sexta-feira, julho 15, 2016

IMAGINÁRiO EXTRA - António Pinheiro

Um Nome Para a História do Teatro Português

O nexo fecundo que, nos últimos anos, se tem manifestado em Portugal, entre investigação universitária e lançamento editorial, vem permitindo o acesso de um mais vasto público a facetas culturais ou figuras notórias que, de outro modo, permaneceriam restritas ou, apenas, conhecidas de uma forma esparsa ou aleatória. É nesta perspectiva que ganham fundamento e relevância títulos como António Pinheiro: Um Nome Para a História do Teatro Português, da autoria de Luís Gameiro e em apresentação sob chancela Arandis.
A partir de uma dissertação de Mestrado, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, esta obra exemplar traça uma expressiva inventariação sobre a versátil personalidade artística e a influente carreira profissional de António Pinheiro (1867-1943) – como actor, encenador ou professor do Conservatório – articuladas com a sua abrangente e significativa intervenção criativa, testemunhadora e solidária – ainda como escritor ou sindicalista – na transição entre os Séculos XIX e XX, reflectindo a viragem da Monarquia para a República. Para além de uma abordagem expositiva e analítica, de valências pessoais, Luís Gameiro reúne e sistematiza uma vasta informação documental, complementada por um referencial anexo fotográfico. Assinalada, fica a importante actividade de António Pinheiro no âmbito da Invicta Film, como intérprete, director de actores e realizador, a qual Luís Gameiro – que é Técnico Superior do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema – poderá, oportunamente, desenvolver e divulgar em próximo livro.
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quarta-feira, julho 13, 2016

IMAGINÁRiO #617

José de Matos-Cruz | 01 Julho 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

TRANSGRESSÕES

Além de actor exuberante,
Mel Brooks é, ainda, um cineasta de genial veia cáustica que, a partir dos anos ’70, se impôs entre os maiores realizadores americanos do burlesco, sobretudo com paródias a géneros ou tendências do cinema. Assim resultaria em Frankenstein Júnior/Young Frankenstein (1974) - de que Brooks for também argumentista, com o protagonista Gene Wilder. Em causa, uma sátira aos clássicos do terror - a propósito de Frankenstein, escrito por Mary Shelley (1816) e transfigurado por James Whale (1931). Simulando fidelidade ao roteiro original, a trama de Frankenstein Júnior subverte as peripécias consagradas, com demolidoras insinuações míticas, sociais ou políticas. O monstro produzido pelo neto do Doutor Frankenstein não se limita a reagir, com violência ou força bruta, à hostilidade da gente normal - pelo seu aspecto tremendo, que oculta uma sensibilidade em filigrana. Pelo contrário, a Criatura contamina mesmo, intelectual ou sexualmente, aqueles que o rodeiam, numa alegoria fascinante sobre o ente abominável. IMAG.44-167-411-429

CALENDÁRiO

µ29MAR-05JUN2016 - Galeria da Avenida das Índias apresenta Paisagens Interiores - exposição de fotografia (Maputo, 2011-2015) de Filipe Branquinho (Moçambique). IMAG.458

09ABR-03JUL2016 - Em Barcelos, Museu de Olaria expõe Júlia Ramalho 60/70 - mostra comemorativa dos 60 anos de carreira e dos 70 anos de idade da barrista.

09ABR-31DEZ2016 - Em Barcelos, Museu de Olaria expõe Geração Ramalho - os trabalhos mais representativos da família de barristas, incluindo Rosa Ramalho.

¨21ABR-22MAI2016 - Paredes de Coura expõe Mil Anos Me Separam de Amanhã - Viagem ao Universo de Mário de Sá-Carneiro [1890-1916] No Centenário da Sua Morte. IMAG.65-71-236-275-307-560-561

µ27ABR-04JUN2016 - No Teatro da Politécnica, Artistas Unidos apresenta Gota a Gota - exposição de fotografia (2014-2015) de Jorge Martins. IMAG.102-333-341-386-392-460-486

¸28ABR2016 - NOS Audiovisuais estreia Balada de Um Batráquio de Leonor Teles.

¨17MAI-SET2016 - Em Lisboa, Sociedade Portuguesa de Autores/SPA expõe Humberto Delgado [1906-1965] - General da Liberdade e Escritor, sob concepção e direcção gráfica de Fernando Filipe. IMAG.61-436-592

PARLATÓR
iO

Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma jovem caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se tu soubesses como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. As minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes, e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.
Frida Kahlo


ANTIQUÁRiO

Verão 2007 - A propósito das comemorações do centenário de nascimento de Frida Kahlo e do cinquentenário da morte de Diego Rivera (1886-1957), entre Julho e Novembro de 2007, é aberto ao público o arquivo documental da pintora mexicana, que não pôde ser consultado durante quase cinquenta anos, o qual reúne cerca de trinta mil objectos pessoais, entre fotografias, desenhos e cartas tanto da artista como do marido.

VISTORiA

Quando a uma árvore são cortados os ramos da copa, vão-lhe nascendo, mais perto da raiz, novos rebentos. Do mesmo modo, também as almas que, ao despontar, adoecem e quase fenecem, regressam frequentemente à primavera dos sentimentos, à apreensiva infância onde tudo começa, como se aí pudessem encontrar novas esperanças e reatar o fio condutor da vida, que antes fora quebrado. Os rebentos que brotaram perto das raízes anseiam por uma rápida ascensão, mas tudo não passa de uma ilusão, pois nunca a partir deles se voltará a desenvolver uma verdadeira árvore.
Hermann Hesse
- Hans (excerto)

Era uma vez um homem que se chamava Albinus e vivia em Berlim. Era rico, respeitável, feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma jovem amante; amou, não foi amado; e a sua vida acabou em desastre.
Vladimir Nabokov
- Riso Na Escuridão (excerto)
MEMÓRiA

02JUL1877-1962 - Hermann Karl Hesse, aliás Hermann Hesse: Escritor alemão, naturalizado suíço, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1946, autor de O Lobo das Estepes - «Para lá dos limites que formam o nosso mundo, abrem-se novos e diferentes conhecimentos». IMAG.137-349-382

1899-02JUL1977 - Vladimir Vladimirovich Nabokov, aliás Vladimir Nabokov: Escritor americano de origem russa, autor de Lolita - «A nossa existência não é mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão… Sou suficientemente orgulhoso de saber alguma coisa para ter a modéstia de admitir que não sei tudo». IMAG.63-223-253-272-325-338-418-503-504-505-507-600-605

03JUL1927-2011 - Henry Kenneth Alfred Russell, aliás Ken Russell: Cineasta inglês, realizador de Os Diabos / The Devils (1971) - «Fazer filmes é muito complicado, e creio que a palavra acessível faz supor que se trata de uma actividade simples - quando, de facto, é extremamente difícil… Ao contrário da maior parte das pessoas, a realidade não me atrai, é algo sem interesse. Está demasiado à nossa volta». IMAG.166-386

1926-05JUL1987 - Jaime Cortez Martins, aliás Jayme Cortez: Artista luso-brasileiro de banda desenhada, pintor e ilustrador - «Aquando da minha chegada ao Brasil, em 1947, havia no seu mercado uma inflação de histórias em quadradinhos de origem americana. Ora, a banda desenhada é uma arte cujos autores precisam de estar bem informados… Então, eu passei a seguir - e incuti aos outros - o emprego de modelos vivos, desenho a partir do natural - todas as imensas coisas que, n’O Mosquito, o grande artista Eduardo Teixeira Coelho me ensinara. Em Lisboa, ele obrigava-me a ficar, horas e horas, esboçando animais, no Jardim Zoológico, e a servir-me dos amigos mais característicos, como figurinos para as diversas personagens».IMAG.78-87-117-129-372-481-578

06JUL1887-1985 - Mojša Zacharavič Šahałaŭ, aliás Marc Chagall: Artista plástico francês, pintor, ceramista e gravador, nascido na Bielorrússia - «Na arte, como na vida, tudo é possível, desde que seja feito com amor». IMAG.59-568

06JUL1907-1954 - Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón, aliás Frida Kahlo: Artista plástica mexicana - «Pinto a mim mesma, porque sou sozinha, e porque sou o assunto que conheço melhor». IMAG.78-110-137-198-382-474-571

06JUL1927-2004 - Jeanette Helen Morrison, aliás Janet Leigh: Actriz americana - «Em Psico [1960], ela não deveria usar aquele soutien… Porém, eu sou um abstencionista» (Alfred Hitchcock). IMAG.14-112-447-495

07JUL1927-2015 - José Alfredo de Vilhena Rodrigues, aliás José Vilhena: Escritor e humorista, pintor e ilustrador português - «Foi um autor incontornável de três ou quatro décadas do humor em Portugal» (Luís Vilhena). IMAG. 19-149-587

BREVIÁRiO

¨ Dom Quixote edita Prosa - Edição Comemorativa Cem Anos 1890-1916 de Mário de Sá-Carneiro.

¨ Tinta da China edita Em Ouro e Alma - Correspondência Com Fernando Pessoa (1888-1935) de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916); organização de Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarro.

¨Guerra & Paz edita O Que Fazem as Mulheres de Camilo Castelo Branco (1825-1890). IMAG.27-31-41-87-111-113-145-146-161-171-179-180-185-209-227-236-237-244-256-277-293-328-334-389-390-414-421-432-453-497-507-520-529-534-544-603-605

domingo, julho 10, 2016

IMAGINÁRiO #616

José de Matos-Cruz | 24 Junho 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

FANTASIAS
O que se passa na cabeça de um rapaz e de uma rapariga que, embora apaixonados um pelo outro, não conseguem libertar-se das suas inibições?… Bom, as coisas não são bem assim, como estão a especular - pelo menos, na concepção de Nicolas Vadot & Olivier Guéret, em Norbert, l’Imaginaire. Uma fantasia alegórica, irresistível, lançada em 2001, sob chancela Le Lombard pela vertente Troisième Degré.O patrão de uma grande agência imobiliária, Glonek tenta preparar o filho para lhe suceder. Porém, Simon é um apático, inteiramente dominado por Capitaine, o tirano que lhe controla as ideias. Estabilidade, rigor, autoridade - eis as palavras dessa ditadura consciente, por sua vez ameaçada por Depresseur, um monstro voraz. E há ainda o dissidente Norbert, um prisioneiro imaginário que pinta, canta, escreve - à espera de uma oportunidade para se evadir. Simon faz o que pode, para viver com tais arquétipos, benéficos ou nefastos. Até que, quando tenta vender um apartamento para agradar ao pai, conhece Elodie - uma jovem e bela cliente, mas tímida e austera. Tudo porque, no seu íntimo, está também subordinada ao poder despótico de Bernardette. É a moral feminina que, com as suas rígidas normas de conduta, impede que se manifeste Nora, a mulher-flor que Elodie traz de si. Ora, enquanto Simon se esmera no negócio, apaixona-se por Elodie - com tal entusiasmo que deixa escapar Norbert, levando finalmente a que Nora se revele…
Estilizando como referências pessoais a infância, a solidão e a inocência, a ironia simbólica e romântica de Vadot inspira-se, ao que confessa, no universo mágico do realizador Tim Burton. Quanto a Guéret, é também crítico de cinema!

CALENDÁRiO

12ABR-28MAI2016 - Em Lisboa, Casa Museu Medeiros e Almeida expõe Andar Nas Nuvens - Duas Propostas Para Um Diálogo Entre a Terra e os Céus de Manuel Valente Alves e Carla Cabanas, sendo comissária Margarida Medeiros. IMAG.398

1922-20ABR2016 - Guy Hamilton: Cineasta britânico, realizador da série James Bond entre Contra Goldfinger (1964) e O Homem da Pistola Dourada (1974) - «Eu tinha uma ideia muito clara do que queria fazer… Se gastarmos um milhão de dólares, tem de se ver no ecrã».

1958-21ABR2016 - Prince Rogers Nelson, aliás Prince: Músico americano, compositor, letrista, multi-instrumentista, cantor, produtor, cineasta e actor, autor de Around the World In a Day (1985) - «A vida é apenas uma festa, e as festas não foram feitas para durar». IMAG.92-174

26ABR-26OUT2016 - Castelo de Belmonte apresenta O Novo Mundo e a Palavra - exposição da Carta original que Pêro Vaz de Caminha escreveu a El-Rei D. Manuel I, sobre o «achamento desta vossa terra nova» (Brasil, 1500). IMAG.33-48-302-348

28ABR-26AGO2016 - Bedeteca da Amadora expõe As Jóias da Bedeteca - Uma Mostra da Arte Original No Acervo da Bedeteca da Amadora.

27MAI-12JUN2016 - Em Beja, decorre o XII Festival Internacional de Banda Desenhada, sendo director Paulo Monteiro. IMAG.36-250-305-416-514-568

PARLATÓRiO

Não sou um autor de farsas, mas um autor de tragédias. E a vida não é uma farsa, é uma tragédia. O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário.
Luigi Pirandello

VISTORiA

Mas eu aborreço-me, meu caro senhor, aborreço-me. A solidão, para mim… pois é, em suma, eu cansei-me. Tenho muitos amigos; mas, acredite, não é nada bom, com certa idade, a pessoa ir para casa e não encontrar ninguém. Sim! Há quem o compreende e há quem não o compreende, meu caro senhor. Quem o compreende está muito pior, porque, no fim, caso se veja sem energias e sem vontade, quem o compreende, com efeito, diz: «Eu não devo tentar isto, eu não devo tentar aquilo, para não fazer esta ou aquela asneira». Muito bem! Mas, a certa altura, percebe que a vida toda é uma asneira; e, aí, diga lá, o que significa não ter feito nenhuma asneira? Significa, no mínimo, não ter vivido, meu caro senhor…
Luigi Pirandello
- O Falecido Mattia Pascal

Um dos aspectos simbólicos das mais altas tradições peninsulares é o cuspir no chão. «Se proibe escupir en el suelo», «É proibido cuspir no chão» - são dísticos que não dei fé de ver afixados em quaisquer outros idiomas senão nos de Camões e de Cervantes. E diz-nos uma correspondente: «Na Suíça não há escarradores». A simples necessidade de fazer, por habitante, uma «capitação» da saliva é, por si, um sintoma de que permanecemos fiéis a uma histórica herança de nossos maiores.
Há tempo fez-se, ingenuamente, a campanha de «engolir em seco». Chegou-se a pôr um polícia na estação do Rossio, de guarda ao cuspo. Passado, porém, certo tempo, o caso esqueceu, como os enredos dos filmes de cinema. E o polícia foi o primeiro a cuspir, num hábito puramente profissional.
Leitão de Barros
- Corvos

MEMÓRiA

28JUN1867-1936 - Luigi Pirandello: Ficcionista, poeta e dramaturgo siciliano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1934) - «O campo [da consciência individual] está aberto a todas as suposições. O intelecto adquiriu uma extraordinária mobilidade. Ninguém consegue estabelecer um ponto de vista firme e indestrutível» (1893). IMAG.110-112-165-223-470-484-500-590

1896-29JUN1967 - José Júlio Marques Leitão de Barros, aliás Leitão de Barros: Escritor, artista plástico e cineasta português - «E o milagre aí anda, vivo, humano e ignorado, entre vocês…». IMAG.68-76-78-82-94-95-103-115-130-154-161-164-175-180-221-222-227-232-239-242-245-269-297-307-327-370-395-436-500-583-601-606

GALERiA

O Novo Mundo e a Palavra
A exposição da Carta a El-Rei Dom Manoel Sobre o Achamento do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, está patente na Sala Pedro Álvares Cabral, no Castelo de Belmonte, na Beira Baixa. Esta é a primeira vez, em Portugal, que a Carta é exposta ao público fora da Torre do Tombo, em Lisboa, tendo sido escolhida a vila de Belmonte, no distrito de Castelo Branco, no leste de Portugal, por ser a terra natal de Pedro Álvares Cabral, que capitaneou a esquadra que descobriu a costa brasileira, em Abril de 1500. A Carta de Pêro Vaz de Caminha é um documento classificado como Património Nacional, inscrito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura / UNESCO, no Registo da Memória do Mundo, que apenas saiu uma vez de Lisboa, para o Brasil, no âmbito das comemorações do 5.º centenário do seu descobrimento. Em comunicado, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo / ANTT, a cujo espólio pertence o manuscrito, refere que este documento «assinala um momento singular da História».

Após ter-se avistado terra e os portugueses desembarcado em solo a que chamaram inicialmente Terra de Vera Cruz, Pedro Álvares Cabral mandou o seu escrivão redigir o documento para informar o rei D. Manuel I do achamento de novas terras, tendo seguido para Lisboa numa nau comandada por Gaspar de Lemos. «O que se encontra neste documento burocrático, e que se insere na tradição dos cronistas medievais portugueses, é a descoberta do outro, que aqui transcende os cânones a que relatos de viagens, bestiários e outras efabulações habituaram os europeus, desde a decadência do Império Romano e da emergência das forças muçulmanas no sul da Europa», acrescenta o ANTT. «Não se trata de um relato de viagem, uma narrativa de um conjunto de peripécias com um fim e uma moral adjacentes, nem uma tentativa de exaltar os autores da gesta ou o seu suserano, nem ainda uma tentativa de relevar uma qualquer supremacia tecnológica ou racial». A carta foi escrita em Porto Seguro, sendo datada de 1 de Maio de 1500 - alguns dias após a chegada dos portugueses, e de ter sido celebrada a primeira missa em território sul-americano - por Pêro Vaz de Caminha, de quem se sabe pouco, além da origem fidalga e de ter sido escrivão e vereador na Câmara do Porto, que, com o cosmógrafo Mestre João, descreveu a chegada, a paisagem e as gentes que o habitavam. Graças à colaboração de Mestre João, neste documento surge pela primeira vez sinalizada a constelação estelar Cruzeiro do Sul, que pontifica hoje na bandeira nacional daquele país de Língua Portuguesa.
NL // MAG - Lusa (excerto/adaptação)

BREVIÁRiO

Relógio D’Água edita De Quanta Terra Precisa o Homem de Lev/Leon Tolstoi (1828-1910); tradução de Nina e Filipe Guerra. IMAG.56-194-299-305-358-363-444-506-515-527-593-602

Casa das Letras edita A Estrada dos Silêncios de Carlos Vale Ferraz / Carlos Matos Gomes. IMAG.3-197

Distrijazz edita em CD, Dino Saluzzi: Imágenes - Music For Piano por Horacio Lavandera.

segunda-feira, junho 27, 2016

IMAGINÁRiO #615

José de Matos-Cruz | 16 Junho 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

ROTURAS

Um dos eventos mais anómalos e escamoteados da vivência americana no Século XX: o internamento imposto, em 1942-1944, a quase cento e vinte mil cidadãos ianques de origem ou ascendência japonesa, em áreas militarmente controladas, abandonando lares, famílias, profissões, e interrompendo uma inserção social. Tal provocou irreversíveis dramas singulares e conflitos comunitários, que se aludem através de um pequeno aglomerado populacional - simbolizado na ilha imaginária de San Piedro - onde convivem descendentes de judeus, nipónicos, alemães ou nórdicos. Aí evolui o amor clandestino entre Ishmael, filho de um jornalista liberal; e Hatsue, a cujos pais agricultores era interdito ter terras…
A par com os perturbadores desempenhos de Ethan Hawke e Youki Kudoh, A Neve Caindo Sobre os Cedros/Snow Falling On Cedars (1999) - a partir do romance de David Guterson - estiliza uma impressionante paisagem emocional: pela composição plástica de Robert Richardson, que a música composta por James Newton Howard compenetra de atmosferas corais. Prestigiado documentarista, nascido no Uganda, e descendente de ingleses, o realizador Scott Hicks cresceu entre o Quénia e a Austrália. IMAG.75

CALENDÁRiO

¢30MAR-07MAI2016 - Em Lisboa, Galeria Baginski apresenta Mexicano - exposição de escultura de Bruno Cidra. IMAG.597

¢06ABR-06MAI2016 - Em Lisboa, Sala Branca apresenta Malangatana - Os Anos da Prisão - exposição de desenho de Malangatana Valente (1936-2011). IMAG.337-565

¢07ABR-13MAI2016 - Em Lisboa, Sociedade Nacional de Belas Artes expõe, com Fundação Carmona e Costa, Escultura e Desenho 2016 de Graça Costa Cabral.

µ09ABR-09JUN2016 - Em Lisboa, Barbado Gallery apresenta Índia - exposição de fotografia de Steve McCurry.

®1938-12ABR2016 - Francisco António de Vasconcelos Nicholson, aliás Francisco Nicholson: Artista português, dramaturgo e argumentista, encenador e actor de teatro, cinema e televisão - «Ele inovou no teatro, na revista, na telenovela, na televisão. Inovar, é deixar de fazer o que os outros faziam, e fazer coisas novas, mais avançadas» (Rui Mendes).

¸14ABR2016 - Artistas Unidos produziu, e estreia com Midas Filmes, Ainda Não Acabámos - Como Se Fosse Uma Carta (2015) de Jorge Silva Melo. IMAG.87-92-118-128-184-236-261-264-291-300-336-349-441-464-480-561-573

¢22ABR-24JUL2016 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Do Ocidente ao Oriente: Diálogos - exposição de pintura de Isabel Nunes.

23ABR-21AGO2016 - Na Amadora, Casa Roque Gameiro expõe Azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). IMAG.22-32-43-59-77-98-115-197-208-242-246-256-304-365-381-499-517-518-545-555-571

30ABR-25MAI2016 - Ateneu Popular de Montijo apresenta Traços & Tons - exposição de ilustração e banda desenhada por Daniel Maia, sendo comissária Marta Ferreira. IMAG.196-387-416-430-435-528-538-563-596

PARLATÓRiO

¨ Precisando, portanto, um príncipe, de saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo a raposa e o leão: pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe defender-se dos lobos.
-Maquiavel

VISTORiA
¨ Jane: Grande parte das vezes, é a nossa própria vaidade que nos ilude. Para as mulheres, a admiração que elas nutrem por algo significa mais do que aquilo que de facto está em causa.
Elizabeth: E são os homens que se encarregam de as convencer.
Jane: Se é propositadamente que o fazem, não têm desculpa; mas não creio que no mundo haja tanta duplicidade, como a maioria das pessoas pretende fazer acreditar.
Elizabeth: Estou longe de atribuir à duplicidade alguma faceta do comportamento de Mr. Bingley. Mas o que certo é que, mesmo sem se planear fazer o mal ou tornar os outros infelizes, podem criar-se situações de equívoco e de sofrimento. Refiro-me à inconsistência, à falta de atenção para com os sentimentos dos outros e à falta de poder de resolução.
Jane Austen
- Orgulho e Preconceito (excerto)

MEMÓRiA

¨ 16JUN1927-2014 - Ariano Vilar Suassuna, aliás Ariano Suassuna: Escritor brasileiro, poeta e ensaísta, romancista e dramaturgo, autor de O Castigo da Soberba - «Converso muito com Deus, todos os dias. E entra muito assunto, muitos pedidos. Vergonhosamente, acho que tem mais pedido que agradecimento». IMAG.527

¨ 1775-18JUN1817 - Jane Austen: Escritora inglesa - «É uma verdade universalmente aceite que um homem solteiro, dotado de uma certa fortuna, precisa de uma esposa». IMAG.117-146-543

¨ 1860-19JUN1937 - James Matthew Barrie, aliás J.M. Barrie: Ficcionista e dramaturgo escocês, criador de Peter Pan - «A vida de cada homem é um diário em que ele pretende escrever uma história, e escreve outra; e a sua hora mais humilde é aquela em que compara essa narrativa, tal como está, com aquilo que ele jurou fazer.» (The Little Minister - 1891). IMAG.18-20-101-183

¨ 19JUN1937-2015 - André Glucksmann: Filósofo, pensador e ensaísta francês - «A tirania é mãe do terrorismo» (2014). IMAG.594

¨ 1469-21JUN1527 - Niccolò Machiavelli, aliás Maquiavel: Historiador, filósofo e escritor italiano - «Quanto mais próximo o homem estiver de um desejo, mais o deseja; e, se não consegue realizá-lo, maior dor sente». IMAG.192-225

1854-21JUN1887 - Francisco de Arruda Furtado: Naturalista português, autor de O Homem e o Macaco (1881), membro honorário da Philosophical Literary Society de Leeds, e da Sociedade de Geografia de Lisboa - «Era uma pessoa do seu tempo, pioneiro da defesa, estudo e comprovação do evolucionismo» (David Felismino).

BREVIÁRiO

Relógio D’Água edita De Profundis, Valsa Lenta (1997) de José Cardoso Pires (1925-1998); prefácio de João Lobo Antunes. IMAG.53-200-226-227-314-366-367-533-581-602-609

¯Distrirecords edita em CD, sob chancela Brilliant, Karol Szymanowski [1882-1937]: Complete Music for Violin and Piano por Bruno Monteiro e João Paulo Santos. IMAG.343-358-389-604

¨Porto Editora lança A Venturosa História do Usbeque Mudo de Luis Sepúlveda; tradução de Helena Pitta. IMAG.602

¨Orfeu Negro edita Os Filmes da Minha Vida de François Truffaut (1932-1984); introdução de Francisco Valente. IMAG.31-40-48-58-71-112-147-155-163-179-191-234-238-283-288-312-327-351-354-357-381-384-386-429-487-496-500-521-528-562-573-576-588-591

¨Sistema Solar edita Inferno de August Strindberg (1849-1912); tradução e apresentação de Aníbal Fernandes. IMAG.288-370

¯Naxos edita em CD, Requiem e Judas de António Pinho Vargas, por Coro e Orquestra Gulbenkian, sob a direcção de Fernando Eldoro e Joana Carneiro. IMAG.424

¨Sextante edita Por Fim de Edward St Aubin; tradução de Daniel Jonas.

¨Livros do Brasil edita O Estrangeiro de Albert Camus (1913-1960); tradução de António Quadros, introdução de António Mega Ferreira. IMAG.258-441-508-537-577



EXTRAORDINÁRiO

OS ALTERNATIVOS - Folhetim Aperiódico

QUANDO ME ENTERNEÇO EM VÃO, DESAPAREÇO – 9
Honestamente, Tibério Serafina pediu-a em casamento. Com aquela voz rouca que o Manso tinha, não havia modos de resistir-lhe. E, pensando em conveniências, Benigna acedeu, assim conciliando carícias e negócios. Até porque a Reca se esmerava em ter, ela, tudo sob controlo entre canastras.
Continua

terça-feira, junho 21, 2016

IMAGINÁRiO EXTRA - José Garcês: Santo António em Banda Desenhada

Distinguido pelo GICAV/Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, em 2015, com o Prémio Especial Anim’arte BD à Carreira, que em breve completará 70 anos, José Garcês regressa ao convívio dos admiradores e dos leitores em geral, com Santo António Em Banda Desenhada – obra editada na Colecção Álbuns Europress, e distribuída pelo jornal Público.
Tudo começou a 12 de Outubro de 1946, com a publicação de Inferno Verde n’O Mosquito, seguindo-se uma actividade plena de sucessos e multifacetada. Prestes a comemorar 88 anos, pois nasceu em 23 de Julho de 1928, José Garcês é argumentista e ilustrador de Santo António Em Banda Desenhada – que assim se apresenta: «A história de um santo de Lisboa, de Portugal e do mundo, contada através das palavras e do traço realista de um dos grandes mestres e pioneiros da BD lusa. Na sua narrativa fluída e envolvente, José Garcês recria a vida, os milagres e a herança de Santo António, um homem comum com qualidades invulgares que o transformaram em ícone da Igreja Católica e da cultura popular.»

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terça-feira, junho 14, 2016

IMAGINÁRiO #614

José de Matos-Cruz | 08 Junho 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004
PRONTUÁR
iO

INSPIRAÇÕES

Desde o início da série
America’s Best Comics, em 1999, os fanáticos do escritor Alan Moore renderam-se às proezas de Tom Strong, de Promethea, de Top Ten, de Tomorrow Stories. Tanto àqueles, como aos que só mais tarde chegaram ao fenómeno, a Wildstorm reservou, em 2003, uma surpresa irresistível: a primeira colectânea de Tom Strong - com as sete aventuras primordiais do famoso herói/cientista, uma espécie de abc sobre um universo inspirado nos pulps dos anos ’30 e ’40 do Século XX. Como especial aliciante, as novas capas concebidas por Chris Sprouse e Al Gordon, seguindo-se os artistas convidados - Arthur Adams, Dave Gibbons, Gary Frank ou Jerry Ordway.
How Tom Strong Got Started
familiariza-nos com alguém mental e fisicamente sobre-humano, assumindo um complexo passado de perigos e desafios. A seu lado, estão a mulher, Dhalua - filha de um líder místico; a bela filha do casal, Tesla; King Solomon, um macaco prodigioso; e Pneuman, o mordomo robótico. Entre os maiores adversários, contam-se o obcecado Paul Saveen, ou o monstruoso The Pangean. IMAG.8-25-35-37-61-85-86-145-236-341-601


CALENDÁRiO

25FEV-17ABR2016 - Nas Caldas da Rainha, Museu José Malhoa apresenta Barra das Almas - exposição de fotografia de Valter Vinagre. IMAG.248-538-580

17MAI1936-03ABR2016 - Lars Erik Einar Gustavsson, aliás Lars Gustafsson: Escritor e filósofo sueco, poeta e ficcionista - «Considero que a alma tem forma esférica (se é que tem alguma forma). Uma esfera em que uma luz fraca penetra ligeiramente - mas só ligeiramente - sob a superfície matizada, onde sensações e actos de consciência rodopiam, como bolas de sabão, mudando constantemente de cor.» (A Morte de Um Apicultor - 1978). IMAG.512

07ABR-01MAI2016 - No Porto, Palácio da Bolsa expõe Tesouros Bibliográficos (Séculos X a XVI): A Arte e o Génio ao Serviço do Poder, com cópias fac-similadas de M. Moleiro Editor (Barcelona).
VISTORiA

Há-de Flutuar Uma Cidade

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
--Al Berto

PARLATÓRiO

Corto Maltese
Corto Maltese é o príncipe das minhas histórias em quadradinhos, e fazê-lo envelhecer coloca-me problemas. Aliás, é por isso que eu o faço beber o elixir da longa vida, de modo a que possa permanecer jovem no sono e nos sonhos…
Nada vale a pena ser levado a sério e, para viver serenamente, é preciso aceitar um mundo de fábula.
--Hugo Pratt
MEMÓRiA

09JUN1917-2012 - Eric John Ernest Hobsbawm, aliás Eric Hobsbawm: Historiador britânico de orientação marxista, nascido em Alexandria, autor de Tempos Interessantes - Uma Vida No Século XX - «Pertenço a uma geração para a qual a Revolução de Outubro representava a esperança do mundo». IMAG.430

13JUN1917-2005 - Augusto Roa Bastos: Escritor paraguaio - «Quero nas palavras que escreves algo que me pertença». IMAG.39

1948-13JUN1997 - Alberto Raposo Pidwell Tavares, aliás Al Berto: Poeta e pintor português - «não esqueças o navio carregado de lumes / de desejos em poeira – não esqueças o ouro / o marfim – os sessenta comprimidos letais / ao pequeno-almoço». IMAG.184
15JUN1927-1995 - Hugo Pratt: Autor italiano de banda desenhada, criador de Corto Maltese - «Procuro a verdade, mas sei que nunca a atingirei completamente. Se algum dia pensar que a atingi, terei de dizer a mim mesmo que tal não é possível, que alguma coisa me escapou e que devo continuar a procurá-la. Quem acredita deter a verdade é potencialmente perigoso - e é a principal razão pela qual desconfio sempre de todos os que professam uma religião. A verdade é inatingível, e só podemos esperar aproximar-nos dela… Esse é o meu dogma». IMAG.1-26-47-65-69-75-157-256-286-308-360-382-418-423-431-454-527-536
PARLATÓRiO

Lars Gustafsson
Não sei se os meus filmes são memórias históricas. São réquiens, mas sem o tom fúnebre, não são lamentos pela morte de um período.
No livro A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson, uma frase é sempre repetida: «Não nos rendemos. Continuamos…». É um réquiem, mas não nos rendemos, continuamos.
--Theo Angelopoulos (2011)


GALERiA

Barra das Almas
Ao olhar para esta série de fotografias Barra das Almas, de Valter Vinagre, sabemos de instinto que, apesar da sua data recente, se referem a um tempo que não é o nosso. Um tempo pré-moderno, onde a máquina não determinava ainda a vida dos homens e as horas e os dias se sucediam pautados por calendários antiquíssimos. Não há homens e mulheres maduros nestas imagens, apenas um casal de idosos e uma criança, enfeitada de frutos como um jovem deus pagão, que reabre o ciclo da vida que adivinhamos fechar-se em breve.
--Luísa Soares de Oliveira
BREVIÁRiO

Porto Editora lança
Poemas Canhotos de Herberto Helder (1930-2015). IMAG.221-245-325-440-487-504-519-562-597
Cavalo de Ferro edita Todos os Fogos, o Fogo de Julio Cortázar (1914-1984); tradução de Alberto Simões. IMAG.205-298-330-454-539-546-563-602

Distrijazz edita em CD, sob chancela ECM,
Creation pelo pianista Keith Jarrett. IMAG.510-547-612

Caminho edita Os Filipes de António Borges Coelho. IMAG.131-189-219

Dom Quixote edita Minha Senhora de Mim (1971) de Maria Teresa Horta. IMAG.100-144-251-351-581
Fyodor Books edita O Apocalipse Estável de Karl Kraus (1874-1936); tradução de António Sousa Ribeiro. IMAG.464-566

Reprise Records edita em CD, Forever Man de Eric Clapton.

Quetzal edita Nocturno Chileno de Roberto Bolaño (1953-2003); tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues.
EXTRAORDINÁRiO

OS ALTERNATIVOS – Folhetim Aperiódico

QUANDO ME ENTERNEÇO EM VÃO, DESAPAREÇO - 8
Passaram-se os tempos.
Umas quantas peixeiradas com outra profissional do ramo, ali estabelecida, acabou por torná-la de relações privilegiadas com Anabela Serafina. Em seguida, Benigna chegou à fala com o irmão da Reca. Era aloirado, simplório, discreto, outrora ardina que, farto de apregoar o Diário de Notícias entre o Bairro Alto e o Castelo de São Jorge, se tornara porteiro no Clube dos Reformadores. Além disso, engraxava aos selectos sócios.
Continua

terça-feira, junho 07, 2016

IMAGINÁRiO #613

José de Matos-Cruz | 01 Junho 2017 | Edição Kafre | Ano XIV – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

SOBRESSALTOS
Prestigiado nos anais de Hollywood como o realizador que mais contribuiu para a revelação de Bucha & Estica (aliás, Stan Laurel e Oliver Hardy), Leo McCarey (1898-1969) dirigiu ainda, a partir de meados dos anos ’20, uma série de populares comédias a cargo das principais companhias - da MGM à Paramount, da Fox à United Artists, da Columbia à RKO. Para esta, a primeira produção foi Lua Sem Mel (1942) - sendo ainda argumentista com Sheridan Gibney, e a qual assinalou o lançamento, nos EUA, do actor Walter Slezak. Tendo incidência através da Europa, acção romântica e estilizado humor forjam uma obra tipificada como propaganda anti-nazi, que estreou antes da entrada da América na II Guerra Mundial. Significativamente, só apareceu em Portugal em 1945, e em França quatro anos depois.
Com uma nomeação da Academia ao Oscar do Melhor Som (Stephen Dunn), Lua Sem Mel teve como protagonistas Cary Grant e Ginger Rogers, que voltariam a encontrar-se em A Culpa Foi do Macaco (1952 - Howard Hawks). A rodagem principiou em 25 de Abril de 1942, tendo Grant (aliás, Archibald Alexander Leach) conseguido um atraso quanto ao seu alistamento, que ele pretendia nos Army Air Corps; a 26 de Junho, e mantendo embora um emblemático vínculo pró-britânico, tornou-se cidadão ianque, adoptando legalmente o nome artístico. IMAG.197-233-377


CALENDÁRiO

23MAR-30ABR2016 - Em Lisboa, Galeria Múrias | Centeno expõe Current Upcoming Past de Florian Meisenberg.

30MAR-29MAI2016 - Em Lisboa, Centro Cultural de Belém/CCB expõe, na Garagem Sul, Arquitectura Em Concurso: Percurso Crítico Pela Modernidade Portuguesa, sendo curador Luís Santiago Baptista.

1929-31MAR2016 - Imre Kertész: Escritor húngaro, sobrevivente do Holocausto, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 2002 (por praticar «uma tradição filosófica em que a vida e o espírito humano são inimigos, deixando os seus leitores na fronteira com as emoções compulsivas que inspiram uma liberdade de expressão muito particular»).

1950-31MAR2016 - Zaha Mohammad Hadid, aliás Zaha Hadid: Arquitecta inglesa de origem iraquiana, distinguida com o prémio Pritzker em 2004 - «Explorou criativa e intensamente a sua concepção espacial para o mundo contemporâneo, um espaço de tensões, energias e movimentos que responde à dinâmica da vida contemporânea» (Luís Santiago Baptista).

31MAR2016 - O Som e a Fúria produziu, e estreia John From (2015) de João Nicolau; com Júlia Palha e Filipe Vargas. IMAG.48-115-297-353-488

1932-02ABR2016 - Leandro José Barbieri, aliás Gato Barbieri: Saxofonista argentino, distinguido com o Grammy Latino à Carreira em 2015 (pelo seu estilo musical «rebelde mas, ao mesmo tempo, bastante acessível, combinando o jazz contemporâneo com os géneros latino-americanos, e incorporando elementos da pop instrumental»).

05ABR-30SET2016 - Em Lisboa, Espaço Novo Banco Arte apresenta Linhas de Diálogo - exposição de fotografia das Colecções da Fundación Coca-Cola (Espanha) e de Fotografia Contemporânea do Novo Banco, por 50 artistas portugueses e espanhóis, sendo curadora Lorena Martínez de Corral.

09ABR-14MAI2016 - Em Lisboa, Galeria Monumental apresenta O Barqueiro Com a Palavra Debaixo da Língua - exposição de pintura de Maria João Worm. IMAG.289-301-325-359-386-409-416-430-444-451-553-591-594

INVENTÁRiO

PAIXÃO E GUERRA
Conhecido pela sua ganância (consta que chegou a cobrar por cada autógrafo), Cary Grant - que não estava vinculado a qualquer estúdio - logrou da RKO um salário semanal de 6.250 dólares, mais dois por cento das receitas de exploração de Lua Sem Mel (1942) de Leo McCarey - isto, numa altura em que as taxas do fisco atingiam os 93 por cento dos rendimentos, nos Estados Unidos. Ginger Rogers, que o considerava «um dandy irresistível», consagrara-se pelos musicais com Fred Astaire na década de ’30, assumindo - agora - uma ex-bailarina de cabaré em Nova Iorque, Katie, que por 1938, em Viena, se faz passar por membro da melhor sociedade de Filadélfia, estando prestes a casar com o Barão austríaco Von Luber. Numa trama cosmopolita, de aparências e disfarces, a jovem fascinada por jóias é, então, assediada por Pat - suposto costureiro francês e, na realidade, um compatriota, repórter radiofónico que pretende extrair-lhe informações sobre o noivo, sem que ela o saiba um influente colaborador de Adolf Hitler. De facto, e celebrado o matrimónio na Checoslováquia, uma agitada viagem de núpcias continua pela Polónia, Holanda, Bélgica - sempre com Pat a segui-los, cada vez mais seduzido - países que irão caindo sob o domínio do III Reich. Até França ameaçada e, finalmente em Paris sob ocupação, uma Katie já incrédula, e aliada Pat, dedicar-se-á à espionagem conjugal…
Aventura insinuante sob o signo histriónico - e com implicações que Alfred Hitchcock evocaria em Difamação (1946), reincidindo Grant ao lado de Ingrid Bergman - Lua Sem Mel patenteia a expressiva dinâmica de McCarey, em que um enleio fantasista entre personagens se recorta na efusão de alusões e subentendidos, em suas máscaras ou equívocos, ou pela ironia contrastada dos diálogos. Em momento tão crítico para a História do Século XX, Lua Sem Mel constitui, também, uma curiosa alegoria da representação pelo Novo Mundo sobre o Velho Continente, a cargo de um californiano de origem irlandesa. As contingências próprias da época fazem denotar uma rodagem rápida e ligeira, privilegiando a ênfase do burlesco e a eficácia das vedetas, sobre a estrutura narrativa ou o quilate técnico. Tal risco virtual entre artifício e consistência - que McCarey sempre joga, como trunfos criativos - remeteria para uma alusão de Com a Verdade Me Enganas (1937 - McCarey), donde o talento de Grant se exubera, cúmplice e cativo. Bastaria apreciar, nesta Lua Sem Mel, a sequência da partida de cartas no barco, por excelência visual, detalhada, com todos os requintes de uma conjugação sobre o cinema mudo. Algo que, aliás, se prefigura na recorrência mordaz entre Rogers e Grant - quando, logo no início, ele lhe tira as medidas… servindo-se de uma fita métrica em metal!
MEMÓRiA

02JUN1857-1934 - Edward William Elgar, aliás Edward Elgar: Compositor inglês - «Há música no ar». IMAG.524
GALERiA

Linhas de Diálogo
A exposição Linhas de Diálogo junta duas colecções. A da Fundación Coca-Cola (Espanha), na qual há todo o tipo de técnicas e expressões da arte actual, mas onde a fotografia tem uma grande relevância, com uma das mais importantes colecções de fotografia contemporânea do mundo, a Colecção do Novo Banco. O resultado é uma visão sobre duas colecções que exploram a fotografia espanhola e portuguesa num mesmo período temporal, oferecendo uma pluralidade de olhares que convidam a reflectir sobre o mundo, através de imagens que tanto remetem para as marcas do passado como para aspectos diversos do quotidiano e da actualidade. 
Nas palavras da curadora, Lorena Martínez de Corral, «a fotografia foi primeiro um meio visual de massas, e é a chave de toda a produção técnica de imagens». Por isso, conclui: «Mais do que qualquer outro meio visual, a fotografia moldou a memória do nosso tempo, tanto a colectiva como a individual». 

O Barqueiro Com a Palavra Debaixo da Língua
- Maria João Worm
Registo de uma passagem que atravessa o tempo da insónia usando as palavras como reflexão e passatempo.
Nesse silêncio, com o corpo deitado, aparentemente quieto, aparecem imagens que procuram o seu significado. 
E se as palavras forem desenhos inscritos dentro das formas que designam?

BREVIÁRiO

Quetzal edita Pó, Cinza e Recordações de J. Rentes de Carvalho.

Sony edita em CD, Romance(s) de Aldina Duarte.

Esfera dos Livros edita O Dia-a-Dia Em Portugal Na Idade Média de Ana Rodrigues Oliveira.

Clube do Autor edita Mulheres Portuguesas de Irene Flunser Pimentel e Helena Pereira de Melo. IMAG.185-269-519
Guerra & Paz edita Fernando Pessoa [1888-1935] - Minha Mulher, A Solidão; organização de Manuel S. Fonseca. IMAG.26-28-64-82-130-131-157-182-187-196-207-211-236-264-323-326-330-333-343-347-376-382-384-385-395-399-403-404-417-426-433-450-460-467-491-507-509-524-540-551-556-561-576-593-596-604-605-612

Deutesche Grammophon edita em CD, Maria João Pires - Complete Concerto Recordings On Deutesche Grammophon.IMAG.106-411-449-463-495--507
EXTRAORDINÁRiO

OS ALTERNATIVOS – Folhetim Aperiódico

QUANDO ME ENTERNEÇO EM VÃO, DESAPAREÇO – 7
O certo é que a Chiba não voltou a pôr-lhe o travo, ou a tragar o Petisco. Logo, Benigna da Purificação cortou-se à sorte, fez contas aos tostões e tornou-se vendedeira com banca certa na Praça da Figueira.
Continua