUT-30DEZ2017
- Em Lisboa, Arquivo Fotográfico Municipal expõe [Ante]Câmara
- Elenco, Retrato e Cenas Teatrais.
23DEZ2017-15FEV2018
- Em Lamego, Zona - Residências Artísticas apresenta, por
iniciativa ZigurArtists, Depósito
de Uma Natureza Activa -
exposição visual de João Pedro Fonseca.
VISTORiA
Levem-me
Levem-me
numa caravela,Numa velha e doce caravela,
Na proa, ou se quiserem, na espuma,
E me percam, longe, longe.
No elo de uma outra era,
No veludo ilusório da neve,
No fôlego de alguns cães reunidos,
Na multidão de cansadas folhas mortas.
Levem-me sem me quebrar, nos beijos,
Nos peitos que se erguem e respiram,
Sobre os tapetes das palmas e seu sorriso,
Em corredores de longos ossos, e articulações.
Levem-me, ou melhor, enterrem-me.
Henri
Michaux
-
Mes Propriétés
(1929)
(Revista
Cisma
- 2014)
Filho
Nicolau,
menino, entra.
Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?
Onde estiveste, Nicolau,
que trazes a arrastar
o teu brinquedo morto?
Nicolau,
menino, entra.
Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.
Vem dizer-me onde foi que tu estiveste
e a estrela fugiu das tuas mãos.
Tens
comigo o teu catre de lona velha.
Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe.
Deita-te, Nicolau, o fantasma ficou lá longe.
Dorme
sem medo.
Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.
Porão, roça, medos imediatos,
tudo ficou lá longe.
Quando
acordares a jornada será mais longa.
Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.
Nicolau, menino,
onde foi que deixaste
o corpo que te conheci?
Deus há-de querer que o sono te venha depressa
no meu catre.
Baltazar
Lopes / Osvaldo Alcântara
VISTORiA
É
que nessa noite, sonhou que a Santa Teresinha, sob a forma de uma
menina loira com cabelos encaracolados, lhe dissera: «Porque não
foste ter comigo no último domingo?» E a jovem Santa parecia
exactamente a sua própria filha que imaginara há anos. E ele que
não tinha filha nenhuma! E, no sonho, dizia à Santa Teresinha: «É
assim que falas comigo? Esqueceste-te que sou o teu pai?» A Santa
Teresinha respondia: «Desculpa, pai, mas faz-me um favor e vem ter
comigo depois de amanhã, no domingo, à capela de Ste Marie des
Batignolles».
Joseph
Roth
-
A Lenda do Santo Bebedor
(excerto
- Tradução de Álvaro Gonçalves)
PARLATÓRiO
Creio
que empreendi o caminho correcto - primeiro dediquei-me à
experiência prática, cantando e tocando instrumentos, e só depois
me devotei à composição…
Franz
Joseph Haydn
MEMÓRiA
24MAI1899-1984
- Henri Michaux: Escritor e artista belga, poeta e pintor,
naturalizado francês (1955), autor de Capturar
/ Saisir (1979) - «Com
sinais capturar uma situação, que maravilha! Que transfiguração!».
IMAG.704
25MAI1919-1995
- Fernando Teixeira Curado Ribeiro, aliás Fernando Curado Ribeiro:
Artista português, de cinema, teatro e rádio - «Actores, há
muitos - mas senhores actores, como ele, infelizmente existem poucos.
Era um homem de bom humor, que amava a vida e morreu rapaz» (Varela
Silva). IMAG.44-228-574
1894-27MAI1939
- Moses Joseph Roth, aliás Joseph Roth: Escritor austríaco - «Sim,
ansiava pelo mar, nas profundezas do qual cresciam, ou antes – como
ele pensava – moviam-se os corais. Não havia, em parte alguma,
ninguém com quem pudesse desabafar sobre a sua saudade, tinha de a
trazer fechada dentro de si, tal como o mar abrigava os corais.» (O
Leviatã).
1907-28MAI1989
- Baltazar Lopes da Silva, aliás Osvaldo Alcântara: Poeta,
ficcionista e linguista cabo-verdiano, autor de Chiquinho
(1947) e Os Trabalhos e os
Dias (1987) - «Eu estarei de
mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar… / A
minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus
joelhos doloridos, / mas todos os que vierem me encontrarão agitando
a minha lanterna de todas as cores / na linha de todas as batalhas.»
(Ressaca
- excerto). IMAG.607
1732-31MAI1809
- Franz
Joseph Haydn: Compositor
austríaco - «Sempre ouvi mais do que estudei. Assim, pouco a pouco,
os meus conhecimentos e capacidades foram-se desenvolvendo… Também,
nunca me tornei muito rápido a criar. Sempre escrevi cuidadosa e
meticulosamente».
IMAG.40-219-228-240-269-271-272-273-275-276-282-285-295-296-322-349-364-407-440-472-544-589-605-680
ANUÁRiO
1734-1819
- José Monteiro da Rocha: Matemático e precursor da moderna
astronomia portuguesa, autor de Memória
Sobre a Determinação das Órbitas dos Cometas
(Academia Real das Ciências de Lisboa - 1782) - «Lá fora o [seu]
trabalho nunca chegou a ser conhecido, mas, se o tivesse sido,
poder-se-ia hoje ter também o nome deste português a par do alemão
[Wilhelm] Olbers, como sendo os primeiros inventores de um método
prático para a determinação das órbitas parabólicas dos cometas»
(Fernando Figueiredo - autor de José
Monteiro da Rocha e a Atividade Científica do Observatório
Astronómico e da Faculdade de Matemática de 1772-1820
- Coimbra, 2011). IMAG.462
BREVIÁRiO
Dom
Quixote edita Em Viagem Pela
Europa de Leste de Gabriel
García Márquez (1927-2014); tradução de J. Teixeira de Aguillar.
IMAG.13-224-261-294-391-509-601
Assírio
& Alvim edita Poesia de
Mário Cesariny (1923-2006); organização de Perfecto E. Cuadrado.
IMAG.17-19-20-29-66-123-179-430-442-475-486-505-537-582-587-641-647-657-669-693
Warner
edita em CD e DVD, Fantaisies
de Wolfgang Amadeus Mozart
(1756-1791) e Robert Alexander Schumann (1810-1856) pelo pianista
Piotr Anderszewski.
IMAG.36-55-68-90-102-105-106-118-172-186-194-203-205-216-217-220-227-233-268-277-278-284-285-290-301-317-321-341-342-344-349-365-375-406-418-431-449-458-475-500-503-509-534-547-572-589-597-605-640-666-667-686-688-703
Companhia
das Letras edita Benjamim de
Chico Buarque.
IMAG.74-103-166-258-596
EXTRAORDINÁRiO
OS
HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico
BUÇO
COM LEITE MANCHA O COLETE
- 11
Ali
inquilino eventual, Euzebio Serra susteve-o com um empurrão. O Cunha
reagiu à esquerda, e enviou-lhe uma facada. Com tal força que,
aparando-a o dito Remexido com o braço direito, o ferro lho varou de
lado a lado, até atingir ao peito. Logo, o Cunha foi esconder-se no
Jardim de Santos, entre umas dálias, onde o guarda Número 39 de 3ª
Esquadra lhe deitou a mão.
– Continua
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