quarta-feira, março 18, 2015

IMAGINÁRiO #548

José de Matos-Cruz | 24 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

PROJECÇÕES
Autor versátil e fulgurante, ao estilizar as potencialidades gráficas ou narrativas da banda desenhada, em que evoluem - pelo signo erótico - a aliciante insurreição ficcional ou uma perversa sofisticação estética, Milo Manara - argumentista & ilustrador - leva às últimas consequências, em Nua Pela Cidade (2001), uma subversão primordial sobre O Perfume do Invisível /Il Profumo dell'Invisibile (1986), estilizando em Bea - que se julga incorpórea e transparente - a mulher idealizada ou mutante… Ironia, exibicionismo - através de peripécias / experiências excitantes, sob uma vertigem obsessiva / exuberante - pontuam ou transgridem, além dos preconceitos e das convenções, este universo transfigurado, cuja heroína pretenderia consumar todas as ambições transgressivas, todos os impulsos fantasistas. Mesmo que, depois de inúmeras peripécias, as suas ilusões se dissolvam em busca da felicidade. Eis reincidências libidinosas ou dissolutas, entre visões de uma saga interminável - que se transferem, perturbantes, ao próprio olhar do leitor. Assim em causa e reexposto - pelo desafio libertino, libertário do imaginário…
IMAG.3-13-52-64-132-140-147-221-305-365-501

CALENDÁRiO

11DEZ2014-29MAR2015 - Em Lisboa, Museu do Design e da Moda/MUDE apresenta De Matrix à Bela Adormecida - exposição de figurinos de António Lagarto. IMAG.20

¸18DEZ2014 - Praça Filmes estreia O Gigante (2012) de Júlio Vanzeler e Luis da Matta Almeida; e Papel de Natal (2014) de José Miguel Ribeiro, com Crista Alfaiate e Ivo Canelas. IMAG.113-539

MEMÓRiA

¸24JAN1926-2013 - Georges Lautner: Cineasta francês, realizador de O Irresistível Avantureiro / Le Guignolo (1980) - «Tinha a ciência do cinema popular» (Rémy Julienne). IMAG.491

¨25JAN1746-1830 - Stéphanie Félicité du Crest de St-Aubin, Condessa de Genlis: Escritora francesa - «As qualidades do espírito produzem invejosos; as do coração, logram amigos».

¨1878-25JAN1946 - Afonso Lopes Vieira: Poeta português - «Se um inglês ao passar me olhar com desdém, / num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem! / se tens agora o mar e a tua esquadra ingente, / fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente. / Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa, / fui eu que t’as cedi num dote de princesa. / E para te ensinar a ser correcto já, / coloquei-te na mão a xícara de chá…» (Pois Bem! - excerto). IMAG.76-98-307-327

¨27JAN1826-1889 - Mikhail Yevgrafovich Saltykov-Stcherdrine, aliás Nikolai Shchedrin: Satírico russo - «Teve a sensação de que o tinham metido vivo num caixão, que estava entaipado, num sono letárgico, incapaz de mover um só membro, e que ouvia o Sanguessuga a insultar-lhe o cadáver…» (A Família Golovliov). IMAG.345

¨28JAN1916-01MAR1996 - Vergílio Ferreira: Escritor português - «Um autor fixa um tema. Mas esse tema, revelando, como revela, um interesse, revela sobretudo que foi só em torno dele que o artista pôde realizar-se como tal». IMAG.78-212-241-323

¨1940-28JAN1996 - Iosif Aleksandrovich Brodsky, aliás Joseph Brodsky: Poeta russo, naturalizado americano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1987) - «Sou judeu - um poeta russo, e um ensaísta inglês». IMAG.276

¨29JAN1866-1944 - Romain Rolland: - Escritor francês, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1915) - «É belo ser-se justo. Mas a verdadeira justiça não permanece sentada diante da sua balança, a ver os pratos a oscilar. Ela julga e executa a sentença». IMAG.102-496

¨1880-29JAN1956 - Henry Louis Mencken, aliás Henry Mencken: Jornalista e analista social americano - «Em resumo, a fé pode ser definida como uma crença ilógica na ocorrência do improvável». IMAG.290

1871-31JAN1926 - José Luiz Gomes de Sá Júnior: Negociante de bacalhau, com armazém de Rua do Muro dos Bacalhoeiros, na Ribeira do Porto; autor da receita Bacalhau à Gomes de Sá, oferecida ao proprietário do restaurante O Lisbonense, na Cidade Invicta. IMAG.309


VISTORiA     
Os Ninhos
¨Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.
 
São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.
 
Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.
 
Depois, lá têm
Os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.
 
Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!
 
Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos,
Da nossa mãe!
Afonso Lopes Vieira
         
INVENTÁRiO

O FILME DAS PALAVRAS
¨Em meados do século passado, Vergílio Ferreira tentava romper a chamada noite fascista com uma Manhã Submersa. Estava-se, mais propriamente, em 1953. Então, a censura impediu a publicação deste romance autobiográfico, que seria editado no ano seguinte - após o corte de um pequeno episódio que, mais tarde, foi reinserido na obra, um sucesso na sua carreira.
Tudo começa assim: «Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar. Foi ele que me trouxe no carro de bois de D. Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu - mal me falou».
Cinco lustros depois, falava eu com Vergílio Ferreira como Reitor do Seminário onde António, o seu alter-ego, foi parar desentranhado do seio materno e do meio social de miséria, em que se vivia por uma suposta década de 1940. Encontrámo-nos num cenário de fantasmas e assombrações, de réplicas e mutantes. Vergílio Ferreira nascera na aldeia de Melo, em 1906. Em Lisboa veio a falecer, já com noventa anos.
O cenário em causa era onde Lauro António dirigia Manhã Submersa, distinguindo série de televisão (1979) e longa metragem (1980), um dos filmes mais amados do pós-25 de Abril de 1974. Vergílio Ferreira concordara em encarnar uma das suas criaturas literárias, exorcizando os próprios traumas espectrais de infância. A experiência da interpretação iniciara-a com apenas seis anos, em peças de amador.
Considerando o novo desafio «uma prova terrível», para Vergílio Ferreira «o teatro é diferente do cinema: este fatiga, quebra-se o elã, o entusiasmo posto na representação - uma dádiva tão íntima de nós. Há, por outro lado, o artificialismo, todas as luzes usadas: como poderá um criador trabalhar com tanto material, com tal multidão de elementos técnicos? Gosto muito de cinema, mas jamais seria realizador!»
O vínculo de Lauro António a Vergílio Ferreira, que este considerava «uma atenção especial», principiara em 1975 com o curto Prefácio a Vergílio Ferreira e, além da apresentação televisiva Vergílio Ferreira Numa Manhã Submersa (1979), estendeu-se ainda a Mãe Genoveva (1983), na série Histórias de Mulheres. O filho daquele, Frederico Corado, adaptou e transpôs, por sua vez, A Estrela (1994).
A produção do Prefácio coube a Lauro António e a Manuel Guimarães, que antes mantivera uma estreita ligação ao escritor. Este fizera o texto para o documentário (sobre Júlio) Resende (1969), e Manuel Guimarães evocara Alegria Breve nas palavras finais do seu filme Lotação Esgotada (1972). Já no pós-25 de Abril, cinematizou um crepuscular Cântico Final (1975), concluído pelo filho Dórdio Guimarães.
Pare rematar a precária ligação entre Vergílio Ferreira e a sétima arte, há que referir a média metragem O Encontro (1978) por António de Macedo. Vergílio Ferreira aparece ainda em O Dia das Comunidades (1977), a cargo da Unidade de Produção Cinematográfica Nº 1, e participou em Táxi Lisboa (1996) de Wolf Gaudlitz. Sem dúvida, trata-se de um autor a redescobrir, nas suas plenas virtualidades.
Vergílio Ferreira tinha uma clara consciência sobre o que distingue um romance, ou «a arte da palavra», da sua transposição para cinema, «através das imagens e dos sons». «Este desafio será sempre apaixonante, porém delimita duas obras distintas - cada uma, com expectativas próprias. Ao ver este filme, eu não vou reviver a minha experiência, nem sentir-me num ambiente pessoal. Serei, apenas, um espectador.»
Aliás, à distância, observando Vergílio Ferreira como actor precário, em intervalos da rodagem, foi curioso analisar o seu ensaio de gestos e expressões, para a personagem que ele configurara do real, e com a qual se debatia agora em outros ciclos da ficção. Por um estranho fenómeno, que eu não me atrevi a desvendar, às vezes sentava-se à secretária de Reitor, e o autor tomava notas com a sua letra meticulosa.
«Ainda hesitei em escrever Manhã Submersa. Após alguns capítulos, decidi parar. Publiquei o primeiro na revista Vértice. Então, o Fernando Namora mandou-me uma carta, entusiasmado, incitando-me a continuar. Não me interessava uma narrativa confessional, sobre a adolescência, motivação em que a Presença foi fértil. Mas o romance permitiu-me recriar, denunciando uma sociedade fechada, totalitarista.»
@José de Matos-Cruz

PARLATÓRiO

¨Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos.
Vergílio Ferreira

BREVIÁRiO

¨Museu do Fado edita, com INCM/Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Poetas Populares do Fado Tradicional de Daniel Gouveia e Francisco Mendes.

¯Sony edita em CD, Xscape por Michael Jackson (1958-2009). IMAG.204-256-411

domingo, março 08, 2015

IMAGINÁRiO #547

José de Matos-Cruz | 16 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

CREPÚSCULOS
Após uma primeira geração de notáveis artistas pioneiros, a banda desenhada de expressão franco-belga explora distintos horizontes e protagonistas, sob a estratégia das principais editoras, e visando um mais amplo público de adolescentes a adultos. Aos aliciantes da aventura correspondem os temas virtuais, estilizando-se versáteis grafismos pela pulsão estética e narrativa. Por tais parâmetros sobressai o argumentista Jean Dufaux, cuja notoriedade de firmou durante a década de ’80, no século passado, com Jessica Blandy, tendo reexposto o seu fértil engenho com o perturbante mistério de Rapaces (1998). A sofisticada ilustração do artista suíço Enrico Marini evoca a mangà nipónica, pelas atmosferas duma aventura sangrenta e sobrenatural, a qual é tributária do terror cripto-gótico na contemporânea exploração por Hollywood. Como motivo, uma série macabra de assassinatos rituais, assinalados pela mensagem junto às vítimas «o vosso reino chegou ao fim». Ambientada numa Nova Iorque crepuscular, entre vítimas e predadores, sob estigmas criminais / demoníacos, Rapaces é uma proposta para leitores adultos, ávidos de emoções fortes, sensuais, cuja ressurreição se precipita em quadradinhos…
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CALENDÁRiO

04DEZ2014-31JAN2015 - Em Lisboa, Diário de Notícias apresenta 150 Anos DN; exposição de fotografias do Arquivo do DN, sobre os momentos mais marcantes de Lisboa, sendo curador Rui Coutinho. IMAG.00-242-253-255-261-271-284-311-346-382-391-496-542

¯1930-07DEZ2014 - Fernando Machado Soares: Compositor português, cantor da música de Coimbra, autor de A Balada da Despedida («Coimbra tem mais encanto / na hora da despedida»), distinguido com o Prémio Tributo Amália Rodrigues «pela excelência da carreira artística e dedicação aos outros».

¢12DEZ2014-29MAR2015 - Em Lisboa, Museu da Electricidade / Cinzeiro 8 apresenta, com Fundação EDP, Almada Negreiros [1893-1970] - O Que Nunca Ninguém Soube Que Houve - exposição de desenhos, pinturas e livros do artista.  IMAG.84-135-154-173-224-278-292-305-371-413-498
          
VISTORiA

Se
¨Se és capaz de manter a tua calma, quando
toda gente em redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires;
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo o valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!
Rudyard Kipling


MEMÓRiA


¨ 17JAN1706-1790 - Benjamin Franklin: Jornalista, editor, cientista, filantropo e diplomata americano - «Escreve as tuas mágoas no pó, e as tuas vitórias no mármore… O importante não é viver muito, e sim viver bem». IMAG.270-271

¨ 1865-18JAN1936 - Rudyard Kipling: Escritor britânico, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1907) - «Nunca cometi nenhum erro na minha vida - pelo menos, um de que eu próprio não pudesse, mais tarde, explicar o motivo». IMAG.229-339-544

19JAN1736-1818 - James Watt: Matemático e engenheiro escocês, membro da Lunar Society, introduziu melhorias decisivas no motor a vapor - tendo servido de princípio à construção da primeira locomotiva viável a vapor em 1814, por George Stephenson, e fundamentais para a Revolução Industrial. IMAG.326-476

®20JAN1926-2010 - Patricia Neal: Actriz americana de cinema e teatro, distinguida com um Tony (1947) por Another Part of the Forest de Lillian Hellman - «Frequentemente, a minha vida foi comparada com uma tragédia grega… E a actriz que sou não pode negar essa comparação». IMAG.320

¸ 21JAN1926-2010 - Clive Donner: Realizador britânico de cinema e televisão - «Uma das coisas de que mais se orgulhava, era a sua influência na carreira de um número significativo de actores, como Alan Bates, David Hemmings e Ian McKellen» (Gavin Asher). IMAG.325

¯22JAN1916-2013 - Henri Dutilleux: Compositor francês - «A sua música, que traduzia uma alma perfeccionista, reflectiu frequentemente uma atenção pela literatura e pela exploração da memória» (Nuno Galopim). IMAG.349-421-466

¯27JAN1756-1791 - Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, aliás Wolfgang Amadeus Mozart: Compositor austríaco - «Querem saber como eu componho? Posso apenas dizer-lhes isto: quando me sinto bem disposto, seja na carruagem quando viajo, seja de noite quando durmo, ocorrem-me ideias aos jorros, de modo soberbo. Como e de onde, não sei. As que me agradam, guardo-as como se tivessem sido trazidas por outras pessoas, retenho-as bem na memória e, uma após a outra, tomo delas a parte necessária, para fazer um pastel segundo as regras do contraponto, da harmonia, dos instrumentos… Então, em profundo sossego, sinto aquilo crescer, crescer para a claridade, de tal forma que a obra, mesmo extensa, se completa na minha cabeça e posso abrangê-la de um só relance, como um belo retrato ou uma bela mulher… Quando chego a este ponto, nada mais esqueço, porque boa memória é o maior dom que Deus me deu». IMAG.36-55-68-90-102-106-118-172-186-205-216-217-220-227-277-284-285-290-317-321-342-349-375-406-431-449-475-500-503-534
  
VISTORiA

¨…E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não. Mil vezes não!
Temos, além disto, o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimo e excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
Almada Negreiros
- Manifesto Anti-Dantas e Por Extenso (excerto)

ANUÁRiO

¢1926-2010 - José Maria de Figueiredo Sobral: Escultor, ceramista, pintor, gráfico, ilustrador, cenarista, poeta, dramaturgo - «Sou um surrealista barroco» - cuja obra patenteia «o rigor e a procura do surpreendente e do imprevisível» (Álvaro Lobato de Faria). IMAG.320

BREVIÁRiO

¯Distrijazz edita em CD, sob chancela ECM, Last Dance por Keith Jarrett e Charlie Haden. IMAG.337-510-525


sábado, março 07, 2015

IMAGINÁRiO #546

José de Matos-Cruz | 08 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

ÉPICOS        
Natural do Chile, Alexandro Jodorowsky converteu-se numa das personalidades artísticas mais versáteis e prolíficas da cultura europeia - em áreas como a literatura, o teatro, o cinema, o esoterismo ou a banda desenhada. Nesta vertente relevante, enquanto argumentista, Jodorowsky gerou alguns perturbantes exemplares da fantasia épica, aliando-se aos mais talentosos ilustradores - logo Moebius/Jean Giraud para Incal; ou François Boucq em Face da Lua - O Domador de Ondas. Além destas obras-primas, Jodorowsky - homenageado com uma Exposição alusiva, no festival de Angoulême ’99 - privilegiou A Casta dos MetaBarões / La Caste des Méta-Barons, iniciada em 1993 com grafismo do argentino Juan Gimenez, e desvendando um universo prodigioso, cibernético, em que se reflectem fatalidades ancestrais e expectativas futuristas… Como destaca o celebrado autor, «por detrás de cada guerra há uma jogada económica, por detrás de cada herói há um mercenário».IMAG.3-64-221-305-365-400-434

 
MEMÓRiA

¯1913-08JAN2006: Helena Sá e Costa: Pianista portuguesa, concertista e professora, distinguida com o Prémio Almada (2000) - «Tocou ao lado de famosos pianistas, violinistas, violoncelistas ou cantoras e sob a batuta de grandes maestros» (Bernardo Mariano). IMAG.76-436

¨1830-11JAN1896 - João de Deus de Nogueira Ramos, aliás João de Deus: Poeta e pedagogo português, autor de Campo de Flores e criador do método de leitura Cartilha Maternal - «A fé, mais o amor! Porque ele expira / Sem que a ninguém lhe estale o coração; / E eu, se essa luz dos olhos me fugira, / Sobrevivia? Não. // Assim como em ti vivo, morreria / Também contigo, se uma vez (que horror!) / Te visse pôr, ó Sol!... Sol do meu dia! /Astro do meu amor!» (Sol do Meu Dia - excerto).  IMAG.66-244-266-307-355-442-504-514

¢1901-11JAN1966 - Alberto Giacometti: Escultor e pintor suíço - «A sua arte parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine» (Jean Genet). IMAG.342

¯12JAN1926-1987 - Morton Feldman: Compositor americano - «Relembra-se amiúde uma afinidade com os princípios do expressionismo abstracto» (JS). IMAG.502

¨1890-12JAN1976 - Agatha Christie: Escritora britânica, criadora de Hercule Poirot - «O amor de uma mãe pelo seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece a lei ou a piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que se intrometer no seu caminho». IMAG.66-125-173-180-228-290

¢14JAN1836-1904 - Henri Fantin-Latour: Artista plástico francês do período romântico - «Um dos grandes pioneiros (juntamente com Whistler, Manet ou Degas) da alvorada da pintura moderna» (Guillermo Solana) - ficou conhecido pelos seus quadros de flores e pelos retratos de grupo dos seus amigos criadores e escritores parisienses. IMAG.257-488

¨14JAN1896-1970 - John Dos Passos: Escritor norte-americano de origem portuguesa, autor de Manhattan Transfer (1925) e da trilogia USA - 42nd Paralell (1930), Nineteen Nineteen (1932), The Big Money (1936) - «Morreram. Venceram os autómatos. / Ficaram inteiramente calcinados. / As suas carnes repousam na terra, em Massachusetts. / Os seus sonhos pairam no vento.» (Acuso). IMAG.292

CALENDÁRiO

¸09DEZ2014 - UkBar Filmes produziu, e estreia no Fórum Lisboa, Dreamocracy (2014) de Raquel Freire e Valerie Mitteaux, iniciando uma digressão nacional. IMAG.1-132

¸11DEZ2014 - Midas Filmes estreia Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética (2009), com Diogo Dória e Ricardo Trêpa; e O Velho do Restelo (2014), com Luís Miguel Cintra e Mário Barroso; ambos de Manoel de Oliveira». IMAG.2-11-23-41-42-48-60-68-72-74-83-134-158-161-164-165-170-175-178-190-199-201-203-205-206-208-214-221-222-224-225-237-241-242-244-248-256-277-283-285-287-293-295-301-335-342-347-350-358-384-394-400-431-432-451-494-501-539

µ11DEZ2014-22MAR2015 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea apresenta Toda a Memória do Mundo - Parte Um; exposição de fotografia de Daniel Blaufuks. IMAG.475

ANTIQUÁRiO

¾12JAN1966 - A cadeia de televisão ABC estreia a série Batman, inspirada na saga em quadradinhos concebida por Bob Kane em 1939, sendo protagonistas Adam West como Homem-Morcego e seu alter ego Bruce Wayne, e Burt Ward como Dick Grayson e Robin o Rapaz-Maravilha». IMAG.2-62-201-208-227-292-399-419-536

14JAN1936 - Ao preço de 5 tostões, e distribuído pela Empresa Nacional de Publicidade, aparece nas bancas o Nº 1 de O Mosquito - O Semanário da Rapaziada, sendo fundadores Tiotónio/António Cardoso Lopes e Raul Correia; impresso na Litografia Castro (Lisboa), com uma tiragem inicial de 5.000 exemplares. IMAG.43-78-87-96-98-117-129-132-141-178-226-240-372
 
VISTORiA

Adeus Tranças Cor de Ouro
¨Adeus tranças cor de ouro,
Adeus peito cor de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu tesouro!

Adeus bonina, adeus lírio
Do meu exílio de abrolhos!
Adeus, ó luz dos meus olhos
E meu tão doce martírio!

Adeus meu amor-perfeito,
Adeus tesouro escondido,
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.

Desfeito sonho dourado,
Nuvem desfeita de incenso
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão, sim, mas visão linda,
Sonho meu desvanecido!
Meu paraíso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem que ao sopro da aragem
Voou nas asas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa de amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essência evaporada!

Gota de orvalho que o vento
Levou do cálix das flores,
Curto abril dos meus amores,
Primavera de um momento!

Adeus Sol, que me alumia
Pelas ondas do oceano
Desta vida, deste engano,
Deste sonho de um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente,
Se volta a quadra inclemente,
Acha abrigo o passarinho;

Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortúnio e sorte!
Adeus estrela-do-norte!
Adeus bússola perdida!


João de Deus
- Campo de Flores

¨O navio abria lentamente caminho através do tempo encoberto. Um ferry-boat passou por eles. À direita, havia um barco de quatro mastros… Mais longe, avistava-se outro barco. Na sua frente, viam-se vagamente as luzes dos arranha-céus nova-iorquinos… Stuart tinha o copo cheio de uísque e uns binóculos nas mãos. Os olhos brilhavam-lhe.
– Vês a estátua da Liberdade, John?
Parecia que não via nada.
– Tudo está calmo, Jo. É domingo, sabes?
Naturalmente que era domingo. Sentiam-se aborrecidos. Por trás, os arranha-céus vazios e os longos arcos da ponte de Brooklin perdiam-se na névoa.
– Pois bem, Charlie – diz Stuart, cofiando o bigode –, foi aqui que eles esconderam todo o oiro do mundo. É a nossa vez de lhes tirarmos algum.
– Bem gostava de saber como.
Viam-se muitas pessoas numa enorme doca aberta. Jo estendeu a mão.
– Charlie, voltaremos a ver-nos?
– Foi uma bela guerra, enquanto durou.
Por cima do edifício da doca flutuavam as bandeiras americana e francesa. E, às portas, grupos de pessoas agitavam os lenços.
John Dos Passos
- The Big Money
                
BREVIÁRiO

¨Dom Quixote edita Nova Teoria do Sebastianismo de Miguel Real. IMAG.91-404-419-456-479-494-507-512-532-540

¨Relógio D’Água edita Agarra o Dia de Saul Bellow (1915-2005); tradução de Bernardo Antunes Navarro. IMAG.36-87-360-421-518

¨Assírio & Alvim edita Véspera da Água de Eugénio de Andrade (1923-2005). IMAG.33-45-150-248-303-326-389-423-432-460-485-518-526

¯Valentim de Carvalho edita em CD, Amália de Porto Em Porto de Amália Rodrigues (1920-1999). IMAG.20-33-226-239-245-270-276-279-283-326-341-408-470-536

¨Cavalo de Ferro edita As Armas Secretas de Julio Cortázar (1914-1984); tradução de Pedro Carvalho. IMAG.205-298-330-454-539
      
EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS - Folhetim Aperiódico

ENTRE AS TERRAS DO SOL E O REINO DAS TREVAS - 11
Hélio ergueu-se. Compôs o jaquetão. Olhou para a biqueira dos sapatos – toda amassada, incerta, além de que ele metia os pés para dentro. Pôs o chapéu na cabeça – discretamente pois, naquele dia, até fazia sol.
Em seu redor, tudo parecia rutilante. E o dividido havia de carrilar.
– Continua