sexta-feira, janeiro 15, 2016

IMAGINÁRiO #592

José de Matos-Cruz | 24 Dezembro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
CELEBRAÇÕES
Por finais de Novembro, o coração das crianças começa a bater mais forte, e no rosto dos adultos desenha-se um sorriso de candura. Enfim, após umas semanas de ansiedade, chega a noite especial, e está tudo preparado para a grande festa - que se celebra a 25 de Dezembro - e para receber quem todos esperaram ao longo do ano… Imaginem, agora, a realidade desta fascinante fantasia - alguém que exista mesmo e não seja um mero símbolo, com barbas brancas e trajando de vermelho! Eis a proposta de Bom Dia, Menino Pai Natal / Bonjour, Petit Pére Noel (2000) - na alegre e adorável concepção de Lewis Trondheim, para a ilustração ágil e alusiva de Thierry Robin.
Cada página deste álbum colorido, divertido, é outra faceta de um universo mágico que, da infância, se estiliza em banda desenhada sob os auspícios da escola franco-belga. Mas, até o Pai Natal tem os seus problemas: calculem que não pode fabricar mais brinquedos, por falta de combustível - o vulgar lixo que cada um de nós vai deitando fora, e assim reciclado em salvaguarda da mãe Natureza. Ora, não se apoquentem os mais pequeninos, pois há sempre resíduos urbanos para tratar, e o Pai Natal põe em cada aventura um final feliz!


VISTORiA

De Vuelta a Casa

¨ Desde mi cielo a despedirme llegas
fino orvallo que lentamente bañas
los robledos que visten las montañas
de mi tierra, y los maíces de sus vegas.

Compadeciendo mi secura, riegas
montes y valles, los de mis entrañas,
y con tu bruma el horizonte empañas
de mi sino, y así en la fe me anegas.

Madre Vizcaya, voy desde tus brazos
verdes, jugosos, a Castilla enjuta,
donde fieles me aguardan los abrazos

de costumbre, que el hombre no disfruta
de libertad si no es preso en los lazos
de amor, compañero de la ruta.
Miguel de Unamuno

Legenda Para a Vida de Um Vagabundo

¨Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
― Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais se não possa dar.
Joaquim Namorado
- Antologia de Poetas Alentejanos
 
¨Quem não tem razão é sempre insolente o bastante para apoquentar a paciência de quem tem razão. A razão ferve em pouca água, a ausência de razão aventa sempre uma aparência de descuido frívolo e orgulhoso. Quem tem boas e apaixonadas intenções (Kraus) sucumbe sempre às mãos de quem (eu, portanto) não preza tanto o que é bom e útil. Eu triunfo porque fico ainda deitado na cama… São-me infinitamente simpáticas as pessoas que se zangam… O indignado tem sempre de ser confrontado pelo pecador, caso contrário falta alguma coisa.
Robert Walser
- Jakob von Gunten - Um Diário
(1909 – excerto - Tradução de Isabel Castro Silva)
CALENDÁRiO
 
¸1920-24OUT2015 - Maureen FitzSimons, aliás Maureen O’Hara: Actriz e cantora americana, de origem irlandesa - «Os seus papéis foram sempre de grandeza humana, de firmeza absoluta, marcada nuns olhos de constante espanto» (Inês Lourenço). IMAG.114

MEMÓRiA

¨ 1878-25DEZ1956 - Robert Walser: Escritor suíço de língua alemã - «Quando estamos assim, sem nada que fazer, pressentimos subitamente quão dolorosa pode ser a existência. A energia dispendida a fazer alguma coisa não é nada quando comparada à energia de nada fazer e ainda assim ter de manter a postura». IMAG.200-376

¯1933-25DEZ2006 - James Joseph Brown Jr., aliás James Brown, aliás Mr. Dynamite: Cantor americano, precursor da música funk - «O cabelo é a primeira coisa importante. Os dentes, a segunda. Os cabelos e dentes. Um homem tem essas duas coisas como deve ser, pode considerar-se que ele possui tudo aquilo de que precisa para ter sucesso». IMAG.57-90-125-328

®1881-22DEZ1926 - André Francisco Brun, aliás André Brun: Escritor português, ficcionista e dramaturgo - «Para se desenhar em termos um acto heróico, é preciso pelo menos um recuo de duzentos quilómetros… De perto, a heroicidade confunde-se com coisas que de heróico não têm a mínima parcela.» (A Malta das Trincheiras - Migalhas da Grande Guerra: 1917-1918). IMAG.327-339-416

¨ 1875-29DEZ1926 - Reiner Maria Rilke: Poeta alemão - «Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar.» (Cadernos de Malte Laurids Brigge). IMAG.102-112-541

­ 1889-29DEZ1946 - Abel de Lima Salazar, aliás Abel Salazar: Médico português, investigador e professor, artista plástico - «Um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe!» (Instituto de Biomédicas do Porto). IMAG.101-112-304-488-553

¸ 1932-29DEZ1986 - Andrei Arsenyevich Tarkovski, aliás Andrei Tarkovski: Cineasta soviético - «A questão da vanguarda é peculiar ao Século XX, à época em que a arte vem, progressivamente, perdendo a sua espiritualidade. A situação é ainda pior nas artes visuais, que hoje estão quase inteiramente privadas de espiritualidade». IMAG.32-112-383-470

¨ 1914-29DEZ1986 - Joaquim Vitorino Namorado, aliás Joaquim Namorado: Poeta português, membro do grupo neo-realista de Coimbra - «Então / os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros / cobertos de cicatrizes / porque fizeram todo o caminho do tempo / multiplicados por milhões de vozes / pela alta potência dos alto-falantes / como uma bandeira erguida / sobre os anos futuros.» (Poeta - excerto). IMAG.472

¨ 1864-31DEZ1936 - Miguel de Unamuno y Jugo, aliás Miguel de Unamuno: Escritor e filósofo espanhol - «O céu da fama não é muito grande e, quantos mais ali entrarem, menos fica para cada um deles». IMAG.112-226-382-484
         
COMENTÁRiO
 
¨ Toda a arte é pela arte e toda a arte é humana; depende isso do sentido que se queira ligar às frases, as quais só por si nada significam. Se alguém diz que lhe não interessa a arte quando ela não tem por tema um caso social, esse alguém diz uma coisa com sentido, que tem um legítimo direito de afirmar; mas se esse alguém diz que toda a arte deve ser social, ou que a arte não deve ser senão social ou humana, faz então uma afirmação puramente gratuita, vazia de sentido e absolutamente estéril.
Abel Salazar
- Que É a Arte? (1940 - excerto)
PARLATÓRiO
 
¸ Se tentarmos agradar ao público, aceitando acriticamente as suas preferências, isso significará apenas que não temos respeito algum por ele, que só queremos o seu dinheiro. Em vez de educarmos o espectador através de obras de arte inspiradoras, estaremos apenas a ensinar o artista a garantir o seu lucro. Por sua parte, o público ― satisfeito com aquilo que lhe dá prazer ― continuará firme na convicção de estar certo, uma convicção no mais das vezes sem fundamento. Deixar de desenvolver a capacidade crítica do público equivale a tratá-lo com total indiferença.
Andrei Tarkovski
¯ A minha obra Funky [1997] é sobre injustiças, sobre as coisas que se tornam erradas, como as crianças esfomeadas que vão para a escola tentando aprender. Funky é sobre o que faz as pessoas movimentarem-se - como o gospel e o jazz.
James Brown
(2000 - à CNN)

EPISTOLÁRiO
 
Carta a Franz Kapus (1904)

+ A rapariga e a mulher, neste seu novo e próprio desenvolvimento, imitarão o jeito e os vícios dos homens e copiarão as profissões masculinas apenas por algum tempo. Uma vez vencida a insegurança destas transições, ver-se-á que esta multiplicação e constante mudança de disfarces (quantas vezes ridículos) ajudarão as mulheres a depurarem a sua natureza das influências desfiguradoras do outro sexo. As mulheres, em que a vida mora e perdura de maneira mais imediata, fértil e confiada, ter-se-ão no fundo tornado pessoas mais amadurecidas, pessoas mais humanas, quando comparadas com a leveza do homem, que é incapaz de penetrar a superfície da vida com o peso de um fruto carregado no ventre, que é demasiado petulante e precipitado para dar valor ao que julga amar. Esta humanidade da mulher, moldada pela dor e pela humilhação, será trazida à luz do dia quando ela se despir das convenções da feminilidade estrita, ao longo das metamorfoses da sua condição exterior, e os homens, que hoje não pressentem ainda esta mudança, serão surpreendidos e abalados por ela. Chegará o dia (e nos países nórdicos temos já sinais evidentes que anunciam e iluminam este dia) em que surgirão a rapariga e a mulher cujo nome já não designa nada que se oponha ao ser masculino, mas antes qualquer coisa que existe para si, qualquer coisa que não fará pensar em complemento ou limite, mas apenas na vida e na presença no mundo: o ser humano feminino.
Este progresso, contrariando de início a vontade dos homens ultrapassados, trará uma metamorfose da experiência do amor, que a mudará desde o seu fundamento até lhe dar a forma de uma relação entre um ser humano e outro ser humano, e já não entre um homem e uma mulher. E este amor mais humano (que se consumará num movimento infinitamente atencioso e discreto, e bom e claro, de prendimento e libertação) será semelhante àquele que arduamente preparamos e pelo qual lutamos, o amor de duas solidões que se protegem, delimitam e saúdam.
Rainer Maria Rilke
- Cartas a Um Jovem Poeta
(Tradução de Isabel Castro Silva)
BREVIÁRiO
 
¨Caminho edita Meu Pai, o General Sem Medo - Memórias de Iva Delgado; sobre Humberto Delgado (1906-1965). IMAG.61-436


terça-feira, janeiro 12, 2016

IMAGINÁRiO #591

José de Matos-Cruz | 16 Dezembro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
OUSADIAS
«A literatura infantil, os contos de fadas, estão estreitamente ligados às sensações e, sobretudo, ao medo» - referia François Truffaut nas célebres conversas sobre O Cinema de Alfred Hitchcock, tendo motivado mais um ambíguo comentário ao mestre do suspense: «Mas é esse, precisamente, o fascínio do imaginário». Tal poderia simbolizar o apelo dos clássicos sobre a banda desenhada, de que é exemplar Aprender a Ter Medo / Apprendre à Frissonner (1998) - na versão escrita e ilustrada por Pierre Lavaud, aliás Mazan, artista da Escola de Angoulême - também autor de O Alfaiatezinho Valente / Le Vaillant Petit Tailleur (1997), premiado como Melhor Álbum Juvenil no Festival de Erlangen. A partir da narrativa concebida pelos irmãos Jacob & Wilhelm Grimm, e publicada em antologia nos princípios do Século XIX, eis a saga de um jovem que, por ousadia ou inconsciência, não sabe o que é temor, indo pelo mundo em busca de emoções fortes, mas permanecendo impávido ante espectros, monstros ou fantasmas…
Sobressai a recriação irónica e fantasista, estilizada por um grafismo solto mas alusivo. IMAG.562


CALENDÁRiO
 
¢17SET-15NOV2015 - Em Lisboa, Galeria Ratton expõe O Azulejo e a Palavra de Andreas Stöklein e Pedro Proença.

16OUT2015-27FEV2016 - Em Lisboa, Museu do Dinheiro - Sede do Banco de Portugal apresenta (Re)Fundações de Lisboa - exposição sobre a estacaria da Baixa Pombalina.

¢24OUT-24NOV2015 - No Porto, Palacete dos Viscondes de Balsemão apresenta Luz Acesa Nos Bastidores - exposição de desenho de Luís Manuel Gaspar. IMAG.399-417-459-554

24OUT2015-31JAN2016 - Em Cascais, Fundação D. Luís I expõe com Adico, na Casa de Santa Maria, Homenagem à Cadeira Portuguesa.

¨13NOV2015-15FEV2016 - Em Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian expõe, em colaboração com a Fundação da Casa de Bragança e a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, D. Manuel II e os Livros de Camões, sendo curador José Augusto Cardoso Bernardes.

COROLÁRiO
 
David Levine contribuiu com cerca de 3800 desenhos para a revista The New York Review, mais de mil para a Esquire e centenas de caricaturas que encheram páginas e fizeram capas de publicações como Rolling Stone, Playboy ou The New Yorker.
30DEZ2009 - The New York Times

TRAJECTÓRiA

¨Penelope Fitzgerald é uma das vozes notáveis da ficção britânica. Autora tardia, publicou o primeiro livro, uma biografia sobre o pintor Edward Burne-Jones, em 1975, a que se seguiu, dois anos depois, o seu primeiro romance, quando já tinha sessenta anos. Depois de licenciar-se em Somerville College, Oxford, trabalhou na BBC. Durante a guerra, foi editora de um jornal literário, geriu uma livraria e ensinou em várias escolas, incluindo uma de teatro. Autora de nove romances, três dos quais - A Livraria, The Beginning of Spring e The Gate of Angels - estiveram na shortlist para o Booker Prize, Fitzgerald foi finalmente distinguida com o prémio em 1979, por Offshore. O seu último romance, A Flor Azul, o mais admirado de 1995, foi repetidamente eleito pela imprensa internacional como Livro do Ano. Ganhou ainda o Circle Award, atribuído pela America’s National Book Critics, contribuindo para que se tornasse conhecida de um público mais vasto. Reconhecida biógrafa e crítica, Penelope Fitzgerald escreveu ainda acerca da vida da poetisa Charlotte Mew e publicou a obra The Knox Brothers sobre o seu extraordinário pai - Edmund Knox, editor da revista Punch - e irmãos. Fitzgerald faleceu em Londres em Abril de 2000, aos oitenta e três anos.

VISTORiA
 
¨ O medo de coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que toda a gente, em seu íntimo, chama religião…
Vivemos com o baralho viciado contra nós, e depois morremos: é só isso? Nada, a não ser um sono sem sonhos e sem fim? Onde é que está a justiça nisto tudo? É desolador, brutal, impiedoso. Não deveríamos ter uma segunda oportunidade numa arena nivelada?
Assim seria, se o mundo fosse idealizado, pré-planeado, justo. Assim seria, se os que sofrem com a dor e o tormento recebessem o consolo que merecem.
Carl Sagan
- O Mundo Infestado de Demónios (excertos)
     
MEMÓRiA
 
¢16DEZ1866-1944 - Wassily Wassilyevich Kandinsky, aliás Wassily Kandinsky: Artista plástico russo, nacionalizado alemão (1928) e francês (1939), professor da Bauhaus e pioneiro da abstracção - «Não devemos tender à limitação, mas à libertação. Só a liberdade nos permite acolher o futuro».

¯ 17DEZ1906-1994 - Fernando Lopes-Graça: Compositor e maestro português - «Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance? Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia». IMAG.15-48-106-111-140-146-175-261-262-326-332-342-492-536-541-587

¨ 17DEZ1916-2000 - Penelope Knox, aliás Penelope Fitzgerald: Ficcionista, poeta, biógrafa e historiadora inglesa, distinguida com o Booker Prize (1979) - «Uma terra sem livraria é, muito possivelmente, uma terra que não merece qualquer livraria.» (A Livraria). IMAG.404

¸ 19DEZ1916-2010 - Roy Ward Baker: Realizador britânico de televisão e cinema - dirigiu Uma Noite Inesquecível / A Night To Remember (1958) - «Nunca fui um exibicionista como Hitchcock. E paguei o preço de não ter investido em ser famoso. Aliás, isso não me interessa» (2000). IMAG.328

¸ 1924-19DEZ1996 - Marcello Vincenzo Domenico Mastroianni, aliás Marcello Mastroianni: Actor italiano - «A mulher é como o sol, uma extraordinária criatura que permite à nossa imaginação partir em cavalgada». IMAG.72-254-484-551

20DEZ1926-2009 - David Levine: Artista gráfico e caricaturista norte-americano - «As imagens engraçadas de famosos podem incitar alguma humildade ou auto-consciência» - «Herdeiro dos mestres da ilustração do Século XIX, Honoré Daumier e Thomas Nast» (The New York Times). IMAG.284

R 1934-20DEZ1996 - Carl Edward Sagan, aliás Carl Sagan: Astrobiólogo, astrónomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico americano - «Será interessante registar que, enquanto se verificou que alguns golfinhos aprenderam a falar inglês (mais de cinquenta palavras usadas num contexto correcto), não houve ainda qualquer referência a um ser humano que tenha aprendido a falar golfinhês». IMAG.111-490

¨ 21DEZ1926-2011 - Arnost Lustig: Escritor checo - «Nasci de uma mamã judia e de um papá judeu, no país checo. Isso marcou o meu destino». IMAG.345

¨ 22DEZ1876-1944 - Filippo Tommaso Emilio Marinetti: Escritor e editor italiano, ideólogo do Movimento Futurista - «Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu capot ornado com grossos tubos semelhantes a serpentes de sopro explosivo… Um automóvel que ruge e parece correr sobre a metralha é mais belo que a Vitória de Samotrácia». IMAG.404-493

¯1919-22DEZ2006 - Galina Ivanovna Ustvolskaya, aliás Galina Ustvolskaya: Compositora soviética - «…Não houve injustiça maior no retrato que ao longo dos anos se foi pintando da russa do que a que a caracterizou como uma compositora desprovida de ingenuidade» (João Santos).

¯ 1599-c.23NOV1676 - Étienne Moulinié: Compositor francês - «No que concerne ao meu peculiar modo de compor, sinto-me obrigado a observar que os mais arrojados dos meus gestos podem afigurar-se algo licenciosos aos olhos daqueles que preferem a austeridade da maneira antiga face aos prazeres da nova».

¨ 23DEZ1896-1957 - Giuseppe Tomasi di Lampedusa: Escritor italiano - «O amor. Claro, o amor. Fogo e chamas por um ano, cinzas por trinta. Ele bem sabia o que era o amor.» (O Leopardo). IMAG.105-189-276-295-410

BREVIÁRiO
 
¯ Harmonia Mundi edita em CD, Étienne Moulinié [1599-1676]: Meslanges Pour la Chapelle d’Un Prince por Ensemble Correspondances, sob a direcção de Sébastian Daucé.

¨Quarto de Jade edita Histórias Naturais de Jules Renard (1864-1910); ilustrações de Maria João Worm, tradução de Carlos Pombo. IMAG.275-289-301-325-359-386-409-416-430-444-451-553

¯Distrijazz edita em CD, sob chancela ECM, Violin Sonata; Clarinet Trio; Duet de Galina Ustvolskaya (1919-2006), por Patricia Kopatchinskaja (violino), Markus Hinterhäuser (piano) e Reto Bieri (clarinete).

¨ Dom Quixote edita O Fotógrafo e a Rapariga de Mário Cláudio. IMAG.51-220-520-522-541


segunda-feira, janeiro 04, 2016

IMAGINÁRiO #590

José de Matos-Cruz | 08 Dezembro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
CONFLITOS

Escrita por Charles Fuller, a partir da sua peça teatral - inspirada em Billy Budd de Herman Melville, e galardoada com o Prémio Pulitzer -, A História do Soldado / A Soldier's Story (1984) é uma crónica da sociedade americana, em finais da II Guerra Mundial, tomando como pretexto o assassinato dum soldado negro, em Companhia aquartelada no Luisiana, e as peripécias de investigação que motivou. Sendo intérpretes Howard E. Rollins Jr e Denzel Washington, trata-se de um mosaico onde convergem, ou se debatem, os sonhos e os desencontros, os valores e os preconceitos, as tensões e os desafios. A realização, com assinatura de Norman Jewison, paira entre a viragem e a expectativa - quanto ao testemunho duma actualidade marcada pelo conflito bélico nas regras comunitárias, e aos dilemas que se repercutem do passado em crises de mentalidade, confrontando-se no horizonte irreversível de um futuro além dos escombros vividos. IMAG.268

MEMÓRiA

¸08DEZ1936-2009 - John Arthur Carradine, aliás David Carradine: Actor americano, filho de John Carradine, protagonista da série televisiva Kung Fu (1970) e dos filmes Kill Bill (2003-2004) - «O salgueiro frágil enfrenta a tempestade e, todavia, sobrevive… Há sempre uma alternativa - uma terceira via, que não é a combinação de duas outras vertentes. É algo autónomo, diferente». IMAG.20-253

ü1913-09DEZ1996 - Mary Leakey: Arqueóloga e antropóloga inglesa - dedicou grande parte da sua carreira a descobrir ferramentas e fósseis dos homínideos. Responsável pela descoberta do primeiro esqueleto do humanóide Proconsul, género de primatas que viveram há cerca de 22 milhões de anos, e ancestrais dos humanos. Trabalhando em África durante muitos anos, desenvolveu um sistema de classificação de utensílios de pedra, Tendo ainda encontrado quinze novas espécies animais.

¨1542-10DEZ1616 - Diogo do Couto: Cronista, autor de Diálogo do Soldado Prático, continuador das Décadas da Ásia de João de Barros - «Como mandais vós, senhor, dar vida a uns inimigos que tanto têm trabalhado para nos beber o sangue? Se tal é verdade, eu, e estas minhas companheiras que neste cerco temos tamanho quinhão, como todos os homens, o não havemos de consentir, antes os havemos de espedaçar com nossas mãos, por isso mandai que no-los entreguem» (V - Da Ásia - ed 1779). IMAG.353

1833-10DEZ1896 - Alfred Nobel: Químico sueco e inventor da dinamite, misturando nitroglicerina com argila. Em testamento de 1895, estipulou os Prémios Nobel para distinguir as personalidades que, durante o ano, trabalharam em benefício da Humanidade - nas áreas da Física, Química, Fisiologia/Medicina, Literatura, Paz e (a partir de 1969) da Economia - «Se eu tiver mil ideias e uma delas for uma boa ideia, já fico satisfeito... Rir-se-ão de mim, o homem da dinamite feito amigo da paz. Mas, uma vez que os homens não escutam a razão, é necessário inventar um instrumento de morte para que, pelo medo, a humanidade passe à paz». IMAG.297-439

¨1867-10DEZ1936 - Luigi Pirandello: Ficcionista, poeta e dramaturgo siciliano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1934) - «Frases! Frases! Como se o conforto de todos, diante de um facto que não se explica, diante de um mal que nos consome, não fosse encontrar uma palavra que não diz nada e na qual nos tranquilizamos!». IMAG.110-112-165-223-470-484-500

R14DEZ1546-1601 - Tyge Ottesen Brahe, aliás Tycho Brahe: Astrónomo dinamarquês - «Os meus corpos celestes não eram o nascimento de Mercúrio na sétima casa em quadratura com Marte, mas Copérnico e Tycho Brahe; sem as suas observações, tudo o que eu pude trazer à luz estaria enterrado na escuridão» (Johannes Kepler). IMAG.-68-115-344

¸1901-15DEZ1966 - Walt Disney: Cineasta e produtor americano - «Até certo ponto, eu não consigo acreditar que haja alguém que conheça o segredo de converter os sonhos em realidade. Mas, para mim, tal desiderato pode resumir-se em quatro C's. São eles curiosidade, coragem, confiança e constância. A maior de tais características é a confiança. Quando acreditamos em algo, estamos certos do caminho a prosseguir, de um modo implícito e inquestionável».  IMAG.7-8-18-21-30-32-37-47-50-69-80-90-99-107-110-116-123-155-175-203-219-250-260-304-349-470-506-510-529-545

VISTORiA

Primeira Parte

¨Argumento
Estando um fidalgo, que fora governador da Índia por sucessão, em casa de um despachador de Portugal, entrou um soldado velho da Índia que ia a dar sua petição e papéis. E entre todos três se passou o diálogo seguinte:
Cena I
Soldado – Já’gora meus negócios não podem dexar de ter muito bom fim, pois tiveram tão bom princípio como este de achar a Vossa Mercê neste tempo e nesta casa; de quem, como testemunha de meus serviços, me espero agora valer para ser conhecido do senhor secretário, porque sou tão só neste reino que não tenho cousa a que me possa arrimar que a estes papéis que aqui trago dos muitos anos e muitos serviços que nas partes da Índia tenho feitos, ornamentados e esmaltados muitas vezes com o sangue deste corpo, que espargi pela lei e pelo rei, de que me não tenho arrependido; porque quando aqui me faltar o galardão de minhas obras, lá em cima está aquele que com mão liberalíssima satisfaz tudo melhor que os reis da terra.
Fidalgo – Folgo de vos ver neste reino e tirado daquela confusão de Babel. E sei decerto que sereis muito bem respondido e despachado por vossa idade e serviços, sem outra aderência e favor. Porque, depois que el-rei nosso senhor elegeu a Sua Mercê para juiz destas satisfações, não tendes necessidade de mais que de apresentar vossos papéis e serviços, porque o tempo que se despachava por favores e aderência é passado; porque, como o coração dos reis está nas mãos de Deus, ordenou Ele agora, para remédio dos desemparados, fazerem tão boa eleição como foi esta, com que nem meus favores são necessários, nem vossos serviços dexarão de ser mui bem satisfeitos. Mas já que viestes a este tempo, sentai-vos: sereis testemunha das cousas que da Índia tratávamos; da qual vós, polos muitos anos que dela tendes conhecimento dos homens e do tempo, bem sei que podereis dar muito boa rezão de tudo com aquela liberdade e desengano de soldado veterano, que nem recea mal pelo que disser nem espera bens pelo que lisonjar.
Soldado – Bejo as mãos a Vossa Mercê por tamanha honra e pela opinião que tem de mim. Já’góra hei por bem empregados todos os trabalhos da viagem e dos anos de minha perigrinação, pois mereci ser admitido a esta conversação.
Despachador – Té’gora estive calado por não interromper Sua Mercê e por não tirar os olhos de vós, em cujas cãs, idade e mais cousas que pela fisonomia em vós estive notando, me parecestes deferente de muitos outros soldados que diante de mim trazem requerimento, tão outros a vossa quietação e maneira que lhes parece que a hora que se lhe tarda em acudir a seus negócios, já lhe roubam sua honra e merecimentos; e assi representam suas cousas com aquele ímpeto e furor, como se estiveram pelejando com os imigos. E eu, em vez de os ouvir e responder, estou com os olhos buscando algum lugar onde me esconda de suas cóloras.
Soldado – Nunca vi cousa mais pera se lhe poder relevar que essa, quando eles são cheos de merecimentos, digo. Porque andaram té’gora tão desfavorecidos do tempo e atropelados dos despachadores que se não sabiam detriminar; porque assaz de bem remediado parte um soldado da Índia, que pode sostentar-se nesta corte de ũas naus a outras, para se poder tornar. E se virem que lhe respondem devagar, não sente mor desesperação que lembrar-lhe que está em terra onde não tem remédio e que o que ajuntou por seus amigos para vir requerer, parte se lhe foi na Casa da Índia pelos excessos dos contratadores, que até das camisas que levam vestidas lhe tomam dereitos; sendo tantos anos isto tão favorável aos soldados, que nunca lhe boliram em seus caixões, em que traziam um quintal de cravo, dous de canela e outras pouquidades; e parte gastou em seu requerimento; e que não vê donde se possa valer, e que ou será forçado morrer de fome neste reino, ou dexar tudo e tornarse para a Índia sem ser respondido, o que se tem por tamanha infâmia que o prove a que isto acontece não ousa de aparecer ante aqueles do seu tempo, porque ou hão que o tiveram para pouco, ou que lhe não acharam merecimentos para o despacharem. O que tudo fica à conta do despachador, que lhe dilatou seu negócio, do que entendo deve de dar larga conta a Deus, assi de não dar o seu a seu dono a tempo, como da honra que lhe roubou, na infâmia em que encorreu em se tornar, afrontado e sem despacho.
Diogo do Couto, cronista e guarda-mor da Torre do Tombo da Índia
- Diálogo do Soldado Prático Que Trata dos Enganos e Desenganos da Índia (1612)
     
CALENDÁRiO

¢1932-09OUT2015 - António Costa Pinheiro: Artista plástico português, co-fundador do colectivo KWY - «A imaginação domina o corpo. E o corpo vive equilibrado com as emoções e os sentimentos naturais». IMAG.239-312-486-569

¸ 15OUT2015 - Leopardo Filmes produziu, e estreia A Uma Hora Incerta de Carlos Saboga; com Joana Ribeiro e Paulo Pires. IMAG.463

¸ 15OUT2015 - Leopardo Filmes estreia Coro dos Amantes de Tiago Guedes; com Isabel Abreu e Gonçalo Waddington. IMAG.82-221
 
15OUT-18DEZ2015 - Em Lisboa, Instituto Cultural Romeno expõe Os Milagres de Um Joalheiro de Marian Nacu.

PARLATÓRiO

¨Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser da personagem. É a sua função vital, necessária à sua existência.
Luigi Pirandello
   
NOTICIÁRi

Privilégio
 Alfred Nobel obtém o privilégio, por cinco anos, como inventor de um aperfeiçoamento na pólvora dinamita ou utilização prática da nitroglicerina.
JUN1872 - Diário de Notícias

BREVIÁRiO
 
Arte de Autor edita Caravaggio - 1ª Parte - O Pincel e a Espada de Milo Manara. IMAG.3-13-52-64-132-140-147-221-305-365-501-548