sexta-feira, julho 18, 2014

IMAGINÁRiO #514

José de Matos-Cruz | 8 Maio 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO      
INSPIRAÇÕES
«João de Deus tem a inspiração serena, espontânea, quase inconsciente… As suas poesias são verdadeiras flores do campo, mas das mimosas, das encantadoras na sua singeleza, das que, guardadas num álbum, conservam perfeitamente a delicadeza da forma, o colorido transparente da corola, o aveludado do cálice, a disposição encantadora das pétalas…» Assim o Diário de Notícias mencionava, em 1895, o poeta e pedagogo (1830-1896) - autor de Campo de Flores e criador do método de leitura Cartilha Maternal - a quem José Ruy presta homenagem em João de Deus - A Magia das Letras, sob chancela Âncora Editora, e com versão em mirandês, La Magie de las Letras, em tradução por Amadeu Ferreira.
A vertente histórica, de reflexão ou testemunho, continua a ser, em quadradinhos, uma das alternativas mais aliciantes e populares - graças ao artista talentoso e versátil, que vem ilustrando, solidário, o testemunho cultural, os desafios singulares e os ideais colectivos, ao delinear a expressão e o carácter com que nos posicionamos, na realidade.
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MEMÓRiA
¨08MAI1705-1739 - António José da Silva, o Judeu: Dramaturgo brasileiro - «Zombando se diz as verdades…». IMAG.34-66-183-247-443

¨1893-08MAI1975 - Dino Segre, aliás Pitigrilli: Jornalista e escritor italiano - «A medicina é a arte de acompanhar a vítima, com palavras gregas, à derradeira morada». IMAG.417

¯10MAI1495 - O patriarca da hospitalidade, São João de Deus nasce em Montemor-o-Novo; ali foram erigidos igreja e convento «da religião que o santo fundara», tendo falecido em Granada, em 08MAR1550. 10MAI1865 - Diário de Notícias. IMAG.266

1900-11MAI1985 - Chester Gould: Autor americano de banda desenhada, criador de Dick Tracy (1931) - «Convenci-me de que, se a polícia não conseguia capturar os bandidos, tinha eu de criar um herói capaz de lhes dar caça». IMAG.24-151-277-341

¯12MAI1845-1924 - Gabriel Fauré: Compositor francês, autor de Requiem Op. 48 - «A sua concepção resultou de um prazer pessoal».

¢1901-12MAI985 - Jean Dubuffet: Pintor francês, teórico da criatividade crua e bruta - «A arte dirige-se à mente, e não ao olhar. Sempre foi considerada com este significado pelos povos primitivos, e eles tinham razão. A arte é um idioma, o mecanismo do conhecimento, o instrumento da comunicação».

¨1856-14MAI1925 - Henry Rider Haggard, aliás H.R. Haggard: Escritor britânico, autor de As Minas de Salomão (1885) - «O Todo-Poderoso concedeu-nos as nossas vidas, e suponho que Ele esperaria que nós as protegêssemos… Pelo menos sempre agi nesse sentido, e espero não me ter enganado, quando a minha hora soar». IMAG.35-261

15MAI1915-2009 - Paul Samuelson: Professor universitário, Prémio Nobel da Economia em 1970 - «Transformava tudo o que tocava: os fundamentos teóricos de sua área, o modo como a economia foi ensinada em todo o mundo» (Susan Hockfield). IMAG.283-421
      
CALENDÁRiO
¢1940-12MAI2014 - Hans Rudolf Giger, aliás H.R. Giger: Artista plástico suíço, pintor, escultor e designer, ligado ao surrealismo e ao fantástico, colaborador em Alien, o 8º Passageiro (1978 - Oscar aos Efeitos Visuais) - «O que eu pinto, está para além das palavras».

¸15MAI2014 - Bando à Parte produziu, e estreia 1960 de Rodrigo Areias; com Fernando Távora. IMAG.284-414

31MAI-15JUN2014 - Em Beja, decorre o X Festival Internacional de Banda Desenhada, sendo director Paulo Monteiro. IMAG.36-250-305-416

VISTORiA
®Júpiter: Ai, Mercúrio, que este raio que ignominiosamente adorna a minha omnipotente dextra é o que agora se fulmina contra o meu peito! Não é esta aquela trissulca chama que devorou a soberba dos Ancélados e Tifeus; é, sim, a frágua de todos os raios, a fúria de todas as fúrias e o estrago de todos os estragos; e, para melhor dizer, é o simulacro de Cupido, cuja voadora seta, penetrando as eminências do monte Olimpo, sacrilegamente atrevida, chegou a penetrar a imunidade de meu peito; e assim, como ofendido e lastimado, já que nesse rapaz tirano, nesse monstro, nesse Cupido, não posso vingar o mal que padeço, quero ao menos na sua estátua debuxar as linhas da minha vingança.
António José da Silva
- Anfitrião ou Júpiter e Alcmena
(excerto)

TRAJECTÓRiA
H.R. HAGGARD
¨Sir Henry Rider Haggard (1856-1925) nasceu em Bradenham, condado de Norfolk, Inglaterra, oitavo entre dez irmãos. Ao contrário deles, foi enviado para uma escola pública para concluir os seus estudos, porque o pai via nele alguém que «não ia chegar a parte alguma» e achava não ter meios para continuar a pagar-lhe uma educação privada. Após falhar a entrada no exército, é enviado para um explicador privado, em Londres, de modo a preparar o exame de admissão ao British Foreign Office, no qual nunca chega a ingressar. Em vez disso, é enviado para a África do Sul, com uma posição não remunerada, como assistente do secretário do vice-governador da colónia do Natal. Em 1878, torna-se escrivão do Supremo Tribunal do Transval e escreve ao pai, indicando que tenciona regressar a Inglaterra e casar. O pai proíbe-o de o fazer, até ter logrado uma carreira. Quando regressa a Inglaterra, casa com uma amiga da irmã, Mariana Margitson, volta para África e tem três filhas, entre as quais Lilias Haggard, que viria a escrever a sua biografia (The Cloak That I Left). Regressa a Inglaterra em 1882, e instala-se em Norfolk. Haggard dedica-se ao estudo de Direito e começa a exercer em 1884. Fraco advogado, passa grande parte do tempo a escrever romances, algo que considera mais lucrativo. Influenciado pelos grandes exploradores da África colonial, e as ruínas de antigas civilizações perdidas, cria a personagem Allan Quatermain. Envolve-se na reforma da agricultura e é membro de muitas comissões territoriais, trabalho que lhe proporciona diversas viagens às colónias e possessões inglesas. É armado Knight Bachelor em 1912, e Knight Commander of the Order of the British Empire em 1919. Escritor prolífero deixa atrás de si um total de setenta e três obras.
     
COMENTÁRiO
À medida que se consome mais do mesmo bem, a utilidade (psicológica) total aumenta. Contudo, com novas unidades sucessivas do mesmo bem, a sua utilidade total crescerá a uma taxa cada vez mais lenta devido a uma tendência fundamental da capacidade psicológica de as pessoas se tornarem menos entusiastas ao apreciarem mais do mesmo bem.
Paul Samuelson
- Economia
(excerto)

INVENTÁRiO
UNIVERSO ALIENS
¸De um modo aliciante, o fantástico é um dos géneros que melhor reflectem as virtualidades do imaginário, sob os auspícios da ficção científica: em quadradinhos, pelo talento e engenho artístico; no cinema, graças também ao prodígio dos efeitos especiais. Verificam-se, assim, sugestivas transposições - através de um cruzamento entre estes dois modos artísticos, de criatividade e entretenimento.
Num panorama americano, tal fenómeno tornou-se cada vez mais significativo, ao envolver várias companhias associadas, nas vertentes edigráfica e audiovisual, tendo em vista um mercado potencial e recorrente, quanto à oferta de produtos especializados. Do ecrã para o papel, a saga Alien converteu-se num exemplo fecundo e sugestivo, pela conexão entre a 20th Century-Fox e a Dark Horse Comics.
Quatro filmes exploraram distintas implicações bélicas e de terror - sobre o confronto épico entre colonos humanos e uma raça extraterrestre, pela sobrevivência em dimensões alternativas do tempo e do espaço: Alien, o 8º Passageiro (1978 - Ridley Scott), Aliens, o Recontro Final (1986 - James Cameron), Alien, a Desforra (1992 - David Fincher) e Alien, o Regresso (1997 - Jean-Pierre Jeunet).
Extrapolando a concepção original de Dan O’Bannon, Aliens foi título para uma publicação periódica, em banda desenhada, na qual colaboraram diversos argumentistas e ilustradores. A feroz criatura, concebida por H.R. Giger, expandiu-se como símbolo duma ameaça totalitária e monstruosa - que, em 1989, se repercutiu numa mini-série primordial, por Mark Verheiden & Mark A. Nelson.
Outras variantes, nos anos ’90: Alien 3 - adaptação da sequela, por Steven Grant, Christopher Taylor & Rick Magyar; Newt’s Tale - por Mike Richardson & Jim Sommerville, sobre história de Cameron; Colonial Marines - uma exacerbação do mito, por Chris Warner, Tony Atkins & Paul Guinan; e Aliens Vs. Predator - por Warner & Randy Stradley, pondo em confronto duas abominações galácticas.

BREVÁRiO
¨Dom Quixote edita Tudo Passa de Vassili Grossman (1905-1964); tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. IMAG.408-482

¯Megamusica edita em CD, sob chancela Alia Vox, Diego Ortiz [1510-1570]: Recercadas del Tratado de Glosas por Jordi Savall, Ton Koopman e Andrew Lawrence-King.

¨Vega edita O Peregrino Encantado de Nikolai Leskov (1831-1895); tradução de Natália Vakhmistrova. IMAG.506

¯Hyperion edita em CD, Gabriel Fauré [1845-1924]: Piano Music por Angela Hewitt. IMAG.319-489


sábado, julho 12, 2014

IMAGINÁRiO #513

José de Matos-Cruz | 1 Maio 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
SUBVIVÊNCIAS
Segundo as convenções romanescas da arte norte-americana, o imaginário criminal é a preto-e-branco. Por um lado simbolicamente, quanto aos contrastes radicais entre o bem e o mal; e também por motivos cinéfilos, na tradição no filme de gânguesteres configurada em Humphrey Bogart. Entre tais nexos éticos e estéticos, Jacques Tardi veio propor um estilo híbrido, através de Griffu - um cinzento neutro, tal como se perverteu o conflito eterno das luzes contra as trevas; uma sombria gama gráfica, em que se dissimula a fauna urbana de vigaristas, escroques, chantagistas… Afinal, só a violência é vermelha como a cor do sangue, cujo sabor seco e salgado também escapa à banda desenhada.
Nascido vítima em 1977 e, entretanto, alvo de muitas mortes como cobrador de dívidas, este anti-herói logra sobreviver entre a miséria humana, a marginalidade social, enfrentando cada ameaça como um patético fio de intriga, em que acaba por se enforcar. O dito é simbólico, menos grotesco que uma bala real de calibre 22! Mas tanto faz, num mundo que - para o argumentista Jean-Patrick Manchette - «entre 1920 e os dias de hoje, é totalmente dominado por sacanas». Ou, como remata Tardi, eis «uma história de gente corrupta e vilões da pior espécie». IMAG.312-336-347

CALENDÁRiO
¸08MAI2014 - Pandora Filmes estreia As Ondas de Abril/Les Grandes Ondes de Lionel Baier; com Francisco Belard e Valérie Donzelli.

¯1939-08MAI2014 - Jair Rodrigues de Oliveira, aliás Jair Rodrigues: Cantor brasileiro, intérprete de Deixa Isso Pra Lá - «Vai deixar, além da grande história, o seu sorriso contagiante!» (Tico Santa Cruz).

VISTORiA
À Noite
¨Faz baixar, radiante deus – há campos sedentos
Do frescor do orvalho, homens tombam combalidos,
Lassos deslocam-se os corcéis –
Vem, faz baixar à terra o teu carro.

Vê quem, das ondas cristalinas do mar,
Meiga, a sorrir te acena! O imo diz-te quem é?
Mais céleres voam os corcéis,
Vê, Tétis, a divina, acena-te.


Rápido, o condutor logo do carro desce,
Nos braços dela cai, Cupido assume a rédea,
Inertes mantêm-se os corcéis,
Da torrente embebe-se a frescura.

Elevada pelos céus, em seu silencioso passo,
Baixa, olorosa, a noite; a ela segue-se o lasso
Amor. Ah, sim, descansai e amai!
Febo, o amante, a repousar está.
 Friedrich Schiller

Sonho da Rosa
¨Se me recordas, entristeço e faço
por que o teu vulto sensual me esqueça
e o teu olhar, a tua boca, e essa
graça de graça que tu pões no passo.

Sonho-fumo esgarçando-se no espaço –
nas mãos em concha amparo-te a cabeça,
e sem que a minha boca desfaleça
beijo-te a boca e cinge-te o meu braço.



Já, no jardim deserto da tristeza,
vens aos meus olhos como a luz acesa
que uma penumbra dolorida apaga…

Vai-se extinguindo o meu desejo… Olha:
tu foste a rosa que ao abrir se esfolha,
nuvem perdida que no céu divaga…
 Branquinho da Fonseca
- Poemas (1926)

ITINERÁRiO
VIEIRA PORTUENSE
- Carreira Demasiado Efémera
¢ Francisco Vieira nasceu no Porto em 1765. Aos 17 anos matricula-se como aluno extraordinário na Aula Régia de Desenho e Figura, em Lisboa. Dois anos mais tarde está em Roma onde obtém um 1.º prémio de Desenho. Aí frequenta o atelier de Domenico Corvi. Aos 29 anos dá aulas de Pintura na Academia de Belas Artes de Parma. Viaja muito, frequenta cortes europeias e, em 1799, executa grandes pinturas religiosas para a Ordem Terceira de S. Francisco do Porto. Com 37 anos o pintor pronuncia o discurso inaugural da Academia de Desenho e Pintura e é nomeado pintor da Real Câmara, para executar com Domingos Sequeira pinturas do Palácio da Ajuda. Morre em 1805, no Funchal, com 39 anos.
FEV2009 - Diário de Notícias

MEMÓRiA
¨04MAI1905-1974 - António José Branquinho da Fonseca: Ficcionista, poeta e dramaturgo português, filho de Tomás da Fonseca - «Quer como poeta, quer como dramaturgo, ficaram-se devendo a Branquinho da Fonseca algumas das mais positivas realizações do nosso vanguardismo pós-modernista. Nos três primeiros anos da Presença, foram precisamente os seus versos - a par dos de Edmundo de Bettencourt e dos do António de Navarro desse período - os que melhor documentaram a inquieta continuidade do espírito do Orpheu» (David Mourão-Ferreira). IMAG.131-407-465

®05MAI1925-2010 - Jaime Salazar Sampaio: Poeta e dramaturgo português - O seu teatro era «um acto de resistência contra a censura, o que explica em parte a ambiguidade e o hermetismo dos seus textos de antes da revolução» (Maria João Brilhante). IMAG. 235-298-299-307-427

¸06MAI1895-1926 - Rodolfo Alfonso Raffaello Pierre Filibert Guglielmi di Valentina D'Antonguolla, aliás Rodolfo Valentino: Actor italiano radicado nos EUA - «Generalizar sobre as mulheres, é perigoso. Especificar sobre elas, é infinitamente pior».

¸06MAI1915-10OUT1985 - Orson Welles: Cineasta americano, actor e encenador - «Em relação aos meus filmes, creio que não se baseiam tanto numa busca como numa pesquisa… Se estivermos à procura de algo, o labirinto é o local mais adequado para a investigação». IMAG.33-44-120-186-188-231-238-243-266-272-326-332-333-373-397-424-468

¨07MAI1925-2008 - Luiz Pacheco: Escritor português - «De entrevista em entrevista é a mesma chapa, vêm com perguntas de chapa. É como a outra: “O que é que você pensa da juventude de hoje?” Eu não penso nada, eu nem conheço os meus filhos…» (a Guilherme Pereira). IMAG.68-180-198-312-411

¢13MAI1765-02MAI1805 - Francisco Vieira de Matos, o Vieira Portuense: Pintor de elementos históricos e paisagísticos, lente de desenho na Academia de Desenho e Pintura do Porto. IMAG.34

¨1759-09MAI1805 - Friedrich Schiller: Poeta e filósofo alemão - «O que rejeitares do momento, / Eternidade nenhuma o restituirá!». IMAG.71-252

PARLATÓRiO
¨As palavras ditas sem reflexão, inspiradas pela cólera, não lançam raízes em parte alguma; porém, quando sugeridas pelo ciúme, alastram quais plantas parasitas, crescem e deitam ramagem sobre a árvore que é o coração, ensombrando-o.
Friedrich Schiller

®O tema do deslumbramento da personalidade encontra-se em inúmeras das minhas peças.
[A influência do teatro do absurdo] é inegável. Não ao nível da componente metafísica, mas das técnicas do diálogo e das situações. Ponho em cena, normalmente, homens isolados que, remotamente, se quereriam integrar mas não sabem como.
Jaime Salazar Sampaio

ANTIQUÁRiO
05MAI1835 - É criado o Conservatório de Música, instalado na Casa Pia de Lisboa. Em 1836, foi instituído o Conservatório Geral de Arte Dramática - que, com a incorporação do Conservatório de Música, foi seccionado em Escola de Música e Escola de Teatro e Declamação (que incluía a Dança), a cargo dos seus mentores iniciais, João Domingos Bomtempo e Almeida Garrett, e instalado no Convento dos Caetanos. IMAG.13-40-64-100-164-171-175-187-213-383

BREVÁRiO
¯Tradisom edita em CD, José Viannada Motta [1868-1948] - Canções, Lieder, Romanzas pela soprano Ana Maria Pinto e pelo tenor João Rodrigues, com o pianista Nuno Vieira de Almeida. IMAG.158-175-182-187


EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico
                                
ATRAPALHADO NA CARCAÇA
O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 7
Moedinhas a tilintar, atiradas para o avental garrido de Graciosa, eram o seu melhor despertador. E o próprio Damião tinha um gesto reflexo de estender a manápula, caso pressentisse aproximar-se alguma alma caridosa. Nem um tostão caía em saco roto.
Ao pôr da tarde, lá se arrastava aquele par ímpar, de preferência até à Mercearia Flor Silvestre - dobrada a Esquina dos Gatos, no coração de Alfama. O Senhor Florêncio da Silveira tinha toda a paciência para lhes trocar os caóticos montes de metal por umas quantas tiras de papel, saindo ambos a ensalivar os dedos já excitados para contar as notas. Com estas, faziam uns rolinhos que, depois, guardavam ciosamente, envoltos em pratas de cigarros.
Continua

domingo, julho 06, 2014

Artistas d'O Infante Portugal nos XII Troféus Central Comics

Vários artistas que me deram a honra de ilustrar a saga d’O Infante Portugal (2007-2010-2012), estilizando e inspirando as suas implicações e desenvolvimentos com peculiar talento e sensibilidade, estão entre os nomeados para o concurso dos XII Troféus Central Comics, cujo escrutínio público termina dia 10 Julho:
- Diniz Conefrey para Melhor Argumento e Melhor Artista, e o seu álbum O Labirinto da Água (Quarto de Jade) para Melhor Publicação Nacional;
- João Mascarenhas, enquanto editor, tem a concurso o fanzine BDLP #3 (Extratus/Olindomar) em Melhor Publicação Independnete;
Ricardo Cabral concorre com Comic-Transfer (Polvo), em Melhor Publicação Relacionada;
- Susana Resende para Melhor Obra Curta por “Sayonara” (in Zona Nippon 2 - Associação Tentáculo);
- Catherine Labey, Baptista Mendes, João Amaral, Luís Diferr, Rui Lacas e Zé Manel têm uma prancha autoconclusiva incluída em Efeméride #6 – Super-Heróis no séc.XXI, parte 1 (Geraldes Lino).

Os Troféus Central Comics incidem sobre as melhores obras de BD, profissionais e amadoras, e os autores publicados em Portugal no ano transacto. A intervenção de um júri composto por personalidades de reconhecido mérito, no nosso mercado de banda desenhada, apresenta aos leitores e aos profissionais do sector um leque de categorias em que as preferências e os votos da maioria determinam os vencedores, os quais serão anunciados no próximo dia 12 (Sábado), durante o Central Comics Fest, no Porto.

Actualização:
Os vencedores do XII Troféus Central Comics foram revelados também online, no respectivo portal. Para conhecer todas as estatísticas da votação, visitem este LINK.

sexta-feira, julho 04, 2014

IMAGINÁRiO #512

José de Matos-Cruz | 24 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
ASSOMBRAÇÕES
Prosseguindo a sua deambulação - no exílio de todas as consciências sobre um passado de pesadelo, em busca da dimensão íntima que lhe restitua o ideal de paz - Luís Ferchot trocara o Velho Continente pelo Novo Mundo. Entre os becos de Harlem, pelas docas de Brooklyn ou na penitenciária de Sing-Sing, o inferno humano foi-lhe mostrado em Nova Iorque. Pelo final de Leo, um Luís maduro mas perturbado voltou a atravessar o Atlântico, até Paris, ao encontro de um irmão que desconhecia, porém capaz de desvendar-lhe os volúveis laços familiares. Mas nem tudo correu bem, e os dois tiveram que escapar para Espanha - como Etchezabal nos desvendou, por 1936, em plena Guerra Civil. Um ano depois, no mês de Julho, Luís e a fotógrafa americana Kim tentam opor-se aos sabotadores da rectaguarda, A Quinta Coluna. Nesse volúvel conflito entre opressão ou dignidade, violência ou rebelião, a aprendizagem da liberdade definir-se-á como a lição mais perturbante, no palco da história… Eis fragmentos de Luís Má Sorte /Louis la Guigne (1982) - um clássico da banda desenhada franco-belga, concebido por Frank Giroud (texto) & Jean-Paul Dethorey (ilustração). Um relato denso, complexo, sobre heróis precários, assombrados pela realidade e as memórias ancestrais. IMAG.4-16-20-46-125

CALENDÁRiO
24OUT1925-29ABR2014 - Albert Bernard Feldstein, aliás Al Feldstein: Argumentista e ilustrador americano, editor de Mad (1956-1985) - «Foi responsável pelo imenso sucesso da Mad nas décadas de 50, 60 e 70, quando a revista viveu a sua era de ouro, fixando a sua identidade editorial, alcançando tiragens de quase três milhões de exemplares, destacando-se como um viveiro de talentos e impondo-se como a mais destemida, influente e divertida publicação satírica dos EUA» (Diário de Notícias).

¢1934-02MAI2014 - Rui-Mário de Melo e Sousa Gonçalves, aliás Rui Mário Gonçalves: Ensaísta português, crítico e divulgador de artes plásticas, professor universitário - «Pertencia à aristocracia do pensamento, daquela que é cada vez mais rara em Portugal. Um pedagogo brilhante, cujas aulas estavam sempre lotadas de alunos, porque ele sabia transformar qualquer conteúdo numa coisa apaixonante» (Maria João Cantinho). IMAG.84-454

¸08MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Nirvana de Tiago P. de Carvalho; com Catarina Urbani e Daniel Martinho.

¸08MAI2014 - Terratreme produziu, e estreia Vida Activa de Susana Nobre.

¸O8MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Fátima No Mundo de Manuel Arouca.

MEMÓRiA
¸1911-25ABR1995 - Virginia Katherine McNath, aliás Ginger Rogers: Actriz, bailarina e cantora americana - «Uma parte da alegria de dançar, está na conversa. O pior é que alguns homens não sabem falar e dançar ao mesmo tempo». IMAG.40-331-377-415

¸27ABR1935-2012 - Theo Angelopoulos: Cineasta grego - «Os filmes pré-existem. Eu apenas os faço. Obedeço a alguma força que diz “vá lá, faz”. Não me perguntem por quê. As explicações muitas vezes tiram o mistério, o senso da poesia». IMAG.287-393

¢28ABR1855-1933 - José Malhoa: Pintor português - «Deu-se bem em todos os ciclos políticos, pintou a nobreza e o povo e, com a sua cotação, ia esvaziando os espaços de exposição para os outros artistas, que tiveram de começar a procurar locais alternativos, como a Brasileira» (Sara Pereira). IMAG.54-198-208-312-440

¨30ABR1845-1894 - Joaquim Pedro de Oliveira Martins: Escritor, político e historiador português - «O homem, conforme existiu, está para ele como o vaso está para a essência, ou para a crisálida o casulo». IMAG. 15-90-214-319-479

¾30ABR1935-2004 - José Manuel Bastos Fialho Gouveia: Profissional da rádio, apresentador da televisão, co-autor do programa A Visita da Cornélia (1977) - «Um comunicador que ajudou a revolucionar a tv» (Diário de Notícias). IMAG.14-485

VISTORiA
…Não admira, pois, que desde então Camões ficasse na alma popular como símbolo da nação, e Os Lusíadas como a sua bíblia. Não admira que tivesse passado à condição de epónimo desta pequena pátria, tão semelhante a Atenas, e mais ainda a Esparta, na agitação da sua vida política, na grandeza da sua missão colonial, e também na miséria fúnebre da sua decomposição.
Não admira que, desde o século XVII, por toda a parte onde surgisse, de entre as ruínas do edifício nacional, algum fuste de coluna ainda de pé, ou algum friso inteiro onde se visse correr agitada a tragédia de outras eras; por toda a parte onde se erguesse do matagal de urzes e cardos da história a haste florida de uma açucena de saudade ou de esperança, a corola dessa flor ou a forma dessa evocação, tivesse o perfume e a cor dos Lusíadas e se considerasse uma revelação de Camões o paracleto português. Cantando os Lusíadas, os últimos leões da Índia defenderam Columbo perdidamente; e no nosso século o invasor, querendo regalar-nos como César, prometia-nos um Camões para cada província.
Camões e D. Sebastião, os Lusíadas e Alcácer Quibir, eis aí os dois homens e os dois actos que ficaram para serem gravados na imaginação colectiva, como uma fé e uma esperança, como um mandamento e um cativeiro. Este Israel do extremo ocidente, em que a plasticidade da imaginação grega se fundira com a tenacidade obscura do fenício e com o profetismo genial do judeu, possuía afinal a sua bíblia, e também chorava as ruínas do Templo, ajoelhado aos pés do vencedor que transformara Sião numa Babilónia castelhana. O sebastianismo que foi a religião lusitana, forma epilogal do nossa patriotismo, veio até os dias de hoje propondo Camões como o precursor de tudo quanto há mais avesso ao pensamento próprio do poeta.
Fazer-se um profeta da democracia o homem em cujo cérebro ferviam os pensamentos clássicos da monarquia universal, não é mais contraditório do que arvorar-se em apóstolo do livre-pensamento aquele que levou a vida no ardor do combate religioso contra o mouro e a acabou desvairado pela quimera da conquista do Santo Sepulcro, ardendo em indignação contra os luteranos, aceso sempre em uma fé inexgotável.
E todavia, este contra-senso é só aparente e exterior. No fundo, o erro é um acerto; e a crítica, se o não dissesse, provaria um limite de vistas incapaz de descortinar as miragens vagas da imaginação dos povos. A consagração histórica de Camões vem ainda moldar-se no processo remoto pelo qual os deuses foram abstraídos da consciência nebulosa das gentes primitivas. A magia das palavras e dois ou três momentos sintéticos da vida, tanto basta para que a imaginação plástica levante um mito e de uma suposta realidade à visão dos próprios desejos que passou, aérea, nos horizontes do espírito. Essa nuvem toma corpo, a apoteose substitui-se à biografia; e a imagem verdadeira do homem que foi some-se, deixando em seu lugar a figura que o povo abstraiu da iluminação dos próprios corações.
Não admira, pois, que nós próprios, ao pretender pôr de pé a figura de Camões, obedecêssemos à vibração transmitida, e que, amalgamando a lenda com a história, déssemos porventura significado e proporções demasiadas a factos e estados de alma comezinhos. Talvez a nossa vista amplificasse as proporções da imagem, impressionada pelo prestígio que essa imagem exerce nas imaginações. Talvez; mas, se assim for, não nos arrependemos dessa culpa. Por patriotismo, em primeiro lugar; e por amor à crítica, em segundo.
Oliveira Martins
- Camões, Os Lusíadas e a Renascença Em Portugal
(1872, excerto)

PARLATÓRiO
¸Não sei se os meus filmes são memórias históricas. São réquiens, mas sem o tom fúnebre, não são lamentos pela morte de um período. No livro A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson, uma frase é sempre repetida: «Não nos rendemos. Continuamos…». É um réquiem, mas não nos rendemos, continuamos.
Theo Angelopoulos
(2011)
       
ANTIQUÁRiO
ü26ABR1925 - O coronel britânico Percy Harrison Fawcett, cartografista e explorador, penetra na selva da Amazónia, em busca dos vestígios da civilização Z, que presumia altamente culta e desenvolvida, tendo ao longo dos anos estabelecido um método próprio de abordagem ao «inferno verde». Não voltou a aparecer, tendo inspirado Sir Arthur Conan Doyle à escrita do romance O Mundo Perdido (1912). IMAG.17-66-71-116-128-140-184-227-281-298-487

29ABR1865 - O activo/passivo do Banco de Portugal é de 18:551:049$790 réis, sendo o seu capital de 8:000:000$000 réis.
 
COMENTÁRiO
¢Só visando o alargamento dos seus horizontes imaginéticos o homem pode entender e utilizar os símbolos para a sua autoexpressão no mundo.
Rui Mário Gonçalves
- Primeiro Olhar

BREVÁRiO
¨Dom Quixote edita A Infância de Jesus de J.M. Coetzee; tradução de J. Teixeira de Aguiar. IMAG.216

¯Harmonia Mundi edita em CD, Giovanni Battista Pergolesi [1710-1736]: Septem Verba a Christo por Akademia für Alte Musik Berlin, sob a direcção de René Jacobs. IMAG.296-318-327-387-490

¨Sistema Solar edita Bruges-a-Morta de Georges Rodenbach (1855-1898); tradução de Aníbal Fernandes.



      
EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico         

ATRAPALHADO NA CARCAÇA  O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 6
Um instante, porém, e Graciosa estava, já, absorta no vazio embaciado que era a sua pasmaceira crónica. Com um turvo bocejo, o contrafeito Damião recolheu-se ao mesmo torpor letárgico.
Ambos ficariam assim uma eternidade, como se vagueassem pela fronteira híbrida entre a razão ausente e a terra de ninguém. Seres e senhores de um exílio mutante, como humano ou animal.

Continua