quarta-feira, maio 10, 2017

IMAGINÁRiO #662

José de Matos-Cruz | 8 Junho 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
Douro, Faina Fluvial (1931) de Manoel de Oliveira
TESTEMUNHOS
O documentarismo constitui, no cinema português, o seu domínio mais fecundo e genuíno, explorado em múltiplas tendências ou correspondências. De facto, num país com pequena e precária indústria das imagens animadas, tal expressão assumiria uma alternativa importante, na própria função técnica e continuidade profissional, investida mesmo como elemento estético, temático e poético, em fitas de representação ficcional. Nas referências da actualidade, pelas expectativas em risco, repercutiu-se um olhar retrospectivo - no qual evoluem as emoções e a maturidade, cruzando afinal os múltiplos registos que o cinema propiciou. É o estímulo das fotografias vivas, cujas representação e projecção readquirem primordiais virtualidades. De certo modo, a nossa própria experiência de ideais, sucessos e desaires também está assim estigmatizada ou latente. Sublimando uma abordagem sobre as pessoas, os eventos e as paisagens, em recorrente transfiguração lírica ou simbólica, o documentarismo afirmou-se, sobretudo, por uma fusão aliciante entre realismo e criatividade. Em causa, está a constância de um olhar sobre a história e a memória, contrastando a evocação ou o testemunho. Essa navegação imaginária que, portanto, nos faz presente entre o passado e o futuro. Além disso, o documentarismo desempenhou, com frequência, uma manifestação de vanguarda, quanto às fases de viragem na produção ou na criatividade. Pioneiro e referencial, logo quando a maravilha técnica desponta. Em pujante expressão artística, pela transição entre o mudo e o sonoro. Persistindo ao longo de décadas, com o empenho e a obstinação de vários cinegrafistas, cada um com a sua marca peculiar.

CALENDÁRiO

19JAN-04MAR2017 - Em Lisboa, Galeria Pedro Cera apresenta Late Night Shopping - exposição de pintura de Gil Heitor Cortesão.

21JAN-19FEV2017 - Em Sintra, Museu do Ar apresenta Penetrando Em Outras Dimensões - exposição de pintura de Rosário Figueiredo Gomes, com fotografias de Cristina Menezes Alves e Luís Miguel Azevedo.

21JAN-25FEV2017 - No Porto, Espaço Mira apresenta Saturnidade - exposição de pintura, desenho, escultura e vídeo de Isabel Ribeiro, sendo curador José Maia. IMAG.543

1940-25JAN2017 - John Vincent Hurt, aliás John Hurt: Actor inglês de teatro, televisão e cinema, intérprete de O Homem-Elefante / The Elephant Man (1980 - David Lynch) - «A sua carreira foi a de um eterno secundário, com uma invulgar capacidade de transfiguração» (João Lopes). IMAG.74

24FEV1927-27JAN2017 - Paulette Germaine Riva, aliás Emmanuelle Riva: Actriz francesa de teatro e cinema, protagonista de Hiroxima, Meu Amor / Hiroshima Mon Amour (1959 - Alain Resnais) - «Vi tudo… Tudo!». IMAG.502

05FEV2017 - Bando à Parte produziu, e estreia no Porto, Ornamento e Crime (2015) de Rodrigo Areias; com Edgar Pêra e Vítor Correia. IMAG.284-414-514-522

23FEV-09ABR2017 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga/MNAA apresenta, na Galeria de Exposições Temporárias, A Cidade Global - Lisboa No Renascimento, sendo comissárias Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe.

15FEV-16ABR2017 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Uma Viagem Simbólica: Bairro Histórico de Cascais - exposição de pintura de MAN. IMAG.360

VISTORiA

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições da alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada um, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
Fernando Pessoa
- Para a Explicação da Heteronímia

TRAJECTÓRiA

VIEIRA DA SILVA
Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1908. Cedo motivada em música e literatura, não tardou a revelar-se para o desenho e a pintura. Atraída pela escultura, em 1924 estudou Anatomia na Escola de Belas Artes de Lisboa. Em Paris aos vinte anos, frequentou as academias La Grande Chaumière e Scandinave, foi aluna de Fernand Léger e trabalhou com Dufresne e Waroquier. Em 1930, casou com o pintor húngaro Arpad Szènes. Em 1931, expôs nos Salons d’Automne e Surindépendants. Em 1932, tornou-se discípula de Bissière, na Académie Ransom. Até finais dos anos ’30, desenvolveu a perspectiva e a repetição, distinguindo-se L’Atelier (1940 - óleo sobre tela). Com a II Guerra Mundial, e após passagem por Lisboa, radicou-se com Arpad no Brasil, expondo no Museu Nacional de Belas-Artes (1942) e concluindo La Partie d’Échecs (1943). Em 1947, regressou a Paris, assinando Bibliothèque (1949). Distinguindo-se no Abstraccionismo Lírico da Escola de Paris, apresentou Bataille des Rouges et des Bleus (1953). Em 1956, naturalizou-se francesa, com Arpad. Galardoada com o Prémio Internacional de Pintura na Bienal de São Paulo (1961), executou L’Enterprise Impossible (1961-1967). Alvo de uma Retrospectiva integral na Fundação Calouste Gulbenkian, após a Revolução dos Cravos o Presidente da República impôs-lhe a Grã-Cruz de Sant’Iago e Espada. Falecido Arpad em 1985, no ano seguinte concluiu Soleils. Em 1988, o Governo atribuiu-lhe a Ordem da Liberdade. Criada a Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva em 1990, em 1991 recebeu o grau de Oficial da Légion d’Honneur pela República Francesa. Faleceu em Paris, a 6 de Março de 1992.

MEMÓRiA

09JUN1918-2011 - Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho, aliás Vitorino Magalhães Godinho: Historiador, professor universitário, autor de Ensaios e Estudos - Uma Maneira de Pensar (2009) - «Foi até ao fim um cidadão empenhado, preocupado com o lançamento das bases de uma sociedade democrática» (Guilherme d’Oliveira Martins). IMAG.207-244-358

10JUN1918-2015 - Henriette Eugénie Jeanne Ragon, aliás Patachou: Cantora e actriz francesa - «A [sua] voz rouca fazia romper a alegria popular, às vezes trocista, às vezes brejeira, gritando gosto pela vida» (José Cutileiro). IMAG.568

13JUN1888-1935 - Fernando António Nogueira Pessoa, aliás Fernando Pessoa: Escritor português, poeta e ficcionista - «Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu».
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13JUN1908-1992 - Maria Helena Vieira da Silva: Artista plástica portuguesa, naturalizada francesa (1956) - «Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas fugazes iluminações e então sinto por momentos uma confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a mística explica tudo. Então, é preciso dizer que não sou suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a morte me dará a explicação que não consigo encontrar». IMAG.14-39-42-75-134-168-182-224-227-382-386-392-434-461-486-490-499-500-502-522-553-554-567-579-603-604-609

13JUN1928-2015 - John Forbes Nash Jr, aliás John Nash: Matemático americano - «Talvez seja bom ter uma mente brilhante, mas um dom ainda maior é descobrir um coração bonito». IMAG.571

14JUN1908-1979 - Joaquim Belford Correia da Silva, aliás Joaquim Paço d’Arcos: Ficcionista, poeta e ensaísta português - «Eu não quis fazer História, pretendi escrever umas páginas poucas em que focasse a miséria duns e a grandeza de outros.» (Herói Derradeiro - Introdução). IMAG.219-230-529

1923-15JUN1968 - John Leslie Montgomery, aliás Wes Montgomery: Guitarrista americano de jazz, Prémio New Star (1960) da revista Down Beat - «desenvolveu um estilo único de dedilhado com o polegar, bem como um modo de tocar em oitavas, que se tornariam as suas marcas registadas. A sua extrema liberdade e fluidez no instrumento chamaram, desde o início, a atenção» (Fernando Jardim) - «Se um artista de jazz está efectivamente a tocar, o executante de música clássica tem, necessariamente, de o respeitar». IMAG.419-505

PARLATÓRiO

Não é possível analisar os problemas da realidade portuguesa contemporânea sem os inserir na trama da evolução do nosso país, quer dizer, sem estudar as condições de formação do mundo em que vivemos, a génese da nossa cultura, da nossa sociedade, da estrutura político-económica de Portugal.
Vitorino Magalhães Godinho

BREVIÁRiO

Relógio D’Água edita Ensaios Escolhidos de George Orwell (1903-1950); tradução de José Miguel Silva. IMAG.170-205-212-222-259-313-318-419-424-476

EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS – Folhetim Aperiódico

MAL TORNA AO CRIADOR QUEM, SUJEITO, SE REFAZ - 9

Depois, Joel tornou-se proxeneta de almas, escavando nelas, estilizado, um suplício irritante, como funcionário catártico do Poder vigente. Às tantas, canino, deleitava-se mesmo a infligir tormentos vãos aos pobres diabos, idealistas, num desbarato quanto à integridade militante.
– Continua

segunda-feira, maio 08, 2017

IMAGINÁRiO #661

José de Matos-Cruz | 1 Junho 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

ESTRATÉGIAS
Quando o Embaixador Spock lhe solicita a permissão para acolherem os Cardassians, o seu pai Sarek, honorável representante vulcano na Federação dos Planetas Unidos, opõe-se a tal proposta. Esta recusa, agreste e pública, provoca uma rotura familiar… Sob chancela DC Comics, pela vertente WildStorm, eis Enter the Wolves (2001) - um capítulo mais na saga de Star Trek, concebido pelos prestigiados autores de ficcção científica Howard Weinstein (lembrar The Better Man) & A.C. Crispin (Sarek), e ilustrado por Keith Aiken & Carlos Mota (Star Trek Special). Enquanto Spock defendia a causa dos Cardassians, Sarek tentara, ao longo dos anos, fazer os Legarans - e o seu mundo, estrategicamente vital - parte da Federação, mas os progressos foram lentos, penosos. Entretanto, tudo se agrava com um acto de sabotagem - cuja execução parece comprometer os Legarans. E piora quando Perrin, a actual esposa de Sarek, é sequestrada. Numa situação de perigo, atenuam-se os conflitos e sobressaem os pactos de sangue. Mas, será ainda possível uma aliança com os Cardassians? IMAG.34-62-110-249-335-338-404-443-494-556-640

CALENDÁRiO

07JAN-18FEV2017 - Em Lisboa, Galeria Monumental expõe Pintura de José David.

12JAN-08MAR2017 - Em Lisboa, Galeria Cristina Guerra apresenta Rasgo - exposição de fotografia de André Cepeda. IMAG.297-543-620

1922-24JAN2017 - Maria Isabel de Mendonça Soares: Escritora portuguesa, tradutora e professora - «A [sua obra] é essencialmente de carácter pedagógico. Atenta aos problemas do seu tempo e às crianças» (Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas).

27JAN-25JUN2017 - Em Lisboa, Pavilhão Preto do Museu da Cidade expõe A Lisboa Que Teria Sido, sendo comissários Raquel Henriques da Silva e António Miranda.

02FEV-09MAR2017 - Em Cascais, Casa Sommer expõe Patrimónios Submersos de Cascais; organização do Arquivo Histórico Municipal.

COMENTÁRiO

Casanova
…Nunca contrai dívidas de alma, pois as suas relações são sempre leais, são simplesmente de ordem sexual e sensual. Ele não provoca nenhuma catástrofe, fez muitas mulheres felizes (…) todas saem intactas de uma aventura para voltar à vida quotidiana. Nenhuma delas se suicida nem se abandona ao desespero; o seu equilíbrio interior não é perturbado (…) Ele conquista sem destruir, seduz mas não desmoraliza.
Stefan Zweig
- Casanova: A Study In Self-Portraiture (excertos)
VISTORiA

A Jovem Miss

Ella é tão loura, lyrica, franzina,
Tão mimosa, quieta, e virginal,
Como uma bella virgem d’um missal
Toda dourada, e preciosa e fina!

Não ha graça mais casta e femenina
Do que a d’ella! Seu riso angelical
Cria em nós todo um mundo de moral,
Melhor que tudo o que Platão ensina!

Por isso; e pela sua castidade,
Deve ser goso intenso, na verdade,
Sentir fundir-se em nós seus olhos regios!..

E o goso de a beijar trémula, amante,
Deve ser quasi extranho! – e semelhante
Ao de fazer terriveis sacrilegios.
Gomes Leal
- Claridades do Sul
VISTORiA

Seria primeiro podridão fétida, depois uma pasta pegajosa, no fim uma poeira que se não distinguiria do outro pó. Aquilo por que éramos, sentíamos, conhecíamos, existíamos, nos podíamos tornar um corpo triunfante, acabava connosco, não nos sobrevivia: apenas durava mais o cabide daquilo, sem que sequer pudesse aguentar-se em pé. Revi o esqueleto que havia no liceu, pendurado numa haste de ferro, como um enforcado, e com os ossos presos uns aos outros por araminhos. E a vida era isso: a duração daquele conjunto de carne, pela qual a nossa consciência, as nossas faculdades, o nosso eu existia.
Jorge de Sena
- Sinais de Fogo (1979)

NOTICIÁRiO

Vianna da Motta

Temos por vezes dado notícia aos nossos leitores do progresso e aplausos que tem recebido em Berlim o jovem pianista Vianna da Motta, que ali está estudando a expensas de sua majestade El-Rei D. Fernando. Tendo entrado há três anos no Conservatório de Scharwenka, terminou neste curto espaço de tempo os seus estudos de piano, harmonia, contraponto, composição e orquestração. Talento privilegiado, não é só na música que se tem tornado notável. Nos seus estudos literários tem obtido louvor em quase todas as disciplinas e no fim do seu primeiro ano escolar no acto de distribuição de prémios foi apresentado como modelo de talento e aplicação perante numeroso auditório que assistia àquela festa imponente.

Não contente com o muito que tem conseguido nos seus estudos e desejando corresponder ao merecido conceito que se faz do seu talento, manifestou à senhora Condessa de Edla e a El-Rei D. Fernando o desejo de receber algumas lições de Liszt. Sua majestade, que se interessa vivamente por que o seu protegido seja o orgulho da sua nação e uma notabilidade europeia, acaba de lhe conceder a continuação dos seus estudos, enviando-lhe uma carta de recomendação para Liszt e autorizando o seu protegido a acompanhar o mestre nas suas viagens.
Saudamos sua majestade El-Rei D. Fernando e a senhora Condessa de Edla pelo muito que se interessam pelas artes do nosso país e damos os nossos parabéns aos pais do talentoso moço.
30AGO1885 - Diário de Notícias
MEMÓRiA

22ABR1868-01JUN1948 - José Vianna da Motta: Compositor português, pianista e pedagogo - «Uma das figuras mais importantes do panorama musical português, foi director do Conservatório Nacional de 1919 a 1938. Era um músico que, reunindo um conjunto de potencialidades artísticas e culturais, desenvolveu actividades musicais diversificadas. Embora seja mais conhecido como um brilhante pianista de craveira internacional, é também hoje lembrado como um distinto compositor, pedagogo e musicógrafo» (Teresa Castanheira).IMAG.48-115-158-175-182-187-513-625

1725-04JUN1798 - Giacomo Girolamo Casanova, aliás Giacomo Casanova: Escritor e aventureiro italiano - «Eu amei, fui amado, a minha saúde era boa, tive uma grande quantidade de dinheiro, fui feliz, e assim o confesso a mim mesmo.» (História da Minha Vida). IMAG.299-347-505-509-545

1919-04JUN1978 - Jorge Cândido de Sena, aliás Jorge de Sena: Escritor português, poeta e ficcionista, dramaturgo e ensaísta, professor universitário - «Esta é a ditosa pátria minha amada. Não. / Nem é ditosa, porque o não merece. / Nem minha amada, porque é só madrasta. / Nem pátria minha, porque eu não mereço / A pouca sorte de nascido dela.» (A Portugal - excerto).
IMAG.60-67-87-112-181-202-249-264-268-305-313-329-332-358-392-486-489-495-502-588-599

1910-04JUN1988 - Henrique Alves Costa: Crítico de cinema, fundador do Cine-Clube do Porto (1945) - «Um amigo de longos anos, companheiro na conversa, na boémia e, sobretudo, na paixão do cinema» (Manoel de Oliveira - 1998). IMAG.201-282-335

05JUN1898-1936 - Federico García Lorca: Poeta e dramaturgo espanhol - «A poesia é a união de duas palavras que nunca se supôs que se pudessem juntar, e que formam uma espécie de mistério». IMAG.38-108-173-404-526-576

06JUN1848-1921 - António Duarte Gomes Leal: Escritor português, poeta e crítico literário - «Eu sou um visionário, um sábio apedrejado, / passo a vida a fazer e a desfazer quimeras, / enquanto o mar produz o monstro azulejado / e Deus, em cima, faz as verdes primaveras!». IMAG.13-181-307-337-345-478-628

07JUN1848-1903 - Eugène-Henri-Paul Gauguin, aliás Paul Gauguin: Pintor francês, pós-impressionista - «Sendo a vida como ela é, apenas consigo sonhar em vingança». IMAG.48-183-459

07JUN1958-2016 - Prince Rogers Nelson, aliás Prince: Músico americano, compositor, letrista, multi-instrumentista, cantor, produtor, cineasta e actor, autor de Purple Rain (1984) - «No final de cada chuvada, há sempre um arco-íris». IMAG. 92-174-616

BREVIÁRiO

Universal edita em CD, sob chancela Deutsche Grammophon, Horowitz In Moscow pelo pianista Vladimir Horowitz (1903-1989).
 

segunda-feira, maio 01, 2017

IMAGINÁRiO #660

José de Matos-Cruz | 24 Maio 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO

CLÁSSICOS
Um dos mais fascinantes e misteriosos cineastas de todos os tempos, que sublimou o talento de autor europeu com o espectáculo ritualizado em Hollywood, Josef Von Sternberg (1894-1969) foi, no início dos anos ’50, incumbido por Howard Hughes de concretizar duas fitas, a cargo da RKO: Jet Pilot (1950) - apenas lançado entre nós em 1957, como Estradas do Inferno; e Macao (1952) - que nunca estreou comercialmente em Portugal, logo por óbvias razões geopolíticas. Longe iam já as cintilações de um vínculo mítico com Marlene Dietrich, até The Devil Is a Woman (1935); e mesmo a actividade primordial de Sternberg há muito esmorecera, após Aconteceu Em Xangai (1941). Aliás, o realizador austríaco estaria cada vez mais farto com as actuais condições de trabalho e dificuldades de produção - assumida em Macao por Alex Gottlieb, com argumento de Bernard C. Schoenfeld & Stanley Rubin, sobre enredo de Bob Williams. Consagrado como um fenómeno de génio e subversão, desde meados da década de ’20, em plena magia das imagens silenciosas, Sternberg abandonou a carreira pouco depois, sendo o seu título culminante The Saga of Anatahan (1953), a convite da indústria nipónica. A acidentada rodagem de Macao principiou em Setembro de 1950, antes de estar concluído Jet Pilot, mas só viria a público longos meses após a conclusão. IMAG.254-281-375-466-468

CALENDÁRiO

11JAN-09FEV2017 - Em Lisboa, Appleton Square apresenta Cielo y Luz - exposição de fotografia e vídeo de Augusto Alves da Silva. IMAG.648

1941-23JAN2017 - Gordon Fitzgerald Kaye, aliás Gorden Kaye: Actor inglês de rádio, cinema e televisão, intérprete de René Artois na série Allo’ Allo! / Alô, Alô (1982) - «Não haverá outro René» (Vicki Michelle).

26JAN2017 - Terratreme produziu, e estreia Ama-San (2016), documentário de Cláudia Varejão.

26JAN2017 - Leopardo Filmes produziu, e estreia O Divã de Estaline / Le Divan de Staline (2016) de Fanny Ardant; com Gérard Depardieu e Emmanuelle Seigner. IMAG.505

02FEV-05JUN2017 - Em Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian expõe Almada Negreiros [1893-1970], Uma Maneira de Ser Moderno, sendo curadoras Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos. IMAG.84-135-154-173-224-278-292-305-371-413-498-547-561-579-612-630-633

VISTORiA

Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam! Bárbaros agarram esse cão que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para te mostrarem as suas veias mesentéricas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos de sentimentos sem objectivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquires a natureza sobre tão impertinente contradição?
Voltaire
- Dicionário Filosófico (1764)

Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor. Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito de viver. Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número, de seres que o são apenas no sofrimento, no vegetar fisiológico de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixam-se ir assim, humildes, apagados, submissos, do berço ao túmulo – a ver, pacientemente, a vida que levam outros homens mais felizes.
Ferreira de Castro
- Emigrantes (1928) – Pórtico
MEMÓRiA

24MAI1898-1974 - José Maria Ferreira de Castro: Escritor português, cidadão do Mundo, autor de A Selva (1930) - «Eu devia este livro a essa majestade verde, soberba e enigmática, que é a selva amazónica, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida.» (Pórtico - 1955). 
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1922-25MAI2008 - David Gahr: Fotógrafo americano - «É impossível pensar na música popular americana dos últimos cinquenta anos, sem nos vir à cabeça uma fotografia tirada pelo Dave Gahr. As suas fotografias possuem qualidades líricas e íntimas, fossem tiradas com pose ou fossem espontâneas. Ele era um pioneiro, um divertido irascível, um sujeito formidável» (Henry Sapoznik). IMAG.201-387

1934-26MAI2008 - Sydney Irwin Pollack, aliás Sydney Pollack: Cineasta americano, actor e produtor - «Eu não nasci a pensar nos filmes como arte, mas apenas como filmes - algo que fosse para ser visto numa tarde de sábado». IMAG.200-331-357-364-434-471-473

28MAI1738-1814 - Joseph-Ignace Guillotin: Médico francês, ligado à execução pela guilhotina (1789), como meio de eliminar os tratamentos desiguais e os castigos bárbaros - «O criminoso será decapitado por efeito desse simples mecanismo, capaz de fazer saltar a cabeça num piscar de olhos». IMAG.291-333-465-560

28MAI1908-1964 - Ian Lancaster Fleming, aliás Ian Fleming: Escritor e jornalista inglês, agente da espionagem naval, criador de James Bond 007 (1952) - «Deveríamos viver duas vezes. Uma quando nascemos, e outra ao olharmos a morte de frente». IMAG.46-63-120-146-180-219-280-432

1694-30MAI1778 - François-Marie Arouet, aliás Voltaire: Escritor francês, filósofo iluminista, autor de Tratado Sobre a Tolerância (1762) - «Não é aos homens que me dirijo, é a ti, Deus de todos os seres, de todos os homens e de todos os tempos… Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem os nossos fracos corpos, entre os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados homens não sejam motivo de perseguição.». IMAG.28-180-270-295-388-491-593

31MAI1928-2013 - Édouard Camille Molinaro, aliás Édouard Molinaro: Cineasta francês, realizador de O Amor Faz-me Fome / La Mandarine (1972) - «Tinha gosto e competência para converter em campeões de bilheteira os sucessos do teatro de boulevard» (Les Inrockuptibles). IMAG.491

PARLATÓRiO

Guillotin
O senhor Guillotin, que conheci na sua velhice, não se conformava com aquilo a que chamava uma mancha inapagável na sua vida. A sua figura venerável enchia-se de tristeza profunda; e os seus cabelos, completamente brancos, testemunhavam tudo o que tinha sofrido. Ele queria aliviar a Humanidade, e contribuiu, sem ter previsto isso, para a destruição de um grande número de indivíduos. Se a morte destes tivesse sido menos expedita, talvez o povo se houvesse cansado mais cedo das execuções, às quais acorria como a um espectáculo.
Imperatriz Joséphine


A maioria dos grandes realizadores de cinema que conheço, não foram actores - por isso, não posso considerar que tal seja um factor essencial. No entanto, para mim tornou-se uma enorme ajuda.
Sydney Pollack

BREVIÁRiO

Tinta da China edita A Conquista das Almas de Aniceto Simões e Carlos Matos Gomes / Carlos Vale Ferraz. IMAG.3-197-616

Assírio & Alvim edita Poemas Escolhidos de José de Almada Negreiros (1893-1970). 
 
GALERiA

Almada Negreiros – Uma Maneira de Ser Moderno
Autor profuso e diversificado, Almada (1893-1970) pôs em prática uma conceção heteróclita do artista moderno, desdobrado por múltiplos ofícios. Toda a arte, nas suas várias formas, seria, para Almada, uma parte do espetáculo que o artista teria por missão apresentar perante o público, fazendo de cada obra, gesto ou atitude um meio de dar a ver uma ideia total de modernidade.
A exposição apresenta um conjunto de obras que reflete a condição complexa, experimental, contraditória e híbrida da modernidade. A pintura e o desenho mostram-se em estreita ligação com os trabalhos que fez em colaboração com arquitetos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores. Esta escolha dá também visibilidade à presença marcante do cinema e à persistência da narrativa gráfica ao longo da sua obra. Juntam-se ainda obras e estudos inéditos que darão a conhecer diferentes facetas do processo de trabalho artístico de José de Almada Negreiros.

EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS – Folhetim Aperiódico

MAL TORNA AO CRIADOR QUEM, SUJEITO, SE REFAZ - 8

Antes, Ofélia aderiu à diáspora lésbica. De sua imensa dor, extrairia os prazeres da absolvição. Gritando para as parceiras, enciumadas: «Eu nunca te menti sobre a minha condição!» Pois não. Só que estava diferente, devassada que foi um dia em sua ambiguidade carnal.
– Continua
 

quinta-feira, abril 20, 2017

IMAGINÁRiO #659

José de Matos-Cruz | 16 Maio 2018 | Edição Kafre | Ano XV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

CREPÚSCULOS
A vertigem mística/lúdica entre as luzes e as trevas, que rendeu os fanáticos americanos dos quadradinhos à sofisticação do imaginário nipónico, lograria uma ambígua recorrência sobre o Japão de 2032. Na cidade de Macropolis, os atropelos à lei e à ordem são demasiado numerosos, para haver tempo de os recensear ou catalogar. O próprio agente da polícia Tedashi Nagawa viu-se forçado a arquivar, na vida pessoal, um crime por resolver. Aliás, o seu quotidiano é um desastre, desafia todas as rotinas, e os colegas mais próximos têm o mau hábito de acabarem mortos. Até que chega, corpórea e deslumbrante, uma inspiração justiceira. Além de todos os ideais, ou das meras contingências humanas… Sob chancela Image Comics, eis Dark Minds (1998) - um clássico da fusão artística/mítica comics e mangà, entretanto convertido em vanguarda, sobre um futuro crepuscular ou virtual. Concebido por Ken Siu-Chong & Pat Lee, para a estilizada ilustração de Omar Dogan, Alvin Lee & Rob Ross, Dark Minds combina a realidade urbana sobre a lei e a ordem, com a saga fantástica de mutantes e ciborgues. IMAG.603

CALENDÁRiO

1941-14JAN2017 - Maria da Conceição Gomes Cabral, aliás Maria Cabral: Actriz portuguesa de cinema e teatro, radicada em Paris, intérprete de O Cerco (1970) - «Por estranho ou esquisito que pareça, não percebo nada de cinema do lado de trás da câmara» (1970).

19JAN2017 - NOS Audiovisuais estreia Silêncio / Silence (2016) de Martin Scorsese; sobre missionários portugueses no Japão do Século XVII, com Andrew Garfield e Liam Neeson. IMAG.27-41-44-61-67-81-85-109-134-217-244-246-400-414-490-639-643

21JAN-09ABR2017 - Em Lisboa, Pavilhão Branco da Galeria Municipal apresenta Prospecto. Princípio, Meio e Ultimação - exposição de André Guedes sobre o trabalho fabril (Covilhã), sendo comissário Juan de Nieves.

27JAN-19MAR2017 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Humanário - Do Génesis à Percepção Humana de Sílvia Patrício.

VISTORiA

Feliz é o destino da inocente vestal.
Sentir raiva é vingar-se das falhas dos outros em si próprio.
Feliz é a inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Toda a prece é ouvida, toda graça se alcança.
Alexander Pope


Noite Tropical

Desceu a calma noite irradiante
Sobre a floresta e os vales semeados:
Já ninguém ouve os cantos prolongados
Do negro escravo, estúpido e arquejante.

Dorme a fazenda: – apenas hesitante
A voz do cão, em uivos assustados,
Corta o silêncio, e vai nos descampados
Perder-se como um grito agonizante.

Rompe o luar, ensanguentado e informe,
Brotam fantasmas da savana nua…
E, de repente, um berro desconforme

Parte da mata em que o luar flutua,
E a onça, abrindo a rubra fauce enorme,
Geme na sombra, contemplando a lua.
Guimarães Júnior
- Sonetos e Rimas
(1880)

VISTORiA

Ah, despertar mais uma vez sem sentir as suas garras, por uma vez não ficar só e entregue ao medo! Sentir a respiração feliz do mundo!
Ah, viver mais uma vez!
Annemarie Schwarzenbach
- A Morte Na Pérsia
MEMÓRiA

1845-20MAI1898 - Luís Caetano Guimarães Júnior: Ficcionista e poeta brasileiro - (O coração que bate neste peito) «Quando eu cair, enfim, morto e desfeito, / Quando a hora soar lugubremente / Do repouso final, – tranquilo e crente / Irá sonhar no derradeiro leito». IMAG.503

21MAI1688-1744 - Alexander Pope: Poeta inglês - «É preciso ensinar aos homens como se não ensinasse realmente, / propondo-lhes coisas que não sabem como se as tivessem apenas esquecido». IMAG.468

1931-21MAI2008 - Bartolomeu Vilhena Cid dos Santos, aliás Bartolomeu dos Santos: Pintor português, gravador e professor de artes plásticas - «Levava os alunos ao Museu Britânico, dando-lhes a oportunidade de ver e tocar os originais de Rembrandt, Goya e outros, o que é raro num professor. Era uma pessoa única e um fantástico gravador… O seu trabalho ficará para sempre» (Paula Rego). IMAG.199-357

23MAI1908-1942 - Annemarie Schwarzenbach: Escritora, jornalista e fotógrafa suíça - «É uma personagem com tantas facetas, viajante, fotógrafa, romancista, poeta, que deveria existir nela algo para qualquer pessoa se interessar. Mas há um lado sulfuroso na vida que mascara a obra. O lado homossexual, toxicómano, aquela espécie de beleza andrógina nos retratos» (Dominique Laure Miermont). IMAG.200-394


Illustração Portugueza (1909)
ANTIQUÁRiO


20MAI1898 - Em Lisboa, e integrado nas Comemorações do IV Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, é inaugurado o Museu Aquário Vasco da Gama - sob os auspícios e com a presença de El-Rei D. Carlos I, e tendo como principal objectivo a divulgação da vida aquática.

INVENTÁRiO

UMA CIDADE, TEMPO DE CRISE

Em 1969, António da Cunha Telles registou um testemunho essencial de época e de geração: O Cerco, onde se revelou uma emblemática Maria Cabral. Então com 34 anos, e treze filmes já executados, o produtor / argumentista / realizador fundou, expressamente, a empresa Cinenovo, apoiado por «cinco técnicos, cada um deles acumulando várias das funções indispensáveis». Impressionante iniciação, para um autor diplomado em Paris pelo IDHEC / Instituto de Altos Estudos Cinematográficos. Vasco Polido Valente colaborou nos diálogos. Sob um olhar de cinismo e amargura, eis um tempo em Lisboa - entre dilemas, pretextos, artifícios. E uma jovem mulher. Privilégios, tensões, compromissos de classe, em crise social, do tédio à sobrevivência.
Entre os parâmetros de crónica e de documento, O Cerco comporta, pois, referências de tese - cujas implicações se repercutem pelos vectores do sexo e do dinheiro. Lucidez - uma abordagem realista? Inevitavelmente, focar é distorcer - ou diluir problemas, da emigração à guerra colonial. Como se anunciava, «Marta anda perdida na cidade… Acreditando que é uma coisa assim, que se respira ou basta estender a mão».
A rodagem foi iniciada com três mil escudos na carteira, só mais tarde chegando subsídio do Fundo do Cinema Nacional. Exibindo-se gente jovem, com actores revistos, e privilegiando interiores / exteriores naturais. O Cerco estreou no Estúdio, em Outubro de 1970, recebendo o Grande Prémio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo / SEIT, que contemplou também a Melhor Fotografia (Acácio de Almeida) e a Melhor Actriz (Maria Cabral). Antes, fora convidado por Henri Langlois, director da Cinemateca Francesa, a participar em manifestação do cinema mundial, que decorreu no Metropolitan Museum de Nova Iorque.

BREVIÁRiO

Presença edita O Eterno Marido de Fiodor Dostoievski / Fiódor Dostoiévski (1821-1881); tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. IMAG.220-281-297-310-321-377-383-506-519-585-593

Universal edita em CD, sob chancela Decca, Dmitri Shostakovich [1906-1975] / [Alexander] Glazunov [1865-1936]: Violin Concertos por Nicola Benedetti, com Bournemouth Symphony Orchestra, sob a direcção de Kirill Karabits. IMAG.100-266-408-499-526-580

Tinta da China edita A Vida Como Ela É… de Nelson Rodrigues (1912-1980); selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. IMAG.304-383