sábado, maio 02, 2015

IMAGINÁRiO #555

José de Matos-Cruz | 16 Março 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

SUBVERSÕES

Alargando o território da aventura a todo o mundo, a banda desenhada europeia amplia também as implicações temáticas e as expectativas de entretenimento, suscitando aos leitores a consciencialização para problemáticas que escapam às convenções e às vivências do quotidiano. Em alternativa ao ciclo Reflets d’Écume (1994), que lhe proporcionou justo prestígio, o artista de origem portuguesa Alberto Varanda sondou, em 1996, um ambíguo universo político-criminal, ambientado em futuro próximo, no qual se estigmatizam os desafios e as tensões de um realismo fantástico. Eis Bloodline – um tríptico perturbante, sobre argumento da dupla Anje (aliás, Anne & Gérard Guero) – em coloração por computador de Stew Patrikian. A acção decorre em 2003. Tendo assistido ao massacre da família, sem razões aparentes, os gémeos Kevin e Lauren são forçados a uma sobrevivência de traições e ameaças, motivada pelos seus extraordinários dons psíquicos… Uma aventura fascinante, que Varanda transfigurou ao seu estilo insólito mas sugestivo.


CALENDÁRiO

13FEV-18ABR2015 - Em Lisboa, Galeria Quadrado Azul expõe Protótipos de Francisco Tropa, sendo curadora Simone Menegoi. IMAG.399

27JUL1955-18FEV2015 - Albano Melo Matos, aliás Albano Matos: Jornalista português, ligado ao Diário de Notícias - «Era um representante de um certo jornalismo que está a acabar, com uma cultura vastíssima, de conhecimento sólido e sedimentado, com uma prosa absolutamente notável» (Feliciana Ferreira).

¸19FEV-19ABR2015 - No âmbito do 15º aniversário do festival Monstra, Museu da Marioneta expõe Papel de Natal - cenários e personagens do filme de animação (2014) de José Miguel Ribeiro; e Entre a Realidade e a Fantasia - marionetas, cenários e adereços de todos os filmes de marionetas da eslovena Špela Cadež. IMAG.548

MEMÓRiA

¯1710-16MAR1736 - Giovanni Battista Pergolesi: Compositor, organista e violinista italiano, autor de La Serva Padrona (1733 - «o primeiro andamento é o dueto mais completo e mais comovente jamais composto» - Rousseau) ou Stabat Mater (1736). IMAG.296-318-327-387-490-512

¯17MAR1446 - Morre o padre Martim Lourenço, natural de Lisboa e educado no Paço, ao tempo de El-Rei D. João I, homem de letras e pregador - a quem, pela sua estremada eloquência, chamavam Boca de Oiro.

¸02NOV1906-17MAR1976 - Luchino Visconti: Cineasta e encenador italiano - «Parece que o tédio é uma das grandes descobertas do nosso tempo. A ser assim, eis um aspecto em que somos pioneiros». IMAG.105-222-319-320-331-475

¸19MAR1946-2013 - Bigas Luna: Cineasta espanhol, realizador de Bilbao / História de Um Fascínio (1978) - «O desejo é como um marrón glacé envolto em papel de prata». IMAG.460

R1937-19MAR2006 - Fernando Gil: Filósofo português, distinguido com o Prémio Pessoa (1993) - autor de Mimésis e Negação (1984), Traité de l'Évidence (1993) ou Viagens do Olhar: Retrospecção, Visão e Profecia No Renascimento Português (com Hélder Macedo - 1998) - «…Um dos mais interessantes e importantes na renovação da filosofia em Portugal nos últimos vinte e cinco anos» (Eduardo Lourenço).

21MAR1846-1905 - Raphael Bordallo Pinheiro: Artista português, pintor, caricaturista, escultor, ceramista, criador do Zé Povinho - «…Retratos muito mais vivos, muito mais parecidos com o original do que as próprias fotografias das personagens que representam, desenhou-os ele de um só jacto na pedra litográfica ou no papel autógrafo, entre a meia-noite e as cinco horas da madrugada, em pé à banca, sob a luz crua e mordente do gás, sempre à última hora, febricitante de pressa, escorrendo suor, com a testa e o nariz manchados de preto pelas dedadas de craião, fumando avidamente cigarrettes, falando sempre, cantando, assobiando ou deitando complacentemente a língua de fora às figuras» (pxRamalho Ortigão - As Farpas, ABR1882). IMAG.22-32-43-59-77-98-115-197-208-242-246-256-304-365-381-499-517-518-545


VISTORiA

Bordallo
Rafael Bordallo foi um artista eminentemente progressivo. Como caricaturista, como ceramista e até como estatuário, satisfez essas condições máximas. Antes de Bordallo, em Portugal, a caricatura não ia muito além duma tentativa infantil. Ele veio, num período de luta e de indecisão para a Arte Portuguesa, quando sobre tabiques românticos erguidos em entulhos clássicos se construíam águas-furtadas naturalistas. Ele veio com a sua cabeleira de romântico e o seu monóculo de observador, e topou no entulho, encostado aos tabiques, toda transida e a tremer, uma caricatura seca, enfezadinha, mal nascida e moribunda. Pegou nela, mirou-a, acariciou-a e sorriu-se. Aquele sorriso luminoso, aquele sorriso superior foi para a pobre enfezadinha, que até ali só vivera de ódios, a ressurreição e a esperança. Ele, então, transformou-a. Deu-lhe forma, deu-lhe força, deu-lhe vida, deu-lhe originalidade; e, pela escolha dos assuntos, pela análise contínua do nosso viver político, pela compreensão das tendências nacionais, pela sua grande confiança no futuro - sempre trazendo a caricatura atenta - contribuiu mais que qualquer tratadista dogmático para que entre nós a crítica social se desenvolvesse, independente, nos espíritos e a esperança nascesse nas almas frouxas. Foi um reformador, não só da Arte, mas dos costumes. Foi reformador… e talvez um precursor.
O português até ali não soubera rir. Era sorumbático e encolhido, apegando-se à tradição, sem pensamento nem critério, por hábito já inveterado, como uma beata, de cangalhas no nariz, e gato no regaço, se apega ao seu rosário. Com a caricatura política ele libertou-o da melancolia e da tradição, isto é, da instituição. Fazendo-o rir, tornou-o mais agudo, mais liberal, mais independente. Do riso nasceu a liberdade de crítica, a liberdade natural de quem reconhece que tem direito a ser o que é, independentemente do que os outros já foram. Se politicamente em Portugal, isto pode parecer revolução, em Arte é Progresso; e aí está porque digo que Rafael Bordallo foi como artista, eminentemente progressivo.
Logo no Álbum das Glórias a caricatura de Fontes - caro como o oiro - se desenha em linhas sóbrias, mas profundamente sugestivas. Aí se encontra já o poder criador do Artista na figura da Universidade e, sobretudo, na admirável síntese, criação genial de ironia e amor, que enche ao depois toda a obra de Bordallo e é um dos seus melhores títulos de glória: Zé Povinho, o soberano. A sua independência manifesta-se logo na primeira fase da sua obra, que é O António Maria, onde estão talvez as suas melhores composições de detalhe e os seus mais fundos ataques à política arbitrária dos homens-ídolos.
É a fase política, a que se segue a fase que se poderia chamar social: Pontos Nos ii. Aí o seu espírito, já mais sereno, observa a vida portuguesa com mais imparcialidade e mais risonho cuidado. Mas com a vida activa, vem a experiência, vem o cansaço, vem o cepticismo também; o labor aumenta, multiplicam-se-lhe as aptidões. O Artista, na sua oficina das Caldas, continua como louceiro o seu inquérito à vida nacional. Tem um riso de esperança, confia na sua obra, cria jóias de altíssimo valor… Curto instante de renascença artística! O público não compreende ainda, os governos abandonam-no, e o grande homem, com uma lágrima a adoçar-lhe o riso irónico, de cabeleira já grisalha e monóculo suspenso na mão trémula, de novo se volta para a caricatura, vestindo-a, como um bom amante, de novas galas…
É a sua última fase, e o título da obra define ainda o estado de alma do Artista. Se luta e cria, é por dever, por necessidade talvez; porque parece que já não vale a pena, no meio dessa indiferença geral, dessa incompreensão dos dirigentes, desse arremedo da vida nacional, lutar e criar. Não vale a pena…
Isto já nem é vida de confiança nem sequer marcha do progresso. Não há sinceridade nem critério. Isto não é vida real, é uma comédia, é uma Paródia. E o que é a Paródia? Ele mesmo o diz: «é a caricatura ao serviço da tristeza pública, é a dança da Bica no cemitério dos Prazeres».
A.M.
20FEV1910 - O Círculo das Caldas

GALERiA

PROTÓTIPOS
De acordo com o dicionário, protótipo é «o modelo no qual se baseiam ou ao qual podem ser reportados factos ou fenómenos que se verificam subsequentemente», ou ainda, «o modelo realizado na última fase de um projecto (de uma máquina, dispositivo, etc.) que se destina a servir de ponto de partida para a produção em série». Ambas as definições se aplicam às obras apresentadas nesta exposição. Boa parte delas datam da década de 1990, e contêm ideias que Francisco Tropa continuaria a explorar e a desenvolver até hoje: são «protótipos», ou precedentes, de grande parte da sua produção. E quase todas se inspiram na ideia de obra enquanto utensílio / instrumento / máquina, seja do ponto de vista formal (adoptando uma estética que habitualmente é associada a objectos com intuitos práticos), seja do ponto de vista filosófico. Apesar de não se poder falar de uma produção em série, em alguns casos, a primeira versão da obra – o «protótipo», desta vez na segunda acepção da palavra – é seguida, à distância de um tempo, por uma ou mais instâncias que são aqui expostas lado a lado com a original.
E as máquinas de Francisco Tropa são, evidentemente, instrumentos paradoxais. Os seus «painéis solares» (Placas Solares, 1992), que explodem se forem expostos ao sol, os seus instrumentos de medição linear (Cana, 2006; Metros, 2007), que não respeitam a norma, ou os seus objectos para recolher poeira ou orvalho (propósitos que são, por si só, singulares) não respondem ao imperativo da eficiência (quanto muito, ao da elegância).

BREVIÁRiO

¨Abysmo edita Que Luz Estarias a Ler? de José António Gomes/João Pedro Mésseder (escrita) e Ana Biscaia (ilustração). IMAG.310-416-430-509-531

¯Legacy edita em CD, Band of Brothers por Willie Nelson. IMAG.211-317

¨Relógio D’Água edita Henderson, o Rei da Chuva de Saul Bellow (1915-2005); tradução de João Palma-Ferreira. IMAG.36-87-360-421-518-546-553

¨Dom Quixote edita Um Circo Que Passa de Patrick Modiano; tradução de Ana Cristina Costa. IMAG.535-552-553


sexta-feira, abril 24, 2015

IMAGINÁRiO #554

José de Matos-Cruz | 08 Março 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

RELAÇÕES
Na banda desenhada de expressão franco-belga, por finais do século passado, aos estímulos da aventura correspondem os temas virtuais, estilizando-se versáteis grafismos pela pulsão estética e narrativa. Por tais parâmetros sobressai Philippe Dupuy, cuja notoriedade de firmou no início da década de ’90, com Monsieur Jean. Aliado ao iraniano Charles Berberian - desde 1983, tendo-se prestigiado numa inseparável carreira publicitária - esta dupla sagrou o vínculo argumentista / ilustrador, com fértil engenho e minuciosa inventariação. Como causa original de Monsieur Jean - em série repartida por diversos títulos e episódios parisienses - está um jovem escritor entre os dilemas de criatividade, as crises singulares e uma vivência quotidiana. Os amigos, a solidão, a família, a boémia, os pequenos conflitos, as longas vigílias, enquadram esta obra aliciante, crítica, sobretudo para os leitores maduros - e apreciadores de banda desenhada em que se formaliza, pela actualidade, uma cumplicidade intemporal.


CALENDÁRiO

¢05FEV-03MAI2015 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva expõe Sonnabend, Paris-New York (1962-1967); em colaboração com a Sonnabend Collection Foundation de Nova Iorque, e a Fondazione Musei Civici di Venezia - Ca’ Pesaro Internazionale d’Arte Moderna, de Veneza.

¨1938-07FEV2015 - Manuel João Maya de Lucena, aliás Manuel Lucena: Historiador português, cientista político, cofundador da revista O Tempo e o Modo (1963) - «Um dos intelectuais mais brilhantes da minha geração, com uma forma de pensar e estar na vida muito própria, com convicções fortes que nunca deixou de afirmar com total independência» (Jorge Sampaio).

07FEV-11AB2015 - Em Torres Vedras, Paços - Galeria Municipal expõe Obra Gráfica de João Sarzedas - Uma Homenagem.

¢07FEV-11JUL2015 - Em Viana do Castelo, Biblioteca Municipal apresenta História Natural Com Parafusos - exposição da obra gráfica de Luís Manuel Gaspar, editada em livros, revistas e jornais. IMAG.399-417-459

µ12FEV-SET2015 - Em Lisboa, Espaço Novo Banco expõe Eu (Título Em Construção); inclui Obras da Colecção de Fotografia do Novo Banco por Marina Abramovic, Helena Almeida, Vasco Araújo, Jennifer Allora & Guillermo Calzadilla, Rineke Dijkstra, Nan Goldin, Mona Hatoum, Barbara Kruger, Sherrie Levine, Martin Parr, João Penalva, Irving Penn, Richard Prince, Martha Rosler, Julião Sarmento, Cindy Sherman, Andres Serrano e Wolfgang Tillmans, sendo curador Hugo Dinis.

¨1927-15FEV2015 - Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos, aliás Luísa Dacosta: Escritora portuguesa, autora de A-Ver-o-Mar (1980), distinguida com o Prémio Vergílio Ferreira (2010) - «Nunca esqueceu como as mulheres de A-Ver-o-Mar a ensinaram a lutar contra a injustiça, a indiferença e o sofrimento» (Guilherme d’Oliveira Martins).

VISTORiA

Esta Palavra saudade
¨Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso…

Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio…
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado…
Gonçalves Crespo
                                      

INVENTÁRiO

Biblioteca Nacional Compra Sonetos Manuscritos de Gonçalves Crespo
¨Os manuscritos dos sonetos Na Egreja das Chagas e Trinta Annos Depois, do poeta luso-brasileiro Gonçalves Crespo, foram adquiridos pela Biblioteca Nacional por 150 euros num leilão, informou ontem a instituição.
António Cândido Gonçalves Crespo (1846-1883), filho de um negociante português e de mãe negra, nasceu nos arredores do Rio de Janeiro, na roça do pai. Aprendeu a ler, escrever e contar numa escola carioca e aos 14 anos viajou para Portugal onde passou a residir, primeiro no Porto, depois em Braga, onde se revelou como poeta.
Na capital minhota colaborou com várias publicações periódicas e participou nas tertúlias literárias do Café Vianna.
Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1877, e foi eleito deputado pelo Círculo da Índia nas eleições de 1879 e de 1881.
Em Coimbra colaborou no jornal dirigido por João Penha, A Folha, divulgador em Portugal do Parnasianismo, estética literária de que Gonçalves Crespo é considerado um dos principais expoentes, refere uma nota da Biblioteca.
«Para alguns investigadores a sua poesia reflete a estética de Lecomte de Lisle, Sully Prudhomme, Paul Verlaine, entre outros, enriquecida pela sua longínqua experiência de infância do universo humano brasileiro», lê-se na mesma nota.
Miniaturas (1870) foi o seu primeiro livro de poesia que de imediato «chamou a atenção de Maria Amália Vaz de Carvalho com quem manteve diálogos literários na forma de correspondência e com quem veio a contrair matrimónio em 1874».
«Os salões da residência do casal, na Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, foram palco de tertúlias literárias onde se reuniam intelectuais e políticos da época, como o Conde de Sabugosa, Pinheiro Chagas, Bulhão Pato, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Bernardino Machado, Guerra Junqueiro ou Sousa Martins», segundo a mesma nota.
Nocturnos (1882) foi o seu segundo e último livro de poesia. Já na capital Crespo continuou a colaborar com vários órgãos da imprensa.
Obras Completas (1897) reúne parte da sua poesia, tendo no ano seguinte sido editado Poesias, que reúne inéditos.
A bibliografia de Gonçalves Crespo inclui ainda Contos Para os Nossos Filhos, Colleccionados e Traduzidos, em colaboração com Maria Amália Vaz de Carvalho, Extravagancias Extraordinarias ou As Phantasias do Bandarra, peça em quatro atos, entre outros.
23JUN2011 - Diário de Notícias
                         
MEMÓRiA

¯08MAR1566-1613 - Carlo Gesualdo, aliás Gesualdo da Venosa: Príncipe de Venosa, compositor italiano da Renascença tardia - «Longe da exuberância dos madrigais, mas nem por isso menos extravagante em termos cromáticos e praticamente contraintuitivo em matéria melódica, o que se ouve é uma teia de trevas por onde ocasionalmente brota um raio de luz, pura expiação» (J.S. - Actual / Expresso). IMAG.461

¨ 11MAR1846-1883 - António Cândido Gonçalves Crespo: Poeta e jurista português, nascido no Brasil - «As velhas negras, coitadas, / Ao longe estão assentadas / Do batuque folgazão. / Pulam crioulas faceiras / Em derredor da fogueira / E das pipas de alcatrão.» (As Velhas Negras - excerto). IMAG.74-119-422

¨ 12MAR1926-1988 - John Clellon Holmes: Novelista, poeta e professor americano, membro da Beat Generation - «Mais do que simples fadiga, beat implica a sensação de ter sido usado, de estar em carne viva. Envolve uma espécie de desnudamento da mente e, em última instância, da alma: a sensação de estar sendo reduzido às bases da consciência. Em síntese, significa ser empurrado sem drama contra o muro do isolamento» (1952). IMAG.362

®14MAR1916-2009 - Albert Horton Foote, aliás Horton Foote: Dramaturgo e argumentista americano, distinguido com o Óscar de Hollywood e o Prémio Pullitzer - «Focou a poesia da solidão e da perda como temas gémeos, terreno que fez dele um Tchekov norte-americano» (Los Angeles Times). IMAG.241



GALERiA

João Sarzedas - Obra Gráfica
João Sarzedas nasceu em Lisboa a 9 de Fevereiro de 1943, e faleceu em Torres Vedras a 27 de Julho de 2013. Era conhecido pelo subtil e refinado sentido de humor que imprimia aos seus desenhos e cartoons. Munido de inesgotável imaginação, de apurada técnica do desenho e possuindo um profundo sentido de observação, deixou uma obra gráfica que ilustra, principalmente através do humor, o quotidiano, a sociedade e a política de uma época. A título póstumo, durante a exposição em Torres Vedras, foi lançado Sorria Com Eólicos Na Paisagem, livro que o autor deixou praticamente todo preparado.
 
BREVIÁRiO
 
¨Assírio & Alvim re-edita Lusitânia de Almeida Faria. IMAG.463-498

¯Andante edita em CD, sob chancela Hyperion, Johannes Brahms [1833-1897]: String Quintets por Lawrence Power, com Takács Quartet. IMAG.82-171-193-199-256-286-303-324-393-417-482-531


quinta-feira, abril 16, 2015

IMAGINÁRiO #553

José de Matos-Cruz | 01 Março 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

DESAFIOS
Estilizando versáteis grafismos pela pulsão estética e narrativa, a banda desenhada de expressão franco-belga explora distintos horizontes, tempos e protagonistas. Por tais parâmetros sobressai a dupla Yslaire (aliás Bernard Hislaire, argumentista e ilustrador) & Balac (aliás Yann/Yannick le Pennetier, argumentista parcial), revelada com Sambre (1986). Tudo começa com Olhos de Sangue, cuja acção decorre numa sociedade rural, pela viragem ao século passado, sob privilégios e humilhações, com uma inspiração romântica traçada entre O Vermelho e o Negro e O Monte dos Vendavais. Em causa, o infante Bernard, arrebatado herdeiro de família, e a jovem Julie, filha de prostituta feiticeira. Assim contam as superstições da terra, corroboradas por um obscuro ensaio antropológico - sinais que se precipitam em conflito tenso mas arrebatador, de vingança latente e sacrifício póstumo. Sambre é uma proposta para leitores maduros, ávidos de emoções fortes, sensuais, sob um erotismo mórbido, cuja ressurreição se precipitaria em Eu Sei Que Tu Virás, com múltiplas gerações e derivações…


CALENDÁRiO

¢27SET2014-20ABR2015 - Em Lisboa, Casa da Achada expõe 10 Artistas de Que Mário Dionísio [1916-1993] Falou - sobre Cândido Portinari (1903-1962), Júlio Pomar (n. 1926), Júlio (1902-1983), Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), Carlos de Oliveira (1921-1981), Abel Salazar (1889-1946), Júlio Resende (1917-2011), Manuel Filipe (1908-2002), Vieira da Silva (1908-1992) e José Júlio (1916-1963). IMAG.89-243-443-530

¢10JAN-21FEV2015 - Em Lisboa, Fundação Carmona e Costa apresenta Árvores, Flores e Frutos do Meu Jardim - exposição de desenho e escultura de Alberto Carneiro, sendo curadora Catarina Rosendo. IMAG.21-241-299-467

17JAN-MAR2015 - No Porto, Museu Nacional da Imprensa apresenta Charlie - Wolinski - exposição sobre Georges Wolinski (1934-2015) e a revista Charlie Hebdo, com organização de Luís Humberto Marcos. IMAG.27-89-499-550

24JAN2015 - Na Casa Galería, em México DF, Maria João Worm expõe Te Escribo de Lejos - com o apoio de Nemours e a colaboração de Quarto de Jade e da Embaixada de Portugal no México. IMAG.289-301-325-359-386-409-416-430-444-451

¯15JUN1946-25JAN2015 - Artemios Ventouris Roussos, aliás Demis Roussos: Cantor grego, nascido no Egipto, intérprete de Goodbye, My Love, Goodbye - «Sou como um pintor que teve diferentes períodos: jazz, soul, pop e, depois, variedades. Mas não posso lamentar-me, pois tornei felizes sessenta milhões de pessoas com os meus discos».

¢30JAN-29MAR2015 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Esculturas e Obras Em Papel de Pablo Serrano.

¢30JAN-24ABR2015 - Em Lisboa, Galeria Millennium expõe Pintura Modernista Na Colecção Millennium BCP.

¸03-20FEV2015 - Em Aveiro, Galeria do IPDJ expõe Desenhos de Filmes da Animação Portuguesa - sobre produções do Cine-Clube de Avanca, Foi o Fio de Patrícia Figueiredo e A Minha Casinha de Raquel Atalaia.

¢06FEV-12ABR2015 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Na Colecção de Carlos Carreiro.
       
VISTORiA

Floriram Por Engano
¨Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Camilo Pessanha


VISTORiA

¨ O oleiro dispõe ainda de um grande thesouro de formas tradicionaes. […] A arte applicada a industria, o desenho e a modelação, fariam sahir d’esses barros obras primorosas, depois da ciência dos chimicos ter estudado e ter ensinado aos oleiros a conhecer os materiaes. Mas falta tambem o laboratorio, e falta enfim o agente honrado, ou a intervenção paternal da câmara mais proxima, que podia estabelecer ou vigiar, pelo menos, as relações do oleiro da aldeia com o comerciante das cidades, porque este especula tambem, sem piedade, com a miseria e com a ignorância do operário, vendendo a obra por um preço excessivo que o prejudica.
Joaquim de Vasconcelos
- A Arte Portuguesa (Nº 12 - excerto)



ANUÁRiO

1865-1866 - Neste ano lectivo, o número de matriculados no Liceu de Coimbra ascende a 1.145 estudantes.
   
COMENTÁRiO

¨É, sem dúvida, o estado que eu procuro encontrar, quando escrevo… Um estado de escuta extremamente intensa, mas do exterior… Quando as pessoas que escrevem, dizem «quando se escreve, está-se em concentração»; eu diria: não, quando escrevo, tenho a sensação de estar em extrema desconcentração, não me possuo mais de nenhum modo, sou eu própria um passadiço, tenho a cabeça esburacada. Só posso explicar-me o que escrevo dessa maneira, porque há coisas que eu não reconheço, naquilo que escrevo. Então, elas vêm de outra parte, não estou sozinha quando escrevo. Mas, isso, eu sei. A pretensão é acreditar que se está só diante da folha de papel, quando tudo nos chega de todos os lados. Evidentemente, os tempos são diferentes, as coisas chegam de mais ou menos longe, chegam de ti, chegam de outro, não importa, chegam do exterior…
Michelet diz que as bruxas surgiram assim… Durante a Idade Média, os homens iam à guerra ou em cruzada, e as mulheres nos campos ficavam completamente sós, isoladas, durante meses e meses, em suas cabanas. E foi assim, a partir da solidão, de uma solidão inimaginável para nós, hoje em dia, que elas começaram a falar às árvores, às plantas, aos animais selvagens, ou seja, a entrar…, a…, como dizer?, a inventar uma inteligência com a natureza, a reinventá-la. Uma inteligência que devia remontar à pré-história, reatá-la. E chamaram-lhes bruxas, e queimaram-nas… Foi na floresta que nós, as mulheres, falámos pela primeira vez, que proferimos uma expressão livre, uma fala inventada. Tudo isso que eu dizia de Michelet, que as mulheres começaram a falar aos animais, às plantas, é uma conversa delas, que elas não tinham aprendido. É porque era uma expressão livre, que foi punida. É que, por causa dessa fala, a mulher desistia de seus deveres para com o homem, para com a casa, justamente. É a voz da liberdade, é normal que ela provoque medo.
Marguerite Duras
Michelle Porte
- Les Lieux de Marguerite Duras (1977 - excertos)
BREVIÁRiO

¨Quetzal edita Herzog de Saul Bellow (1915-2005); tradução de Salvato Telles de Menezes. IMAG.36-87-360-421-518-546

¨Círculo de Leitores edita Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício de Padre António Vieira (1608-1697); coordenação de Paulo Borges. IMAG.118-139-165-191-215-226-237-241-295-494

¯Deutsche Grammophon edita em CD, Classic Karajan: The Essential Collection por Herbert von Karajan (1908-1989). IMAG.173-203-212-223-227-235-236-237-239-266-538-551

¨Porto Editora lança Alabardas / Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas de José Saramago (1922-2010); ilustrações de Gűnter Grass. IMAG.38-75-155-158-196-198-224-241-245-252-263-268-311-331-385-394-412-475-521-539

¨Dom Quixote edita Domingos de Agosto de Patrick Modiano; tradução de António José Massano. IMAG.535-552

Âncora Editora re-edita O Juiz de Soajo (1996) de José Ruy. IMAG.4-16-19-36-61-78-96-117-129-141-149-197-223-224-252-263-267-271-279-305-392-416-430-504-514-531

MEMÓRiA
   
¨ 1867-01MAR1926 - Camilo Pessanha: Escritor português, poeta simbolista - «Cansei-me de tentar o teu segredo: / No teu olhar sem cor, – frio escalpelo, / O meu olhar quebrei, a debatê-lo, / Como a onda na crista dum rochedo. // Segredo dessa alma e meu degredo / E minha obsessão! Para bebê-lo / Fui teu lábio oscular, num pesadelo, / Por noites de pavor, cheio de medo.» (Estátua - excerto). IMAG.5-72-307-326
¨ 1849-02MAR1936 - Joaquim de Vasconcelos: Crítico de arte, arqueólogo, musicólogo e historiador, professor da Escola de Belas-Artes de Lisboa - «Há vinte e cinco anos que imprimo no país, viajo no país, prelecciono no país à minha custa, e dou o que não me querem comprar» (1895).

¨ 1914-03MAR1996 - Marguerite Donnadieu, aliás Marguerite Duras: Escritora francesa, e cineasta - «Quando se tem uma certa moral de combate e de poder, é preciso muito pouco para se deixar levar, e passar ao excesso». IMAG.461