domingo, julho 06, 2014

Artistas d'O Infante Portugal nos XII Troféus Central Comics

Vários artistas que me deram a honra de ilustrar a saga d’O Infante Portugal (2007-2010-2012), estilizando e inspirando as suas implicações e desenvolvimentos com peculiar talento e sensibilidade, estão entre os nomeados para o concurso dos XII Troféus Central Comics, cujo escrutínio público termina dia 10 Julho:
- Diniz Conefrey para Melhor Argumento e Melhor Artista, e o seu álbum O Labirinto da Água (Quarto de Jade) para Melhor Publicação Nacional;
- João Mascarenhas, enquanto editor, tem a concurso o fanzine BDLP #3 (Extratus/Olindomar) em Melhor Publicação Independnete;
- Ricardo Cabral concorre com Comic-Transfer (Polvo), em Melhor Publicação Relacionada;
- Susana Resende para Melhor Obra Curta por “Sayonara” (in Zona Nippon 2 - Associação Tentáculo);
- Catherine Labey, Baptista Mendes, João Amaral, Luís Diferr, Rui Lacas e Zé Manel têm uma prancha autoconclusiva incluída em Efeméride #6 – Super-Heróis no séc.XXI, parte 1 (Geraldes Lino).

Os Troféus Central Comics incidem sobre as melhores obras de BD, profissionais e amadoras, e os autores publicados em Portugal no ano transacto. A intervenção de um júri composto por personalidades de reconhecido mérito, no nosso mercado de banda desenhada, apresenta aos leitores e aos profissionais do sector um leque de categorias em que as preferências e os votos da maioria determinam os vencedores, os quais serão anunciados no próximo dia 12 (Sábado), durante o Central Comics Fest, no Porto.

Actualização:
Os vencedores do XII Troféus Central Comics foram revelados também online, no respectivo portal. Para conhecer todas as estatísticas da votação, visitem este LINK.

sexta-feira, julho 04, 2014

IMAGINÁRiO #512

José de Matos-Cruz | 24 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
ASSOMBRAÇÕES
Prosseguindo a sua deambulação - no exílio de todas as consciências sobre um passado de pesadelo, em busca da dimensão íntima que lhe restitua o ideal de paz - Luís Ferchot trocara o Velho Continente pelo Novo Mundo. Entre os becos de Harlem, pelas docas de Brooklyn ou na penitenciária de Sing-Sing, o inferno humano foi-lhe mostrado em Nova Iorque. Pelo final de Leo, um Luís maduro mas perturbado voltou a atravessar o Atlântico, até Paris, ao encontro de um irmão que desconhecia, porém capaz de desvendar-lhe os volúveis laços familiares. Mas nem tudo correu bem, e os dois tiveram que escapar para Espanha - como Etchezabal nos desvendou, por 1936, em plena Guerra Civil. Um ano depois, no mês de Julho, Luís e a fotógrafa americana Kim tentam opor-se aos sabotadores da rectaguarda, A Quinta Coluna. Nesse volúvel conflito entre opressão ou dignidade, violência ou rebelião, a aprendizagem da liberdade definir-se-á como a lição mais perturbante, no palco da história… Eis fragmentos de Luís Má Sorte /Louis la Guigne (1982) - um clássico da banda desenhada franco-belga, concebido por Frank Giroud (texto) & Jean-Paul Dethorey (ilustração). Um relato denso, complexo, sobre heróis precários, assombrados pela realidade e as memórias ancestrais. IMAG.4-16-20-46-125

CALENDÁRiO
24OUT1925-29ABR2014 - Albert Bernard Feldstein, aliás Al Feldstein: Argumentista e ilustrador americano, editor de Mad (1956-1985) - «Foi responsável pelo imenso sucesso da Mad nas décadas de 50, 60 e 70, quando a revista viveu a sua era de ouro, fixando a sua identidade editorial, alcançando tiragens de quase três milhões de exemplares, destacando-se como um viveiro de talentos e impondo-se como a mais destemida, influente e divertida publicação satírica dos EUA» (Diário de Notícias).

¢1934-02MAI2014 - Rui-Mário de Melo e Sousa Gonçalves, aliás Rui Mário Gonçalves: Ensaísta português, crítico e divulgador de artes plásticas, professor universitário - «Pertencia à aristocracia do pensamento, daquela que é cada vez mais rara em Portugal. Um pedagogo brilhante, cujas aulas estavam sempre lotadas de alunos, porque ele sabia transformar qualquer conteúdo numa coisa apaixonante» (Maria João Cantinho). IMAG.84-454

¸08MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Nirvana de Tiago P. de Carvalho; com Catarina Urbani e Daniel Martinho.

¸08MAI2014 - Terratreme produziu, e estreia Vida Activa de Susana Nobre.

¸O8MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Fátima No Mundo de Manuel Arouca.

MEMÓRiA
¸1911-25ABR1995 - Virginia Katherine McNath, aliás Ginger Rogers: Actriz, bailarina e cantora americana - «Uma parte da alegria de dançar, está na conversa. O pior é que alguns homens não sabem falar e dançar ao mesmo tempo». IMAG.40-331-377-415

¸27ABR1935-2012 - Theo Angelopoulos: Cineasta grego - «Os filmes pré-existem. Eu apenas os faço. Obedeço a alguma força que diz “vá lá, faz”. Não me perguntem por quê. As explicações muitas vezes tiram o mistério, o senso da poesia». IMAG.287-393

¢28ABR1855-1933 - José Malhoa: Pintor português - «Deu-se bem em todos os ciclos políticos, pintou a nobreza e o povo e, com a sua cotação, ia esvaziando os espaços de exposição para os outros artistas, que tiveram de começar a procurar locais alternativos, como a Brasileira» (Sara Pereira). IMAG.54-198-208-312-440

¨30ABR1845-1894 - Joaquim Pedro de Oliveira Martins: Escritor, político e historiador português - «O homem, conforme existiu, está para ele como o vaso está para a essência, ou para a crisálida o casulo». IMAG. 15-90-214-319-479

¾30ABR1935-2004 - José Manuel Bastos Fialho Gouveia: Profissional da rádio, apresentador da televisão, co-autor do programa A Visita da Cornélia (1977) - «Um comunicador que ajudou a revolucionar a tv» (Diário de Notícias). IMAG.14-485

VISTORiA
…Não admira, pois, que desde então Camões ficasse na alma popular como símbolo da nação, e Os Lusíadas como a sua bíblia. Não admira que tivesse passado à condição de epónimo desta pequena pátria, tão semelhante a Atenas, e mais ainda a Esparta, na agitação da sua vida política, na grandeza da sua missão colonial, e também na miséria fúnebre da sua decomposição.
Não admira que, desde o século XVII, por toda a parte onde surgisse, de entre as ruínas do edifício nacional, algum fuste de coluna ainda de pé, ou algum friso inteiro onde se visse correr agitada a tragédia de outras eras; por toda a parte onde se erguesse do matagal de urzes e cardos da história a haste florida de uma açucena de saudade ou de esperança, a corola dessa flor ou a forma dessa evocação, tivesse o perfume e a cor dos Lusíadas e se considerasse uma revelação de Camões o paracleto português. Cantando os Lusíadas, os últimos leões da Índia defenderam Columbo perdidamente; e no nosso século o invasor, querendo regalar-nos como César, prometia-nos um Camões para cada província.
Camões e D. Sebastião, os Lusíadas e Alcácer Quibir, eis aí os dois homens e os dois actos que ficaram para serem gravados na imaginação colectiva, como uma fé e uma esperança, como um mandamento e um cativeiro. Este Israel do extremo ocidente, em que a plasticidade da imaginação grega se fundira com a tenacidade obscura do fenício e com o profetismo genial do judeu, possuía afinal a sua bíblia, e também chorava as ruínas do Templo, ajoelhado aos pés do vencedor que transformara Sião numa Babilónia castelhana. O sebastianismo que foi a religião lusitana, forma epilogal do nossa patriotismo, veio até os dias de hoje propondo Camões como o precursor de tudo quanto há mais avesso ao pensamento próprio do poeta.
Fazer-se um profeta da democracia o homem em cujo cérebro ferviam os pensamentos clássicos da monarquia universal, não é mais contraditório do que arvorar-se em apóstolo do livre-pensamento aquele que levou a vida no ardor do combate religioso contra o mouro e a acabou desvairado pela quimera da conquista do Santo Sepulcro, ardendo em indignação contra os luteranos, aceso sempre em uma fé inexgotável.
E todavia, este contra-senso é só aparente e exterior. No fundo, o erro é um acerto; e a crítica, se o não dissesse, provaria um limite de vistas incapaz de descortinar as miragens vagas da imaginação dos povos. A consagração histórica de Camões vem ainda moldar-se no processo remoto pelo qual os deuses foram abstraídos da consciência nebulosa das gentes primitivas. A magia das palavras e dois ou três momentos sintéticos da vida, tanto basta para que a imaginação plástica levante um mito e de uma suposta realidade à visão dos próprios desejos que passou, aérea, nos horizontes do espírito. Essa nuvem toma corpo, a apoteose substitui-se à biografia; e a imagem verdadeira do homem que foi some-se, deixando em seu lugar a figura que o povo abstraiu da iluminação dos próprios corações.
Não admira, pois, que nós próprios, ao pretender pôr de pé a figura de Camões, obedecêssemos à vibração transmitida, e que, amalgamando a lenda com a história, déssemos porventura significado e proporções demasiadas a factos e estados de alma comezinhos. Talvez a nossa vista amplificasse as proporções da imagem, impressionada pelo prestígio que essa imagem exerce nas imaginações. Talvez; mas, se assim for, não nos arrependemos dessa culpa. Por patriotismo, em primeiro lugar; e por amor à crítica, em segundo.
Oliveira Martins
- Camões, Os Lusíadas e a Renascença Em Portugal
(1872, excerto)

PARLATÓRiO
¸Não sei se os meus filmes são memórias históricas. São réquiens, mas sem o tom fúnebre, não são lamentos pela morte de um período. No livro A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson, uma frase é sempre repetida: «Não nos rendemos. Continuamos…». É um réquiem, mas não nos rendemos, continuamos.
—Theo Angelopoulos
(2011)
       
ANTIQUÁRiO
ü26ABR1925 - O coronel britânico Percy Harrison Fawcett, cartografista e explorador, penetra na selva da Amazónia, em busca dos vestígios da civilização Z, que presumia altamente culta e desenvolvida, tendo ao longo dos anos estabelecido um método próprio de abordagem ao «inferno verde». Não voltou a aparecer, tendo inspirado Sir Arthur Conan Doyle à escrita do romance O Mundo Perdido (1912). IMAG.17-66-71-116-128-140-184-227-281-298-487

29ABR1865 - O activo/passivo do Banco de Portugal é de 18:551:049$790 réis, sendo o seu capital de 8:000:000$000 réis.
 
COMENTÁRiO
¢Só visando o alargamento dos seus horizontes imaginéticos o homem pode entender e utilizar os símbolos para a sua autoexpressão no mundo.
Rui Mário Gonçalves
- Primeiro Olhar

BREVÁRiO
¨Dom Quixote edita A Infância de Jesus de J.M. Coetzee; tradução de J. Teixeira de Aguiar. IMAG.216

¯Harmonia Mundi edita em CD, Giovanni Battista Pergolesi [1710-1736]: Septem Verba a Christo por Akademia für Alte Musik Berlin, sob a direcção de René Jacobs. IMAG.296-318-327-387-490

¨Sistema Solar edita Bruges-a-Morta de Georges Rodenbach (1855-1898); tradução de Aníbal Fernandes.



      
EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico         

ATRAPALHADO NA CARCAÇA  O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 6
Um instante, porém, e Graciosa estava, já, absorta no vazio embaciado que era a sua pasmaceira crónica. Com um turvo bocejo, o contrafeito Damião recolheu-se ao mesmo torpor letárgico.
Ambos ficariam assim uma eternidade, como se vagueassem pela fronteira híbrida entre a razão ausente e a terra de ninguém. Seres e senhores de um exílio mutante, como humano ou animal.

– Continua

quinta-feira, junho 26, 2014

IMAGINÁRiO #511

José de Matos-Cruz | 16 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
PERCURSOS
O ano de 1997 assinalou o reconhecimento de José Carlos Fernandes a nível nacional, como um dos mais aliciantes entre os nossos nóveis autores. Para tal contribuiu o Festival de Banda Desenhada - Amadora Bd, cuja linha gráfica foi delineada a partir da sua criatividade - iniciada em 1990, tornando-se versátil e fecunda como poucas. Assim voltou a reflectir a ilustração do belíssimo álbum Crossroads - Diário de Viagem Através de Um Mito (Dos Arquivos de Samuel Pastor) (1999), sobre uma narração de João Ramalho Santos & João Miguel Lameiras. «Acredito num Grande Desígnio para todas as coisas, embora ignore de todo qual ele possa ser…» Crossroads transpôs um deserto de inoperância e monotonia, que vinha caracterizando - com raras excepções livrescas e algumas aliciantes miragens - o panorama público da banda desenhada e do imaginário gráfico, em Portugal. Novos passos, oriundos dos quadradinhos prosseguem, pois, o culto e rasgam distintas vias na exploração de um vasto horizonte, para a nona arte. Além da coerência estética, alusiva, José Carlos Fernandes contribuiu, assim, com os seus predicados essenciais: subtileza minimal, fascínio, ironia e sensibilidade.

MEMÓRiA
¸1908-14ABR1995 - António Lopes Ribeiro: Realizador e produtor do cinema português, poeta, ficcionista e dramaturgo - «Lisboa é a mais linda, a mais fotogénica de todas as cidades do mundo. Conheço muitas, amo muitas. Mas nenhuma, podem crer, por pior que digamos dela quando nos arrelia e nos desola, lhe chega aos calcanhares. Os operadores de cinema têm em Lisboa um verdadeiro paraíso. As casas não têm aquela escura cor que tanto entristece as grandes metrópoles estrangeiras. E marinham decididamente pelas encostas, em vez de se estenderem num plaino sensaborão, que limita todas as perspectivas» (1947). >IMAG.1-27-31-48-74-76-94-115-130-131-164-166-175-189-210-221-224-227-229-256-297-307-317-328-335-339-345-347-355-412-436-457-458-501

1879-18ABR1955 - Albert Einstein: Físico teórico alemão, fundador da Teoria Geral da Relatividade, distinguido com o Prémio Nobel da Física (1921) - «A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento auxilia por fora, mas só o amor socorre por dentro. O conhecimento vem, mas a sabedoria tarda» (Sobre a Ciência). >IMAG.31-51-103-218-443-444

¯20ABR1675 - Em Lisboa, na Casa Professa de São Roque, da qual que era Superior, morre o erudito padre Balthazar Tellez, da Companhia de Jesus, autor de Summa Universae Philosophiae (1642); nascera em 1595.

¨1907-22ABR1985 - Mircea Eliade: Ficcionista e filósofo americano, de origem romena - «Lisboa conquistou-me desde o primeiro dia… No último ano da minha estadia em Calcutta, tinha começado a aprender o português com método e paixão» (Mémoire II, 1937-1960).
             
VISTORiA
¨o que se ama ainda mais,
a solidão, a comoção
da garganta embargada,
a sedução das rosas
cor de sangue, aqui onde estou
sem encontrar muito bem o peso das palavras
que te quero dizer, e eu quero dizê-las devagar,
talvez timidamente encadeadas,
agora que as sombras são mais longas
Vasco Graça Moura
- O Caderno da Casa das Nuvens
(excerto - 2009)
      
CALENDÁRiO
¨1942-27ABR2014 - Vasco Graça Moura: Escritor português, poeta e ficcionista, ensaísta e tradutor, intelectual e político - «retiro-me dos sonhos, sou / a obscura matéria de uma ausência / que se dissipa contra as pedras, / devagar» (O Caderno da Casa das Nuvens - excerto - 2009). >IMAG.42-125-239-352-366

¢09MAI-20JUL2014 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Built de Daniel Nave.

¢1919-06MAI2014 - Maria Lassnig: Artista plástica austríaca, especialista em auto-retratos, distinguida com o Prémio Oskar Koboschka (1997) - «Pinto a consciência do meu próprio corpo».

COMENTÁRiO
O ANTÓNIO E EU
¸Conheci pessoalmente o António Lopes Ribeiro num distante ano da década de ’70 do Século XX, depois do 25 de Abril, e logo tive uma das mais profundas impressões: raro encontrei pessoa tão culta, tão dinâmica, tão versátil e tão apaixonada pelas coisas, pelo cinema e pela vida.
Ele estava já meio retirado das lidas profissionais, e passava por alguns dissabores próprios da época. O meu entusiasmo e algum embaraço pareciam diverti-lo. Nasceu então uma amizade que se fortaleceu ao longo dos tempos, e se tornou de grande confiança pessoal, o que eu nunca esquecerei.
Pelo seu carácter, nos projectos que ainda tinha, o António era fascinante e autoritário. Em acordo tácito, nunca procurámos influenciar-nos nas convicções próprias, logo políticas, embora falássemos à vontade.
Isto, com a franqueza e o respeito mútuos, ajudou a consolidar a nossa relação e a levarmos por diante vários desafios, só alguns não concretizados. Entre estes, recordo a fundação dum Instituto de Filmologia, que incluía o António de Macedo. Chegámos os três a ter reuniões no Hotel Tivoli, onde morava a Beatriz Costa, mas as circunstâncias não foram propícias.
Pelo contrário, o Ciclo monográfico por que fui responsável, e organizado pela Cinemateca Portuguesa em 1983, aproximou-nos ainda mais em tarefas e expectativas. Ele concordou com o meu critério de se exibirem todas as suas fitas, sem excepção; e nunca receou que isso lhe trouxesse problemas. Foi assim possível inventariar e recuperar um vasto espólio.
Pude testemunhar a curiosidade e o interesse que o António continuava, sempre, a dedicar à modernidade ou à especificidade das manifestações artísticas: nos anos ’80 – quando pertencíamos, os dois, à Comissão de Classificação de Espectáculos – adquiria, metodicamente, a revista de banda desenhada (À Suivre); e mais tarde, já a doença o prendia em casa, surpreendi-o um dia mais entretido com uma cassete nova do Rui Veloso, do que em prestar-me a atenção que eu ia solicitar-lhe…
@José de Matos-Cruz

VISTORiA
¯Tommo occasiam dos annos, em que entro pera contar nam só as fundações, e progressos das casas, ou Collegios da Companhia, que, entam, socederam, mas também pera escrever a vida, e a morte de todos os varoens em virtude, que nestes annos, no tempo de S. Ignacio, entraram nesta Província: e assim ainda que tomo o princípio de tam longe, com tudo chego com as cousas, e noticias de muytas dellas, quasi a nossos tempos.
Balthazar Tellez
- A Chronica da Companhia de Jesu, Na Província de Portugal
(excerto - 1645-1647)

A pior das instituições gregárias intitula-se Exército, e eu odeio-o. Se um homem lograr algum prazer ao desfilar ao som de música, eu desprezo esse homem… Não merece um cérebro humano, já que a medula espinal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este cancro da civilização. Detesto todas as formas de heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é o que há de mais desprezível. Preferiria deixar-me assassinar, a ter que participar nessa ignomínia.
Albert Einstein
- Como Vejo o Mundo

TRAJECTÓRiA
Mircea Eliade
¨Pensador, ensaísta e romancista romeno, nascido a 13 de março de 1907, em Bucareste e falecido em 1986, em Chicago, licenciou-se em Filosofia, em 1928. De seguida, prosseguiu os estudos na Universidade de Calcutá, onde se tornou amigo de Dasgupta, de quem recebeu ensinamentos sobre sânscrito e filosofia. De regresso a Bucareste, fez o doutoramento em 1933, com uma tese sobre iôga. Sete anos mais tarde, mudou-se para Londres, para ocupar o cargo de adido cultural na embaixada do seu país, e, no ano seguinte, ocupou a mesma função em Lisboa, até 1944. Em Portugal, interessou-se pela literatura clássica portuguesa e escreveu a síntese Os Romenos, Latinos do Oriente e a obra Salazar e a Revolução Portuguesa, este último sem tradução portuguesa por vontade do próprio Salazar que não apreciou as observações feitas por Eliade. Nunca obteve reconhecimento pelo seu trabalho em Portugal. Em 1945, foi para Paris trabalhar para a Universidade de Sorbonne, como professor de Religião Comparada. Iniciou aqui a sua fase de escrita em língua francesa. Treze anos depois, instalou-se definitivamente nos Estados Unidos da América, onde se naturalizou, para dirigir o departamento de Religião e ensinar História das Religiões na Universidade de Chicago.
Das suas obras destacam-se as de interesse pela filosofia hindu - Il Male e la Liberazione Nella Filosofia Sãmkhlya Yoga (1930) e Il Rituale Hindu e la Vita Interiore (1932) -, os inúmeros artigos e livros sobre religião e mitos - O Mito do Eterno Retorno (1949), Tratado de História das Religiões (1949), História das Crenças e das Ideias Religiosas (1949-1983) e ainda os romances Maitreyi (A Noite Bengali, 1933), A Volta do Paraíso (1934) e A Serpente (1937), entre outros.

ANTIQUÁRiO
ABR1865 - Neste mês, o gás consumido no concelho de Lisboa, na iluminação pública, importou na quantia de 4:350$580 réis.

18ABR1935 - Rádio Renascença lança O Papagaio - Revista Para Miúdos, ao preço de um escudo, sendo director Adolfo Simões Müller; em publicação semanal até ao número 722, em 10FEV1949.

ANUÁRiO
1875 - Neste ano, o número de cabeças de gado existentes no distrito de Évora, é: cavalar - 3.715, muar - 6.260, lanígero - 268.868, vaccum - 22.430, caprino - 72.693, suíno - 74.921, asinino - 7.924.

BREVÁRiO
¨Assírio & Alvim re-edita Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). >IMAG.2-18-112-168-213-249-268-302-390-449-473

terça-feira, junho 24, 2014

Colecção Charlie Chaplin – 125 Anos

Na recta final da Colecção Charlie Chaplin – 125 Anos, publicada por Levoir/Ideias e Conteúdos, em parceria com o jornal O Público (onde é distribuída todas as sextas-feiras, de 2 de Maio a 4 de Julho), destaco aqui a minha participação nesta, onde sou creditado como consultor, sendo a autoria do jornalista e crítico de cinema Mário Augusto.
Esta edição comemorativa, composta por dez livros e dez DVDs com os seus principais filmes, dá a conhecer diversos episódios da vida e obra do genial e célebre “vagabundo,” tornado um ícone do cinema mundial. Os volumes continuam disponíveis no website das colecções do jornal O Público.





segunda-feira, junho 23, 2014

IMAGINÁRiO #510

José de Matos-Cruz | 8 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
FASCINAÇÃO
Segundo as virtualidades de Hollywood, cada matriz fílmica é eterna - a multiplicação das suas cópias permite uma ressurreição, através de sucessivas projecções. Expectativas transfiguradas sob o signo de Supercalifragilisticexpialidocious, em Mary Poppins (1964) com realização de Robert Stevenson, cuja Edição do 50º Aniversário celebra a nostalgia e o encanto. Poucas vezes o sonho e a fantasia combinaram, com tal frescura e graciosidade, num espectáculo segundo os modelos de Walt Disney: aqui estaria, aliás, o seu testemunho último - apoteose musical, em que a magia do universo infantil e os mitos de um imaginário adulto se congregam, em termos de inspiração e criatividade… Cor, coreografia, fotograma real e figuração animada, um diálogo aliciante e o entretenimento lírico - eis uma obra-prima culminante do género romântico, que encontra em Julie Andrews - galardoada com o Óscar da Melhor Actriz, entre outras distinções técnicas e criativas (efeitos visuais, montagem, banda sonora, canção) - a intérprete ideal, porque admirável de talento e histrionia.



CALENDÁRiO
¸24ABR2014 - Filmógrafo produziu, e estreia Pecado Fatal de Luís Diogo; com João Guimarães e Sara Barros Leitão.

ü29ABR-21JUN2014 - Em Lisboa, Torre do Tombo expõe O Gabinete das Maravilhas - Atlas e Códices dos Melhores Arquivos e Bibliotecas do Mundo, com cópias fac-similadas pela editora Manuel Moleiro (Barcelona).

®1942-29ABR2014 - Robert William Hoskins Jr, aliás Bob Hoskins: Actor inglês de teatro, televisão e cinema, com carreira em Hollywood - «Fiz tantos filmes que, às vezes, até me esqueço de alguns em que entrei». > IMAG.125

¢30ABR-22JUN2014 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Dorindo Carvalho -Desenho e Obra Gráfica.
        
VISTORiA
Quem Sou?
¯Quem sou?
Frequentemente dizem-me
que saí dos limites da minha cela
tranquilo, alegre e firme
como um senhor da sua mansão de campo.
Quem sou?
Frequentemente dizem-me
que costumo falar com os guardiães da prisão confinada,
livre e claramente, como se eu desse as ordens.
Quem sou?
Também me dizem
que superei os dias de infortúnio
orgulhosa e amavelmente, sorrindo,
como quem está habituado a triunfar.


Sou, na verdade, tudo o que os outros dizem de mim?
Ou sou somente o que eu sei de mim mesmo?
Inquieto, ansioso e enfermo, como uma ave enjaulada,
pugnando por respirar, como se me afogasse,
sedento de cores, flores, canto de pássaros,
faminto de palavras bondosas, de amabilidade,
com a expectativa de grandes feitos,
temendo, impotente, pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio de orar, de pensar, de fazer,
exausto e disposto a dizer adeus a tudo.

Quem sou? Este ou aquele?
Um agora e outro depois?
Ou ambos de uma vez?
Hipócrita perante os demais
e, diante de mim mesmo, um débil acabado?
Ou há, dentro de mim, algo como um exército derrotado
que foge desordenadamente da vitória já alcançada?

Quem sou?
Escarnecem de mim tais solitárias perguntas minhas;
seja o que for,
Tu o sabes, ó Deus: sou Teu!
- Dietrich Bonhoeffer

VISTORiA
¨Nos tempos da nossa grandeza, quando o leão do Ocidente, estendendo as garras por cima do Atlântico, segurava numa delas, fremente e subjugado, o opulento Indostão, e com a outra domava as convulsões desesperadas da hiena marroquina, tínhamos por acaso na Europa a influência que nos deviam dar os imensos recursos que as nossas conquistas nos subministravam? O oiro da África e da Ásia prestou a D. Manuel os serviços que o oiro americano prestou a Carlos V? O imenso comércio das Índias deu-nos por acaso na Europa a influência marítima, que tinha dado outrora à república veneziana?
Manuel Pinheiro Chagas
- As Duas Flores de Sangue
(1875 - excerto)

MEMÓRiA
¨ 1842-08ABR1895 - Manuel Pinheiro Chagas: Escritor, jornalista e político português - «Ténue murmúrio, a suspirar carícias! / Aéreo sopro respirando ardor! / Meigo prefácio dessas mil delícias / Do gosto etéreo dum primeiro amor!» (O Primeiro Beijo - excerto). >IMAG.30-32-59-91-258-312-332-357-394

¨08ABR1911-1995 - Emil Cioran: Escritor e filósofo romeno - «No edifício do Pensamento, não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!».

¯ 1906-09ABR1945 - Dietrich Bonhoeffer: Poeta e teólogo alemão - «É natureza, e vantagem, das pessoas fortes, levantarem as questões cruciais e formarem uma opinião clara sobre elas. Os fracos sempre têm que decidir entre alternativas que não são suas».

¯1881-10ABR1955 - Pierre Teilhard de Chardin: Jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês - «Para a Verdade, basta aparecer apenas uma vez, em um só espírito, para que nada possa, nunca mais, impedi-la de invadir tudo e de tudo incendiar». >IMAG.31-343

E12ABR1635 - Rezam as crónicas que, em Vila Viçosa, nasce um menino com o peito à maneira de um escudo, e no meio dele uma cruz com a Ordem de Cristo, tendo mãos e pés sem forma de dedos, e na cabeça uma espécie de murrião.

¢12ABR885-1941 - Robert Delaunay: Pintor francês, ligado ao abstraccionismo e ao cubismo, explorou ainda o impressionismo - com uma série dedicada a Paris - e viveu em Portugal, sendo amigo de Amadeo de Souza-Cardoso. >IMAG.154-371

¯1906-12ABR1975 - Josephine Baker: Cantora e bailarina americana, naturalizada francesa - «Aquilo que verdadeiramente amamos, permanece connosco para sempre… Guardado no nosso coração, enquanto formos vivos». >IMAG.47

¨1621-13ABR1695 - Jean de La Fontaine: Poeta e fabulista francês - «Não poucas vezes, esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para dele fugir… A cada um, o seu defeito, no qual todos os dias recaímos - nem pejo, nem medo, nada o corrige». >IMAG.42-330
 
O1809-15ABR1865 - Abraham Lincoln: Político americano, Presidente dos EUA (1861- 1865) - «Sempre que ouço alguém defender a escravatura, sinto um forte impulso de que a mesma se aplique a essa pessoa». >IMAG. 68-147-236-334-350

¨17ABR1885-1962 - Karen Blixen, aliás Isak Dinesen: Escritora dinamarquesa - «Os tempos difíceis ajudaram-me a compreender melhor quão infinitamente rica e maravilhosa é a vida, e como muitas coisas que nos preocupam não têm a menor importância». >IMAG.42-266-385-440
   
BREVÁRiO

¸Disney edita em Blu-ray, Mary Poppins - 50º Aniversário (1964) de Robert Stevenson; com Julie Andrews e Dick Van Dyke. >IMAG.260

¨Parsifal Edições lança Regicídios Que Mudaram a História (1954 - Dez Regicídios Emocionantes) de Américo Faria.

¯Distrijazz edita em CD, sob chancela ECM, Johann Sebastian Bach [1685-1750]: Six Sonatas For Violin and Piano por Michelle Makarski e Keith Jarrett. >IMAG.32-58-163-198-203-212-216-220-240-248-267-268-269-277-280-284-305-308-332-334-340-363-375-384-389-392-423-432-458-462-507

¨Babel edita, com Câmara Municipal de Lisboa, Chiado Em Detalhe de Álvaro Siza (Vieira). >IMAG.41-56-298-424-432-447-495

¨Antígona edita Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (1894-1963); prefácio de Manuel Portela. >IMAG.71-165-332-444-475

¨Antígona edita Singela Proposta e Outros Textos Satíricos de Jonathan Swift (1667-1745); tradução de Paulo Faria. >IMAG.373

¨Porto Editora lança Contos Sobrenaturais de Carlos Fuentes (1928-2012); tradução de Helena Pitta. >IMAG.410



EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS       
- Folhetim Aperiódico

ATRAPALHADO NA CARCAÇA
O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 5      
Sem qualquer pejo, o anormal disse-o à mãe num lampejo:
- Caramba... Tu já viste que acabamos por deitar cá para fora tudo o que manducamos? Mais nada...
- Pois… Cagar e mijar... - discorreu Graciosa Benquerença.
- Não é isso, porra! - reagiu Damião, enfadado. - Estou a falar, é desta carcaça que se engrossa com o besunto…

Continua