terça-feira, setembro 01, 2015

IMAGINÁRIO #569


José de Matos-Cruz | 01 Julho 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO
 
CRISPAÇÕES

Género primordial do imaginário americano e, entre a marginalidade e a aventura, sempre revitalizado pelo elã de uma saga original, enquanto território mítico, o Western sagra tempos perigosos e violentos, em que avassalava a lei da bala - com justiça calada por heróis insolidários, entre impropérios dos facínoras. 
Assim ressalta um imaginário fecundo e fluente, que Hollywood mitificou, como homenagem cinéfila às mais expressivas tradições de culto popular. Tal repercutiu-se em quadradinhos, logo pela escola europeia - da qual Hermann ou Jean Giraud são referências primordiais. Reunindo-se dez anos após L’Oeuil du Chasseur (1987), pela senda criminal, Philippe Foerster (argumento) & Philippe Berthet (ilustração) culminaram, em Cães da Pradaria / Chiens de Prairie (1996), as proezas crepusculares de J.B. Bone, um velho fora-da-lei com a cabeça a prémio e o furor no coração, arrostando os seus fantasmas silenciosos e uma orfandade omnipresente…
Por tais transes persiste, afinal, o entendimento profundo e peculiar do Western - porventura, a expressão épica mais intensa e virtual, através dos seus códigos de exaltação e persistência num itinerário pioneiro, entre o esgar da ganância e a expiação do mal.


CALENDÁRiO

15MAI-30AGO2015 - Em Lisboa, Museu do Design e da Moda/MUDE expõe Caleidoscópio - A Alta-Costura de Christian Lacroix, sendo curadora Anabela Becho.

®18MAI-31AGO2015 - Palácio da Cidadela de Cascais expõe Visitas Espectaculares - Pintores e Arquitectos Nos Palcos Portugueses; organização do Museu da Presidência da República e do Museu Nacional do Teatro e da Dança, sendo comissário José Carlos Alvarez. IMAG.11-17-150-170-205-208-317-332-368-471-501

1930-21MAI2015 - Joaquim Durão: Jogador português de xadrez, Mestre Internacional - «Foi o único xadrezista português a defrontar Bobby Fischer, nas Olimpíadas de Havana, Cuba, em 1966» (José Durão).

22MAI2015 - Em Lisboa, na zona de Belém, é inaugurado o novo Museu Nacional dos Coches, concebido pelo arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, em colaboração com o atelier de Ricardo Bak-Gordon. IMAG.41-204

¢22MAI-27SET2015 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe Um Realismo Cosmopolita: o Grupo KWY Na Colecção de Serralves, sendo curadora Catarina Rosendo.

¸28MAI2015 - Vende-se Filmes produziu, e estreia com Midas Filmes, O Indispensável Treino da Vagueza (2014) e Fora da Vida (2015) de Filipa Reis e João Miller Guerra. IMAG.430-466-490

µ29MAI-26JUL2015 - No Estoril, Espaço Memória dos Exílios apresenta Das Guerras Mundiais - exposição de fotografias cedidas pela Embaixada da Federação da Rússia.
              
PARLATÓRiO

OA geração que inicia uma revolução dificilmente a completará…
Fundamental, é aplicar a lei de modo igual aos homens de todas as condições…
Se eu pudesse ir para o céu com um partido, de modo algum seria esse o meu destino…
Sempre que fizermos algo, mesmo que ninguém venha a saber, convém agirmos como se o mundo estivesse a olhar para nós…
Não devemos morder a tentação, antes de nos certificarmos de que tem algum anzol oculto…
Nunca nos arrependeremos de ter comido com moderação…
Quantos sofrimentos acabaram por nos custar os males que nunca ocorreram…
Certos anúncios contêm as únicas verdades que merecem a credibilidade de um jornal…
Thomas Jefferson

VISTORiA

§ 45. Meios gerais empregados no Governo do Senhor Rei D. José para promover a introdução das Artes fabris em Portugal, e seus bons efeitos.
¨Os grandes subsídios dados pelo Governo, para a introdução das artes fabris em Portugal, a isenção de direitos sobre as matérias primas vindas de fora, assim como também aqueles de exportação sobre tais Manufacturas, e suas entradas francas nos Domínios do Ultramar, a introdução proibida no Reino de correspondentes manufacturas estrangeiras, e a rigorosa observância das leis repressivas do contrabando têm sido os princípios políticos a que se deveu a diversidade, e multiplicidade de estabelecimentos úteis; por efeito dos quais ficaram no país enormes somas, que antes passavam a nações estrangeiras, com gravíssimo prejuízo de Portugal, de cujas somas se poderá formar juízo comparando a balança do comércio de uns anos com outros, cuja balança se principiou a formar no Reinado da Rainha N. S. Que Deus Guarda à custa do Cofre da Real Junta do Comércio, que seria de muita utilidade publicar-se pela imprensa, para ilustração da parte pensante e instruída da nação principalmente para aqueles que influem no Governo poderem descobrir em um golpe de vista objectos de tanta importância; e até calcular os desastrosos efeitos que poderá produzir o tratado de comércio de Fevereiro de 1810, se se não tomarem em séria consideração, quanto antes, para se lhes obstar por todos os meios possíveis.
O tratado feito por Methuen, e Roque Monteiro Paim, ainda que arruinou muitas artes fabris, que havia no Reino, principalmente aquelas de lanifícios, cujas manufacturas estrangeiras não eram admitidas antes deste tratado, que teve por objecto a admissão dos panos ingleses, em compensação dos vinhos de Portugal pagarem de entrada em Inglaterra uma terça parte menos do que aqueles de França, e isto sem especificar a proporção de direitos de entrada dos ditos lanifícios, nem de outro género algum, tem sido modificado pelo Governo regenerador do Sr. Rei D. José.
Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810

MEMÓRiA

¨ 1811-01JUL1896 - Harriett Beecher-Stowe: Escritora e abolicionista americana - «Quando entramos numa situação tensa, e tudo está contra nós, até parecer que não conseguimos aguentar nem mais um minuto, há que não desistir, pois esse é justamente o momento em que a maré irá mudar». IMAG.326

¯01JUL1926-2012 - Hans Werner Henze: Compositor alemão - «A beleza intemporal e o compromisso contemporâneo são aquilo que a sua obra tem de único» (Schott Music). IMAG.433

1271-04JUL1336 - Isabel de Aragão: Rainha Santa Isabel, casada com D. Dinis I - «É indiscutivelmente uma das mais notáveis figuras femininas da nossa história e também um mito popular e religioso que alcançou, desde cedo, uma invulgar projecção a nível nacional» (M. Lourdes Cidraes). IMAG.305

O 1743-04JUL1826 - Thomas Jefferson: Político americano, o principal autor da Declaração da Independência (1776), e Presidente dos EUA (1801-1809) - «Nada consegue impedir o homem que tem a atitude mental correcta de atingir os seus objectivos; e ninguém, neste mundo, logrará ajudar o homem com a atitude mental errada». IMAG.89-178-414

¢1840-06JUL1916 - Bertrand-Jean Redon, aliás Odilon Redon: Pintor francês, artista gráfico, ligado ao simbolismo e co-fundador do Salon des Indépendants (1884) - «Dou liberdade à minha imaginação, no sentido de utilizar tudo o que a litografia pode oferecer-me. Cada uma das minhas muitas peças é o resultado de uma procura apaixonada do máximo que pode ser extraído da conjugação do uso de lápis, papel e pedra».

07JUL1736-1820 - Jacome Ratton: Industrial e comerciante, nascido em França, autor de Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810 (1813). IMAG.169-336
           
GALERiA

Grupo KWY – Ká Wamos Yndo
¢A partir de finais dos anos 1950, o grupo KWY foi responsável pela abertura da arte portuguesa ao contexto internacional e pela franca adesão às novas linguagens figurativas que, sob a égide da reconstrução económica do pós-guerra, deram impulso a um dos períodos mais estimulantes da cultura europeia do Século XX. Constituído pelos artistas portugueses Lourdes Castro, René Bertholo, António Costa Pinheiro, João Vieira, José Escada e Gonçalo Duarte, pelo búlgaro Christo e pelo alemão Jan Voss, o grupo congregou-se em Paris em torno da edição da revista KWY, publicada entre 1958 e 1964. Caracterizados pela ausência de manifesto artístico ou de um grande programa teorizador, os doze números da revista registam as mudanças artísticas e sociais ocorridas na época e atestam a força com que a realidade, os acontecimentos quotidianos e o imaginário visual das grandes cidades irrompem no espaço da arte. Do diálogo estabelecido entre as práticas individuais destes artistas e as múltiplas colaborações em projetos editoriais de variadas proveniências, transparece um ambiente cosmopolita e transnacional que sustenta a revisão e ultrapassagem dos valores artísticos do pós-guerra pela atenção ao presente imediato.
        
BREVIÁRiO

¨Teorema edita Os Interessantes de Meg Wolitzer; tradução de Raquel Dutra Lopes.

¨Clube do Autor edita Serpentina de Mário Zambujal. IMAG.288

sábado, agosto 01, 2015

IMAGINÁRIO #568



José de Matos-Cruz | 24 Junho 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
TRANSFIGURAÇÕES
Em 1917, a I Guerra Mundial devastava a Europa. A 13 de Maio, num dos ermos vales da Serra de Ourém, três crianças guardavam o rebanho na Cova da Iria, perto de Fátima. Então, a Virgem Maria apareceu junto às azinheiras solitárias, numa nuvem luminosa, aos pastorinhos - Lúcia, Jacinta e Francisco. Falou-lhes de profecia em palavras de fé, tendo recomendado penitência e oração, para salvação dos males do Mundo. Prometeu ainda voltar todos os dias 13, durante seis meses. Quando as autoridades locais tiveram conhecimento desta visão, ameaçaram os meninos com castigos, caso eles não se retractassem. Mas os jovens crentes reafirmaram os factos, inspirando toda a população. No predito 13 de Junho, setenta mil pessoas aglomeraram-se, esperando o fenómeno anunciado. De súbito, o Sol rompeu, estrelando o céu, sobre a Terra… Eis a ilustração de Fátima (1979) por Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005). Uma visão ingénua, fascinante, sobre as peripécias primordiais - aliando o mistério sobrenatural e a pureza da mensagem, à transcendência divina. Um grafismo sóbrio, quase tosco na expressão rústica, a preto e branco, mas de irradiante simbolismo. IMAG.28-31-41-43-85-117-129-132-209-328-372


                          
CALENDÁRiO

¯1918-30ABR2015 - Henriette Eugénie Jeanne Ragon, aliás Patachou: Cantora e actriz francesa - «A sua voz poderosa, elegante, perfeitamente trabalhada, permitia-lhe a evocação melancólica dos amores mortos e das separações» (Causeur.fr).

¯16SET1925-14MAI2015 - Riley Ben King, aliás B.B. King: Cantor americano, compositor e guitarrista - «Tem o mesmo lugar nos blues que Louis Armstrong tinha no jazz. É um embaixador para a música» (Peter Guralnick).

14MAI-05JUL2015 - Cidadela de Cascais, nova sede do evento principal, apresenta World Press Cartoon; sendo curador António Antunes, inclui uma exposição Top 50 dos prémios de 2014, menções honrosas e outros desenhos de humor da melhor produção internacional. IMAG.35-195-247-353-407-558

¢18MAI2015 - Em Cascais, Fundação D. Luís I expõe, na Casa Duarte Pinto Coelho, Vulcões Napolitanos da Colecção Duarte Pinto Coelho (1923-2010).

¢20MAI-29SET2015 - Em Lisboa, Museu Colecção Berardo expõe O Olhar do Coleccionador por Joe Berardo. IMAG.87-173-195-212-227-246-270-279-294-301-319-337-516-556-558-566

29MAI-14JUN2015 - Em Beja, decorre o XI Festival Internacional de Banda Desenhada, sendo director Paulo Monteiro. IMAG.36-250-305-416-514

¢11-27JUN2015 - Em Lisboa, Zaratan Arte Contemporânea apresenta And Murders and All - exposição de pintura de Sara Franco. IMAG.168-248-416-430-549
                    
VISTORiA


®Diabo: E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
Corregedor: Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som pecatus meus,
peccavit uxore mea
.
Diabo: Et vobis quoque cum ea,
não temuistis Deus.
A largo modo adquiristis
sanguinis laboratorum
ignorantis peccatorum.
Ut quid eos non audistis?
Corregedor: Vós, arrais, nonne legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed aliquid tradidistis
...
Gil Vicente
- Auto da Barca do Inferno (1517 - excerto)

PARLATÓRiO

A banda desenhada sempre existiu, com outros nomes ou manifestações, desde um passado bastante remoto. Os novos processos mediáticos permitem uma difusão maior. A base da sua actual expressão está, primordialmente, no alemão Albert Dürer (1471-1528) - que, em gravura, ilustrou duas peças do teatro romano. Entre muitas coisas, esse foi o labor essencial. Realmente, com características semelhantes ao que conhecemos hoje, a bd começa no século passado. Mas os actuais atalhos técnicos atingem extraordinários resultados. Os muitos autores que se dedicam à bd também contribuíram para sucessivas melhorias.
É preciso ser meio louco, para dedicar uma vida a fazer banda desenhada. Dá imenso trabalho, cada obra é infernal em pesquisa, para ter veracidade. O autor de bd deve estar preparado para ilustrar tudo o que se relaciona com o tema em foco - e isso é completamente diverso de um pintor subjectivo, ou que se especializa em retratos, em paisagens, só necessitando depois do seu talento. Nós temos que desenhar animais, pessoas vestidas ou despidas, em todas as posições, ambientar outras épocas… Em suma, precisamos de uma grande bagagem. Uns são melhores, outros piores, mas o esforço é igual para todos.
Em banda desenhada, cuidar do lado estético e plástico é muito difícil, e ainda pior analisá-lo. Eu não tenho nenhuma mania artística, não me sinto incomodado por tais preocupações. Cabe-me, simplesmente, executar um determinado tipo de trabalho, e é isso que eu tento fazer, o melhor que posso e sei. Esta foi sempre a minha postura, desde que comecei a dedicar-me à banda desenhada e à ilustração. Fornecendo, a quem lê ou olha o que eu faço, um produto agradável, que cumpra o maior número possível de requisitos e exigências.
Eduardo Teixeira Coelho
(1998)

BREVIÁRiO

¨Dom Quixote edita Cláudio e Constantino de Luísa Costa Gomes. IMAG.58-135-298

¨Asa edita O Franco-Atirador Paciente de Arturo Pérez-Reverte; tradução de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.

¨Relógio D’Água edita O Planeta do Sr. Sammler de Saul Bellow (1915-2005); tradução de José Miguel Silva. IMAG.36-87-360-421-518-546-553-555
            
GALERiA

Vulcões Napolitanos

¢Parte da Colecção de Duarte Pinto Coelho que se encontra em Cascais ao abrigo de um Protocolo assinado entre a Câmara Municipal de Cascais, a Fundação D. Luís I e a Fundación Duques de Soria, esta exposição é um raro momento de confluência da pintura com a sedução de lugares cuja história está ligada à actividade vulcânica na região de Nápoles, assolada pelas erupções intermitentes do Vesúvio. Estamos, assim, perante obras que fixaram para a posteridade, de forma exuberante, antes do advento da fotografia, momentos de angústia mas também de assinalável expressão plástica.


O Olhar do Coleccionador

¢Uma selecção de obras da Colecção Berardo, feita pelo seu colecionador, algumas nunca anteriormente exibidas mas que, no conjunto, nos dão uma visão particular deste monumental acervo. Nas palavras do Comendador Joe Berardo, também curador, «a presente exposição teve como ponto de partida algumas obras da colecção que, embora menos conhecidas do público, constituem parte das minhas predilecções. Trata-se, por isso, de uma selecção de afectos. Confesso que sempre me senti atraído pela escala opulenta de alguma pintura moderna, e a selecção de algumas das obras reflecte esse meu fascínio. É, pois, para essa experiência da desmesura da imaginação e do reconhecimento da própria vida que esta exposição convida o visitante». Entre muitos outros nomes, incluem-se obras de Marc Chagall, Pierre Klossowski, Frank Stella, Georg Baselitz, Sarah Morris e Rui Chafes.
        
ANTIQUÁRiO

®1465-1536 - Gil Vicente: Dramaturgo, poeta e ficcionista português - «Juro-vos que de saudade / tanto de pão não comia / a triste de mi cada dia / doente, era üa piedade. / Já carne nunca a comi, / esta camisa que trago / em vossa dita a vesti / porque vinha bom mandado.» (Ama - Auto da Índia - 1509, excerto). IMAG.29-63-457-537

¯1926-2013 - Maria Antónia Luna Andermatt, aliás Luna Andermatt: Bailarina e coreógrafa portuguesa, co-fundadora da Companhia Nacional de Bailado (1977) - «O trabalho no palco tem que ter fogo. Se não tem fogo, não presta. É preciso viver por dentro do trabalho. Se não se vive, não presta. O público percebe muito bem quando não é sentido…  Tenho a impressão de que a dança já nasceu comigo» (2011). IMAG.489

EXTRAORDINÁRiO

OS HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico

JORNAL D’ONTEM, PAPÉIS VELHOS - 7

- Reparou nisto? O desplante da criatura… - comentava todavia Silvino de seguida, e em recato, para o Coronel Mathias Plínio, um oficial de confiança mesmo ao lado. Não era tanto a insolência que o avespinhara, mas a esperteza do Hortênsio, a enobrecer a ignorância de saloio.
– Continua