sexta-feira, julho 26, 2019

IMAGINÁRiO #782

José de Matos-Cruz | 08 Dezembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

CREPÚSCULOS
Inspirando-se nas memórias do próprio avô - um jovem pastor da Córsega que, em 1914, vai pela primeira vez ao Continente, para a incorporação militar - Jacques Tardi sagra a impressionante história de Varlot Soldado. Tudo principia em Abril de 1917, quando Eugene faz vinte anos; culminando em Paris, Janeiro de 1920, ao morrer o detective Varlot numa explosão. A dura ilustração a preto-e-branco de Tardi corresponde à trama elíptica, siderante de Didier Daeninckx, um reputado escritor criminal. O espectro das trincheiras, os fantasmas da morte, as sequelas traumáticas, o caos virtual e o absurdo da subsistência são elementos determinantes desta reflexão, mórbida e alegórica, sobre a existência humana. «Tenho a impressão de que não podemos fugir à guerra. Mesmo nós, mesmo hoje. A guerra que mostro não é mais que o décor de 1914-1918, os uniformes. Acho que continua actual, o que me inquieta» - comentou Tardi a propósito de Varlot Soldado, com publicação original por L’Association (1999). Uma narração confessional, uma ilustração evolutiva, fundamentam as vivências circunstanciais de um precário e vitimado herói. IMAG.312-336-347-513-588

CALENDÁRiO

09FEV-28ABR2019 - Em Lisboa, Palácio Pimenta - Museu da Cidade apresenta, no Pavilhão Branco, As Coisas do Mundo São Rocha - exposição de pintura e desenho de Maria Capelo, sendo curador João Pinharanda. IMAG.663

22MAR-02JUN2019 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado apresenta Metamorfoses da Humanidade - exposição de desenho e pintura sobre papel de Graça Morais, sendo curadores Jorge da Costa e Emília Ferreira. IMAG.65-68-139-305-318-448-621-693-709

VISTORiA

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca

Dá-me a Tua Mão


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector

MEMÓRiA

1894-08DEZ1930 - Flor Bela d’ Alma da Conceição Espanca, aliás Florbela Espanca: Poetisa portuguesa - «Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, / A essa hora dos mágicos cansaços, / Quando a noite de manso se avizinha, / E me prendesses toda nos teus braços… // Quando me lembra: esse sabor que tinha / A tua boca… o eco dos teus passos… / O teu riso de fonte… os teus abraços… / Os teus beijos… a tua mão na minha… // Se tu viesses quando, linda e louca, / Traça as linhas dulcíssimas dum beijo / E é de seda vermelha e canta e ri // E é como um cravo ao sol a minha boca… / Quando os olhos se me cerram de desejo… / E os meus braços se estendem para ti…» (Se Tu Viesses Ver-me…). IMAG.17-80-151-243-302-367-399-494

08DEZ1930-2014 - Maximilian Gerhard Schell, aliás Maximilian Schell: Actor austríaco de teatro e cinema, pianista e maestro, irmão de Maria Schell, distinguido com o Oscar por Julgamento Em Nuremberga (1960) - «A arte provém do caos, não brota de uma análise disciplinada. Quando tive que escolher uma actividade, percebi que a universidade, para ser cientista, só me proporcionaria um diploma. Enquanto, para me tornar actor, dependeria apenas de mim mesmo». IMAG.39-501

10DEZ1830-1886 - Emily Elizabeth Dickinson, aliás Emily Dickinson: Poetisa americana - «Ter Medo? De quem terei? / Não da Morte – quem é ela? / O Porteiro de meu Pai / Igualmente me atropela. // Da Vida? Seria cómico / Temer coisa que me inclui / Em uma ou mais existências – / Conforme Deus estatui.».IMAG.255-327-562

10DEZ1920-1977 - Chaya Pinkhasovna Lispector, aliás Clarice Gurgel Valente, aliás Clarice Lispector: Escritora e jornalista brasileira, natural da Ucrânia - «Sou uma filha da natureza: / quero pegar, sentir, tocar, ser. / E tudo isso já faz parte de um todo, / de um mistério. / Sou uma só… Sou um ser.». IMAG.158-301-375-399-458-484-638-667-755

11DEZ1890-1935 - Charles Romuald Gardés, aliás Carlos Gardel: Artista e compositor argentino, nascido em França, actor e cantor de tango - «As pessoas das diversas partes do mundo podem ter diferentes costumes, idiomas estranhos. Mas há algo mais profundo, em comum: a afinidade que nos faz perceber que todos somos membros da família humana… Que todos somos irmãos». IMAG.46-339-375-520

1944-15DEZ2010 - Carlos Nuno de Abreu Pinto Coelho, aliás Carlos Pinto Coelho: Jornalista, fotógrafo, apresentador de Acontece (RTP2 - 1994-2003) - «Eu não sei onde está o meu coração… O coração está onde estou naquele momento… Sou um homem sem pátria, sem terra, sem raiz… Quando não triunfo, fico muito zangado». IMAG.335-463

ANUÁRiO

1450-1516 - Jeroen Anthoniszoon van Aken, aliás Jeronimus Bosch: Pintor e gravador flamengo - génio transfigurado sobre a Idade Média e o Renascimento, que inspirou o movimento surrealista no Século XX - célebre pelos temas oníricos e fantásticos, de inspiração religiosa, estilizando o tormento, o horror e a morte. IMAG.272-355-573

1859-1910 - Joaquim Alfredo Gallis, aliás Rabelais: Ficcionista e jornalista português, autor de Aventuras Galantes - «Estirada no leito, de bruços, percorri-lhe num beijo único, extraordinário, ultravolúpico, a sua espinha dorsal desde a nuca até ao cóccix.». IMAG.422-707

SUMÁRiO

Gallis
Um jornalista e romancista muito afamado no seu tempo, exerceu o cargo de Administrador do concelho do Barreiro no regime monárquico. Na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira constam algumas notas biográficas de Joaquim Alfredo Gallis, nascido em Lisboa em 1859, que «…exerceu, durante anos, o cargo de escrivão da Corporação dos Pilotos da Barra, e, em comissão, por vezes, o de administrador do concelho do Barreiro…»

BREVIÁRiO

Assírio & Alvim edita Ofício de Paciência de Eugénio de Andrade (1923-2005).
IMAG.33-45-150-248-303-326-389-423-432-460-485-518-526-546-562-566-636-644-770

Harmonia Mundi edita em CD, Claude Debussy [1862-1918]; [Gabriel] Fauré [1845-1924]: Quatuors por Jerusalem Quartet.
IMAG.252-291-301-319-349-375-383-438-489-514-535-540-576-652-764-781

Relógio D’Água edita Na Rússia Com [Rainer Maria] Rilke (1875-1926) de Lou Andreas-Salomé (1861-1937); tradução de Ana Falcão Bastos.  
IMAG.102-112-117-541-592-650-670-677-692

EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

À TRIPA SOLTA, A COBRA É MOLE - 9
O tal Appio Videira deu também um sumiço, entretanto fascinado por outras leviandades hediondas, que acabariam por estraçalhá-lo às mãos lestas de qualquer bandalho ainda mais facínora, ou num capricho característico dos arrebatos policiais ante as piores facécias da ralé.
Continua 

sábado, julho 20, 2019

IMAGINÁRiO #781

José de Matos-Cruz | 01 Dezembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

EXPIAÇÕES
Figura de primeiro plano no panorama do cinema de Hong-Kong, John Woo viu as expectativas sorrirem-lhe na última década do século passado, ao triunfar lenta, mas irreversivelmente, nos circuitos do espectáculo sob o signo de Hollywood. A Outra Face (1997) confirmou tal sucesso, revitalizando uma saga inexorável sobre homens possessos, divididos entre o bem e o mal, em confronto que se entranha num pervertido horror íntimo. Em paralelo, John Woo recupera e subverte as virtualidades da série B, tendo por protagonistas algumas das maiores estrelas do firmamento artístico. Com A Outra Face, John Woo leva mais longe a materialização dos seus símbolos e expiações. O esquema de acção é, como sempre, linear mas explosivo, e John Woo manifesta-se um autor fascinante - entre o espectro da morte e a ambígua redenção - ao transgredir uma espiral fatídica, vertiginosa, com que o cinema extrai da realidade em transe uma dimensão mítica e trágica. Da fúria ao fogo - eis um imaginário sobre as trevas humanas - inspirado em Martin Scorsese ou Sergio Leone. IMAG.134

CALENDÁRiO

21MAR-02JUN2019 - Em Lisboa, Museu Colecção Berardo apresenta Fauna - exposição múltipla (escultura, instalação e vídeo) de André Romão, sendo curador Pedro Lapa. IMAG.655

1943-22MAR2019 - Noel Scott Engel, aliás Scott Walker: Cantor americano com carreira na GB, letrista e compositor, produtor discográfico - «Pode haver uma grande pureza na música pop» (2012). IMAG.758

23MAR-31DEZ2019 - Em Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian apresenta Calouste: Uma Vida, Não Uma Exposição - no âmbito das comemorações dos 150 anos do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955), e sendo comissário Paulo Pires do Vale. IMAG.43-523-697-742-772

1953-24MAR2019 - Manuel Carlos Sanches da Graça Dias, aliás Manuel Graça Dias: Arquitecto português - «Cada arquitectura tem a sua razão de pintura; o que pouco tem a ver com as cores dessa pintura.» (Cores / Vida Moderna - excerto, 1992). IMAG.447-641-738

1928-29MAR2019 - Arlette Varda, aliás Agnès Varda: Cineasta belga radicada em França, fotógrafa e artista plástica, casada com Jacques Demy, professora e realizadora de 2 Horas Na Vida de Uma Mulher/Cléo de 5 à 7 (1962) - «Tento concretizar o filme o mais perto possível do momento em que pensei nele». IMAG.291-524-739

29MAR-16JUN2019 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Go With the Flow - exposição de pintura de Sandra Sequeira.

TRAJECTÓRiA


Alexandre Dumas - O Mestre do Romance Histórico Francês
Nascido em 1802 em Villers-Cotterêts, na Picardia, Dumas Davy de la Pailleterie, mais conhecido pelo pseudónimo literário de Alexandre Dumas, era filho de um general de Napoleão e da filha de um estalajadeiro. Leitor voraz desde pequeno, começou a escrever para revistas e a assinar peças de teatro quando trabalhava em Paris, já após a restauração da monarquia. O sucesso da sua segunda peça, Christine (1830), permitiu-lhe dedicar-se apenas à escrita. Entre as suas obras, traduzidas para quase 100 línguas, contam-se Os Três Mosqueteiros (1844), O Conde de Monte Cristo (1845-46), A Rainha Margot (1845), O Colar da Rainha (1849-50), O Cavaleiro da Mansão Vermelha (1845) ou A Tulipa Negra (1850). Também escreveu livros de viagens, de história e um dicionário de cozinha. Morreu em Puys, em 1870. O seu filho, Alexandre Dumas, Filho, foi também escritor e dramaturgo. Em 2002, os restos mortais do pai de D'Artagnan entraram no Panteão, em Paris.
22FEV2010 - Diário de Notícias

VISTORiA

O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma neste turbilhão infinito e perpétuo, neste movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A dor gera dor num desespero sem limites.
Eu não sou nada. Sou o minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto – nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.
O sonho completo é o universo realizado.
Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos de uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos de uma coisa imensa e cega – de uma tempestade viva.
Raul Brandão
- Húmus (1917, excerto)
A primeira coisa que vos posso dizer é que morávamos num sexto andar sem elevador e que, para a Madame Rosa, com todos aqueles quilos que transportava consigo e só com duas pernas, era uma verdadeira fonte de vida quotidiana, com todas as preocupações e dificuldades. Ela recordava-nos isso sempre que não se queixava de outra coisa, porque era também judia. A sua saúde não era famosa, e posso dizer-vos desde já que era uma mulher que teria merecido um elevador.
Romain Gary/Émile Ajar
- Uma Vida à Sua Frente (1975, excerto); Tradução de Joana Cabral
MEMÓRiA

01DEZ1940-2005 - Richard Franklin Lenox Thomas Pryor, aliás Richard Pryor: Actor americano, comediante, cantor e escritor - «Pegarmos fogo a nós próprios, põe-nos sóbrios rapidamente». IMAG.72

1914-02DEZ1980 - Roman Kacew, aliás Romain Gary: Cineasta, diplomata e escritor francês, ou sob o pseudónimo de Émile Ajar, Fosco Sinibaldi, Shatan Bogat, René Deville e Lucien Brûlard - «O humor é uma afirmação de dignidade, uma declaração da superioridade do homem frente a tudo aquilo que sofre… A realidade não é uma inspiração para a literatura. No máximo, a literatura é uma inspiração para a realidade». IMAG.366-465

1914-02DEZ1990 - António da Costa Jr, aliás António Dacosta: Poeta português, pintor e crítico de arte - «Picasso é um génio, mas um génio cuja arte se inscreve sobre um fundo de classicismo, o que torna respeitáveis as formas mais violentas do seu discurso plástico.» (Dacosta Em Paris - 2000, excerto). IMAG.536-693

04DEZ1920-2013 - Nadir Afonso Rodrigues, aliás Nadir Afonso: Arquitecto e artista plástico português - «A arte é ainda um feudo do idealismo e, quando alguém explica racionalmente o que se passa - mostrando e provando as leis -, há uma reacção de desencantamento» (1983). IMAG.165-323-393-494-604-631

1802-05DEZ1870 - Dumas Davy de la Pailleterie, aliás Alexandre Dumas, Pai: Escritor francês - «Os sofrimentos de um homem têm às vezes sido tantos, que lhe dão o direito de nunca dizer: “Sou demasiado feliz”.» (A Tulipa Negra - 1850, excerto). IMAG.28-168-339-379-564

05DEZ1890-1976 - Friedrich Anton Christian Lang, aliás Fritz Lang: Cineasta austríaco, com carreira na Alemanha e nos EUA - «A minha vida privada nada tem a ver com os meus filmes». IMAG.38-93-272-301-419-573

1867-05DEZ1930 - Raul Germano Brandão, aliás Raul Brandão: Escritor e jornalista português, autor de Húmus (1917) - «Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria alma. Faço parte de uma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dor ligada à minha dor, consciência ligada à minha consciência.». IMAG.48-161-293-301-342-350-384-394-400-431-495-582-602-641-642-668-670-694-700-711-712-719-774

06DEZ1890-1943 - Heinrich Robert Zimmer, aliás Heinrich Zimmer: Historiador de arte alemão, radicado nos EUA - «Observaram a ave elevar-se lentamente no céu, transportando nas suas garras uma cobra ensanguentada. Calcante, o sacerdote-adivinho, interpretou a aparição como um sinal auspicioso, que indicava o triunfo dos gregos sobre os troianos. A ave celestial destruidora da serpente simbolizava, para ele, a vitória da ordem celestial, masculina e patriarcal dos gregos, sobre o princípio feminino da Ásia e de Tróia.» (Mitos e Símbolos Nas Arte e Civilização Indianas - 1946, excerto).

06DEZ1920-2012 - David Warren Brubeck, aliás Dave Brubeck: Compositor americano, maestro e pianista de jazz, autor de The Duke (1955) - «A partir de certa altura, apercebi-me de que é necessário esquecer o passado - embora sem pressas, para desfrutar o que já vivemos». IMAG.443

1943-07DEZ1990 - Reinaldo Arenas: Escritor cubano, autor de Antes Que Anoiteça (1992) - «Creio que a minha mãe sempre foi fiel à infidelidade do meu pai, e optou pela castidade. A castidade da minha mãe era pior que a de uma virgem, porque ela tinha conhecido o prazer durante uns meses, e depois renunciou a ele por toda a vida». IMAG.301-303-427

BREVIÁRiO

Quetzal edita Cartas e Recordações de Saul Bellow (1915-2005); selecção, tradução e prefácio de Salvato Telles de Menezes.  
IMAG.36-87-360-421-518-546-553-555-568

Relógio D’Água edita Obra Completa de Arthur Rimbaud (1854-1891); tradução de Miguel Serras Pereira e João Moita, prefácio de Francisco Vale. 
IMAG.15-52-103-346-487-488-716

Antígona edita Solaris de Stanislaw Lem (1921-2006); tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz. IMAG.87-112-470

Warner edita em CD, Claude Debussy [1862-1918]: The Complete Works.  
IMAG.252-291-301-349-375-383-438-535-540-576-652-764
 

quarta-feira, julho 10, 2019

IMAGINÁRiO #780

José de Matos-Cruz | 24 Novembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

CELEBRAÇÕES
Por finais de Novembro, o coração das crianças começa a bater mais forte, e no rosto dos adultos desenha-se um sorriso de candura. Enfim, após umas semanas de ansiedade, chega a noite especial, e está tudo preparado para a grande festa - que se celebra a 25 de Dezembro - e para receber quem todos esperaram ao longo do ano… Imaginem, agora, a realidade profana desta fascinante fantasia - alguém que exista mesmo e não seja um mero símbolo, com barbas brancas e trajando de vermelho! Eis a proposta de Bom Dia, Menino Pai Natal (2000) - na alegre e adorável concepção de Lewis Trondheim, para a ilustração ágil e alusiva de Thierry Robin. Cada página deste álbum colorido, divertido, é outra faceta de um universo mágico que, da infância, se estiliza em banda desenhada sob os auspícios da escola franco-belga. Mas, até o Pai Natal tem os seus problemas: calculem que não pode fabricar mais brinquedos, por falta de combustível - o vulgar lixo que cada um de nós vai deitando fora, e assim reciclado em salvaguarda da mãe Natureza. Ora, não se apoquentem os mais pequeninos, pois há sempre resíduos urbanos para tratar, e o Pai Natal põe em cada aventura um final feliz! IMAG.592

CALENDÁRiO

1941-14MAR2019 - Augusto José de Matos Sobral Cid, aliás Augusto Cid: Cartoonista português, ilustrador, caricaturista, escritor e publicitário, escultor - «O cartoon também serve para denunciar coisas que estão a ser mal feitas, ou que ainda se vão passar» (2012). IMAG.45-197-252-279-292-429-630

21MAR2019 - Nitrato Filmes estreia O Homem Pykante - Diálogos Kom Pimenta (2018) de Edgar Pêra; a vida e a obra do escritor Alberto Pimenta.  
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21MAR2019 - NOS Audiovisuais estreia Gabriel (2019) de Nuno Bernardo; com Igor Regalla e José Condessa.

21MAR-23JUN2019 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva expõe, no Museu, A Metade do Céu - um projecto de Pedro Cabrita Reis. IMAG.405-427-612-676-689-720-742

23MAR2019 - Bedeteca da Amadora inaugura, em parceria com Clube Português de Banda Desenhada/CPBD, a Fanzineteca Geraldes Lino.  
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23MAR-25MAI2019 - Em Oeiras, Livraria-Galeria Municipal Verney apresenta 4 Em 1: Neves e Sousa Revisitado - exposição de desenho / ilustração de Albano Neves e Sousa (1921-1995), Darsy Fernandes, Miguel Santos, Osvaldo Medina e Pepedelrey. IMAG.127-424-577-716-747

PARLATÓRiO

Marx era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para o derrube da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era o seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com que poucos puderam rivalizar.
Como consequência, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto absolutistas como republicanos, deportaram-no de seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou ultra-democráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando uma necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e pranteado por milhões de camaradas trabalhadores revolucionários - das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América - e atrevo-me a dizer que, embora, muito embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal.
Friedrich Engels
(1883)
VISTORiA

Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. Deixamos de pensar com os nossos próprios pensamentos ou de arder com as nossas próprias paixões. As nossas virtudes não nos são naturais. Os nossos pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Tornamo-nos o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para nós. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia, as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e, se calhar, nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.
Oscar Wilde
- O Retrato de Dorian Gray (excerto)

Primavera

A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo –
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Maria da Saudade Cortesão

Quanto mais uma nação se moderniza, tanto menos significativas, e mais frias, se tornam as relações pessoais. Para quem vive nessa espécie de sociedade, o amor é impossível. Por exemplo, se A pensa que gosta de B, não dispõe de meios para se certificar disso, e vice-versa. Por conseguinte, o amor não pode existir na sociedade moderna – se for uma relação meramente recíproca. Se não houver a imagem de uma terceira pessoa que dois amantes tenham em comum – o vértice do triângulo –, o amor acaba em eterna descrença.
Yukio Mishima
- Confissões de Uma Máscara (excerto)
MEMÓRiA

1846-24NOV1870 - Isidore Lucien Ducasse, aliás Conde de Lautréamont: Escritor uruguaio, residente em França - «A minha poesia não consistirá em outra coisa senão atacar, por todos os meios, o homem, essa besta-fera, e o criador, que não deveria ter engendrado semelhante insecto. Volumes se amontoarão sobre volumes, até ao fim da minha vida, e, no entanto, nada mais encontrarão neles, a não ser esta ideia única, sempre presente em minha consciência!» (Os Cantos de Maldoror). IMAG.300-557

1929-24NOV1990 - Michel Giacometti: Etnólogo francês nascido na Córsega e radicado em Portugal (1959), recolheu a tradição e a memória da música popular, por áreas e costumes regionais, tendo apresentado a série Povo Que Canta (1970 - Radiotelevisão Portuguesa / RTP) de Alfredo Tropa. IMAG.538-690-696

25NOV1940-2015 - Percy Tyrone Sledge, aliás Percy Sledge: Compositor e cantor americano de soul e r&b/rhythm and blues, intérprete de When a Man Loves a Woman - «A melodia era a que eu costumava cantar, quando trabalhava nos campos de algodão». IMAG.564

1925-25NOV1970 - Kimitake Hiraoka, aliás Yukio Mishima: Novelista e dramaturgo nipónico - «A vida humana tem limites, é precária e finita, mas eu gostaria de viver para sempre». IMAG.223-254-300-498

1913-25NOV2010 - Maria da Saudade Cortesão Mendes, aliás Maria da Saudade Cortesão: Poetisa e tradutora portuguesa, filha de Jaime Cortesão, casada com Murilo Mendes, distinguida com o Prémio Pen 2009 - «Mulher toda sal e espuma / filha e neta de altos entes / companheira de arte-vida…» (Murilo Mendes). IMAG.333-448

1923-27NOV2010 - Isadore Kershner, aliás  Irvin Kershner: Cineasta norte-americano, realizador de O Império Contra-Ataca / The Empire Strikes Back (1980) - «Tenho receio do patriotismo. O mundo tornou-se muito pequeno e cósmico, o que torna o patriotismo uma noção infantil, capaz de manipular, facilmente, as mentes imaturas. Tal pode suscitar problemas sociais, e comprometer os nossos anseios de liberdade» (1980). IMAG.333-416

28NOV1820-1895 - Friedrich Engels: Filósofo alemão, co-autor (com Karl Marx) de Manifesto do Partido Comunista - «O factor, em última análise, determinante da história, é a produção e a reprodução da vida imediata». IMAG.299-410-525

1926-28NOV2010 - Leslie William Nielsen, aliás Leslie Nielsen: Actor canadiano - «A violência nas comédias ao estilo vaudeville corresponde a uma técnica muito própria. Assumimo-la, estamos a fazer algo específico… Isto é, fazemos o público rir».IMAG.333-550

1915-29NOV2010 - Mario Monicelli: Argumentista e cineasta italiano - «A morte não me assusta, aborrece-me. Aborrece-me, por exemplo, que alguém possa cá estar e eu não. Não temo a morte, tenho é pena de não estar vivo». IMAG.214-333-475-515-764

1854-30NOV1900 - Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, aliás Oscar Wilde: Escritor inglês, de origem irlandesa - «Escolho os meus amigos pela sua boa apresentação, os meus conhecidos pelo seu bom carácter, e os meus inimigos pela sua boa inteligência… Não podemos ser muito exigentes, na escolha dos nossos inimigos». IMAG. 14-61-204-256-277-301-396-487-499-582-593

BREVIÁRiO

Minotauro edita Flores ao Telefone / Os Idólatras / Tempo de Mercês de Maria Judite de Carvalho (1921-1998). IMAG.376-643-764
 

quinta-feira, julho 04, 2019

IMAGINÁRiO #779

José de Matos-Cruz | 16 Novembro 2020 | Edição Kafre | Ano XVI – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

HUMORES
Parece incrível, mas é uma verdade sensacional: Charlie Brown e os seus compinchas, mais conhecidos por Peanuts, celebraram meio século em pleno ano 2000. Tudo começou a 2 de Outubro de 1950, em tira diária publicada no Saturday Evening Post. Tinha assinatura de Charles Monroe Schulz, um artista simpático mas reservado, nascido em Minneapolis, a 26 de Novembro de 1922. Aquela que se converteria na mais popular e estilizada expressão pós-moderna dos quadradinhos americanos, pelo humor sofisticado ao nível infantil, familiar e social, Peanuts simboliza, afinal, uma saga histórica e cultural da própria América. Tudo culminaria a 13 de Fevereiro de 2000, quando se consumou a morte há meses anunciada dos Peanuts. Horas antes, Schulz falecera, de cancro no cólon. Assim, do nascimento à despedida, expande-se a glória dos Peanuts. Com publicação em mais de dois mil e seiscentos jornais em todo o mundo, sendo na terra natal a favorita para noventa milhões de leitores. Mas Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy ou Woodstock foram reproduzidos em milhares de artigos - bonecos, vestuário, cartazes - que rendem anualmente uns cinquenta milhões de dólares.
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CALENDÁRiO

23JAN-20MAI2019 - Em Lisboa, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia / MAAT apresenta Anátema - exposição de escultura de Ana Santos, sendo curadora Ana Anacleto.

08MAR-12MAI2019 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Si Tú Me Olvidas de Tamia Dellinger e Alejandra Ferrer.

13MAR-14ABR2019 - Centro de Exposições de Odivelas/CEO apresenta Espaço Interrompido - exposição de escultura de Pedro Figueiredo. IMAG.626

14MAR2019 - Desforra Apache estreia Chuva É Cantoria Na Aldeia dos Mortos (2018) de João Salaviza e Renée Nader Messora; com Henrique Ijhãc Krahô e Raene Kôtô Krahô. IMAG.269-409-595

14MAR2019 - Pris Audiovisuais estreia Ladrões de Tuta e Meia (2019) de Hugo Diogo; com Rui Unas e Leonor Seixas. IMAG.325-778

BREVIÁRiO

Caminho edita A Revolução de 1383 de António Borges Coelho. IMAG.131-189-219-614

VISTORiA

que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
Herberto Helder
- A Faca Não Corta o Fogo (2008)
MEMÓRiA

1901-16NOV1960 - William Clark Gable, aliás Clark Gable: Actor americano de cinema - «Francamente, minha cara, eu não estou interessado» (como Rhett Buttler para Scarlett O’Hara, aliás Vivien Leigh, em E Tudo o Vento Levou / Gone With the Wind - 1939). IMAG.46-230-312-334-449-652

17NOV1910-2003 - Rachel de Queiroz: Ficcionista, poeta e dramaturga brasileira - «Na minha infância, todas as velhas só viviam na igreja… Velha sem religião, quem inaugurou foi minha geração.» (Rachel - Vida e Obra - excerto, 1998). IMAG.299-441

18NOV1910-2011 - Gunnar Fischer: Director de fotografia sueco, mestre do preto e branco, trabalhou com Ingmar Bergman em O Sétimo Selo e Morangos Silvestres (1957) - «Desde início, fizemos o pacto de que nunca seríamos escravos ou bajuladores um do outro». IMAG.362

19NOV1920-29AGO1980 - António Martinho do Rosário, aliás Bernardo Santareno: Escritor português, ficcionista e poeta, dramaturgo - «Tenho 45 anos e estou farto, cansado, já não acredito em nada. Esta será a minha última peça. Estou desesperado e a vida dói-me horrivelmente. Sim, esta representação é, gostaria que fosse, uma despedida. Uma despedida sem amor. Perdi tudo.» (Português, Escritor, 45 Anos de Idade - excerto, 1974). IMAG.155-169-288-635-648-696

20NOV1900-1985 - Chester Gould: Autor americano de banda desenhada, criador de Dick Tracy (1931) - «Convenci-me de que, se a polícia não conseguia capturar os bandidos, tinha eu de criar um herói capaz de lhes dar caça». IMAG.24-151-277-341-514

1828-20NOV1910 - Lev/Leon Nikolaievitch Tolstoi, aliás Lev/Leon Tolstoi: Escritor russo - «Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descerem dos seus ombros».
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20NOV1940-2014 - Helma Sanders-Brahms: Realizadora alemã, argumentista, actriz e produtora, membro destacado do novo cinema alemão, Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França. IMAG.518

23NOV1930-2015 - Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, aliás Herberto Helder: Poeta e ficcionista português, autor de Retrato Em Movimento (1967) - «O melhor que disseram de mim foi quando estiveram calados» (1965).
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VISTORiA

Uma mulher foi visitar a sua irmã mais nova que vivia no campo; a primeira estava casada com um mercador da cidade, a outra com um camponês da aldeia; quando estavam a tomar o chá, a mais velha começou a gabar a vida da cidade, dizendo que se vivia por lá com todo o conforto, que toda a gente andava bem arranjada, que as filhas tinham vestidos lindíssimos, que se bebiam e comiam coisas magníficas e que se ia ao teatro, a passeios e a festas. A irmã mais nova, um pouco despeitada, mostrou todos os inconvenientes da vida do comércio e exaltou as vantagens da existência dos camponeses.
Não trocaria a minha vida pela vossa; é certo que vivemos com alguma rudeza, mas, pelo menos, não estamos sempre ansiosos; vocês vivem com mais conforto e mais elegância, mas ganham muitas vezes mais do que precisam e estão sempre em riscos de perder tudo; lá diz o ditado: «Estão juntos na merca o ganho e a perca»; quem está rico num dia pode, no dia seguinte, andar a pedir pão pelas portas; a nossa vida é mais segura; se não é farta é, pelo menos, comprida; nunca seremos ricos, mas sempre teremos bastante que comer.
A irmã mais velha replicou com zombaria:
Bastante? Sim, bastante, se vocês se contentarem com a vida dos porcos e das vitelas. Que sabem vocês de elegância e de boas maneiras? Por mais que o teu marido trabalhe como um escravo, vocês hão-de morrer como têm vivido num monte de estrume; e os vossos filhos na mesma.
Bem, e depois? retorquiu-lhe a outra. Não nego que o nosso trabalho seja rude e grosseiro; mas em compensação é seguro e não precisamos de nos curvar diante de ninguém; vocês, na cidade, vivem rodeados de tentações; hoje tudo corre bem, mas amanhã o Diabo pode tentar o teu marido com a bebida, o jogo ou as mulheres e lá se vai tudo. Bem sabes que é o que sucede muitas vezes.
Pahóm, o dono da casa, estava deitado à lareira e escutava a conversa das mulheres.
«É realmente assim» pensava ele. «Os lavradores ocupados desde meninos no amanho da terra não têm tempo para pensar em tolices; o que nos consome é, só, não termos terra bastante; se eu tivesse toda a terra que quero, nem o Diabo seria capaz de me meter medo.»
Leon Tolstoi
- De Quanta Terra Precisa o Homem (excerto, 1886)

O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.
Rachel de Queiroz
- Memorial de Maria Moura (excerto, 1992)