segunda-feira, dezembro 07, 2015

IMAGINÁRiO #586

José de Matos-Cruz | 08 Novembro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

TRANSIÇÕES

Uma das fases mais agitadas, na carreira do Capitão América como líder d’Os Vingadores, entre a sobrevivência e a renovação, culminaria com O Sentinela da Liberdade - por Mark Waid (argumento) & Ron Garney (ilustração) - no tríptico colectado em edição portuguesa (2001) pela Devir, sob a vertente Heróis Renascem. O Captain America foi gerado em 1941, por Joe Simon (argumento) & Jack Kirby (ilustração), no Universo dos Marvel Comics. À partida, era Steve Rogers - um débil soldado que, cobaia de experiências científicas, se converteu em paladino e símbolo da democracia. Desaparecido em 1949, reapareceu em 1964 - explicando-se a ausência, por se encontrar congelado num icebergue! O Cap passou, então, a integrar os recém-criados Avengers /Vingadores, resposta da Marvel à Justice League /Liga da Justiça, formada pelos super-heróis da editora rival DC Comics. Os Vingadores actuam sob jurisdição do Governo americano, por eles transitando inúmeros justiceiros famosos, dividindo-se depois em dois grupos - das Costas Leste e Oeste. Opondo-se ao crime organizado e às complexas ameaças do Sistema, mesmo a nível político e internacional, tal frente corporativa sofreu profundas alterações. Por outro lado, há muito que os parâmetros épicos transcendem a aventura realista, explorando todas as virtualidades do fantástico. Entre os defensores da lei, da ordem e da liberdade - ou respectivos antagonistas - há alienígenas, mutantes e divindades. IMAG.1-110-141-149-368-389-438

CALENDÁRiO

¨1937-21SET2015 - Vítor Silva Tavares: Escritor e editor português, fundador da &etc - «Era o único editor consistente e regular que sobreviveu às mudanças no livro» (João Rodrigues/Sextante). IMAG.225 

¸24SET2015 - O Som e a Fúria produziu, e estreia As Mil e Uma Noites: Volume 2 - O Desolado de Miguel Gomes; com Crista Alfaiate e João Pedro Bénard. IMAG.31-211-297-406-491-581

¸24SET2015 - Cinemundo estreia Alda e Maria - Por Aqui Tudo Bem de Maria Esperança Pascoal/Pocas Pascoal; com Cheila Lima e Ciomara Morais.

25SET-17OUT2015 - Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana, em Cascais, apresenta Evocação do Centenário da Grande Guerra 1914-18 - Exposição de Modelismo: Materiais Portugueses por Eduardo Ferreira, Álvaro de Melo, Luís Ferreira e Nogueira Pinto.

26SET2015-11JAN2016 - Alfândega do Porto expõe Terracotta Army - Os Guerreiros de Xian (China), sendo comissário Jorge Barbosa.

¢30SET2015-31JAN2016 Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva apresenta No Atelier - exposição de pintura de Teresa Magalhães, sendo curador João Pinharanda.

µ01OUT2015-20JAN2016 - Palácio Nacional da Ajuda apresenta Tirée Par… A Rainha D. Amélia [1865-1951] e a Fotografia - exposição baseada nas colecções do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança e do Palácio da Ajuda, sendo comissário Luís Pavão. IMAG.14-40-41-42-120-204-224-429-485

O05OUT-11NOV2015 - Câmara Municipal da Amadora apresenta, na Galeria dos Paços do Concelho, Artistas Portugueses Na Grande Guerra - exposição de croquis, desenhos, pinturas, fotografias ou postais por sete artistas-militares, sendo comissário Osvaldo Macedo de Sousa.
PARLATÓRiO

¨A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Às revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-á esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?
António Pedro Lopes de Mendonça

EPISTOLÁRiO   

+ A Samuel Clarke
1. Parece-me que a religião natural está excessivamente enfraquecida [em Inglaterra]. Muitos julgam as almas [humanas] corporais; outros, que o próprio Deus é corporal.
2. O senhor Locke e seus seguidores duvidam, pelo menos, se as almas não são materiais e naturalmente perecíveis.
3. Sir Isaac Newton afirma que o espaço é um órgão pelo qual Deus sente as coisas. Mas, se Ele necessita de algum meio para as sentir, disto se infere que elas não dependem inteiramente d’Ele e não são Sua produção.
4. Sir Isaac Newton e os seus seguidores também possuem opinião singular sobre a obra de Deus. De acordo com eles, Deus necessita, de tempos em tempos, de dar corda em seu relógio, pois caso contrário ele deixaria de funcionar. Ele não teve a suficiente presciência para lhe dar um movimento perpétuo. Esta máquina de Deus é até tão imperfeita, segundo eles, que Ele se vê obrigado a poli-la, de tempos em tempos, por um concurso extraordinário, e mesmo consertá-la; tal qual um relojoeiro faz com sua obra, o qual será tanto pior profissional, quanto mais vezes se vir obrigado a retocar e a corrigir o seu trabalho. Em minha opinião, [o mundo contém sempre] a mesma quantidade de força e de energia, que apenas passa de uma coisa material a outra, conforme as leis da natureza e a bela ordem pré-estabelecida. E sustento que Deus, ao operar milagres, assim o faz não para satisfazer as necessidades da natureza, mas sim as da graça. Qualquer um que pense diferentemente, deve ter uma muito indigna noção da sabedoria e do poder de Deus.
Gottfried Leibniz
- NOV1715
MEMÓRiA

08NOV1656-1742 - Edmond Halley: Astrónomo inglês, «teve o mérito de reconhecer o maior génio matemático de Newton, insistindo com ele na publicação do Principia Mathematica, pagando os custos de edição com fundos próprios, já que a Royal Society estava falida» (Sydney Chapman) - «Mais perto dos deuses nenhum mortal pode chegar». IMAG.80-87-124-353-560

¯ 09NOV1926-2005 - Piero Cappuccilli: Barítono italiano, prestigiado na interpretação de obras de Giuseppe Verdi - «As suas qualidades fundamentais eram o domínio técnico, a carnalidade, a segurança, a naturalidade, o fraseado, a dicção cristalina, a riqueza tímbrica e a consciência teatral» (Rubén Amón). IMAG.522

¸ 09NOV1926-2015 - Vicente Aranda Ezquerra, aliás Vicente Aranda: Cineasta espanhol, realizador, argumentista e produtor, distinguido com o Goya para o Melhor Realizador (1991) - «Tudo o que fiz, foi trabalhar e ser fiel a mim próprio. Mas noto que passei a ser mais importante do que os meus filmes» (2010). IMAG.571

¯ 09NOV1936-2009 - Mary Allin Travers: Cantora folk norte-americana, membro do trio Peter, Paul & Mary - «Muitos grupos não sobreviveram na música, porque foram incapazes de manter uma relação entre eles» (1966). IMAG.269

O 1895-11NOV1956 - António Joaquim Tavares Ferro, aliás António Ferro: Escritor, jornalista e político português - «Quem vê um filme ou uma peça de teatro preocupado com os bastidores, com o buraco do ponto, com os subterrâneos da criação, com a miséria que se esconde atrás do pano de fundo, há-de ter, forçosamente, impressões tristes e negras…». IMAG.74-115-180-210-223-224-297-327-339-355-436-484-527-562

O 12NOV1746-1792 - Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes: Activista político do Brasil colonial, mártir da Inconfidência Mineira - Executado e esquartejado, tendo sido declarados infames a sua memória e os seus descendentes. IMAG.367

¨ 01JUL1646-14NOV1716 - Gottfried Leibniz: Filósofo, matemático e físico alemão - «Entendo por razão, não a faculdade de raciocinar, que pode ser bem ou mal utilizada, mas o encadeamento das verdades que só pode produzir verdades, e em que uma verdade não pode ser contrária a outra».

¨ 14NOV1826-1865 - António Pedro Lopes de Mendonça: Escritor e jornalista português, romancista, dramaturgo, ensaísta e folhetinista, dedicado às causas sociais, popularizado no jornal A Revolução de Setembro (1846), autor de Memórias da Literatura Contemporânea (1859) - «um homem do seu tempo» (Carlos Leone). IMAG.180-534

¸ 14NOV1906-1985 - Mary Louise Brooks, aliás Louise Brooks: Bailarina e actriz do cinema americano - «Eu aprendi como interpretar, observando Martha Graham a dançar… E aprendi a dançar, assistindo a Charlie Chaplin a representar». IMAG.40-118-526

¨ 1870-14NOV1916 - Hector Hugh Munro, aliás Saki: Escritor britânico - «A dignidade perdida não é um bem que possamos restabelecer de um momento para o outro, é quase tão dolorosa como a lenta recuperação de um afogamento». IMAG.303

15NOV1926-2004 - François Craenhals: Artista belga de banda desenhada, criador de Chevalier Ardent (1966) - «Não tenho uma mensagem para transmitir. Apenas muito respeito e ternura pela Humanidade que sofre». IMAG.5-253

¯23NOV1876-14NOV1946 - Manuel de Falla: Compositor espanhol - «A música não é apenas a arte mais jovem, mas talvez a única cujo exercício, para ser eficaz, exige uma completa juventude de espírito». IMAG.104-409-556
            
BREVIÁRiO
 
¯Sony edita em CD, sob chancela Indie Fada, Caixa Negra por GNR.

¨Sitema Solar edita A Felicidade dos Tristes de Luc Dietrich; tradução de Aníbal Fernandes.


quinta-feira, dezembro 03, 2015

IMAGINÁRiO #585

José de Matos-Cruz | 01 Novembro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

SUBVERSÕES
Do mais remoto algures no tempo, o confronto entre bem e mal sagra-se para a eternidade, envolvendo - numa espiral inexorável - gente comum e fúrias ecológicas. Aí colhem inspiração múltiplos imaginários, de que o cinema é o mais completo, bizarro e, simultaneamente, aglutinador. Mas nem assim deixa de reger-se por mecanismos subversivos de exaltação - sob o signo da aventura ou da catástrofe - pervertendo o elã tradicional com outros riscos ou ameaças supervenientes, pelos requintes da acção. A partir dos anos ’70 do século passado, o terror evoluiu, sob o signo de Hollywood, de universo em moda para um género perturbante, convertendo-se em espectáculo por excelência - graças aos prodígios tecnológicos, à estilização dos códigos de leitura, aos próprios predicados de emoção popular. Exemplo imediato é Tubarão / Jaws (1975) de Steven Spielberg - cujas variantes ou mutações correspondem, desde então, ao insólito dos caprichos, transes e tensões patentes no fenómeno obsessivo ou avassalador de um culto actual.
IMAG.18-23-44-63-71-72-80-88-93-136-147-155-159-171-183-199-225-273-304-383-388-391-412-443-445-465-484-488-506-535-576-00


CALENDÁRiO
µ18SET-18OUT2015 - Em Oeiras, Centro Cultural Palácio do Egipto apresenta Lanzarote - A Janela de [José] Saramago (1922-2010) - exposição de fotografia de João Francisco Vilhena. IMAG.38-75-155-158-196-198-224-241-245-252-263-268-311-331-385-394-412-475-521-539-553-564

¢17SET-24OUT2015 - Em Lisboa, Casa da Liberdade - Mário Cesariny apresenta Antologia de [Joaquim] Martins Correia (1910-1999) - exposição de desenho, pintura, escultura e azulejaria. IMAG.236-261

¢19-27SET2015 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação Luís I expõe The Weight of the Lightness de Astrid Bergmann (Alemanha).

¢19SET2015-15JAN2016 - Em Famalicão, Centro de Estudos do Surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda apresenta Texturas da Imaginação - exposição de pintura de Rik Lina (Holanda), sendo comissários António Gonçalves e Perfecto E. Cuadrado.

19SET2015-17JAN2016 - Na Amadora, Casa Roque Gameiro apresenta Casa (Na) Amadora - Vivência e Pensamento de [Alfredo] Roque Gameiro [1864-1935] a Raul Lino (1879-1974). IMAG.40-169-186-197-251-447-474-558

¢24SET-23OUT2015 - Em Lisboa, Museu do Oriente apresenta So Far, So Close - exposição de pintura de Cindy Ng Sio Leng (Macau), combinando vinhos do Douro e vinhos verdes, com tintas convencionais.

¢25SET-22NOV2015 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação Luís I apresenta Contemporâneo Desnudo - exposição de José Batista Marques.

ü26SET2015-26MAI2016 - Museu Municipal de Santiago do Cacém expõe Dom Frei Manuel do Cenáculo [1724-1814] - Itinerários Por Santiago do Cacém.

ANUÁRiO

¯1597-1646 - Virgilio Mazzocchi: Compositor italiano, mestre de capela de várias instituições e igrejas romanas, autor com intensa produção de música sacra e litúrgica.

¨1806-1842 - Carlo Bini: Escritor italiano - «O egoísmo é o único móbil das acções humanas… A sabedoria humana consiste em saber tolerar». IMAG.387

¨1826-1889 - Mikhail Yevgrafovich Saltykov-Stcherdrine, aliás Nikolai Shchedrin: Satírico russo - «A vergonha é a preciosíssima capacidade do homem de relacionar os seus comportamentos com as exigências daquela suprema consciência, que nos foi deixada de herança pela história da humanidade». IMAG.345-548

VISTORiA

¨A excitação, cujos efeitos ainda se faziam sentir, forçaram-na a sentar-se e, os cotovelos apoiados sobre a mesa, a cara entre os punhos, ela permaneceu silenciosa por um momento. Quando de novo retomou a sua narrativa fê-lo com uma voz totalmente transformada; era um murmúrio, um salmodiar sussurrado, era como se outra pessoa falasse em seu lugar:
– O Homem não vale nada, e a sua memória está cheia de buracos que ele nunca poderá passajar. É preciso, no entanto, fazer muitas coisas que nos esquecemos. Cada um de nós esquece o seu quotidiano. Comigo, eram todos os móveis a que limpei o pó dia após dia e a muita loiça que havia para lavar. E como cada qual me sentei para comer a minha refeição, mas como cada qual também era um simples saber de que não há que lembrar, como se não houvesse clima, nem o bom nem o mau tempo. Mesmo o prazer que gozei tornou-se para mim um espaço sem clima, e embora me tenha ficado o reconhecimento pela vida, foram-se apagando os nomes e os traços dos rostos que em tempos significaram prazer e mesmo amor. Desapareceram na transparência de um reconhecimento que já não tem conteúdo. Copos vazios, copos vazios. E no entanto, se não houvesse este vazio, se não houvesse este esquecimento, o inesquecível não poderia desenvolver-se. O esquecimento transporta o inesquecível nas suas mãos vazias, e nós somos transportados pelo inesquecível. Nós alimentamos o tempo, alimentamos a morte com tudo o que foi esquecido. Mas o inesquecível é um presente, é um presente que a morte nos dá, e no momento em que nós o recebemos estamos ainda neste momento aqui, onde nos encontramos, mas ao mesmo tempo estamos já além, lá onde o mundo se precipita na escuridão. O inesquecível é um pedaço do futuro, um pedaço do intemporal com que fomos presenteados antecipadamente, que nos transporta e suaviza a nossa queda nas trevas como se fosse um deslizar. O que se passou com o Senhor de Juna e eu era um presente da morte, um presente escuro, suave e intemporal; e ajudar-me-á um dia a transportar-me, suavemente levada pela plenitude das minhas recordações. Todos dirão que foi o amor, o amor, até à morte. Mas não, não tem nada a ver com o amor, e ainda menos com o chorrilho sentimental. Muitas coisas se podem tornar no inesquecível, nos podem transportar acompanhando-nos, nos podem acompanhar transportando-nos sem que nunca tenham sido o amor, e sem que nunca se pudessem tornar no amor. O inesquecível é um momento de maturidade, produto de outros infinitos momentos, de infinitas semelhanças que o precederam, infinitamente numerosas, que os transportaram. E o momento em que sentimos que, formando, somos formados, fomos formados, que existimos. É perigoso confundir isso com o amor.
Hermann Broch
- A Criada Zerlina (1950 - excerto)
(Versão de António S. Ribeiro com colaboração de José Ribeiro da Fonte,
a partir da tradução de Suzana Muñoz)

MEMÓRiA

¨ 01NOV1886-1951 - Hermann Broch: Escritor austríaco - «Sempre teve uma consciência aguda da distinção entre este ponto de vista e a filosofia propriamente dita e, por isso, atribui à arte um poder de conhecimento superior ao da filosofia, pela sua capacidade de captar evidências e de possibilitar a abertura do homem à totalidade e ao devir, algo em que a filosofia revela, desde logo, a sua insuficiência» (Maria João Cantinho). IMAG.324-552

¢01NOV1936-2010 - Carlos Amado: Escultor português, cenógrafo, professor universitário - «A sua obra combinou a tradição e os valores renascentistas com um sentido de modernidade verificável, por exemplo, no Monumento ao Baleeiro na vila das capelas, na Ilha de São Miguel» (Celso Martins). IMAG.330

¯ 07NOV1926-2010 - Joan Sutherland, aliás La Stupenda: Soprano australiana - «Se juntarmos relevância discográfica a carreira operática, ela está para Donizetti como Callas para Bellini, ou Marilyn Horne para Rossini. Numa palavra: as três foram as grandes obreiras do regresso do belcanto ao reportório corrente dos teatros de ópera, aos escaparates das discotecas e, na base de tudo isso, à formação dos cantores» (Bernardo Mariano). IMAG.328

ANTIQUÁRiO

¨ 02NOV1866 - A Questão Coimbrã tem início, com a carta Bom Senso e Bom Gosto, de Antero de Quental (1842-1891) a António Feliciano de Castilho (1800-1875), em oposição «ao escândalo inaudito duma literatura desaforada». Em Bom Senso e Bom Gosto, Antero responde à carta-posfácio de Castilho, inserta no Poema da Mocidade (OUT1865) de Pinheiro Chagas (1842-1895), na qual o autor de Cartas de Eco a Narciso ironizou com as teorias filosóficas e poéticas expostas nos prefácios a Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (ambas de 1864), de Teófilo Braga (1843-1924), e na nota posfacial das Odes Modernas de Quental (JUL1865). Antero define, ainda, «a bela, a imensa missão do escritor» como «um sacerdócio, um ofício público e religioso de guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras». IMAG.30-32-39-52-59-91-99-118-147-161-187-214-258-260-263-270-293-312-332-338-354-357-367-371-394-406-407-519-577

BREVIÁRiO

¯Ondina Pires escreveu, e edita Biografia Autorizada de Victor Gomes: Juntos Outra Vez.
 
¯Universal edita em CD, sob chancela Blue Note, Round Midnight: The Complete Blue Note Singles (1947-1952) por Thelonious Monk (1917-1982).

¨Relógio D’Água edita O Idiota de Fiodor Dostoievski (1821-1881); tradução de António Pescada. IMAG.220-281-297-310-321-377-383-506-519

quinta-feira, novembro 26, 2015

Bedeteca José de Matos-Cruz - Rescaldo

Volvida uma semana desde a inauguração da Bedeteca José de Matos-Cruz, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana, no passado dia 20 de Novembro, deixo aqui um breve registo fotográfico e em video, levantado do destaque feito no portal da C. M. de Cascais.





Obrigado ainda a todos os canais noticiosos e blogs que fizeram referência à abertura, e os meus agradecimentos a todos os que puderam estar presentes.


domingo, novembro 22, 2015

IMAGINÁRiO #584

José de Matos-Cruz | 24 Outubro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

CELEBRAÇÃO
Assinalando o 30º Aniversário de Jim Del Monaco (1985-2015), a Asa lançou O Cemitério dos Elefantes - uma Edição Comemorativa, com quatro aventuras inéditas, do extraordinário herói concebido e recriado por Luís Louro & Tozé Simões. Além do Prefácio de Rui Zink («surpreendentemente, nem uma ruga»), e da Introdução por Tozé Simões («seguindo o habitual método do disparate incontinente»), destacam-se ainda Curiosidades, Sessões Fotográficas, Entrevista com os autores e uma secção de Esboços. Além de Testemunhos, onde tive o gosto de registar: «A saga de Jim Del Monaco trouxe modernidade à banda desenhada portuguesa, estilizando a nostalgia sob o signo da aventura. Uma expressão jovial, inventiva, crítica e divertida de que sentimos saudades, apreciando ainda o seu engenho vanguardista. Tê-lo de volta é, pois, celebrar as virtualidades de um imaginário cujo original modelo heróico se transfigura pela fascinante intemporalidade». IMAG.4-11-187-430-493-551

CALENDÁRiO

ü18JUL-30SET2015 - No Parque dos Poetas, em Oeiras, Templo da Poesia expõe A Viagem de [Charles] Darwin (1809-1882) - ilustrando a expedição realizada pelo naturalista entre 1831 e 1836, e que visava o levantamento cartográfico da América do Sul.IMAG.16-63-74-77-87-90-101-109-119-214-234-238-241-248-295-367

®03MAI1946-08SET2015 - Maria Delfina da Cruz Neto Pinto do Amaral, aliás Delfina Cruz: Actriz portuguesa de teatro, cinema e televisão - «Uma belíssima colega de trabalho, incapaz de levantar problemas, cumpridora e muita segura» (Nicolau Breyner).

µ11SET-05OUT2015 - Em Lisboa, Largo do Intendente expõe Bang! e At Night We Dreamed of Tall Ships - pelos fotógrafos Augusto Brázio (Portugal) e Martina Cleary (Irlanda), integrando Flâneur - Novas Narrativas Urbanas com organização de Procurar.Arte.
       
VISTORiA

Apelo Paracleto
Para o Francisco Jorge
¨Deixa-te estar assim um instante mais pousada
no parapeito da janela,
antiquíssima profetisa dos bosques.

Não te vás,
pequeno deus do orvalho
(pelo menos enquanto escrevo este poema).

Deixa-te estar um instante mais
pousada
no parapeito da janela
que eu não sou caçador não ouso
armadilhas nem flechas
nem te levarei de oferta à minha amada,
noiva de Salomão,
ave sagrada de Afrodite,
símbolo talmúdico da castidade.

Fica,
alado peixe duplo,
breve mensageira da Grande Mãe Telúrica.

Deixa-te estar um instante mais pousada
no parapeito da janela,
portadora do ramo de oliveira.

Quero saber se o Dilúvio Universal
já acabou lá fora
e se o Espírito de Deus paira de novo sobre
as águas da substância primordial
indiferenciada.
Emanuel Félix
- O Instante Suspenso (1992)

VISTORiA

¨ O colégio é uma casa triste, sombria, impregnada daquele cheiro abafante que deixa no ar a aglomeração das crianças. O colégio tem um guarda-portão de aspecto duro, homem habituado a pagar-se nas lágrimas dos colegiais pequenos das diabruras que os grandes lhe fazem. As paredes têm riscos e letras a lápis; no chão escuro há pedaços de papéis rasgados; a disposição das camas, o aspecto seco dos prefeitos, as maneiras dos criados dão aos dormitórios um ar de hospital. As aulas, sujas pela lama que trazem as botas dos externos, os bancos lustrados pelo uso, as carteiras de pinho pintadas de preto, os transparentes das janelas manchados pela chuva, a lousa negra polvilhada de giz a um canto da casa, o rodapé da banca do professor de baeta lagrimejada de tinta, infundem uma tristeza lúgubre. Tudo quanto pode converter o trabalho num objecto de repulsão e de horror acha-se felizmente reunido na maior parte dos colégios portugueses. As mulheres, que a experiência tem provado possuírem muito mais aptidão para o ensino do que os homens, são geralmente excluídas do professorado nos colégios de alunos do sexo masculino. O ensino é ordinariamente feito por sábios de pouco preço, para os quais os âmbitos da ciência bem como os da sociedade são igualmente cheios das trevas mais augustas e mais impenetráveis. Por via de regra, literato falido, escritor malogrado, crítico inédito, o magister tem a pedanteria das pequenas letras e as severidades da alta magistratura, envoltas num exterior intonso, com maneiras de uma gravidade suspeita e de um exemplo contestável. No entanto como no tocante às maneiras do aluno tudo quanto se exige é que ele seja aprovado no seu exame de civilidade, lá estão para suprir tudo os compêndios do Sr. João Félix, vigoroso freio para que o estudante nunca escarre na cara das pessoas de respeito nem arrote com repreensível estampido quando jantar na alta sociedade. Poupa o trabalho de dar exemplos a comodidade de possuir um livro assim, que permite ao preceptor dizer simplesmente o seguinte a um homem que vai entrar no mundo: «Releia o seu João Félix, e conserve-se sempre de sobreaviso sobre as expectorações e sobre os gases».
Ramalho Ortigão
- As Farpas (1871 - excerto)
MEMÓRiA

¨ 24OUT1836-1915 - José Duarte Ramalho Ortigão: Escritor e jornalista português - «Principiamos por desconhecer a nossa missão na humanidade. A família enfraquece por toda a parte. O hospício dos expostos em Lisboa contava no primeiro dia do corrente mês de Outubro 15099 crianças repudiadas por seus pais. A roda dos expostos joga com outra roda na administração do país – a roda da lotaria. A lotaria sustenta a Misericórdia. O jogo protege a prostituição. A tavolagem adopta o bordel. E a mancebia abjecta da batota e do prostíbulo abençoada pelo Estado e acarinhada pelo país» (As Farpas - 1871). IMAG.19-52-90-91-125-148-199-205-208-242-251-532-554-555

¨ 24OUT1936-2004 - Emanuel Félix Borges da Silva, aliás Emanuel Félix: Poeta e crítico literário, natural dos Açores - «Melhor o vejo operário da palavra como um mister sagrado - seu compromisso sócio-intelectual, apresentando serenamente a voz preclara da Verdade na sua função libertadora. Melhor o vejo ainda peregrino silencioso da Poesia, percorrendo os espaços onde se encontram as palavras disponíveis e componentes do edifício do poema» (Álamo de Oliveira).

ü25OUT1896-1984 - Maurice Bellonte: «Herói legendário da aviação mundial» (Diário de Notícias - 1965), «o último sobrevivente de uma plêiade de homens que souberam viver a vida com intensidade invulgar, enchendo-a de aventuras e incidentes». IMAG.450

¯25OUT1926-2012 - Galina Vishnevskaya: Soprano russa, casada com o maestro e violoncelista Mstilav Rostropovitch, estrela da ópera da União Soviética, e exilada em 1974 - «Foi um exemplo de superação e de génio forte ao melhor modo» (Ygor C.S.). IMAG.445

¢27OUT1866-1942 - António Teixeira Lopes: Escultor português, discípulo de António Soares dos Reis - «Tudo quanto ele modela reveste formas gráceis e esbeltas d’uma euritmia elegantíssima, d’uma expressão sempre pessoal» (António Arroyo - Soares dos Reis e Teixeira Lopes - 1899). IMAG.375

¨ 1872-30OUT1956 - Pio Baroja: Escritor espanhol da Geração de ’98 - «Assim como a desgraça faz discorrer mais, a felicidade rouba todo o desejo de análise; por isso, é duplamente desejável… Quase sempre a vida de sacrifícios pode tornar-se mais agradável do que a de amarguras». IMAG.400

¨ 31OUT1876-1972 - Natalie Barney: Novelista, poeta e dramaturga norte-americana - «A atracção do vazio explica a sedução das mulheres… Não posso dar-me a quem me não sabe prender». IMAG.357

¯31OUT1896-1963 - Pedro de Freitas Branco: Maestro português - fundador da Companhia de Ópera Portuguesa (1927) e da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional (1934), autor de História da Música Popular Em Portugal (1947). IMAG.48-104-187

¨ 31OUT1926-2011 - Henry Reymond Fitzwalter Keating, aliás H.R.F. Keating: Escritor inglês de literatura policial, criador do inspector indiano Ganesh Ghote, do Departamento de Investigação de Mumbai - «Ele sou eu… Tanto um como o outro, nos aborrecemos com o que os outros pensam de nós». IMAG.350
                
ANTIQUÁRiO

28OUT1856 - Portugal inaugura o primeiro troço do caminho-de-ferro, entre Lisboa e o Carregado, viagem na qual participou El Rei D. Pedro V. IMAG.106
        
BREVIÁRiO
 
¨Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores edita A Obra Completa de Emanuel Félix. IMAG.454

¨Gradiva edita Na Senda de Fernão Mendes - Percursos Portugueses No Mundo de Guilherme d’Oliveira Martins; a partir de Fernão Mendes Pinto (1510-1583). IMAG.17-122-148-426-541


quinta-feira, novembro 12, 2015

IMAGINÁRiO #583



José de Matos-Cruz | 16 Outubro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

VIRAGENS

Será o cinema, apenas, «um palpitar de emoções mais intenso que o pulsar dum coração, a vinte e quatro imagens por segundo»? Admitamos concordar, se quem assim considera é um autor com o talento e a ironia de Woody Allen. É inegável, pelo menos, que os seus testemunhos transmitem um olhar subjectivo, fascinante, sobre a existência aparentemente banal, entre seduções e roturas. Aliás, durante os anos ’90 do século passado, uma intensa actividade correspondeu, para Allen, a dramáticas mutações tanto pessoais - a separação afectiva/artística de Mia Farrow (1992), o casamento com Soon-Yi Previn (1997); como profissionais - um peculiar estilo de produção na Costa Leste, face às estratégias de Hollywood. Porém, ele persistiria Através da Noite / Sweet and Lowdown (1999), inabalável e melómano. Em 1994, Don’t Drink the Water assinalou o regresso de Allen à televisão, como guionista, director e intérprete. Quatro anos depois, deu voz aos traumas de Antz - Formiga Z (1998 - Eric Darnell, Larry Guterman, Tim Johnson) - para Steven Spielberg, com quem faria vários filmes a partir de 2001. Entretanto, a DreamWorks assegurara a distribuição dos Vigaristas de Bairro / Small Time Crooks (2000). E Allen prosseguiria a romagem pela Europa…
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CALENDÁRiO

µ12SET-11NOV2015 - Em Lisboa, Barbado Gallery apresenta A Place In the Sun - Beach Photos 1985-2015 - exposição de fotografia de Martin Parr, presidente da Agência Magnum. IMAG.554

¢20OUT2015-03JAN2016 - Em Lisboa, Fundação EDP expõe, no Museu da Electricidade, Afinidades Electivas. Julião Sarmento Coleccionador, sendo comissário Delfim Sardo. IMAG.33-341-427-437-524-554

µ07NOV2015-31JAN2016 - Em Évora, Fundação Eugénio de Almeida apresenta, com Património de Évora, Prece Geral de Daniel Blaufuks; início do projecto Re-Inventar a Memória, sendo curadora Filipa Oliveira. IMAG.475-546

¢20NOV2015-22FEV2016 - No Centro de Arte Moderna/CAM, em Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian expõe O Círculo Delaunay - sobre as relações entre Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) e Robert Delaunay (1885-1941), sendo curadora Ana Vasconcelos. IMAG.84-149-154-185-258-279-371-434-476-510-561

TRAJECTÓRiA 

LEITÃO DE BARROS – O SENHOR CINEMA
No cinema português, José Leitão de Barros (1896-1967) é, sem dúvida, uma das personalidades multifacetadas de artista que, com maior coerência, assistiu durante décadas à ascensão e decadência do Estado Novo. Para alguns analistas, a sua obra mais significativa encontra-se em pleno período silencioso, com vários documentários clássicos ao rondar a década de ’30. Já então, porém, Maria do Mar (1930) deixava antever uma linha de ficção com singular recorte do real, tendência que se prolongaria em todos os filmes de fundo - em particular As Pupilas do Senhor Reitor (1935) e Ala-Arriba! (1942) - embora com desigual eficácia. Curiosamente, encontramos em A Severa (1931) alguns dos melhores apontamentos desse pendor documental, logo na abertura, com a caravana dos ciganos e a separação de gado pelos campinos: Leitão de Barros como que reforça o vigor das imagens, às quais se vai colando a perturbante insinuação do som, pela primeira vez num filme nacional. Em Bocage (1936), Inês de Castro (1945), Camões (1946) ou Vendaval Maravilhoso (1949), que sagram a fascinação pelas reconstituições históricas, de forte cunho literário, sobressai igualmente o cuidado em caracterizar realisticamente um quotidiano, apesar das restrições à ambiência arquitectónica, em que os limites da produção fazem acentuar o artifício dos cenários. Se Malmequer (1918) tinha mais a ver com esta via, Mal de Espanha (1918) seria um esboço humorístico do que Leitão de Barros deixou morrer em finais dos anos ’30, com as comédias Maria Papoila (1937) e Varanda dos Rouxinóis (1939). O estigma satírico manter-se-ia, apenas, na caracterização de certas personagens. Uma constante sem hiatos é, todavia, a composição de tipos humanos (como grandes planos sobre os rostos) que, no geral, constituem uma riquíssima galeria, de figuras populares ou nobres.          


VISTORiA 
 
Rosa Vespertina
¨Anochece. En la aldea,
un gallo cacarea
mirando el amapol
del Sol.

Vacas y recentales
pacen en los herbales,
y canta una mociña
albina.

El refajo de grana
de la niña aldeana
enciende al cristalino
lino.

En el fondo del prado
el heno agavillado,
entre llovizna y bruma
perfuma.

Por la verde hondonada,
la luz anaranjada
que la tarde deslíe,
ríe.

Y abre sobre la loma
su curva policroma,
el arco que ventura
augura.

Y toda azul, la hora,
tiene el alma que llora
y reza, de una santa
infanta.

Con el rumor de un vuelo
tiembla el azul del cielo,
y un lucero florece.
Anochece.
Ramón del Valle-Inclán
         
MEMÓRiA

¨ 16OUT1906-1972 - Dino Buzzati: Escritor italiano, autor de O Deserto dos Tártaros (1940) - «Certos livros são perigosos. Perigosos, porque nos retiram do conforto habitual e fazem-nos mergulhar em outras realidades. Cada vez que os lemos, não são os mesmos. Mas também nós não somos os mesmos. Estabelecido tal círculo, estamos presos: passam a fazer parte de nós. Este é um livro assim. Pode-se gostar ou não, mas ninguém o atravessa impunemente» (Umberto Krenak). IMAG. 50-88-92-224-356

¨ 19OUT1936-2002 - Álvaro Guerra: Escritor, jornalista e diplomata português - «No meio da Vila que crescia, o Central, que já se chamara República, ficava na mesma. A bica de saco aguentava bem a ofensiva do café expresso» (Café Central - 1984). IMAG.367

¸ 22OUT1896-1967 - José Júlio Marques Leitão de Barros, aliás Leitão de Barros: Escritor, artista plástico e cineasta português - «O cinema traz-nos, cada noite, a imagem maravilhosa duma terra feliz e diferente - desde os operários que trabalham de luvas, aos automóveis que abrem a porta para cima» (Corvos). IMAG.68-76-78-82-94-95-103-115-130-154-161-164-175-180-221-222-227-232-239-242-245-269-297-307-327-370-395-436-500

¨ 28OUT1866-05JAN1936 - Ramón del Valle-Inclán: Ficcionista, poeta e dramaturgo espanhol, membro do modernismo - «Fuí peregrino sobre la mar, / y en todas partes pecando un poco, / dejé mi vida como un cantar.». IMAG.440
         
ANTIQUÁRiO

O 18OUT1936 - O paquete Luanda parte de Lisboa, levando os primeiros presos políticos para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, tendo chegado à ilha de Santiago em 29OUT, com 152 condenados. IMAG.180-410-516
   
NOTICIÁRiO

Cinzas de Dino Buzzati Lançadas na Montanha

As cinzas do escritor e jornalista italiano Dino Buzzati, autor do famoso romance O Deserto dos Tártaros, vão poder ser lançadas sobre os Dolomitas, respeitando finalmente a sua vontade. O acto simbólico foi tornado possível pela aprovação de uma lei, votada pela região do Veneto, autorizando a dispersão de cinzas funerárias na natureza.
«A nossa família só estava à espera da aprovação da lei para lançar as cinzas em Croda del Lago, nas montanhas de Cortina (Norte de Itália)», disse a viúva, Almerina Antoniazzi, em entrevista ao jornal Il Corriere del Veneto.
As cinzas do escritor, que estão actualmente na Lombardia, serão lançadas durante uma cerimónia cuja data ainda não foi fixada. «O sonho de Dino será finalmente cumprido», disse a viúva.
Dino Buzzati, que era alpinista amador, tinha uma confessada paixão pelo maciço pré-alpino meridional, inscrito desde Junho de 2009 no Património Mundial da UNESCO. O escritor consagrou mesmo à região algumas narrativas, reunidas em Sobre os Dolomitas - escritos de 1932 a 1970.
As montanhas devem o nome a Deodat Gratet de Dolomieu, geólogo francês do século XVIII que deu o nome de Dolomita à rocha de origem marinha que constitui este maciço. Na verdade, os Dolomitas eram, há milhões de anos, um maciço de coral.
Dino Buzzati nasceu a 16 de Outubro de 1906, em Belluno (no Veneto), e morreu de cancro a 28 de Janeiro de 1972, em Milão. É sobretudo conhecido como autor de O Deserto dos Tártaros.
Em português estão traduzidos três dos seus livros: O Deserto dos Tártaros, A Derrocada da Baliverna e Pânico no Scala (os três editados pela Cavalo de Ferro).
Em O Deserto dos Tártaros, romance transposto para o cinema por Valerio Zurlini, em 1976, um jovem oficial, o tenente Giovanni Drogo, aguarda, num forte de fronteira, a chegada do inimigo. Trata-se de uma brilhante metáfora sobre a longa espera, a ambição de glória, a sombra permanente do fracasso e a solidão.
11FEV2010 - Diário de Notícias
            
BREVIÁRiO
 
¨Relógio D’Água edita Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento de Alice Munro; tradução de José Miguel Silva. IMAG.488

¨Glaciar edita Poesia Completa de João Cabral de Melo Neto (1920-1999); organização e prefácio de Antonio Carlos Secchin.

¯Purple Records edita em DVD, Made In Japan (1972) por Deep Purple.