quarta-feira, março 25, 2015

O Infante Portugal e As Tramóias Capitais

2015 marcará o 10º aniversário do nascimento d’O Infante Portugal. Inicialmente criado para protagonista do conto “Com Penas de Anjo e a Expiação do Demo,” incluído no livro Os SobreNaturais (2005), sequela d’Os EntreTantos (Editorial Notícias; 2003), também por José de Matos-Cruz, este universo criativo de nuances mágicas e super-heróicas foi posteriormente desenvolvido em seriado em website próprio, recuperando o formato dos folhetins do século passado, e contou nas capas dos capítulos desta Primeira Jornada com a participação gráfica de vários dos mais renomados ilustradores portugueses de banda desenhada.

A obra foi depois compilada em livro pelo selo editorial do próprio autor, Kafre (2007), e mais tarde, em simultâneo a uma Segunda Jornada, foi reeditado pela Apenas Livros (2010), que assumiu a publicação da trilogia.

“Lisboa é uma cidade imaginária, intemporal, onde se entrecruzam ou entrechocam  alfacinhas solitários, vadios e boémios, cidadãos ilustres, super-heróis fantásticos,  jornalistas e filósofos, mulheres prodigiosas, infandos malfeitores,  necrófagos e estapafúrdios, intelectuais sórdidos, amorais e puritanos, políticos ubíquos,virgens fatais, náufragos e forasteiros, angélicos facínoras, autóctones estrangeirados, emigrados neurasténicos, arrivistas e refractários, insubmissos conformados, aberrações umbilicais e outras virtuais aparições, em fantasmagorias e abominações, em artimanhas e manigâncias, em dissídios e adversidades, em compromissos e rupturas, em perigos e desafios, em sensos comuns e sentidos proibidos, em memórias efémeras e leviandades consagradas, amalgamando-se entre ruínas e vielas, rotinas e vivências, equívocos e assombros, pactos e traições, euforias e nostalgias, artimanhas e maquinações, tudo num turbilhão precário ou numa monotonia secular.

Sol e lua… E, certa manhã, nos arredores da capital, quando o Infante Portugal porfiava em mais um descanso do guerreiro, sob a identidade pública de Rui Ruivo, um impoluto causídico, após mais uma banal incursão nocturna, entre insónias e convulsões, entre horrores e irrisões, eis que tudo recomeça… Ao receber um telefonema provocador de Vulcão,  o seu mais infame e funesto antagonista.”


O Infante Portugal e As Tramóias Capitais
Kafre | 1ª Edição: 2007
Edição online: 2005-2007
Autor: José de Matos-Cruz
Ilustradores: Isabel Aboim, Filipe Abranches, Renato Abreu, Luís Diferr,
José Carlos Fernandes, José Garcês, António Jorge Gonçalves, Luís Louro,
Zé Manel, Pedro Massano, José Ruy, Eugénio Silva e Augusto Trigo.
Capa Brochada, 84 páginas | Prosa ilustrada
[Esgotado]

Imagem de capa por Pedro Massano e brasão por José Garcês.

terça-feira, março 24, 2015

IMAGINÁRiO #549

José de Matos-Cruz | 01 Fevereiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

VERTENTES
Revelado em Portugal com Crónicas Incongruentes (1986) e Quotidiano Delirante (1987), Miguelanxo Prado logo atraiu os leitores, sensibilizados por uma visão crítica, irónica ou onírica. A sofisticada narrativa, o grafismo estilizado deste artista galego (nascido na Corunha, em 1958), adquiriram outras virtualidades com O Manancial da Noite (1991), de colaboração com Fernando Luna; reafirmando-se pessoalmente em Quotidiano Delirante - Tomo 2 (1990), sobre os rituais urbanos, rurais e periféricos; O Traço de Giz (1993), uma surpreendente obra-prima insular; Tangências (1995), através do elã homem/mulher; Pedro e o Lobo (1995), sobre um conto de Serguei Prokofiev; até Carta de Lisboa (1995), em transfiguração estética da nossa capital. Distinguido com o Troféu de Honra no Amadora Bd ’94, Prado regressou até nós com Fragmentos da Enciclopédia Délfica (1985), a sua surpreendente e recuperada obra de estreia; ou A Mansão dos Pimpão (2005), que recebeu os Prémios ao Melhor Argumento e ao Melhor Álbum Estrangeiro no Salão do Comic de Barcelona… Sarcástico, mas aliciante argumentista; caricatural, mas expressivo ilustrador, Prado explora lances de aparente rotina, sobre o indivíduo e a sociedade, além do tempo, transfigurando-os esteticamente, em flagrantes de perturbante actualidade. LIMAG.117-241-263


CALENDÁRiO         

¸11DEZ2014 - NOS Audiovisuais estreia Uma Noite Na Praia (2013) de São José Correia; com Lucinda Loureiro e Victor Norte.

®1941-22DEZ2014 - António Montez: Actor português de teatro, televisão e cinema - «…Um grande profissional, […] um homem que me ensinou muito. Ensinou-me literalmente a falar e deixou que eu partilhasse momentos que recordo como pertencendo à categoria dos melhores da minha vida» (Heitor Lourenço). LIMAG.10

¯1944-22DEZ2014 - John Robert Cocker, aliás Joe Cocker: Cantor britânico, intérprete de You Are So Beautiful (1975) e You Can Leave Your Hat On (1986) - «Era uma pessoa incrível e adorável, que deu tanto ao mundo que vamos todos sentir muito a sua falta» (Paul McCartney).
                   
¢03-16JAN2014 - Em Lisboa, Eka Palace apresenta Psicobullets and Pills - exposição de pintura de Sara Franco. LIMAG.168-248-416-430

¢30JAN-03MAI2915 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe Forma Aberta de Oskar Hansen.

¢12FEV-31MAI2015 - No Centro de Arte Moderna/CAM, em Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian expõe Isto É Uma Ponte de Bernard Frize.

¢12FEV-31MAI2015 - No Centro de Arte Moderna/CAM, em Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian expõe Antes e Depois de Miguel Ângelo Rocha.

¢20FEV-31MAI2015 - No Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves expõe Architectonisation de Monica Sosnowska.
   
MEMÓRiA

¯04FEV1906-1945 - Dietrich Bonhoeffer: Poeta e teólogo alemão - «Se embarcas no comboio errado, não adianta seguires pelo corredor na direcção oposta». LIMAG.510

E1807-05FEV1876 - William J. Bailey: Físico britânico, radicado na América - «Quem nunca duvidou, nunca acreditou. Onde está a dúvida, está também a verdade - pois uma é a sombra da outra».

¨1470-03FEV1536 - Garcia de Resende: Cronista, poeta, médico, arquitecto, autor de Miscelânea e Variedade de Histórias (ed. 1554) - «Muitos emperadores, reis e pessoas de memória, polos rimances e trovas sabemos suas estórias e nas cortes dos grandes Príncepes é mui necessária na gentileza, amores, justas e momos e também para os que maus trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas» (Prólogo ao Cancioneiro Geral - 1516 - excerto). LIMAG.92-296


VISTORiA
     
Da Caça
¨Ó que caça tam real
que se caça em Portugal!

Rica caça, mui real,
que nunca deve morrer,
pera folguar de lhe correr
toda jente natural.

Linda caça, mui sobida,
se descobre em nossa vida,
a qual nunqua foi sabida,
nem seu preço quanto val.

O da gram mata Lixboa,
onde toda caça voa!
Arabia, Persia e Goa,
tudo cabe em seu curral.

Calequd e Cananor,
Melláqua, Tauriz menor,
Adem, Jafo jnterior,
todos veem per huú portal.

Talhamar da grã riqueza,
Damasquo com fortaleza,
Troia, Cairo, cõ sa grãdeza,
nom domarom nunqua tal.

Ho mui sabio Salamom,
que fez o grande montom,
teve [sa] parte e quinhom,
mas nom todo ho cabedal.

Ouro, aljofar, pedraria,
gomas e especearia,
toda outra drogaria
se recolhe em Portugal.
?Garcia de Resende
- Da Caça Que Se Caça Em Portugal (excerto)

A Insurreição dos Peles-Vermelhas
¨Davy Crockett deslizou sorrateiramente do selim e, sem ruído, avançou por entre as moitas, até encontrar um enorme carvalho, perto da margem do rio Tallapoosa. Ficou tão quieto, colado à árvore, que parecia fazer parte do tronco. Dali podia, com os seus olhos penetrantes, vigiar o rio em ambas as direcções.
Não se avistava qualquer ser vivo; no entanto, as marcas frescas de mocassins, na terra mole da margem, mostraram a Crockett o que ele queria saber. Furtivamente, rastejou de novo por entre as moitas.
Em voz baixa, dirigiu-se aos homens que o aguardavam no lugar onde deixara o cavalo.
– Os Creek passaram por aqui – disse – e dirigiram-se para sul, ainda não há muito tempo. O que pensa fazer, major?
O major Russell observou o céu.
– O melhor é voltarmos para o acampamento, antes que a escuridão nos impeça de vermos o caminho – replicou. – Vamos!

?Enid Lamonte Meadowcroft
- Davy Crockett (excerto) - Tradução de Ana Ribeiro

INVENTÁRiO

PEDRO SÓ
¸Em 1971, Alfredo Tropa realizou Pedro Só, com produção do Centro Português de Cinema/CPC e da Média Filmes. Em causa, Pedro, Romance de Um Vagabundo de Manuel Mendes - que feleceu sem conhecer a adaptação final por Tropa, numa sua primeira longa metragem, aliado aos jornalistas Afonso Praça - também intérprete; e Fernando Assis Pacheco - que lhe revelara a obra. Eis a errância de um camponês de aldeia montanhosa do interior - que, após uma rixa entre famílias, se põe em fuga… Segundo Tropa, «Pedro não é analfabeto, mas sim o chamado vagabundo consciente, revoltado contra os preconceitos, um homem rebelde e livre». António Montez foi o protagonista, com Jorge Ramalho no companheiro e Ermelinda Duarte como prostituta; intervêm ainda actores do teatro universitário, e o povo de Trás-os-Montes. Com orçamento estimado em mil contos, sob direcção de João Matos Silva, a rodagem decorreu na região de Mirandela - em Múrias e Valbom dos Figos. Elso Roque assinou a fotografia, com interiores decorados por António Casimiro. Numa linha ficcional de implicações dramáticas e sociais, ressalta um testemunho sobre os rituais quotidianos, as fainas e as comunidades, através do tempo e das paisagens. Elemento aliciante é a música tradicional, executada pela Banda de Nogueira; e de Manuel Jorge Veloso, com poemas de Assis Pacheco para a voz de Manuel Freire. Pedro Só estreou no Apolo 70, em Junho de 1971; exibido no Festival de Valladolid em 1972, recebeu uma Menção Especial do Júri.
      
ANTIQUÁRiO

X06FEV1336 - No Convento de São Francisco, em Évora, celebram-se os desposórios do Infante D. Pedro, futuro D. Pedro I, filho de El-Rei D. Afonso IV e de D. Beatriz de Castela, com a Infanta D. Constança Manuel, filha de D. João Manuel de Castela. LIMAG.38-189-324-509

ANUÁRiO

¨ 1898-1966 - Enid Lamonte Meadowcroft: Escritora americana - «Depois de verificares que a razão te assiste, segue para diante… Por isso, bater-me-ei pelo que considero justo, custe o que custar!» (Davy Crockett).

BREVIÁRiO

¨Edições 70 lança O Império da Visão - Fotografia No Contexto Colonial Português (1860-1960); organização de Filipa Lowndes Vicente.

¨Esfera dos Livros edita História da Expansão e do Império Português de João Paulo Oliveira e Costa, José Damião Rodrigues e Pedro Aires Oliveira.
        
EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS - Folhetim Aperiódico

ENTRE AS TERRAS DO SOL E O REINO DAS TREVAS - 12
Portanto, Hélio Alvorada tinha duas opções. Ou entrava no recém Túnel d’El-Rei – que ligava ao Pinheiro e, antes de ali chegar, desapareceria no âmago das trevas. Ou seguiria até à nova Ponte de D. Pia Maria, e lá havia de se soltar – qual precipício, para o vazio inanimado.

– Continua   

sexta-feira, março 20, 2015

Edições Kafre

Kafre é o selo editorial de José de Matos-Cruz, através do qual o editor/autor publicou a nível independente várias obras de prosa e poesia, tais como Tempo Possível e outras Fábulas (1967), Não Vai a Parte Alguma/Não Vem de Nenhum Lugar (1968 e 1997), Cafre (1970), Livro dos Temas (1970 e 1997), Alma de Cadáver (1985), A Erosão dos Lábios (1992), Cama, Leão! (1997), Folhetos Kafre (série de treze folhetins; 1998), Cardo as Charlot em Portugal – 1916 (1998), Artur Costa de Macedo, um olhar à câmara (1998), Aurélio da Paz dos Reis: Das flores aos Fotogramas (1998), Histórias & Testemunhos 1908-1922 (1998), Estórias Invisíveis (1999), Hexálogo – Os Livros da Luz (2000), Os Palcos Giratórios – 7 Peças de Teatro em 1 Acto (1966-70) (2004), Ano Teatral: 1885 (2006 e 2007), Ano Teatral: 1897 (2008), e a edição original d'O Infante Portugal e As Tramóias Capitais (2007).

O logótipo da chancela é baseado num linóleo da autoria de Cação Biscaia. 

quinta-feira, março 19, 2015

Exposição: Vasco Granja e o Cinema de Animação (C.C.C.)

Organizada a partir do espólio de Vasco Granja (1925-2009) sobre cinema de animação, com referências inevitáveis à banda desenhada, a mostra Vasco Granja e o Cinema deAnimação, patente na galeria do pátio interno da Fundação D. Luís I – Centro Cultural de Cascais, propõe uma visão de cariz pessoal, aliando um testemunho contextualizado pelas suas vivências e memórias, patentes ou alusivas aos documentos e materiais da posse dos seus herdeiros.
A exposição manifesta-se portanto, não apenas no cunho artístico ou lúdico, mas sobretudo nos sinais e emoções de quem privou intimamente com Vasco Granja, e usufruiu das suas paixões e experiências significativas. As quais sagraram uma intervenção ampla e pioneira na divulgação em Portugal dos quadradinhos e da animação, com uma autêntica motivação e sensibilidade que lhe eram características. O estilo peculiar de Vasco Granja, o seu entusiasmo e generosidade, pairam por este universo fascinante e diverso, em que o pleno privilégio do imaginário corresponde, afinal, à própria evolução que – através das suas diversas tendências e expectativas, concretizações e manifestações, por todo o mundo – marcou um vasto e decisivo panorama cultural e de entretenimento, a partir de meados do Século XX.





A mostra estará patente entre 7 Março e 19 Abril (2015); de terça-feira a domingo, entre 10h-18h.
Preço ao público – 3,00€ (1,50€ a residentes).

quarta-feira, março 18, 2015

IMAGINÁRiO #548

José de Matos-Cruz | 24 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

PROJECÇÕES
Autor versátil e fulgurante, ao estilizar as potencialidades gráficas ou narrativas da banda desenhada, em que evoluem - pelo signo erótico - a aliciante insurreição ficcional ou uma perversa sofisticação estética, Milo Manara - argumentista & ilustrador - leva às últimas consequências, em Nua Pela Cidade (2001), uma subversão primordial sobre O Perfume do Invisível /Il Profumo dell'Invisibile (1986), estilizando em Bea - que se julga incorpórea e transparente - a mulher idealizada ou mutante… Ironia, exibicionismo - através de peripécias / experiências excitantes, sob uma vertigem obsessiva / exuberante - pontuam ou transgridem, além dos preconceitos e das convenções, este universo transfigurado, cuja heroína pretenderia consumar todas as ambições transgressivas, todos os impulsos fantasistas. Mesmo que, depois de inúmeras peripécias, as suas ilusões se dissolvam em busca da felicidade. Eis reincidências libidinosas ou dissolutas, entre visões de uma saga interminável - que se transferem, perturbantes, ao próprio olhar do leitor. Assim em causa e reexposto - pelo desafio libertino, libertário do imaginário…
IMAG.3-13-52-64-132-140-147-221-305-365-501

CALENDÁRiO

11DEZ2014-29MAR2015 - Em Lisboa, Museu do Design e da Moda/MUDE apresenta De Matrix à Bela Adormecida - exposição de figurinos de António Lagarto. IMAG.20

¸18DEZ2014 - Praça Filmes estreia O Gigante (2012) de Júlio Vanzeler e Luis da Matta Almeida; e Papel de Natal (2014) de José Miguel Ribeiro, com Crista Alfaiate e Ivo Canelas. IMAG.113-539

MEMÓRiA

¸24JAN1926-2013 - Georges Lautner: Cineasta francês, realizador de O Irresistível Avantureiro / Le Guignolo (1980) - «Tinha a ciência do cinema popular» (Rémy Julienne). IMAG.491

¨25JAN1746-1830 - Stéphanie Félicité du Crest de St-Aubin, Condessa de Genlis: Escritora francesa - «As qualidades do espírito produzem invejosos; as do coração, logram amigos».

¨1878-25JAN1946 - Afonso Lopes Vieira: Poeta português - «Se um inglês ao passar me olhar com desdém, / num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem! / se tens agora o mar e a tua esquadra ingente, / fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente. / Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa, / fui eu que t’as cedi num dote de princesa. / E para te ensinar a ser correcto já, / coloquei-te na mão a xícara de chá…» (Pois Bem! - excerto). IMAG.76-98-307-327

¨27JAN1826-1889 - Mikhail Yevgrafovich Saltykov-Stcherdrine, aliás Nikolai Shchedrin: Satírico russo - «Teve a sensação de que o tinham metido vivo num caixão, que estava entaipado, num sono letárgico, incapaz de mover um só membro, e que ouvia o Sanguessuga a insultar-lhe o cadáver…» (A Família Golovliov). IMAG.345

¨28JAN1916-01MAR1996 - Vergílio Ferreira: Escritor português - «Um autor fixa um tema. Mas esse tema, revelando, como revela, um interesse, revela sobretudo que foi só em torno dele que o artista pôde realizar-se como tal». IMAG.78-212-241-323

¨1940-28JAN1996 - Iosif Aleksandrovich Brodsky, aliás Joseph Brodsky: Poeta russo, naturalizado americano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1987) - «Sou judeu - um poeta russo, e um ensaísta inglês». IMAG.276

¨29JAN1866-1944 - Romain Rolland: - Escritor francês, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1915) - «É belo ser-se justo. Mas a verdadeira justiça não permanece sentada diante da sua balança, a ver os pratos a oscilar. Ela julga e executa a sentença». IMAG.102-496

¨1880-29JAN1956 - Henry Louis Mencken, aliás Henry Mencken: Jornalista e analista social americano - «Em resumo, a fé pode ser definida como uma crença ilógica na ocorrência do improvável». IMAG.290

1871-31JAN1926 - José Luiz Gomes de Sá Júnior: Negociante de bacalhau, com armazém de Rua do Muro dos Bacalhoeiros, na Ribeira do Porto; autor da receita Bacalhau à Gomes de Sá, oferecida ao proprietário do restaurante O Lisbonense, na Cidade Invicta. IMAG.309


VISTORiA     
Os Ninhos
¨Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.
 
São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.
 
Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.
 
Depois, lá têm
Os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.
 
Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!
 
Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos,
Da nossa mãe!
Afonso Lopes Vieira
         
INVENTÁRiO

O FILME DAS PALAVRAS
¨Em meados do século passado, Vergílio Ferreira tentava romper a chamada noite fascista com uma Manhã Submersa. Estava-se, mais propriamente, em 1953. Então, a censura impediu a publicação deste romance autobiográfico, que seria editado no ano seguinte - após o corte de um pequeno episódio que, mais tarde, foi reinserido na obra, um sucesso na sua carreira.
Tudo começa assim: «Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar. Foi ele que me trouxe no carro de bois de D. Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu - mal me falou».
Cinco lustros depois, falava eu com Vergílio Ferreira como Reitor do Seminário onde António, o seu alter-ego, foi parar desentranhado do seio materno e do meio social de miséria, em que se vivia por uma suposta década de 1940. Encontrámo-nos num cenário de fantasmas e assombrações, de réplicas e mutantes. Vergílio Ferreira nascera na aldeia de Melo, em 1906. Em Lisboa veio a falecer, já com noventa anos.
O cenário em causa era onde Lauro António dirigia Manhã Submersa, distinguindo série de televisão (1979) e longa metragem (1980), um dos filmes mais amados do pós-25 de Abril de 1974. Vergílio Ferreira concordara em encarnar uma das suas criaturas literárias, exorcizando os próprios traumas espectrais de infância. A experiência da interpretação iniciara-a com apenas seis anos, em peças de amador.
Considerando o novo desafio «uma prova terrível», para Vergílio Ferreira «o teatro é diferente do cinema: este fatiga, quebra-se o elã, o entusiasmo posto na representação - uma dádiva tão íntima de nós. Há, por outro lado, o artificialismo, todas as luzes usadas: como poderá um criador trabalhar com tanto material, com tal multidão de elementos técnicos? Gosto muito de cinema, mas jamais seria realizador!»
O vínculo de Lauro António a Vergílio Ferreira, que este considerava «uma atenção especial», principiara em 1975 com o curto Prefácio a Vergílio Ferreira e, além da apresentação televisiva Vergílio Ferreira Numa Manhã Submersa (1979), estendeu-se ainda a Mãe Genoveva (1983), na série Histórias de Mulheres. O filho daquele, Frederico Corado, adaptou e transpôs, por sua vez, A Estrela (1994).
A produção do Prefácio coube a Lauro António e a Manuel Guimarães, que antes mantivera uma estreita ligação ao escritor. Este fizera o texto para o documentário (sobre Júlio) Resende (1969), e Manuel Guimarães evocara Alegria Breve nas palavras finais do seu filme Lotação Esgotada (1972). Já no pós-25 de Abril, cinematizou um crepuscular Cântico Final (1975), concluído pelo filho Dórdio Guimarães.
Pare rematar a precária ligação entre Vergílio Ferreira e a sétima arte, há que referir a média metragem O Encontro (1978) por António de Macedo. Vergílio Ferreira aparece ainda em O Dia das Comunidades (1977), a cargo da Unidade de Produção Cinematográfica Nº 1, e participou em Táxi Lisboa (1996) de Wolf Gaudlitz. Sem dúvida, trata-se de um autor a redescobrir, nas suas plenas virtualidades.
Vergílio Ferreira tinha uma clara consciência sobre o que distingue um romance, ou «a arte da palavra», da sua transposição para cinema, «através das imagens e dos sons». «Este desafio será sempre apaixonante, porém delimita duas obras distintas - cada uma, com expectativas próprias. Ao ver este filme, eu não vou reviver a minha experiência, nem sentir-me num ambiente pessoal. Serei, apenas, um espectador.»
Aliás, à distância, observando Vergílio Ferreira como actor precário, em intervalos da rodagem, foi curioso analisar o seu ensaio de gestos e expressões, para a personagem que ele configurara do real, e com a qual se debatia agora em outros ciclos da ficção. Por um estranho fenómeno, que eu não me atrevi a desvendar, às vezes sentava-se à secretária de Reitor, e o autor tomava notas com a sua letra meticulosa.
«Ainda hesitei em escrever Manhã Submersa. Após alguns capítulos, decidi parar. Publiquei o primeiro na revista Vértice. Então, o Fernando Namora mandou-me uma carta, entusiasmado, incitando-me a continuar. Não me interessava uma narrativa confessional, sobre a adolescência, motivação em que a Presença foi fértil. Mas o romance permitiu-me recriar, denunciando uma sociedade fechada, totalitarista.»
@José de Matos-Cruz

PARLATÓRiO

¨Há dentro de nós um poço. No fundo dele é que estamos, porque está o que é mais nós, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos.
Vergílio Ferreira

BREVIÁRiO

¨Museu do Fado edita, com INCM/Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Poetas Populares do Fado Tradicional de Daniel Gouveia e Francisco Mendes.

¯Sony edita em CD, Xscape por Michael Jackson (1958-2009). IMAG.204-256-411

domingo, março 08, 2015

IMAGINÁRiO #547

José de Matos-Cruz | 16 Janeiro 2016 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004


PRONTUÁRiO

CREPÚSCULOS
Após uma primeira geração de notáveis artistas pioneiros, a banda desenhada de expressão franco-belga explora distintos horizontes e protagonistas, sob a estratégia das principais editoras, e visando um mais amplo público de adolescentes a adultos. Aos aliciantes da aventura correspondem os temas virtuais, estilizando-se versáteis grafismos pela pulsão estética e narrativa. Por tais parâmetros sobressai o argumentista Jean Dufaux, cuja notoriedade de firmou durante a década de ’80, no século passado, com Jessica Blandy, tendo reexposto o seu fértil engenho com o perturbante mistério de Rapaces (1998). A sofisticada ilustração do artista suíço Enrico Marini evoca a mangà nipónica, pelas atmosferas duma aventura sangrenta e sobrenatural, a qual é tributária do terror cripto-gótico na contemporânea exploração por Hollywood. Como motivo, uma série macabra de assassinatos rituais, assinalados pela mensagem junto às vítimas «o vosso reino chegou ao fim». Ambientada numa Nova Iorque crepuscular, entre vítimas e predadores, sob estigmas criminais / demoníacos, Rapaces é uma proposta para leitores adultos, ávidos de emoções fortes, sensuais, cuja ressurreição se precipita em quadradinhos…
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CALENDÁRiO

04DEZ2014-31JAN2015 - Em Lisboa, Diário de Notícias apresenta 150 Anos DN; exposição de fotografias do Arquivo do DN, sobre os momentos mais marcantes de Lisboa, sendo curador Rui Coutinho. IMAG.00-242-253-255-261-271-284-311-346-382-391-496-542

¯1930-07DEZ2014 - Fernando Machado Soares: Compositor português, cantor da música de Coimbra, autor de A Balada da Despedida («Coimbra tem mais encanto / na hora da despedida»), distinguido com o Prémio Tributo Amália Rodrigues «pela excelência da carreira artística e dedicação aos outros».

¢12DEZ2014-29MAR2015 - Em Lisboa, Museu da Electricidade / Cinzeiro 8 apresenta, com Fundação EDP, Almada Negreiros [1893-1970] - O Que Nunca Ninguém Soube Que Houve - exposição de desenhos, pinturas e livros do artista.  IMAG.84-135-154-173-224-278-292-305-371-413-498
          
VISTORiA

Se
¨Se és capaz de manter a tua calma, quando
toda gente em redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires;
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo o valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!
Rudyard Kipling


MEMÓRiA


¨ 17JAN1706-1790 - Benjamin Franklin: Jornalista, editor, cientista, filantropo e diplomata americano - «Escreve as tuas mágoas no pó, e as tuas vitórias no mármore… O importante não é viver muito, e sim viver bem». IMAG.270-271

¨ 1865-18JAN1936 - Rudyard Kipling: Escritor britânico, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura (1907) - «Nunca cometi nenhum erro na minha vida - pelo menos, um de que eu próprio não pudesse, mais tarde, explicar o motivo». IMAG.229-339-544

19JAN1736-1818 - James Watt: Matemático e engenheiro escocês, membro da Lunar Society, introduziu melhorias decisivas no motor a vapor - tendo servido de princípio à construção da primeira locomotiva viável a vapor em 1814, por George Stephenson, e fundamentais para a Revolução Industrial. IMAG.326-476

®20JAN1926-2010 - Patricia Neal: Actriz americana de cinema e teatro, distinguida com um Tony (1947) por Another Part of the Forest de Lillian Hellman - «Frequentemente, a minha vida foi comparada com uma tragédia grega… E a actriz que sou não pode negar essa comparação». IMAG.320

¸ 21JAN1926-2010 - Clive Donner: Realizador britânico de cinema e televisão - «Uma das coisas de que mais se orgulhava, era a sua influência na carreira de um número significativo de actores, como Alan Bates, David Hemmings e Ian McKellen» (Gavin Asher). IMAG.325

¯22JAN1916-2013 - Henri Dutilleux: Compositor francês - «A sua música, que traduzia uma alma perfeccionista, reflectiu frequentemente uma atenção pela literatura e pela exploração da memória» (Nuno Galopim). IMAG.349-421-466

¯27JAN1756-1791 - Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, aliás Wolfgang Amadeus Mozart: Compositor austríaco - «Querem saber como eu componho? Posso apenas dizer-lhes isto: quando me sinto bem disposto, seja na carruagem quando viajo, seja de noite quando durmo, ocorrem-me ideias aos jorros, de modo soberbo. Como e de onde, não sei. As que me agradam, guardo-as como se tivessem sido trazidas por outras pessoas, retenho-as bem na memória e, uma após a outra, tomo delas a parte necessária, para fazer um pastel segundo as regras do contraponto, da harmonia, dos instrumentos… Então, em profundo sossego, sinto aquilo crescer, crescer para a claridade, de tal forma que a obra, mesmo extensa, se completa na minha cabeça e posso abrangê-la de um só relance, como um belo retrato ou uma bela mulher… Quando chego a este ponto, nada mais esqueço, porque boa memória é o maior dom que Deus me deu». IMAG.36-55-68-90-102-106-118-172-186-205-216-217-220-227-277-284-285-290-317-321-342-349-375-406-431-449-475-500-503-534
  
VISTORiA

¨…E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não. Mil vezes não!
Temos, além disto, o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimo e excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
Almada Negreiros
- Manifesto Anti-Dantas e Por Extenso (excerto)

ANUÁRiO

¢1926-2010 - José Maria de Figueiredo Sobral: Escultor, ceramista, pintor, gráfico, ilustrador, cenarista, poeta, dramaturgo - «Sou um surrealista barroco» - cuja obra patenteia «o rigor e a procura do surpreendente e do imprevisível» (Álvaro Lobato de Faria). IMAG.320

BREVIÁRiO

¯Distrijazz edita em CD, sob chancela ECM, Last Dance por Keith Jarrett e Charlie Haden. IMAG.337-510-525