Na recta final da Colecção Charlie Chaplin – 125
Anos, publicada por Levoir/Ideias
e Conteúdos, em parceria com o jornal O
Público (onde é distribuída todas as sextas-feiras, de 2 de Maio a 4 de
Julho), destaco aqui a minha participação nesta, onde sou creditado como
consultor, sendo a autoria do jornalista e crítico de cinema Mário
Augusto.
Esta edição comemorativa, composta por dez livros e
dez DVDs com os seus principais filmes, dá a conhecer diversos episódios da vida e obra
do genial e célebre “vagabundo,” tornado um ícone do cinema mundial. Os volumes
continuam disponíveis no website das colecções do jornal O Público.
José de Matos-Cruz | 8 Abril 2015 | Edição Kafre |
Ano XII – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
FASCINAÇÃO
Segundo as virtualidades
de Hollywood, cada matriz fílmica é eterna - a multiplicação das suas cópias
permite uma ressurreição, através de sucessivas projecções. Expectativas
transfiguradas sob o signo de Supercalifragilisticexpialidocious, em Mary Poppins (1964) com realização de Robert Stevenson, cuja Edição do 50º
Aniversário celebra a nostalgia e o encanto. Poucas vezes o sonho e a fantasia
combinaram, com tal frescura e graciosidade, num espectáculo segundo os modelos
de Walt Disney: aqui estaria, aliás, o seu testemunho último - apoteose
musical, em que a magia do universo infantil e os mitos de um imaginário adulto
se congregam, em termos de inspiração e criatividade… Cor, coreografia,
fotograma real e figuração animada, um diálogo aliciante e o entretenimento
lírico - eis uma obra-prima culminante do género romântico, que encontra em
Julie Andrews - galardoada com o Óscar da Melhor Actriz, entre outras
distinções técnicas e criativas (efeitos visuais, montagem, banda sonora,
canção) - a intérprete ideal, porque admirável de talento e histrionia.
CALENDÁRiO
¸24ABR2014 -
Filmógrafo produziu, e estreia Pecado Fatal de Luís Diogo; com João Guimarães e Sara Barros Leitão.
®1942-29ABR2014 -
Robert William Hoskins Jr, aliás Bob Hoskins: Actor inglês de teatro, televisão
e cinema, com carreira em Hollywood - «Fiz tantos filmes que, às vezes, até me
esqueço de alguns em que entrei». > IMAG.125
que saí dos limites da minha cela
tranquilo, alegre e firme
como um senhor da sua mansão de campo.
Quem sou?
Frequentemente dizem-me
que costumo falar com os
guardiães da prisão confinada,
livre e claramente, como
se eu desse as ordens.
Quem sou?
Também me dizem
que superei os dias de
infortúnio
orgulhosa e amavelmente,
sorrindo,
como quem está habituado a
triunfar.
Sou, na verdade, tudo o que os outros dizem de mim?
Ou sou somente o que eu sei de mim mesmo?
Inquieto, ansioso e enfermo, como uma ave enjaulada,
pugnando por respirar, como se me afogasse,
sedento de cores, flores, canto de pássaros,
faminto de palavras bondosas, de amabilidade,
com a expectativa de grandes feitos,
temendo, impotente, pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio de orar, de pensar, de fazer,
exausto e disposto a dizer adeus a tudo.
Quem sou? Este ou aquele?
Um agora e outro depois?
Ou ambos de uma vez?
Hipócrita perante os demais
e, diante de mim mesmo, um débil acabado?
Ou há, dentro de mim, algo como um exército derrotado
que foge desordenadamente da vitória já alcançada?
Quem sou?
Escarnecem de mim tais solitárias perguntas minhas;
seja o que for,
Tu o sabes, ó Deus: sou Teu!
- Dietrich Bonhoeffer
VISTORiA
¨Nos
tempos da nossa grandeza, quando o leão do Ocidente, estendendo as garras por
cima do Atlântico, segurava numa delas, fremente e subjugado, o opulento
Indostão, e com a outra domava as convulsões desesperadas da hiena marroquina,
tínhamos por acaso na Europa a influência que nos deviam dar os imensos
recursos que as nossas conquistas nos subministravam? O oiro da África e da
Ásia prestou a D. Manuel os serviços que o oiro americano prestou a Carlos V? O
imenso comércio das Índias deu-nos por acaso na Europa a influência marítima,
que tinha dado outrora à república veneziana?
Manuel Pinheiro Chagas
- As Duas Flores de Sangue
(1875 - excerto)
MEMÓRiA
¨1842-08ABR1895 - Manuel Pinheiro Chagas: Escritor, jornalista e político português - «Ténue murmúrio, a suspirar
carícias! / Aéreo sopro respirando ardor! / Meigo prefácio dessas mil delícias
/ Do gosto etéreo dum primeiro amor!» (O
Primeiro Beijo - excerto). >IMAG.30-32-59-91-258-312-332-357-394
¨08ABR1911-1995 -
Emil Cioran: Escritor e filósofo romeno - «No edifício do Pensamento, não
encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo
travesseiro é o Caos!».
¯1906-09ABR1945 - Dietrich Bonhoeffer:
Poeta e teólogo alemão - «É natureza, e vantagem, das pessoas fortes,
levantarem as questões cruciais e formarem uma opinião clara sobre elas. Os
fracos sempre têm que decidir entre alternativas que não são suas».
¯1881-10ABR1955 -
Pierre Teilhard de Chardin: Jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês -
«Para a Verdade, basta aparecer apenas uma vez, em um só espírito, para que
nada possa, nunca mais, impedi-la de invadir tudo e de tudo incendiar». >IMAG.31-343
E12ABR1635 - Rezam as crónicas que, em Vila
Viçosa, nasce um menino com o peito à maneira de um escudo, e no meio dele uma
cruz com a Ordem de Cristo, tendo mãos e pés sem forma de dedos, e na cabeça
uma espécie de murrião.
¢12ABR885-1941 -
Robert Delaunay: Pintor francês, ligado ao abstraccionismo e ao cubismo,
explorou ainda o impressionismo - com uma série dedicada a Paris - e viveu em
Portugal, sendo amigo de Amadeo de Souza-Cardoso. >IMAG.154-371
¯1906-12ABR1975 -
Josephine Baker: Cantora e bailarina americana, naturalizada francesa - «Aquilo
que verdadeiramente amamos, permanece connosco para sempre… Guardado no nosso
coração, enquanto formos vivos». >IMAG.47
¨1621-13ABR1695 -
Jean de La Fontaine: Poeta e fabulista francês - «Não poucas vezes, esbarramos
com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para dele fugir… A cada um, o
seu defeito, no qual todos os dias recaímos - nem pejo, nem medo, nada o
corrige». >IMAG.42-330
O1809-15ABR1865 -
Abraham Lincoln: Político americano, Presidente dos EUA (1861- 1865) - «Sempre
que ouço alguém defender a escravatura, sinto um forte impulso de que a mesma
se aplique a essa pessoa». >IMAG. 68-147-236-334-350
¨17ABR1885-1962 -
Karen Blixen, aliás Isak Dinesen: Escritora dinamarquesa - «Os tempos difíceis
ajudaram-me a compreender melhor quão infinitamente rica e maravilhosa é a
vida, e como muitas coisas que nos preocupam não têm a menor importância». >IMAG.42-266-385-440
BREVÁRiO
¸Disney
edita em Blu-ray, Mary Poppins - 50º Aniversário (1964) de Robert Stevenson; com Julie Andrews e Dick Van Dyke. >IMAG.260
¯Distrijazz
edita em CD, sob chancela ECM, Johann
Sebastian Bach [1685-1750]: Six Sonatas For Violin and Piano por Michelle
Makarski e Keith Jarrett. >IMAG.32-58-163-198-203-212-216-220-240-248-267-268-269-277-280-284-305-308-332-334-340-363-375-384-389-392-423-432-458-462-507
¨Babel
edita, com Câmara Municipal de Lisboa, Chiado Em Detalhe de Álvaro Siza (Vieira). >IMAG.41-56-298-424-432-447-495
¨Antígona
edita Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (1894-1963); prefácio de Manuel Portela. >IMAG.71-165-332-444-475
José de Matos-Cruz | 1 Abril 2015 | Edição Kafre |
Ano XII – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
FELINOS
São
carinhosos, agressivos, sensuais, ariscos, preguiçosos, atrevidos. Olham-nos
com toda a paz do mundo. Usurpam-nos toda a intimidade. São felinos. São os
gatos… E não podiam, evidentemente, deixar de ser heróis da banda desenhada! Um
dos mais célebres e pândegos chama-se Garfield,
é americano e tem fãs em todo o mundo, para êxito e fortuna do autor Jim Davis - que se inspirou na
personalidade do avô, James Garfield. Nasceu em 1978 e andou, durante anos, a
arranhar os quadradinhos até se fazer notado, por finais da década de ‘80. Para
uma antologia do bichano, aqui ficam alguns comentários de afiar o sorriso:
«mostrem-me uma pessoa que faz jogging e eu mostro-lhes alguém que gosta de
sofrer»; «as aranhas tornam-se mais rápidas à medida que vão envelhecendo»; «os
gatos conseguem harmonizar-se com o ambiente»; ou «odeio pêlos de gato, quando
não são os meus»... Mas não fiquem de cabelos em pé, sem lerem um outro do
próprio criador: «Para mim, o céu é azul, a relva é verde e os gatos são cor de
laranja»! >IMAG.1-172-399
CALENDÁRiO
¨1927-05ABR2014 - Peter Matthiessen: Escritor americano, autor de At Play In the Fields of the Lord (1961)
- «Estamos honrados por o termos conhecido, e ao seu pensamento belo e
selvagem» (Riverhead Books).
¨1927-17ABR2014 - Gabriel García Márquez: Escritor colombiano,
radicado no México, autor de Cem Anos de Solidão (1967), distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1982) - «Em
cada linha que escrevo, procuro sempre, com maior ou menor sucesso, invocar os
espíritos esquivos da poesia, e tento deixar em cada palavra o testemunho da
minha devoção pelas suas virtudes adivinhadoras, e pela sua vitória permanente
contra os poderes surdos da morte». >IMAG.13-224-261-294-391
¯03JUL1935-17ABR2014 - José Luis Feliciano Vega, aliás José Feliciano,
aliás Cheo Feliciano: Compositor porto-riquenho, cantor de salsa e de bolero,
intérprete de Anacaona, distinguido com o Grammy Latino (2008).
¯17ABR-20SET2014 - Em Lisboa, Cordoaria Nacional apresenta, com Museu
do Fado, Carlos do Carmo - 50 Anos, sendo comissária Sara Pereira. >IMAG.166-314-434-463
¢1928-21ABR2014 - Carlos Frederico Calvet, aliás Carlos Calvet:
Arquitecto português, artista plástico, fotógrafo e cineasta - «Através da sua
versatilidade e capacidade de mistura de estilos e tendências, contribuiu para
uma mudança de paradigma na área das artes visuais em Portugal» (Jorge Barreto
Xavier).
24ABR2014 - Na Figueira da Foz, Museu
Municipal Santos Rocha expõe A Cadeira Que Queria Ser Sofá - Prémio Nacional de Ilustração 2013 - de Ana Biscaia. >IMAG.310-416-430
MEMÓRiA
O01ABR1815-1898 - Otto von Bismarck: Nobre, diplomata e político
prussiano - «Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra
e depois da caça».
¨02ABR1725-1798 - Giacomo Girolamo Casanova, aliás Giacomo Casanova:
Escritor e aventureiro italiano - «Nunca fui atraente… Simplesmente, tinha uma
confiança desenfreada de que era capaz de qualquer coisa» (História da Minha Vida). >IMAG.
299-347-505
¨02ABR1805-04AGO1875 - Hans Christian Andersen: Ficcionista dinamarquês -
«Os prazeres pertencem à juventude, as alegrias à maturidade e a
bem-aventurança à velhice». >IMAG.45-54-95-506
¯07ABR1915-1959 - Billie Holiday: Cantora americana de jazz - «Não é
possível interpretar uma canção da mesma maneira duas noites seguidas, seja em
dois ou em dez anos. Se o conseguirmos, não se trata de música - estamos apenas
a fazer um rígido exercício de voz, ou algo parecido». >IMAG.235-390-396-509
¸07ABR1945-2010 - Werner Schroeter: Encenador e realizador de cinema
alemão - «Fassbinder dizia que ele era o melhor entre todos os cineastas. Fez
ópera e teatro, foi um grande criador no verdadeiro sentido» (Paulo Branco). >IMAG.298 VISTORiA
A Pequena Sereia
¨A Pequena Sereia, a filha mais nova do rei Tritão, era uma sereia
diferente das outras cinco irmãs. Era muito quieta, não era difícil vê-la
distante e pensativa.
Desde
os dez anos, a Pequena Sereia guardava uma estátua de um jovem príncipe que
havia encontrado num navio naufragado. Passava às vezes horas contemplando a
estátua, que aguçava ainda mais a sua vontade de conhecer o mundo da
superfície. Porém, esse seu desejo só poderia ser realizado quando completasse
quinze anos. Nessa idade, é dada permissão às sereias para nadarem até a
superfície do mar.
Para a Pequena Sereia, esse dia especial parecia nunca chegar. Ela acompanhava,
a cada ano, os quinze anos de cada uma das suas irmãs, ansiosa para que o seu
dia também chegasse em breve, e escutava atenta o relato de cada uma delas
sobre tudo aquilo que viram. As irmãs falavam sobre os barulhos da cidade, as luzes, o céu, os pássaros,
sobre as pessoas, os animais… Eram tantas as novidades que só aumentavam o
desejo da Pequena Sereia de conhecer aquele mundo.
>Hans
Christian Andersen (excerto)
¨Foi seu último livro. Tinha sido um leitor de voracidade imperturbável,
tanto nas tréguas das batalhas como nos repousos do amor, mas sem ordem nem
método. Lia a toda hora, com a luz que houvesse, ora passeando debaixo das
árvores, ora a cavalo sob os sóis equatoriais, ora na penumbra dos coches
trepidantes sobre os empedrados, ora balouçando na rede enquanto ditava uma
carta. Um livreiro de Lima surpreendera-se com a abundância e a variedade das
obras que seleccionou de um catálogo geral onde havia desde os filósofos gregos
até um tratado de quiromancia. Na juventude, lera os românticos por influência
de um professor Simon Rodríguez, e continuou a devorá-los como se estivesse a
ler a si mesmo com seu temperamento idealista e exaltado. Foram leituras
passionais que o marcaram para o resto da vida. Por fim, havia lido tudo o que
lhe caíra nas mãos, e não teve um autor predilecto, mas muitos que o foram em
diferentes épocas. As estantes das diversas casas onde viveu estavam sempre
abarrotadas, e os dormitórios e corredores acabavam convertidos em
desfiladeiros de livros amontoados e montanhas de documentos errantes que
proliferavam à sua passagem, e o perseguiam sem misericórdia buscando a paz dos
arquivos. Nunca chegou a ler tantos livros quantos possuía. Ao mudar de cidade,
entregava-os aos cuidados dos amigos de maior confiança, embora nunca voltasse
a ter notícia deles, e a vida de guerra obrigou-o a deixar um rasto de mais de
quatrocentas léguas de livros e papéis, da Bolívia à Venezuela.
¨Casanova foi um dos indivíduos mais cativantes e controversos da sua ou
de qualquer época. Fanfarrão ou amante perfeito? Burlão ou génio?
Fez
e perdeu fortunas, fundou lotarias oficiais, escreveu quarenta e dois livros, e
3600 páginas de memórias recordando os sabores e cheiros dos anos anteriores à
Revolução Francesa - assim como, claro, os seus casos amorosos e encontros
sexuais com dúzias de mulheres e uma mão-cheia de homens. A sua energia era
espantosa.
O
historiador Ian Kelly recorreu a documentos inéditos da Inquisição de Veneza,
sobre Casanova, os seus amigos e amantes, que proporcionam uma nova compreensão
da sua vida e do seu mundo. A sua investigação abarca, no século XVIII, Veneza,
Paris, São Petersburgo, Moscovo, Roma, Praga e o castelo checo onde Casanova
viveu, escreveu e morreu.
Esta
é a história de um homem, mas também do livro que escreveu sobre si próprio. As
suas memórias valeram-lhe dois séculos de má fama. Mudaram também, para sempre,
a maneira como pensamos e escrevemos sobre nós mesmos - e sobre sexo. Ao mesmo
tempo que as revoluções - científicas, industriais, políticas e artísticas -
transformaram o mundo no século XVIII, Casanova produziu um estudo íntimo e
exaustivo daquilo que ele via como a peça mais revolucionária de todas - ele
próprio.
O
mundo, e o modo como nos vemos nele, nunca mais seriam os mesmos.
ANTIQUÁRiO
06ABR1385 - Pelas Cortes reunidas em
Coimbra, e aos 26 anos, o Grão-Mestre de Aviz é aclamado El-Rei D. João I
(1358-1433) - décimo monarca de Portugal e o primeiro da Dinastia de Aviz,
filho de D. Pedro I e de D. Tereza Lourenço, dama galega. Foi o primeiro
bastardo de rei a quem as Crónicas nomeiam como Dom, sendo cognominado O de Boa
Memória.
BREVÁRiO
¨Relógio D’Água edita O Jogo Sério
de Hjalmar Söderberg (1869-1941); tradução de José Miguel Silva. >IMAG.423
¯Universal edita em CD, sob chancela Decca, Robert Schumann [1810-1856]: Waldszenen - Piano Sonata Nº 2 - Gesänge
der Frühe por Mitsuko Uchida. >IMAG.105-194-203-233-268-278-301-341-344-365-375-418-458
¨Tinta da China edita Eu Sou Uma Antologia - 136 Autores Fictíciosde Fernando Pessoa (1888-1935);
organização de Jerónimo Pizarro e Patrício Ferrari. >IMAG.
26-28-64-82-130-131-157-182-187-196-207-211-236-264-323-326-330-333-343-347-376-382-384-385-395-399-403-404-417-426-433-450-460-467-491-507
José de Matos-Cruz | 24 Março 2015 | Edição Kafre |
Ano XII – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
PROJECÇÕES
De memórias suadas, carne mole, medos
medíocres, vícios e nicotina, surge Kilas - aturdido pela pequenês do físico,
tacão alto a deitar figura, de arrogância por medida… Entre tipos marginais e
mitos precários de uma saga/farsa passional, eis a criatura mais popular e
característica no cinema português em liberdade. Estilizada
por José Fonseca e Costa em Kilas, o Mau da Fita (1980) - um dos maiores sucessos no pós-25 de Abril,
alcançando culto graças à composição por Mário Viegas. Fonseca e Costa escreveu o argumento com Sérgio Godinho - autor da
música - e Tabajara Ruas, com produção entre Filmform e Penta Filmes (Brasil).
A fotografia coube a António H. Escudeiro e Mário Barroso, por Lisboa -
Intendente, Alcântara, Bairro Alto, Alfama e Pampulha. No elenco, destaca-se o
regresso de Milú, ao lado de Lia Gama e Lima Duarte. Galardoado com o Makhila
de Honra no Festival de Biarritz em 1980, Kilas,
o Mau da Fita foi distinguido com o Grande Prémio do IPC/Instituto
Português de Cinema em 1981.
MEMÓRiA
¨07MAR1785-1873 - Alessandro
Francesco Tommaso Manzoni, aliás Alessandro Manzoni: Poeta e ficcionista
italiano - «Os vizinhos, a quem o tumor fez descobrir sabe-se lá quantas
sujidades que tinham provavelmente diante dos olhos, quem sabe há quanto tempo,
sem se preocuparem com isso, puseram-se à pressa e em fúria a chamuscá-la com
palha a arder. A Giacomo Mora, barbeiro, que estava à esquina, pareceu, tal
como aos outros, que tinham sido untadas as paredes da sua casa. E não sabia, o
infeliz, que outro perigo o ameaçava, e por parte daquele mesmo comissário, ele
próprio também infelicíssimo.» (História
da Coluna Infame). >IMAG.26
¨1828-24MAR1905 - Jules Gabriel
Verne, aliás Jules Verne: Ficcionista e poeta francês - «Um dia visitaremos a
Lua e os planetas com a mesma facilidade com que hoje se vai de Liverpool a
Nova York.» (Da Terra à Lua - 1865). >IMAG.28-85-245-257
¨25MAR1925-1964 - Flannery O’Connor: Ficcionista americana - «As pessoas não percebem o que custa a
religião. Julgam que a fé é um cobertor que nos aconchega, quando na verdade é
uma cruz que temos de transportar». >IMAG.55-179-229-317-477
¨29MAR1815-1872 - Antonio Aparisi y Guijarro, Marquês de Santa Eugénia: Jurista e político espanhol - «A educação é
um seguro para a vida e um passaporte para a eternidade». >IMAG.393
¨29MAR1895-1998 - Ernst Jünger:
Escritor e filósofo alemão - «Desterrado é aquele que possui uma relação
originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista da época,
na resistência que opõe ao automatismo, e de que não tenciona extrair a sua
consequência ética, o fatalismo.» (O
Passo da Floresta).
¨1816-31MAR1855 - Charlotte Brontё:
Ficcionista e poeta inglesa - «Evito olhar para trás ou para frente, antes
procuro olhar para cima». >IMAG.13-213-263
CALENDÁRiO
¯1926-04ABR2014 - Eugénia Lima:
Acordeonista portuguesa, fundadora da Orquestra Típica Albicastrense (1956), popular
com Picadinho da Beira, Dama da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1980) -
«As músicas que fiz, foram feitas por amor à arte, e reflectem o meu estado de
espírito na altura» (2011).
®1920-06ABR2014 - Joseph Yule Jr,
aliás Mickey McBan, aliás Mickey Rooney: Actor americano de cinema, teatro e
televisão, distinguido com um Oscar especial em 1939, «por trazer para a tela o
espírito e a personificação da juventude» - «Não lamento nada do que fiz. Só
gostaria de ter feito ainda mais».
¸17ABR2014 - Sony Pictures
Portugal estreia O Fantástico
Homem-Aranha 2 - O Poder de Electro / The Amazing Spider-Man II – The Rise of Electro, de Marc Webb; sobre o clássico
em quadradinhos (concebido por Stan Lee em 1962, no universo dos Marvel Comics),
com Andrew Garfield e Emma Stone. >IMAG.3-18-23-28-39-47-49-110-114-148-149-155-217-221-416
VISTORiA
¨Que espectáculo notável! Subíamos por
rochas que se desmoronavam repentinamente em grandes massas, com um ruído surdo
de avalancha. De espaço a espaço surgiam clareiras, que pareciam abertas por
mãos humanas, dando a impressão de que iria ver-se de repente um habitante
daquelas paragens submarinas.
Pouco minutos depois, chegávamos a um ponto
alto de onde se avistava toda aquela massa rochosa, num plano de dez metros. A
montanha elevava-se apenas de setecentos a oitocentos pés acima da planície; em
compensação, a outra vertente descia quase o dobro.
Essa montanha era um vulcão. A cerca de
cinquenta pés do topo, entre um dilúvio de pedras e lava, uma grande cratera
jorrava torrentes de lava, que se espalhavam em cascatas de fogo, no seio da
massa líquida. Nessa posição, o vulcão, como se fosse uma tocha gigantesca,
iluminava a parte inferior da planície, até onde alcançava a vista.
Disse que o vulcão submarino lançava lavas,
e não chamas. Para haver combustão é preciso o oxigénio do ar, e a chama não
poderia formar-se sob as águas; mas as camadas de lava, que têm em si mesmas o
elemento de sua combustão, podem adquirir coloração vermelho-esbranquiçada,
podem lutar contra o elemento líquido e evaporar-se com o contacto dele.
Correntes rápidas arrastavam todos aqueles gases em difusão e as torrentes de
lava deslizavam até ao sopé da montanha, como se fossem resíduos do Vesúvio
sobre uma outra Torre de Greco.
Perante mim, surgia uma cidade destruída,
em ruínas, com seus tectos desabados, seus templos destruídos, seus arcos
deslocados e suas colunas derrubadas ao solo.
Onde estava eu? Queria saber a resposta a
todo custo.
O capitão Nemo aproximou-se e fez-me parar
com um gesto. A seguir, apanhando um pedaço de pedra calcária, escreve numa
rocha de basalto uma única palavra: «Atlântida».
Aquelas ruínas que eu contemplava como
testemunhos inegáveis de uma catástrofe eram da Atlântida, região submersa que
existiu separada da Europa, onde viviam os poderosos atlantes, contra os quais
foram destinadas as primeiras guerras da antiga Grécia!
¨Que significado atribuir ao facto de
um milionário se expor aos maiores transtornos por causa de alguns centavos?
Tinha de ser fatalmente a recordação dos tempos em que, muito antes de
existirem Estados, a propriedade era essencialmente uma presa, sobretudo uma
presa de caça. Agora, porém, era o Estado por excelência, porque dotado de
poder ilimitado. Triunfar sobre ele, ainda que de forma insignificante,
representava um ganho difícil de avaliar, mas inestimável. Partindo desta base,
era possível desenvolver uma teoria do crime mais convincente do que qualquer
outra de carácter social ou económica.
¨1500?-1545? - Bernardim
Ribeiro: «Vestido branco trazia, / um pouco afrontada andava, / fermosa bem
parecia / aos olhos de quem na olhava.» (Écloga
II - excerto). >IMAG.61-337