domingo, março 01, 2015

IMAGINÁRiO #544

José de Matos-Cruz | 24 Dezembro 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004
  
PRONTUÁRiO
 
CONVERGÊNCIAS

Um dos problemas mais interessantes que se colocam na arte em quadradinhos, é a relação entre os autores, quando a criatividade é partilhada por um argumentista e por um ilustrador. Aquele interroga-se, inevitavelmente: que resolução gráfica irá ter esta ideia? Qual será o aspecto das personagens? O segundo também terá questões a pôr: como imaginaria ele esta acção? Onde pretenderia inserir estes diálogos? É por isso que interessa que se conheçam bem, discutam projectos ou opções, mas sobretudo que possuam estilos conciliáveis e, ainda melhor, pretendam testemunhos com idêntica eficácia e direcção. Em circunstâncias extremas, nem assim seria possível uma conversão. Sem especiais escrúpulos ou obsessões, eis o que sucede - sempre na perspectiva de Art Spiegelman - com Maus (1980-1991), e explica o fenómeno do seu sucesso, das análises e interpretações que suscitou. Mas não é uma situação só de agora, reconhece o artista, ou apenas sua. Vejam-se um exemplo clássico como George Herriman, ou Chris Ware, que considera um dos melhores cartoonistas actuais. São inconfundíveis, e isso acaba por fundamentar o seu prestígio.

        
VISTORiA

A Fêmea da Espécie

¨Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,
ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;
mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,
se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;
mas a sua companheira não se arreda do caminho,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,
rezavam por não ser presas do feminino penacho,
que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
 
O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,
pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,
mas a história do marido confirma a do caçador –
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,
propõe negociações e reconhece o contrato;
só muito raro é que torce a lógica da evidência
até a extrema conclusão, num imperdoável ato.

Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,
a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.
O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro
pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!

Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo
numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;
e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,
a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.

Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,
não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.
Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;
Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!

Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,
como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;
e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito
de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.

Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;
suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!
Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,
a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.

Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;
e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;
e vivisseção científica do nervo até que ele seque,
e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!

Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio
com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende
onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos
a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.

O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu
deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;
e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,
que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!
Rudyard Kipling
- Tradução de Renato Suttana

TRAJECTÓRiA

FERNANDO LOPES – ORIGENS 
¸Dois títulos essenciais do Novo Cinema português, Belarmino (1964) e Uma Abelha Na Chuva (1971) são obras-primas realizadas por Fernando Lopes em períodos determinantes, e representativas de outras tantas abrangências sobre o ser humano e o seu universo vivencial.
Graças ao entusiasmo tutelar de António da Cunha Telles, o seu produtor, Belarmino assinala – em virtualidades estéticas e testemunhatórias – a convergência de cinco personalidades essenciais: Lopes como realizador; Baptista-Bastos pela entrevista, Augusto Cabrita na imagem, Manuel Jorge Veloso ao musicar, Belarmino Fragoso em protagonista. Sob a aparência linear de um documentário, transgredido já pelo desempenho do titular, seus reflexos e contradições, patenteia-se um projecto múltiplo, complexo, na abrangência das implicações quanto à realidade envolvente.
Assim, paralelamente à história de Belarmino, em causa ou mitificada, também Lisboa se contrasta – uma cidade no tempo e na acção, suas crises, tensões, ameaças e desafios. Com ele ídolo ou herói, cúmplice ou vítima. Cabeça de cartaz ou vulto anónimo. Tal dinâmica sobre o presente, tal dialéctica sobre o passado – pelos padrões de 1963, quando se filmou com quatrocentos contos – logo tiveram realce promocional: «Na multidão, um campeão destruído» revelava, pois, que era «urgente respeitar todos os homens». Expressão dramática, entre a matéria humana e a natureza urbana.
Cinco anos depois, Fernando Lopes iniciou a rodagem de Uma Abelha Na Chuva, em 1968. À partida, tudo parecia contrastante: ao deambulatório testemunho lisboeta, pelo recorte original duma figura típica, sucedeu a transposição do romance de Carlos de Oliveira, sobre imobilistas figuras rurais. Mais se distinguiriam, pela perfeita correspondência – em moldes conceptuais e estéticos – entre as crispações ou transes patentes no primeiro, e as tensões ou conflitos agora latentes. Com orçamento de oitocentos contos, «grande número de pessoas» colaborou monetariamente.
Pouco propenso a adaptações literárias, Lopes atraiu-se por várias «personagens e até um certo clima», recebendo inteira autonomia do autor original. Confrontando uma comunidade – através dos paradoxos sociais, dos exílios em que cada ser humano se aliena ou refugia. A produção coube à Média Filmes, reclamando Lopes uma leitura crítica – entre pesquisas e acertos – tendente «à criação dum novo código, articulado em termos áudio-visuais». Tal referencia Uma Abelha Na Chuva – expoente histórico e prospectivo, quanto à criatividade e como reflexão sobre o próprio cinema.
                        
CALENDÁRiO

04DEZ2014 - Em Lisboa, Opus 14 expõe Esboços de Uma Cidade de Pedro Cabral, João Catarino, Mónica Cid, Mário Linhares e José Louro, membros do colectivo Urban Sketchers Portugal. IMAG.393

05-07DEZ2014 - Em Matosinhos, Exponor apresenta Comic Con Portugal - megaevento cultural promovido por City, incluindo banda desenhada, cinema, televisão, videojogos, cosplay, anime e mangà.

MEMÓRiA

¯ 28DEZ1775-1842 - João Domingos Bomtempo: Compositor e pianista português, autor da Missa de Requiem à Memória de Camões (França, 1818), de Missa Pro Defunctis e de Variações «Alessandro In Éfeso», pedagogo, fundador e primeiro director do Conservatório Nacional (1835). IMAG.40-64-383-513

¸ 28DEZ1935-2012 - Fernando Lopes: Realizador português, entre os vultos do Novo Cinema - «Gostava de imaginar que, passadas muitas décadas, haveria espectadores a descobrir os seus filmes. Não por qualquer necessidade de reconhecimento, muito menos de consagração. Antes porque ele esperava que esses mesmos espectadores pudessem, de algum modo, revisitar o tempo em que cada filme tinha sido rodado» (João Lopes). IMAG.19-63-111-203-219-261-276-278-314-345-399-408-433-521
 
¨ 30DEZ1865-1936 - Rudyard Kipling: Escritor britânico, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1907) - «A mulher mais idiota pode dominar um sábio. Mas é preciso uma mulher extremamente sábia, para dominar um idiota». IMAG.229-339

¨ 1899-31DEZ1985 - João de Araújo Correia: Escritor português, médico e professor - «A primeira canção que ouvi / Foi a da água, / Que jorrava / Clara mágoa / No tanque onde bebiam, ao escurecer / Os animais cansados de sofrer.» (Lira Familiar). IMAG.349
     
ANTIQUÁRiO


¸ 28DEZ1895 - Nas caves do Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, perante umas três dezenas de pessoas, tem lugar a primeira sessão pública, paga, do Cinématographe de Auguste e Louis Lumière; aí se viram, entre outros, La Sortie des Usines, Arrivé d’un Train à la Ciotat e L’Arroseur Arrosé. IMAG.64-163-181-504

¨ 29DEZ1865 - O livreiro-editor Campos Junior dá à estampa, em volume impresso, A Queda de Um Anjo, «romance político» de Camilo Castelo Branco (1825-1890), «uma sátira pungente a algumas cenas da vida parlamentar» (Diário de Notícias).  IMAG.27-31-41-87-111-113-145-146-161-171-179-180-185-209-227-236-237-244-256-277-293-328-334-389-390-414-421-432-453-497-507-520-529-534

30DEZ1865 - Em Portugal, recebem os diplomas de sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil: Levy Maria Jordão (1831-1875), como correspondente; Alexandre Herculano (1810-1877) e Luiz Augusto Rebello da Silva (1822-1871), como honorários. IMAG.11-13-31-38-95-146-199-205-220-258-268-269-309-312-321-325-338-342-364-370-384-399-412-416-430-489-519-541
        
BREVIÁRiO

Bertrand edita Maus de Art Spiegelman. IMAG.7-12-27-124-342

¯Harmonia Mundi edita em CD, Joseph Haydn [1732-1809]: Die Sieben Leftzen Worte Unseres Erlősers am Kreuze por Cuarteto Casals. IMAG.40-219-228-240-269-271-272-273-275-276-282-285-295-296-322-349-365-407-440-472

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

IMAGINÁRiO #543

José de Matos-Cruz | 16 Dezembro 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
ABRANGÊNCIAS

Testamento visionário para um novo milénio, ou testemunho crepuscular sobre o século finito, o cinema exibe-se como arte primordial de Stanley Kubrick - um dos seus mais controversos mas incontestáveis génios. Nascido em Nova Iorque, em 1928, e em Inglaterra desde início dos anos ‘60, Kubrick esteve sempre ligado à sensibilidade crítica e cultural da Europa. Os seus interesses paralelos eram o xadrez e a fotografia, tendo-se revelado profissionalmente em 1945, na revista Look. Em 1999, faleceu na Grã Bretanha, de causas naturais. Kubrick detestava viajar de avião, e reconhecia o seu «escrúpulo paranóico» pela «fabricação artística», obcecando-se em romper todas as implicações éticas e estéticas. Clássico, radical, dirigiu Horizontes de Glória/Paths of Glory (1958) sobre um romance de Humphrey Cobb. Baseada em factos reais, a acção decorre em 1916, quando um destacamento francês de elite é destroçado durante uma operação contra as linhas alemãs, e o comandante acusado de cobardia…

VISTORiA

Soneto
¨Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!… Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade
Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
?Bocage

Um Beijo
¨Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior… Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto…
?Olavo Bilac

A Falta de Érico Veríssimo
¨Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda! – 
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.
?Carlos Drummond de Andrade
(1975)

VISTORiA

¨«Acho incrível», diz Bingley, «como todas as jovens têm tanta paciência para cultivar todos esses talentos… Todas pintam, forram biombos e fazem bolsas. Não conheci uma que não saiba fazer tudo isto, e estou seguro de que jamais me falaram de uma jovem pela primeira vez sem referir-se a quão talentosa ela era… Uma mulher deve ter um amplo conhecimento de música, canto, desenho, dança e línguas modernas, para merecer a palavra dotada; e, aparte de tudo isso, deve haver algo em seu ar e em sua maneira de andar, no tom de sua voz, em sua forma de relacionar-se com as pessoas, e em sua expressão que, se não for assim, não merecerá completamente a distinção…»
?Jane Austen
- Orgulho e Preconceito
(excerto)

¨Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso «Não era bem isto o que queria dizer».
?Érico Veríssimo
- O Escritor Diante do Espelho
(excerto - 1966)
                       
ANTIQUÁRiO

DEZ1865 - Está calculado que, em Lisboa, bebem-se por dia 329.646 chávenas de chá, supondo que cada morador do concelho consome, em cada 24 horas, duas chávenas.

MEMÓRiA

¨ 1584-16DEZ1655 - Manuel Severim de Faria: Chantre e Cónego da Sé de Évora, escritor e historiador, arqueólogo e numismata, genealogista e escritor, considerado o primeiro jornalista português; autor de Discursos Vários Políticos (1624), destinados à «instrução política das artes, em que hão-de ser doutrinados os mancebos nobres da República, conforme os preceitos do filósofo». LIMAG.456

¨ 16DEZ1775-1817 - Jane Austen: Escritora inglesa - «Há casos em que um conselho tanto pode ser bom como mau… Tudo dependerá dos acontecimentos em causa». LIMAG.117-146

¨ 16DEZ1865-1918 - Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, aliás Olavo Bilac: Poeta brasileiro - «Às vezes, uma dor me desespera… / Nestas ânsias e dúvidas em que ando. / Cismo e padeço, neste outono, quando / Calculo o que perdi na primavera.» (Remorso - excerto).

¨ 1874-16DEZ1965 - William Somerset Maugham: Escritor inglês - «Não é verdade que o sofrimento enobreça o espírito. Por vezes, a felicidade fá-lo, e, a maior parte das vezes, o sofrimento torna os homens mesquinhos e vingativos (The Moon and Sixpence - 1919). LIMAG.73-180-452

_ 18DEZ1935-2013 - João José André Baptista, aliás José Baptista, aliás Jobat: Ilustrador, artista gráfico e ceramista português, criador de banda desenhada - autor de A Vida Apaixonada e Apaixonante de Camões (1972, com argumento de Michel Gérac). LIMAG.458

¨ 15SET1765-21DEZ1805 - Manuel Maria Barbosa du Bocage: Poeta português - «Chorosos versos meus desentoados, / Sem arte, sem beleza e sem brandura, / Urdidos pela mão da Desventura, / Pela baça Tristeza envenenados.». LIMAG.42-43-50-69-103-151-308-327

¨ 17DEZ1905-28NOV1975 - Érico Veríssimo: Escritor brasileiro - «O amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe. São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão. O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença…». LIMAG.73-542

¯ 19DEZ1925-2012: Robert B. Sherman: Autor musical americano, escreveu canções para filmes com o irmão Richard Morton Sherman - como O Livro da Selva (1967), Chitty Chitty Bang Bang (1968) ou Os Aristogatos (1970) - em especial para os Walt Disney Studios. LIMAG.399

¸ 22DEZ1935-2012 - Paulo Rocha: Cineasta português - «Cada um dos (seus) filmes é um objecto singular, em que há uma relação directa entre as personagens e a história - são grandes documentários da vida portuguesa. Foi (ele) o que melhor soube fazer a relação entre a poética do cinema e a poética do país» (João Mário Grilo). LIMAG.4-31-87-180-445-521
       
CALENDÁRiO

¢18OUT-11JAN2015 - No Porto, Galeria Municipal Almeida Garrett expõe Sub 40 - Arte e Artistas do Porto. Geração Pós-25 de Abril; sendo curador José Maia, participam Nuno Coelho, Cristina Regadas, José de Almeida Pereira, Nuno Ramalho, Carla Filipe, João Marçal, João Sousa Cardoso, Isabel Ribeiro, Mafalda Santos, André Sousa, Dalila Gonçalves, Jonathan Saldanha, Flávio Rodrigues, Catarina Miranda, Vera Mota, Susana Chiocca, Arlindo Silva, André Cepeda, Marco Mendes, Miguel Carneiro, A Mula, Oficina Arara, KRAFT, Bolos Quentes, Tiago Afonso, Amarante Abramovici, António da Silva, Frederico Lobo / Tiago Hespanha, João Vladimiro, Mónica Baptista, Mário Moura, António Preto, Susana Chiocca, Sandra Vieira Jürgens e Guy Amado.

¯27NOV2014 - Em Paris, o Cante Alentejano é proclamado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. LIMAG.538
 
BREVIÁRiO

¸MGM edita em DVD, Horizontes de Glória/Paths of Glory (1958) de Stanley Kubrick; com Kirk Douglas e Adolphe Menjou. LIMAG.7-37-83-112-145-155-158-188-204-216-264-332-443-480-492

¨Porto Editora lança Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão de Mário de Carvalho. LIMAG.327-410-528-541-542

¯VGM edita em CD, sob chancela Alpha, Marc-Antoine Charpentier [1643-1704] - [Jean-Baptiste] Lully [1632-1687]: Te Deum por Capella Cracoviensis, Le Poème Harmonique, sob a direcção de Vincent Dumestre. LIMAG.272-314-396


segunda-feira, fevereiro 02, 2015

IMAGINÁRIO #542

José de Matos-Cruz | 08 Dezembro 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

MEMÓRIAS
A inquietação e a rotura de Jean-Luc Godard em relação ao cinema, quanto às suas motivações e expectativas, míticas ou convencionais, foram - confirma-se entretanto - uma outra manifestação da sua permanente atitude, em termos absolutos: a investigação da escrita, a pesquisa da técnica, uma nova perspectiva sobre os condicionalismos, compromissos e valores conjunturais da respectiva história. Tudo isto ligado ao relevo da cultura, à eficácia da ideologia, ao sentido da arte, à subversão estética, ao alcance político ou aos limites sociais que se repercutem sobre uma obra aberta - como reflexão volúvel, ou testemunho em mutação… Desta obsessão tão pessoal, magnífica e radical - em vanguarda/modernidade, suas marcas de inquietação, insolência e controvérsia - são expressivas as História(s) do Cinema (1988-1998), em que Godard - sensível ao precário fenómeno da eternidade, entendido como ironia do real, dominada pelo autor - expõe/explora um século de memórias visionárias, desordenadas mas impressionantes, onde interroga: «O que é o cinema? Nada. O que pretende? Tudo!».   

MEMÓRiA

¨08DEZ65 aC-8 aC - Quintus Horatius Flaccus, aliás Horácio: Filósofo e poeta romano - «O Destino tem a mesma lei para todos: tira à sorte entre o humilde e o grande; a sua urna é vasta e contém todos os nomes». IMAG.240-384

¯08DEZ1865-1957 - Jean Sibelius: Compositor finlandês, autor de Tapiola - «Mesmo para os padrões nórdicos, respondeu com uma excepcional intensidade às variações da natureza e às mudanças de estações; cruzou os céus com seu binóculo para ver os gansos sobrevoando o lago congelado, ouviu o grasnar dos grous e escutou os ecos do choro dos curleus sobre os brancos campos ao redor de Ainola» (Erik Tawaststjerna). IMAG. 213-402-404

¨12DEZ1905-1964 - Vassili Grossman: Escritor e jornalista soviético - «Na importância da bondade sem sentido, está o segredo da imortalidade. Quanto mais estúpida, absurda e desamparada, tanto maior ela é» (Vida e Destino - 1961). IMAG.408-482-514

¯12DEZ1915-1998 - Francis Albert Sinatra, aliás Frank Sinatra: Cantor e actor americano - «Tudo aquilo que for dito sobre minha vida pessoal não tem importância. Quando canto, sinto isso… Eu sou honesto». IMAG.76-178-337

1874-13DEZ1955 - António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz: - Neurologista, investigador, político, escritor, distinguido com o Prémio Nobel da Medicina (1949) «pela descoberta do valor terapêutico da leucotomia em algumas psicoses» - «Inventou uma coisa de que outros abusaram, o que não invalida que a técnica em si fosse de um engenho fantástico» (José Pacheco). IMAG.62-136-206-492

¨15DEZ1635 - Morre Diogo de Brito de Carvalho - «Inquisidor e membro da Mesa da Consciência» (Summario da Bibliotheca Luzitana), «natural da vila de Almeida, doutor em Cânones e lente da Universidade de Coimbra, varão doutíssimo, compôs algumas obras de Direito, de que só se imprimiram três livros».15DEZ1865 - Diário de Notícias

¨17DEZ1905-28DEZ1975 - Erico Veríssimo: Escritor brasileiro - «Todos aqueles homens e mulheres ali na plateia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio…». IMAG.73
            
CALENDÁRiO

29NOV2014-12ABR2015 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga expõe FMR. A Colecção de Franco Maria Ricci, sendo comissário José de Monterroso Teixeira. IMAG.23-187-198-211

¾1926-27NOV2014 - José Carlos Souto de Sousa Veloso: Engenheiro agrónomo, autor e apresentador do programa Tv Rural (1959-1990 - RTP) - «Encarava a agricultura de um ponto de vista técnico, e nunca fez política. Só lhe interessava divulgar a agricultura, as mãos na terra» (Júlio Isidro).  

VISTORiA

Ode a Pyrra

¨Que jovem grácil entre rosas
urge-te, ungido de perfumes,
Pyrra, em teu antro?

Pra quem singelos ornas
louros cabelos? Ele a fé
maldirá logo e instáveis deuses,
sofrendo, inábil,
mar bravo e negro vento,
pois áurea frui-te ingénuo como
se sempre livre, sempre amável
e ignora as auras
falazes.

Pobres desses
que, intacta, ofuscas. Sacro muro
por painel votivo atesta
que alcei molhada
a veste ao deus do mar.
Horácio
- Odes
(Tradução de Nelson Ascher)

¨Pego a primeira parte para mim porque me chamo leão,
a segunda, sois vós a dar-ma
porque sou robusto,
a terceira cabe-me porque valho mais.
A quarta, pobre daquele que ousar tocá-la.
Fedro
- Fábulas

¨Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando uma vila a outra, e as auto-estradas alemãs… Os nossos soldados viram nos subúrbios as casas de dois andares, com electricidade, gás, casas de banho e jardins belamente cultivados. A nossa gente viu os palacetes da rica burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e mansões. E milhares de soldados repetem as mesmas perguntas com raiva, quando olham em seu redor na Alemanha - «Mas por que vieram atrás de nós? O que queriam eles?»
Vassili Grossman
- Um Escritor Na Guerra
                      
ANTIQUÁRiO

DEZ1865 - Neste mês, o Diário de Notícias extrai, por edição, 9.600 exemplares; o Correspondencia de España, cerca de 60.000; o Petit Journal (Paris) tem uma tiragem de 242.500.

¾15DEZ1955 - Por iniciativa do Governo, é constituída a Radiotelevisão Portuguesa/RTP, com um capital social de sessenta mil contos. IMAG.15-21-40-97-107-121-174-187-394
             
ANUÁRiO

¨15aC-50dC - Caius Julius Phaedrus, aliás Fedro: Fabulista romano, nascido na Macedónia (Grécia) - «Muitas vezes descobre-se que aquilo que se despreza vale mais / do que aquilo que se exalta» (Fábulas).

¨55-120 - Publius, ou Caius, Cornelius Tacitus, aliás Tácito: Historiador e orador romano - «Muitos dos que parecem lutar contra a adversidade, são felizes; outros, gozando de grande afluência, são de todo infelizes». IMAG.283

¨1547-1615 - Mateo Alemán: Escritor espanhol - «Ninguém se considera como é visto; penso de mim o que tu pensas de ti; cada um julga melhor a maneira como trata mais correcta a sua vida, mais justa a sua causa, maior a sua honra e mais acertadas as opções que toma».

ü1905-1998 - Arnold H. Glasgow: Humorista e empresário americano - «Um dos testes à liderança é a capacidade de reconhecer um problema, antes que ele se torne uma emergência».

BREVIÁRiO

¸Films4You edita em DVD, Pack Jean-Luc Godard; inclui Fim de Semana / Week End (1967), Os Ventos de Este / Le Vent d’Est (1970), Vladimir e Rosa / Vladimir et Rosa (1971), Tudo Vai Bem / Tout Va Bien (1972). IMAG.118-167-191-314-368-521-532-539

¨Porto Editora lança Contos Vagabundos de Mário de Carvalho. IMAG.327-410-528-541

¯Harmonia Mundi edita em CD, Alban Berg [1885-1935]: Lyrische Suite, [Arnold] Schoenberg [1874-1951] Verklärte Nacht por Ensemble Resonanz, sob a direcção de Jean-Guilhen Queyras. 

IMAG.213-270-330-452-482-501
¨Círculo de Leitores edita Uma História da Maçonaria Em Portugal - 1727-1986 de António Ventura. IMAG.162-316-341-383-482-492

¯CNM edita em CD, Abril a Quatro Mãos - Grândolas - ao piano, por Mário Laginha e Bernardo Sassetti (1970-2012). IMAG.310-409

¨Assírio & Alvim re-edita Geografia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). IMAG.2-18-112-168-213-249-268-302-390-449-473-511-536
           
EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS
- Folhetim Aperiódico

ENTRE AS TERRAS DO SOL E O REINO DAS TREVAS - 10

Pode um filho assumir-se viúvo? Pode um noivo desejar-se órfão?
Hélio Alvorada, que tanta vez, num devaneio incerto e imaturo, suspirara por alívio e evasão, languescia agora, sobressaltado em tão mesquinha libertação, híbrida e solitária.
Não, sem elas, já ele cá não estava – era um mero invólucro humano. Porém, Hélio também não correspondia – ao elã siderado com que o atraíam cada uma, Estrela ou Celeste irradiantes...
– Continua