quinta-feira, março 05, 2015

IMAGINÁRiO #545

José de Matos-Cruz | 01 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

FIDELIDADES
Há uns quinze anos, Donald Duck ficava duplamente órfão, com a morte de Carl Barks (1901-2000), em Oregon (EUA). Por uma estranha coerência, que entre os mais velhos significa fidelidade, o pai adoptivo de Donald emancipara-o, faz agora meio século, quando faleceu o seu criador público, Walt Disney (1901-1966). Antes, Barks foi carpinteiro, metalúrgico, cowboy, tipógrafo e… trabalhou num aviário! Deram-lhe continuidade outros artistas talvez mais inventivos, mas bem menos originais. Donald Duck nasceu no grande ecrã, em The Wise Little Hen (1934), cedendo-lhe voz Clarence Nash. E como herói de papel na mesma altura, com a adaptação em quadradinhos do filme curto animado; em 1937, era já titular de uma revista. Em português, apareceu através do Brasil - em 1950, a editora Abril lançou O Pato Donald, nessa altura com as autênticas aventuras sob chancela Disney; as proezas apócrifas vieram depois. A rebaptizada Margarida, sua noiva eterna, surgira na América em 1937; quanto ao resto da família, os sobrinhos Huguinho, Luisinho e Zezinho iniciaram diabruras no ano seguinte. Testemunham as memórias de Carl Barks: «A princípio, pretendi apenas divertir. Mas, à medida que as personagens ganharam vida própria, cada uma passou a ter uma filosofia especial». IMAG.7-8-31-298-391-463-470
                                                                  

CALENDÁRiO

¸04DEZ2014 - Midas Filmes estreia Cavalo Dinheiro de Pedro Costa; com Ventura e Vitalina Varela. IMAG.31-65-115-120-279-363

¸04DEZ2014 - NOS Audiovisuais estreia Famel Top Secret de Jorge Monte Real; com Pedro Anjos e Merche Romero.

¸04DEZ2014 - Leopardo Filmes estreia Variações de Casanova / The Casanova Variations de Michael Sturminger; com John Malkovich e Veronika Ferres.

06DEZ2014-06ABR2015 - Em Lisboa, Pavilhão dos Descobrimentos expõe Os Arquitectos São Poetas Também; sobre Cottinelli Telmo (1897-1948), sendo comissário João Paulo Martins. IMAG.78-94-95-115-130-154-164-180-222

¢11DEZ2014-12ABR2015 - Em Cascais, Casa das Histórias Paula Rego expõe Paródias - Paula Rego /Rafael Bordalo Pinheiro [1846-1905]. IMAG.11-13-22-31-32-43-59-77-98-115-197-199-205-208-236-242-246-258-269-304-325-342-351-357-364-365-370-381-399-416--464-486-489-499-515-517-518
            
MEMÓRiA

¸02JAN1896-1954 - Denis Abramovich Kaufman, aliás Dziga Vertov: Cineasta russo - «Eu, cine-olho, crio um homem muito mais perfeito do que aquele que criou Adão, crio milhares de homens diferentes segundo desenhos distintos e esquemas pré-estabelecidos. Eu sou o cine-olho. Tomo os braços de um, mais fortes e hábeis, tomo as pernas de outro, melhor construídas e mais velozes, a cabeça de um terceiro, mais bonita e expressiva e, pela montagem, crio um homem novo, um homem perfeito» (A Revolução dos Kinoks - 1923, excerto). IMAG.250-454

¨1883-02JAN1936 - Leonardo Coimbra: Filósofo, pedagogo e político português - «A ciência anula a criação, mutila a vida, dispersa, fragmenta, reduz a categorias teóricas. A vida permanece, evolui, quebra os símbolos e, senhora da ciência, ajusta-a de novo ao real. A poesia é o impulso do ser, sentido, vivido no ritmo do indivíduo. Dionisios criando Apolo» (Illustração Portuguesa - 1909). IMAG.224-252-448

¨03JAN106 aC-43 aC - Marcus Tullius Cicero, aliás Cícero: Filósofo, escritor e orador romano - «Fica sabendo que és um deus, se é deus aquele que possui força, sentimento e memória, que prevê e que domina, modera e faz mover este corpo ao qual está ligado» (Da República). IMAG.445-521

¨1917-07JAN1986 - Juan Nepomuceno Carlos Pérez Rulfo Vizcaíno, aliás Juan Rulfo: Escritor mexicano - «Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas de devassidão geográfica» (Los Muertos No Tienen Ni Tiempo Ni Espacio). IMAG.66-83-339

GALERiA

Cottinelli Telmo - Os Arquitectos São Poetas Também
José Ângelo Cottinelli Telmo, arquitecto, cineasta, poeta, autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico, foi uma personalidade marcante da cultura portuguesa na primeira metade do Século XX. Figura associada à arquitetura do Estado Novo e da CP, começou por ser conhecido como ilustrador e autor de banda desenhada. Inaugurou o género de comédia com A Canção de Lisboa (1933), o primeiro filme sonoro inteiramente rodado em Portugal.
Em 1940, Cottinelli Telmo foi o arquiteto-chefe da Exposição do Mundo Português. São seus os planos da Praça do Império e da sua Fonte Monumental, e o do Padrão dos Descobrimentos. Os desenhos do monumento foram agora restaurados, com o objetivo de integrar a exposição e de serem preservados.




VISTORiA

A Mulher Era o Mistério
¨Quando, colegial numa verde cidade provinciana, saía aos domingos a passeio e acontecia atravessar as ruas da cidade, era um rumor de asas, que, dentro em mim, se abriam ao olhar os afastados vultos femininos, recortando a luz das janelas. Eram primaveras de ignorados mundos a lançarem sobre mim misteriosos perfumes, tépidos segredos, orgias inocentes, bacanais castíssimas; e o corpo, em jeitos de alma, evocava castelos à beira-rio, jardins sobre terraços ao crepúsculo, ânforas de água carregando pajens, brancos jasmins esparsos, todo um mundo de brandura, enlevo, afago, devoções, renovados encantos de novas harmonias.
Leonardo Coimbra
- A Alegria, a Dor e a Graça
(1920)

A Terra Que Nos Deram
¨Depois de caminhar tantas horas sem encontrar nem uma sombra de árvore, nem uma raiz de nada, ouve-se o ladrar dos cachorros.
A gente às vezes chegava a pensar, no meio deste caminho sem margens, que nada existiria depois; que não se poderia encontrar nada, ao final desta planura rajada de gretas e de arroios secos. Mas sim, existe algo. Há um povoado. Ouve-se o ladrar dos cachorros e sente-se no ar o cheiro da fumaça, e se saboreia esse perfume das pessoas como se fora uma esperança.
Mas o povoado está ainda muito lá adiante. É o vento que o aproxima.
Estamos caminhando desde o amanhecer. Agorinha é por volta das quatro da tarde. Alguém se vira para o céu, estira os olhos até onde está dependurado o sol e diz:
– São mais ou menos as quatro da tarde.
Esse alguém é Militão. Junto com ele, vamos Faustino, Estevão e eu. Somos quatro. Eu nos conto: dois adiante, outros dois atrás. Olho mais atrás e não vejo ninguém. Então me digo: «Somos quatro». Não faz muito, lá pelas onze, éramos vinte e tantos, mas aos pouquinhos foram se dispersando até não restar nada mais que este punhado que somos nós.
Faustino diz:
– É capaz que chova.
Todos levantamos a cara e miramos uma nuvem negra e pesada que passa por cima de nossas cabeças. E pensamos «É capaz, sim».
Não dizemos o que pensamos. Já faz tempo que se acabou nossa vontade de falar. Acabou-se com o calor. Qualquer um conversaria muito à vontade em outra parte, mas aqui dá trabalho. A gente conversa aqui e as palavras se esquentam na boca com o calor de fora, e ressecam a língua da gente até que acabam com o fôlego. As coisas aqui são assim. Por isso ninguém está para conversas.
Cai uma gota d'água, grande, gorda, fazendo um furo na terra e deixando uma pasta como de uma cusparada. Cai só ela. Esperamos que continuem caindo outras e as buscamos com os olhos. Mas não há mais nenhuma. Não chove. Agora, se a gente olha o céu, vê a nuvem escura correndo lá longe, a toda pressa. O vento que vem do povoado se encosta nela, empurrando-a contra as sombras azuis dos morros. E a gota caída por engano, esta a terra come e desaparece com ela em sua sede.
Quem diabos faria este llano tão grande? Para que serve, hein?
Voltamos a caminhar, havíamos parado para ver chover. Não choveu. Agora tornamos a caminhar. E a mim me ocorre que temos caminhado mais do que temos andado. Ocorre-me isto. Tivesse chovido talvez me ocorressem outras coisas. Afinal eu sei que, desde que eu era garoto, nunca vi chover sobre o llano o que se chama chover.
Não, o llano não é coisa que sirva. Não há coelhos, nem pássaros. Não há nada. A não ser uns quantos arbustos enfezados e uma que outra manchinha de carrapicho com as folhas enroscadas, a não ser isso não há nada.
E por aqui nos vamos nós. Os quatro a pé. Antes andávamos a cavalo e trazíamos uma carabina terçada. Agora não trazemos nem sequer a carabina.
Juan Rulfo
- O Llano Em Llamas (excerto
- Tradução de Eglê Malheiros)

ANTIQUÁRiO

¯ 01JAN1856 - Na freguesia da Graça, em Lisboa, D. Maria de Abranches funda o Convento das Mónicas, da Ordem das Religiosas de Santo Agostinho.

ü03JAN1786 - Naufraga em Peniche, a leste de Papôa, o galeão espanhol San Pedro, procedente da América e com um carregamento de dinheiros do Estado, na quantia de setenta e dois milhões de cruzados, que ficaram sepultados nas profundezas do mar.
 
BREVIÁRiO

¨Sextante edita Passagens de Teolinda Gersão. IMAG.372-384

¯Warner edita em CD, sob chancela Elektra, Weird Scenes Inside the Gold Mine por The Doors. IMAG.173-202-446

¨Dom Quixote edita Os Memoráveis de Lídia Jorge. IMAG.16-144-187-286-314-373-536-540


domingo, março 01, 2015

IMAGINÁRiO #544

José de Matos-Cruz | 24 Dezembro 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004
  
PRONTUÁRiO
 
CONVERGÊNCIAS

Um dos problemas mais interessantes que se colocam na arte em quadradinhos, é a relação entre os autores, quando a criatividade é partilhada por um argumentista e por um ilustrador. Aquele interroga-se, inevitavelmente: que resolução gráfica irá ter esta ideia? Qual será o aspecto das personagens? O segundo também terá questões a pôr: como imaginaria ele esta acção? Onde pretenderia inserir estes diálogos? É por isso que interessa que se conheçam bem, discutam projectos ou opções, mas sobretudo que possuam estilos conciliáveis e, ainda melhor, pretendam testemunhos com idêntica eficácia e direcção. Em circunstâncias extremas, nem assim seria possível uma conversão. Sem especiais escrúpulos ou obsessões, eis o que sucede - sempre na perspectiva de Art Spiegelman - com Maus (1980-1991), e explica o fenómeno do seu sucesso, das análises e interpretações que suscitou. Mas não é uma situação só de agora, reconhece o artista, ou apenas sua. Vejam-se um exemplo clássico como George Herriman, ou Chris Ware, que considera um dos melhores cartoonistas actuais. São inconfundíveis, e isso acaba por fundamentar o seu prestígio.

        
VISTORiA

A Fêmea da Espécie

¨Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,
ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;
mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,
se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;
mas a sua companheira não se arreda do caminho,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,
rezavam por não ser presas do feminino penacho,
que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.
 
O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,
pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,
mas a história do marido confirma a do caçador –
pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,
propõe negociações e reconhece o contrato;
só muito raro é que torce a lógica da evidência
até a extrema conclusão, num imperdoável ato.

Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,
a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.
O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro
pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!

Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo
numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;
e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,
a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.

Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,
não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.
Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;
Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!

Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,
como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;
e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito
de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.

Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;
suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!
Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,
a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.

Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;
e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;
e vivisseção científica do nervo até que ele seque,
e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!

Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio
com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende
onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos
a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.

O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu
deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;
e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,
que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!
Rudyard Kipling
- Tradução de Renato Suttana

TRAJECTÓRiA

FERNANDO LOPES – ORIGENS 
¸Dois títulos essenciais do Novo Cinema português, Belarmino (1964) e Uma Abelha Na Chuva (1971) são obras-primas realizadas por Fernando Lopes em períodos determinantes, e representativas de outras tantas abrangências sobre o ser humano e o seu universo vivencial.
Graças ao entusiasmo tutelar de António da Cunha Telles, o seu produtor, Belarmino assinala – em virtualidades estéticas e testemunhatórias – a convergência de cinco personalidades essenciais: Lopes como realizador; Baptista-Bastos pela entrevista, Augusto Cabrita na imagem, Manuel Jorge Veloso ao musicar, Belarmino Fragoso em protagonista. Sob a aparência linear de um documentário, transgredido já pelo desempenho do titular, seus reflexos e contradições, patenteia-se um projecto múltiplo, complexo, na abrangência das implicações quanto à realidade envolvente.
Assim, paralelamente à história de Belarmino, em causa ou mitificada, também Lisboa se contrasta – uma cidade no tempo e na acção, suas crises, tensões, ameaças e desafios. Com ele ídolo ou herói, cúmplice ou vítima. Cabeça de cartaz ou vulto anónimo. Tal dinâmica sobre o presente, tal dialéctica sobre o passado – pelos padrões de 1963, quando se filmou com quatrocentos contos – logo tiveram realce promocional: «Na multidão, um campeão destruído» revelava, pois, que era «urgente respeitar todos os homens». Expressão dramática, entre a matéria humana e a natureza urbana.
Cinco anos depois, Fernando Lopes iniciou a rodagem de Uma Abelha Na Chuva, em 1968. À partida, tudo parecia contrastante: ao deambulatório testemunho lisboeta, pelo recorte original duma figura típica, sucedeu a transposição do romance de Carlos de Oliveira, sobre imobilistas figuras rurais. Mais se distinguiriam, pela perfeita correspondência – em moldes conceptuais e estéticos – entre as crispações ou transes patentes no primeiro, e as tensões ou conflitos agora latentes. Com orçamento de oitocentos contos, «grande número de pessoas» colaborou monetariamente.
Pouco propenso a adaptações literárias, Lopes atraiu-se por várias «personagens e até um certo clima», recebendo inteira autonomia do autor original. Confrontando uma comunidade – através dos paradoxos sociais, dos exílios em que cada ser humano se aliena ou refugia. A produção coube à Média Filmes, reclamando Lopes uma leitura crítica – entre pesquisas e acertos – tendente «à criação dum novo código, articulado em termos áudio-visuais». Tal referencia Uma Abelha Na Chuva – expoente histórico e prospectivo, quanto à criatividade e como reflexão sobre o próprio cinema.
                        
CALENDÁRiO

04DEZ2014 - Em Lisboa, Opus 14 expõe Esboços de Uma Cidade de Pedro Cabral, João Catarino, Mónica Cid, Mário Linhares e José Louro, membros do colectivo Urban Sketchers Portugal. IMAG.393

05-07DEZ2014 - Em Matosinhos, Exponor apresenta Comic Con Portugal - megaevento cultural promovido por City, incluindo banda desenhada, cinema, televisão, videojogos, cosplay, anime e mangà.

MEMÓRiA

¯ 28DEZ1775-1842 - João Domingos Bomtempo: Compositor e pianista português, autor da Missa de Requiem à Memória de Camões (França, 1818), de Missa Pro Defunctis e de Variações «Alessandro In Éfeso», pedagogo, fundador e primeiro director do Conservatório Nacional (1835). IMAG.40-64-383-513

¸ 28DEZ1935-2012 - Fernando Lopes: Realizador português, entre os vultos do Novo Cinema - «Gostava de imaginar que, passadas muitas décadas, haveria espectadores a descobrir os seus filmes. Não por qualquer necessidade de reconhecimento, muito menos de consagração. Antes porque ele esperava que esses mesmos espectadores pudessem, de algum modo, revisitar o tempo em que cada filme tinha sido rodado» (João Lopes). IMAG.19-63-111-203-219-261-276-278-314-345-399-408-433-521
 
¨ 30DEZ1865-1936 - Rudyard Kipling: Escritor britânico, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1907) - «A mulher mais idiota pode dominar um sábio. Mas é preciso uma mulher extremamente sábia, para dominar um idiota». IMAG.229-339

¨ 1899-31DEZ1985 - João de Araújo Correia: Escritor português, médico e professor - «A primeira canção que ouvi / Foi a da água, / Que jorrava / Clara mágoa / No tanque onde bebiam, ao escurecer / Os animais cansados de sofrer.» (Lira Familiar). IMAG.349
     
ANTIQUÁRiO


¸ 28DEZ1895 - Nas caves do Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, perante umas três dezenas de pessoas, tem lugar a primeira sessão pública, paga, do Cinématographe de Auguste e Louis Lumière; aí se viram, entre outros, La Sortie des Usines, Arrivé d’un Train à la Ciotat e L’Arroseur Arrosé. IMAG.64-163-181-504

¨ 29DEZ1865 - O livreiro-editor Campos Junior dá à estampa, em volume impresso, A Queda de Um Anjo, «romance político» de Camilo Castelo Branco (1825-1890), «uma sátira pungente a algumas cenas da vida parlamentar» (Diário de Notícias).  IMAG.27-31-41-87-111-113-145-146-161-171-179-180-185-209-227-236-237-244-256-277-293-328-334-389-390-414-421-432-453-497-507-520-529-534

30DEZ1865 - Em Portugal, recebem os diplomas de sócios do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil: Levy Maria Jordão (1831-1875), como correspondente; Alexandre Herculano (1810-1877) e Luiz Augusto Rebello da Silva (1822-1871), como honorários. IMAG.11-13-31-38-95-146-199-205-220-258-268-269-309-312-321-325-338-342-364-370-384-399-412-416-430-489-519-541
        
BREVIÁRiO

Bertrand edita Maus de Art Spiegelman. IMAG.7-12-27-124-342

¯Harmonia Mundi edita em CD, Joseph Haydn [1732-1809]: Die Sieben Leftzen Worte Unseres Erlősers am Kreuze por Cuarteto Casals. IMAG.40-219-228-240-269-271-272-273-275-276-282-285-295-296-322-349-365-407-440-472

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

IMAGINÁRiO #543

José de Matos-Cruz | 16 Dezembro 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
 
ABRANGÊNCIAS

Testamento visionário para um novo milénio, ou testemunho crepuscular sobre o século finito, o cinema exibe-se como arte primordial de Stanley Kubrick - um dos seus mais controversos mas incontestáveis génios. Nascido em Nova Iorque, em 1928, e em Inglaterra desde início dos anos ‘60, Kubrick esteve sempre ligado à sensibilidade crítica e cultural da Europa. Os seus interesses paralelos eram o xadrez e a fotografia, tendo-se revelado profissionalmente em 1945, na revista Look. Em 1999, faleceu na Grã Bretanha, de causas naturais. Kubrick detestava viajar de avião, e reconhecia o seu «escrúpulo paranóico» pela «fabricação artística», obcecando-se em romper todas as implicações éticas e estéticas. Clássico, radical, dirigiu Horizontes de Glória/Paths of Glory (1958) sobre um romance de Humphrey Cobb. Baseada em factos reais, a acção decorre em 1916, quando um destacamento francês de elite é destroçado durante uma operação contra as linhas alemãs, e o comandante acusado de cobardia…

VISTORiA

Soneto
¨Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!… Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade
Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
?Bocage

Um Beijo
¨Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior… Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto…
?Olavo Bilac

A Falta de Érico Veríssimo
¨Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda – como tarda! – 
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.
?Carlos Drummond de Andrade
(1975)

VISTORiA

¨«Acho incrível», diz Bingley, «como todas as jovens têm tanta paciência para cultivar todos esses talentos… Todas pintam, forram biombos e fazem bolsas. Não conheci uma que não saiba fazer tudo isto, e estou seguro de que jamais me falaram de uma jovem pela primeira vez sem referir-se a quão talentosa ela era… Uma mulher deve ter um amplo conhecimento de música, canto, desenho, dança e línguas modernas, para merecer a palavra dotada; e, aparte de tudo isso, deve haver algo em seu ar e em sua maneira de andar, no tom de sua voz, em sua forma de relacionar-se com as pessoas, e em sua expressão que, se não for assim, não merecerá completamente a distinção…»
?Jane Austen
- Orgulho e Preconceito
(excerto)

¨Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso «Não era bem isto o que queria dizer».
?Érico Veríssimo
- O Escritor Diante do Espelho
(excerto - 1966)
                       
ANTIQUÁRiO

DEZ1865 - Está calculado que, em Lisboa, bebem-se por dia 329.646 chávenas de chá, supondo que cada morador do concelho consome, em cada 24 horas, duas chávenas.

MEMÓRiA

¨ 1584-16DEZ1655 - Manuel Severim de Faria: Chantre e Cónego da Sé de Évora, escritor e historiador, arqueólogo e numismata, genealogista e escritor, considerado o primeiro jornalista português; autor de Discursos Vários Políticos (1624), destinados à «instrução política das artes, em que hão-de ser doutrinados os mancebos nobres da República, conforme os preceitos do filósofo». LIMAG.456

¨ 16DEZ1775-1817 - Jane Austen: Escritora inglesa - «Há casos em que um conselho tanto pode ser bom como mau… Tudo dependerá dos acontecimentos em causa». LIMAG.117-146

¨ 16DEZ1865-1918 - Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, aliás Olavo Bilac: Poeta brasileiro - «Às vezes, uma dor me desespera… / Nestas ânsias e dúvidas em que ando. / Cismo e padeço, neste outono, quando / Calculo o que perdi na primavera.» (Remorso - excerto).

¨ 1874-16DEZ1965 - William Somerset Maugham: Escritor inglês - «Não é verdade que o sofrimento enobreça o espírito. Por vezes, a felicidade fá-lo, e, a maior parte das vezes, o sofrimento torna os homens mesquinhos e vingativos (The Moon and Sixpence - 1919). LIMAG.73-180-452

_ 18DEZ1935-2013 - João José André Baptista, aliás José Baptista, aliás Jobat: Ilustrador, artista gráfico e ceramista português, criador de banda desenhada - autor de A Vida Apaixonada e Apaixonante de Camões (1972, com argumento de Michel Gérac). LIMAG.458

¨ 15SET1765-21DEZ1805 - Manuel Maria Barbosa du Bocage: Poeta português - «Chorosos versos meus desentoados, / Sem arte, sem beleza e sem brandura, / Urdidos pela mão da Desventura, / Pela baça Tristeza envenenados.». LIMAG.42-43-50-69-103-151-308-327

¨ 17DEZ1905-28NOV1975 - Érico Veríssimo: Escritor brasileiro - «O amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe. São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão. O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença…». LIMAG.73-542

¯ 19DEZ1925-2012: Robert B. Sherman: Autor musical americano, escreveu canções para filmes com o irmão Richard Morton Sherman - como O Livro da Selva (1967), Chitty Chitty Bang Bang (1968) ou Os Aristogatos (1970) - em especial para os Walt Disney Studios. LIMAG.399

¸ 22DEZ1935-2012 - Paulo Rocha: Cineasta português - «Cada um dos (seus) filmes é um objecto singular, em que há uma relação directa entre as personagens e a história - são grandes documentários da vida portuguesa. Foi (ele) o que melhor soube fazer a relação entre a poética do cinema e a poética do país» (João Mário Grilo). LIMAG.4-31-87-180-445-521
       
CALENDÁRiO

¢18OUT-11JAN2015 - No Porto, Galeria Municipal Almeida Garrett expõe Sub 40 - Arte e Artistas do Porto. Geração Pós-25 de Abril; sendo curador José Maia, participam Nuno Coelho, Cristina Regadas, José de Almeida Pereira, Nuno Ramalho, Carla Filipe, João Marçal, João Sousa Cardoso, Isabel Ribeiro, Mafalda Santos, André Sousa, Dalila Gonçalves, Jonathan Saldanha, Flávio Rodrigues, Catarina Miranda, Vera Mota, Susana Chiocca, Arlindo Silva, André Cepeda, Marco Mendes, Miguel Carneiro, A Mula, Oficina Arara, KRAFT, Bolos Quentes, Tiago Afonso, Amarante Abramovici, António da Silva, Frederico Lobo / Tiago Hespanha, João Vladimiro, Mónica Baptista, Mário Moura, António Preto, Susana Chiocca, Sandra Vieira Jürgens e Guy Amado.

¯27NOV2014 - Em Paris, o Cante Alentejano é proclamado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. LIMAG.538
 
BREVIÁRiO

¸MGM edita em DVD, Horizontes de Glória/Paths of Glory (1958) de Stanley Kubrick; com Kirk Douglas e Adolphe Menjou. LIMAG.7-37-83-112-145-155-158-188-204-216-264-332-443-480-492

¨Porto Editora lança Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão de Mário de Carvalho. LIMAG.327-410-528-541-542

¯VGM edita em CD, sob chancela Alpha, Marc-Antoine Charpentier [1643-1704] - [Jean-Baptiste] Lully [1632-1687]: Te Deum por Capella Cracoviensis, Le Poème Harmonique, sob a direcção de Vincent Dumestre. LIMAG.272-314-396