segunda-feira, setembro 15, 2014

IMAGINÁRiO #522

José de Matos-Cruz | 08 Julho 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

FASCÍNIOS
Após uma primeira geração de notáveis artistas pioneiros, a banda desenhada de expressão franco-belga exploraria distintos horizontes e protagonistas, sob a estratégia das principais editoras, e visando um mais amplo público de adolescentes e adultos. Aos aliciantes da aventura correspondem os temas virtuais, testando-se versáteis grafismos pela pulsão estética e narrativa. Por tais parâmetros sobressai Jean-Pierre Gibrat, cuja notoriedade de firmou com La Parisiènne (1983), na revista Pilote. Autor de minuciosa ilustração, sobre a fértil escrita de Daniel Pecqueur, Gibrat desenvolveu a saga de Claire Dulac, uma fascinante navegadora solitária em Maré Baixa/Marée Basse (1996). Após Pinóquia/Pinocchia (1995), um «conto de fadas para adultos», desta vez - subvertendo a fantasia moral, em todos os estigmas irónicos e perversos - não é um sapo desencantado, mas um macaco-de-circo que, ao beijo da bela Claire, se transforma em príncipe… amestrado! Uma Veneza pós-apocalíptica ressurge, sempre sedutora e fétida, tendo-se excedido Gibrat, num fascínio gráfico entre o sortilégio erótico e a provocação estilística. IMAG.48

CALENDÁRiO

¸07DEZ1915-24JUN2014 - Eli Herschell Wallach, aliás Eli Wallach: Actor americano de cinema, carismático secundário em Os Sete Magníficos (1960) de John Sturges ou O Bom, o Mau e o Vilão (1966) de Sergio Leone - distinguido com um Óscar Honorífico (2010) pela Academia de Hollywood.
                                                                                                   
¨26JUL1925-25JUN2014 - Ana María Matute Ausejo, aliás Ana Maria Matute: Escritora espanhola, autora de O Esquecido Rei Gudú (1996), membro da Real Academia Española, distinguida com o Prémio Cervantes (2010) - «Quem não inventa, não vive». IMAG.413

¸26JUN2014 - Bando à Parte estreia Cativeiro de Rodrigo Areias (com Alzira Pinho e Irene Alves), 1960 de André Gil Mata e Yama No Anata/Para Além das Montanhas de Aya Koretzky. IMAG.284-414-514-517
                                                           
¢26JUN-25OUT2014 - Em Lisboa, Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva expõe, com Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, Tapeçarias de Portalegre Na Obra de [Maria Helena] Vieira da Silva (1908-1992), sendo curadora Vera Fino. IMAG.14-39-42-75-134-168-182-224-227-382-386-392-434-461-486-490-499-500-502

µ27JUN-31AGO2014 - No Porto, Edifício Axa apresenta L’Imaginaire d’Après Nature - exposição de fotografia de Henri Cartier-Bresson (1908-2004). IMAG.5-477

¢27JUN-21SET2014 - Em Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian expõe O Traço e a Cor - Desenhos e Aguarelas Na Colecção Calouste Gulbenkian.
                  
MEMÓRiA

¯09JUL1935-2009 - Mercedes Sosa, aliás La Negra: Cantora argentina - «Ela deu voz à maioria silenciosa, àqueles que não podiam falar no tempo da ditadura na Argentina» (Victor Heredia). IMAG.271 

¯10JUL1895-1982 - Carl Orff: Compositor, maestro e professor germânico, fundou em 1924 com Dorotee Günther uma escola de música, ginástica e dança - «Estas actividades interessavam-me, na medida em que cada vez mais se conectavam ao meu trabalho para o teatro». IMAG.364

10JUL1925-2009 - Vasco Granja: Pioneiro e primordial divulgador em Portugal da banda desenhada e do cinema de animação - «uma linguagem autónoma, que nada ou quase nada tem a ver com a técnica e a estética do cinema, excepto no que se refere ao suporte material». IMAG.250-384-385

¯1926-11JUL2005 - Piero Cappuccilli: Barítono italiano, prestigiado na interpretação de obras de Giuseppe Verdi - «A sua dimensão vocal, teatral e artística convertem-no em uma das maiores personalidades da representação do Século XX» (Rubén Amón).
 
¨1837-15JUL1885 - Rosalía de Castro: Novelista e poetisa galega, autora de Folhas Novas (1880) - «Bem sei que não há nada / de novo sob o céu, / Que antes outros pensaram / As cousas que ora eu penso. // Bem, para que escrevo? / Bem, porque assim somos: / Relógios que repetem / Eternamente o mesmo.» (Vaguedades - excerto). IMAG.43

VISTORiA


Cantiga
¨Eu cantar, cantar, cantei;
a graça não era muita,
pois nunca por meu pesar,
fui eu menina graciosa.
Cantei como foi possível,
dando voltas e mais voltas
assim como quem não sabe
perfeitamente uma cousa.
Porém depois de mansinho
e um pouco mais alto agora,
fui soltando essas cantigas
como quem não quer a cousa.
Eu bem quisera, é verdade,
que elas fossem mais bonitas;
eu bem quisera que nelas
bailasse o sol com as pombas,
as brancas águas com a luz,
e os ares mansos com as rosas.
Que nelas claras se vissem
a espuma das verdes ondas,
do céu as brancas estrelas
da terra as plantas formosas,
as névoas de cor sombria
que lá nas montanhas voam;
os pios do triste mocho,
as campainhas que dobram
a primavera que ri,
e os passarinhos que voam.

E canta que canta, enquanto
os corações tristes choram.
Isto e ainda mais quisera
dizer com língua graciosa;
mas onde a graça me falta,
o sentimento me sobra.
Entretanto isto não basta
par explicar certas cousas
que, às vezes, por fora um canta
enquanto por dentro chora.
Não me expliquei qual quisera:
sou de pouca explicação;
se graça em cantar não tenho,
o amor da terra me afoga.
Eu cantar, cantar, cantei,
a graça não era muita,
mas que fazer – desgraçada! –
se não nasci mais graciosa.
Rosalía de Castro
- Tradução de Henriqueta Lisboa
         
ANUÁRiO

O1865 - O número de empregados do Estado em todo Portugal é de 12.811, sendo 3.503 no Ministério dos Negócios da Fazenda, 3.290 no Ministério dos Negócios do Reino, e de 3.442 no Ministério dos Negócios da Guerra.
    
BREVÁRiO

¨Dom Quixote edita Retrato de Rapaz- Um Discípulo No Estúdio de Leonardo da Vinci de Mário Cláudio. IMAG.51-220-520

¯Alia Vox edita em CD, Orient Occident II - Homenagem à Síria por Jordi Savall, com Hispèrion XXI.
       
GALERiA

Tapeçarias de Portalegre
Na Obra de Vieira da Silva

¢A exposição Tapeçarias de Portalegre Na Obra de Vieira da Silva integra todas as tapeçarias realizadas na Manufactura, e agora na posse de instituições e particulares. A única excepção é a obra Êxodo, de 1981, que pela sua enorme dimensão não  pode ser exposta no espaço do museu. O primeiro contacto de Maria Helena Vieira da Silva com o têxtil data de 1929, ao realizar maquetas de tecidos e tapetes para um atelier em Paris, que nunca viriam a ser executados. Em 1937, Vieira da Silva e a Arpad Szènes recebem como encomenda copiar uma pintura de Matisse e outra de Braque, para serem reproduzidas em tapeçaria: a de Braque seria tecida, a de Matisse não. Em 1954, Vieira da Silva ganha o concurso de tapeçarias que serviria para celebrar o centésimo aniversário da Universidade de Basileia, projecto que desenvolve durante vários anos e que terá sido o primeiro e o mais importante para a artista na área do têxtil. Em 1965, outras manufacturas realizam tapeçarias a partir de obras de Vieira da Silva,  como a Manufactura de Beauvais e os ateliers Gobelins.
Em Portugal, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, por iniciativa de Guy Fino, inicia em 1968 a execução de um importante conjunto de tapeçarias a partir de obras de Vieira da Silva; não tendo intervenção directa nas peças, as tapeçarias tecidas a partir da sua obra agradavam-lhe. Todavia, Vieira da Silva criou poucos verdadeiros cartões de tapeçaria, em resposta a encomendas: em 1960 realizou o cartão Mouraria para as Manufacturas de Portalegre (a tapeçaria só seria realizada em 1975), um desenho de composição e cor simples; em 1971 concebe uma Biblioteca para a sala das Actas da Faculdade de Letras da Universidade de Bordéus, produzida nos Ateliers Pinton d’Aubusson. A pedido do Estado francês, Vieira da Silva pinta uma segunda versão, com uma gama de cores completamente modificada: a conhecida Bibliothèque En Feu (1970-1974), obra notável adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian, também realizada nos Ateliers Pinton.
Em 1981, o Ministério da Cultura e o Ministério dos Negócios Estrangeiros franceses encomendam a Vieira da Silva uma tapeçaria destinada ao altar da capela do Palácio dos Marqueses de Abrantes, sede da Embaixada de França em Lisboa, para além de cinco painéis pintados destinados à sacristia. Feita uma experiência com um pormenor do original, uma tapeçaria de pequenas dimensões para testar a técnica e confirmar a opção dos tons quentes e claros que, conjugados com o tema espiritual melhor estabelecessem uma relação directa com os cinco painéis, seria então produzida a tapeçaria final.
A Manufactura de Tapeçarias de Portalegre nasce em 1946, fundada por Guy Fino e Manuel do Carmo Peixeiro, e ainda hoje se dedica a preservar e reabilitar a arte da tecelagem,  e a reafirmar a técnica da tapeçaria como técnica artística original. Maria Helena Vieira da Silva, como outros artistas portugueses, participou na promoção da arte através da prática da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, iniciando um incontornável processo de autonomia da tapeçaria artística. É da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, hoje fragilizada pela escassez de recursos humanos e financeiros, o maior conjunto de tapeçarias suas, que permite apreender a diversidade e a unidade da sua produção artística.
     
EXTRAORDINÁRiO

OS SOBRENATURAIS
- Folhetim Aperiódico

ENTRE AS TERRAS DO SOL E O REINO DAS TREVAS - 1
9 de Novembro de 1903
Com o esbatido rosto em tristeza, Celeste pairou o olhar, de novo, sobre as palavras escritas ao vento. Apertou com quanta força podia e, pelo atrito do seu desespero, a folha mensageira entrou em combustão espontânea. Ou tê-lo-ia Hélio previsto? As frases inflamadas, desistindo embora de mais um encontro, iam esfumando as últimas expectativas íntimas à bela moça.
 
– Continua

sexta-feira, setembro 12, 2014

IMAGINÁRiO #521

José de Matos-Cruz | 01 Julho 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

REINVENÇÕES

Ao ser confrontado, em entrevista, com o fascínio que o imaginário americano exerce, sobre os artistas europeus, logo no domínio especializado da aventura criminal, Jacques Tardi - o prestigiado autor de Griffu (1977) - comentou uma insinuante estratégia de expropriação e reincidência: tradicionalmente, o que o Velho Continente inventa, é explorado pelo Novo Mundo - em especial ao nível tecnológico e artístico, como o cinema. Agora, a banda desenhada - logo de expressão franco-belga - permite transfigurar esses sinais mitificados, sob o signo do espectáculo. Eis, também, a perspectiva recriada em O Peixe-Palhaço / Le Poisson-Clown (1998) por David Chauvel (argumento) & Frédéric Simon (grafismo). Chegado de Henryetta, a terra natal no Oklahoma, à grande cidade, a Denver dos anos ’50, Happy Wimbush - um jovem rústico e simplório - é envolvido nas engrenagens sofisticadas e violentas da Máfia… Uma narração confessional, uma ilustração evolutiva, fundamentam as vivências circunstanciais de um nóvel e relutante herói.

CALENDÁRiO

¢07JUN-14SET2014 - Em Lisboa, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado expõe, com Fundação Carmona e Costa, Antológica - da Pintura à Pintura de Pires Vieira, sendo curadora Adelaide Ginga.

¨1927-15JUN2014 - Daniel Keyes: Professor e escritor americano, autor de Flowers For Algernon (1966), distinguido com o Prémio Nebula - «A minha actividade académica estava a afastar-me das pessoas que amo… Até que pensei: o que aconteceria, se fosse possível ampliar a capacidade intelectual de alguém?» (Algernon, Charlie, and I: A Writ’s Journey - 2000).

¸16JUN-JUL2014 - Em Lisboa, Cinemateca Portuguesa apresenta António da Cunha Telles - Mudar de Vida, retrospectiva de homenagem ao realizador, produtor e distribuidor, personalidade fundamental do Novo Cinema Português. IMAG.14-37-158-362-434-445

¯1928-18JUN2014 - Horace Ward Martin Tavares Silva, aliás Horace Silver: Compositor e músico americano de jazz, saxofonista e pianista, co-fundador do hard bop, líder de The Jazz Messengers, tocou com Stan Getz ou Miles Davis, tendo criado «um legado entre as décadas de 1950 e 1960 altamente influente» (Diário de Notícias).

¸19JUN2014 - NOS Audiovisuais estreia O Homem Duplicado/Enemy de Denis Villeneuve; sobre a obra de José Saramago, com Jake Gyllenhaal e Isabella Rossellini.

®1930-20JUN2014 - Jaime Gaspar Gralheiro, aliás Jaime Gralheiro: Dramaturgo, encenador, advogado e político português, co-fundador do CITAC/Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, autor de Onde Vaz, Luiz? (1980) - «Homem de princípios, convicções e palavra firme e clara» (Sociedade Portuguesa de Autores/SPA).

¢27JUN-31AGO2014 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta Travessia - exposição de pintura e escultura de Cláudia Lima.

27JUN-31DEZ2014 - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa expõe Portugal e a Europa Em Cartoons, em organização do Gabinete de Informação do Parlamento Europeu em Portugal, com o Instituto de História Contemporânea e o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem/CNBDI da Câmara Municipal da Amadora; inclui visões de António Jorge Gonçalves, Cristina Sampaio, Fernando Relvas, Rodrigo de Matos e Telmo Ferreira, sobre a União Europeia e a participação de Portugal.
                    
MEMÓRiA


¸01JUL1925-2011 - Farley Granger: Actor norte-americano de cinema, televisão e teatro - «Sinto-me mais à vontade em frente dos espectadores do que de uma câmara. Há uma correspondência entre nós. O público ao vivo afecta-me, e isso é bom». IMAG.351

COMENTÁRiO

¸François Truffaut: Farley Granger, que estava excelente em Rope / A Corda (1948), não convence muito em Strangers On a Train / O Desconhecido do Norte Expresso (1951). Eu julgava que o senhor queria apresentá-lo assim, lançando-lhe um olhar muito severo, pois interpreta uma personagem de play-boy oportunista: ao pé dele, Robert Walker é muito inspirador, e torna-se bastante mais simpático. Claramente, apercebemo-nos de que, neste filme, as suas simpatias vão para o mau.
Alfred Hitchcock: Claro que sim; sem dúvida nenhuma.
François Truffaut
- O Cinema de Alfred Hitchcock
     
PARLATÓRiO
 
OO Orçamento nacional deve ser equilibrado. É preciso reduzir as dívidas públicas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Há que reduzir os pagamentos a Governos, ou a Nação vai à falência. As pessoas têm de reaprender a trabalhar, em vez de viverem por conta pública.
Marcus Tullius Cicero
(Roma - 55aC) 
    




ANTIQUÁRiO

JUL1865 - Neste momento, trabalham 14.589 operários nas estradas e em outras obras públicas do Reino de Portugal.
    
ANUÁRiO

1875 - Neste ano, o distrito do Porto produz 3.945 litros de mel e 2.435 quilos de cera.
         
NOTICIÁRiO

Maria das Tairocas
Foi ontem condenado como vadio, em dois meses de prisão, o célebre Augusto Nunes, por alcunha a Maria das Tairocas, que há tempos deu muito que falar, no sujo caso dos camareros. Depois de cumprida a pena, vai ser entregue ao Governo.
05JUL1885 - Diário de Notícias
          
DOCUMENTÁRiO

António da Cunha Telles
- Mudar de Vida
¸Importante figura do cinema português, que marcou fortemente no início dos anos 1960, quando emergiu como produtor do Novo Cinema, quase uma década antes de se iniciar na realização, António da Cunha Telles (nascido no Funchal, em 1935) é protagonista de um prolífero percurso cujas várias vertentes, como realizador, produtor e distribuidor, marcam o panorama da cinematografia portuguesa há seis décadas. É à sua obra que a Cinemateca dedica uma retrospectiva - integral como realizador, e extensiva nos capítulos da produção e da distribuição. Intitulada António da Cunha Telles - Continuar a Viver, a manifestação tem início com a projeção de O Cerco, a sua primeira longa-metragem como realizador em 1970, e é acompanhada pela publicação de um catálogo.
Autor a esta data de seis longas-metragens, em que para além de O Cerco, se incluem Meus Amigos (1974), Continuar a Viver ou Os Índios da Meia Praia (1976), Vidas (1983), Pandora (1993) e Kiss Me (2004), como realizador, Cunha Telles filmou retratos de geração (O Cerco, Meus Amigos, Vidas), cruzou a militância do Cinema de Abril com um surpreendente olhar etnográfico (Os Índios da Meia Praia), filmou uma ficção em que é permitida a leitura de um autorretrato (Pandora) e um filme de época em que voltou ao início dos anos 60, propondo um surpreendente retrato feminino (Kiss Me).
Associando o início da sua atividade, como produtor, ao arranque do Novo Cinema nos anos 60, com Os Verdes Anos de Paulo Rocha (1963), Belarmino de Fernando Lopes (1964) e Domingo à Tarde de António de Macedo (1965), António da Cunha Telles produziu também, nesses anos, Faria de Almeida, Manuel Guimarães e Carlos Villardebó, mas também Pierre Kast (PXO, correalizado com Jacques Doniol-Valcroze, e Vacances Portugaises, 1963-64, este último com Clara d'Ovar) e François Truffaut (La Peau Douce, 1964, de que foi produtor associado). Os filmes das Produções Cunha Telles são também mostrados, neles se incluindo uma sessão de números de 1967 do jornal de actualidades Cine Almanaque, produzido para a Ulyssea Filme.
O seu relevante trabalho como distribuidor na Animatógrafo está representado na retrospectiva, com a exibição de filmes de Jean Renoir, André Malraux, Glauber Rocha, Jean-Luc Godard, Jan Nemec, Alain Tanner e, em primeiras apresentações na Cinemateca,  Yawar Mallku / Sangue de Condor de Jorge Sanjines (1969) e Attica de Cinda Firestone (1972). O documentário Chamo-me António da Cunha Telles, de Alvaro Romão, produzido por Isabel Chaves para Hora Mágica (2011), é também um filme em exibição.
             
BREVÁRiO

¨Porto Editora re-edita O Homem Duplicado (2002) de José Saramago (1922-2010). IMAG.38-75-155-158-196-198-224-241-245-252-263-268-311-331-385-394-412-475

¨Em Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos / CEB edita A Serra da Arrábida Na Poesia Portuguesa - colectânea com selecção de António Mateus Vilhena e Daniel Pires. IMAG.32-42-151-436

¨Casa das Letras edita Sono de Haruki Murakami; tradução de Maria João Lourenço. IMAG.337

¨Presença edita Quando o Cuco Chama de Robert Galbraith, aliás J.K. Rowling; tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. IMAG.5-62

¨Assírio & Alvim re-edita Obscuro Domínio de Eugénio de Andrade (1923-2005). IMAG.33-45-150-248-303-326-389-423-432-460-485-518

¯Universal edita em CD, White Light / White Heat - DeLuxe Edition por The Velvet Underground. IMAG.189

¨Antígona edita As Portas da Percepção de Aldous Huxley (1894-1963); tradução de Paulo Faria. IMAG.71-165-332-444-475-510 

quarta-feira, setembro 03, 2014

IMAGINÁRiO #520

José de Matos-Cruz | 24 Junho 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

OUSADIAS
Formando uma das mais fascinantes e talentosas duplas artísticas, na banda desenhada de expressão europeia, Schuiten & Peeters são uma parceria quase mítica, tendo sagrado em Memórias do Eterno Presente / Souvenirs de l’Éternel Présent (1997) - para As Cidades Obscuras / Les Cités Obscures - uma variação sobre o universo do filme Taxandria de Raoul Servais, do qual Benoît Peeters foi co-argumentista, sendo a concepção gráfica de François Schuiten. Estamos no País do Eterno Presente, seguindo a passagem de Aimé - um miúdo libertário, como sempre atrasado de manhã, ao ir para a escola - pelas ruas e edifícios dessa fantástica metrópole, solitária e arruinada. Uma história que Aimé nos revela, curioso e ousado, enquanto protagoniza um futuro virtual… Com uma alternativa titular em Memórias do Eterno Retorno, eis a prodigiosa arquitectura do imaginário - plena de referências irónicas e alegóricas, pela magistral recriação de Schuiten & Peeters. Segundo este, «a partir da banda desenhada, podemos referenciar outras famílias de imagem. Desde logo, há uma relação privilegiada com os filmes clássicos». IMAG.215-248-269-400-444



 MEMÓRiA

¨21JUN1935-2004 - Françoise Quoirez, aliás Françoise Sagan: «O meu passatempo favorito é deixar passar o tempo, ter tempo, aproveitar o meu tempo, perder o tempo, viver a contratempo». IMAG.13-63-484

¯1890-24JUN1935 - Charles Romuald Gardés, aliás Carlos Gardel: Artista e compositor argentino, nascido em França, actor e cantor de tango - «As pessoas das diversas partes do mundo podem ter diferentes costumes, idiomas estranhos. Mas há algo mais profundo, em comum: a afinidade que nos faz perceber que todos somos membros da família humana… Que todos somos irmãos». IMAG.46-339-375

¯27JUN1885-1950 - Guilhermina Suggia: Violoncelista portuguesa - «Pelos portões ingressar do Real Palácio das Necessidades, notificada por um punhado de Braganças que declinam os restos de seu poder, a Guilhermina pareceria um presente de fadas. Ainda lhe determinaria o pai a toilette, pela mãe beneficiada, a de Virgínia também, já por então a seu gosto hiperbólico sobrepondo a razão protocolar, nem sequer de extrema rigidez.» (Mário Cláudio - Guilhermina). IMAG.40-48-103-133-166-204-284
   
®27JUN1935-2010 - Laurent Terzieff: Encenador francês e actor de teatro e cinema - Revelado por Marcel Carné em Les Tricheurs (1958), distinguido com o Prémio Molière (2010). IMAG.314

¨1808-28JUN1875 - Guilherme Centazzi: Escritor português, autor de O Estudante de Coimbra (1840) - «Sem dúvida, o melhor espécime da actual escola das belles lettres portuguesas com que até à data nos deparámos» (Thomas Carlyle - Fraser's Magazine, 1848). IMAG.426

¨1804-29JUN1855 - Delphine-Gay de Girardin, aliás Viconde Charles Delaunay: Escritora francesa - «A força dos Governos é inversamente proporcional ao peso dos seus impostos». IMAG.452

¨29JUN1865 - No Porto, morre Evaristo José d’Araujo Basto, «cujos folhetins humorísticos serão sempre lembrados pelos amigos das boas letras». 01JUL1885 - Diário de Notícias

¨29JUN1905-1987 - Jean Émile Louis Scutenaire: Poeta belga, anarquista e surrealista - «O homem toma por inteligência o uso das suas faculdades de imaginação».
   
CALENDÁRiO

¸12JUN2014 - Outsider Filmes estreia Diamantes Negros (2014) de Miguel Alcantud; com António Barroso e Hamidou Samaké.

¢06SET1935-14JUN2014 – Isabelle Collin Dufresne, aliás Ultra Violet: Actriz e artista plástica de origem francesa, radicada em Nova Iorque, musa de Salvador Dali (1904-1989) e ícone de Andy Warhol (1928-1987), símbolo vivencial da Factory - «À medida que nos aproximamos da nossa verdadeira natureza, somos mais felizes» (2011). IMAG.6-38-64-70-119-128-173-189-234-288-319-356-463-466

VISTORiA

¨Não tive dificuldade alguma em amá-lo, e com ternura, porque ele era bom, generoso, alegre e gostava muito de mim. Não posso imaginar melhor amigo nem mais divertido. Naquele começo de Verão, levou a sua delicadeza ao ponto de me perguntar se a companhia de Elsa, então sua amante, me não iria contrariar durante as férias. Eu sabia como as mulheres lhe faziam falta e também que Elsa não seria aborrecida; assim, limitei-me a apoiá-lo. Ela era uma rapariga alta, ruiva, meio ingénua, meio mundana, que fazia de figurante nos estúdios e nos bares dos Champs-Elysées. Era simpática, bastante simples e sem pretensões sérias. Aliás, tanto o meu pai como eu estávamos demasiado felizes com a partida, para fazer qualquer objecção ao que quer que fosse. Ele tinha alugado, na costa do Mediterrâneo, uma grande vivenda branca, isolada, maravilhosa, com que sonhávamos desde os primeiros calores de Junho. Ficava num promontório, sobre o mar, escondida da estrada por um pinhal; um caminho de cabras descia até uma enseadazinha dourada, cercada de rochedos avermelhados onde o mar se baloiçava.
Françoise Sagan
- Bonjour Tristesse
(excerto)
    
TRAJECTÓRiA

Guilherme Centazzi
¨Nascido em 20 de Novembro de 1808, na cidade de Faro, Guilherme Centazzi era filho de pai veneziano e de mãe portuguesa. Apesar destas suas origens, nas suas obras vinca sempre o seu amor ao Algarve – a quem atribui o seu «defeito» de ser falador e grulha – e nota-se um forte patriotismo.
Formou-se na Faculdade de Medicina de Paris, obtendo o grau de Doutor, após ter fugido de Portugal por causa das suas opções liberais.
Regressado a Portugal em 1834, viveu em Lisboa, mas exerceu medicina em diversas regiões em redor da capital. Durante as epidemias de febre amarela, na década de 50, a sua acção foi reconhecida com a comenda de cavaleiro da Ordem de Cristo, numa época em que lhe morreria, num curto espaço de tempo, o seu filho – da sua primeira mulher, que falecera pouco depois do parto –, a nora e o neto.
Além de diversas obras de medicina, foi o precursor em Portugal de escritos sobre as vantagens da ginástica na saúde – algo que foi visto na época como uma excentricidade – e inventou uns rebuçados peitorais, cuja comercialização industrial e sucesso se estenderia até meados do século XX.
A sua vida literária estendeu-se à poesia – em que se estreou em 1827, aos 19 anos, ainda como estudante em Coimbra –, ao romance, à dramaturgia e a composições para piano e canto. Era um exímio instrumentista em saraus da burguesia e nobreza, tendo integrado uma orquestra onde pontuava o famoso conde de Farrobo.
Foi ainda proprietário de dois periódicos efémeros: Desenganos da Vida (1863) e O Semanário (1867-1868).
Morreu em Lisboa, a 28 de Junho de 1875, e está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, no jazigo que pertencia a um primeiro-ministro durante um governo da Monarquia Constitucional.
http://www.clubedoslivros.org/
    
ANTIQUÁRiO

¨27JUN1865 - Camilo Castelo Branco (1825-1890) tem um novo livro no prelo, titulado Esboços de Apreciações Literárias, sendo posto à venda na Livraria Moré do Porto.
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BREVÁRiO
 
¨A Esfera dos Livros edita Exploradores Portugueses e Reis Africanos de Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde.

¯VGM edita em CD, sob chancela Alpha, Antonio Vivaldi [1678-1741]: Estro Armonico - Libro Secondo por Café Zimmermann. IMAG.169-205-209-254-265-284-294-332-426

¨Guimarães edita Caderno de Significados de Agustina Bessa-Luís. IMAG.11-33-83-92-209-216-223-239-243-341-481

¯Decca Classics edita em CD, The [Agostino] Steffani [1654-1728] Project por Cecilia Bartoli e Diego Fasolis. IMAG.445-476

¨Dom Quixote edita Nenhuma Vida de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013). IMAG.71-96-157-229-384-420-476

¨Saída de Emergência edita A Sagração da Primavera de Alejo Carpentier (1904-1980); tradução de José Manuel Lopes.
         
EXTRAORDINÁRiO

OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico

ATRAPALHADO NA CARCAÇA
O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 9

Entretanto, Graciosa manteve-se por uns dias ainda mais sorumbática, arreliando o dependente Damião. Era como se a velha tramasse qualquer coisa. Até que, imprevista, se saiu com esta:
- Escuta lá, e quando é que arranjas uma mulher?
- O quê, mas é... - ensarilhou-se a língua ao desgraçado. - Mas uma companheira já eu tenho, és tu!
- Bem me estava já a doer… - resmungou a megera, amarfanhando carinhosa o ventre. - Com tudo isto, ainda tenho que desossar-te! 

– Continua

sexta-feira, agosto 22, 2014

IMAGINÁRiO #519

José de Matos-Cruz | 16 Junho 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO

AVENTURAS
No panorama da banda desenhada franco-belga, Hermann Huppen distingue-se entre os artistas mais talentosos, sólidos e versáteis, conjugando as tradições da acção, sob o signo heróico, com o testemunho crítico, sobre a realidade em transe. Basta recordar alguns segmentos determinantes da sua extensa carreira: Jugurtha (com guiões por Laymillie), Bernard Prince e Comanche (por Greg), Nic (por Morphée), Le Secret des Hommes-Chiens (por Yves Huppen). Mas é como autor integral, que o argumentista & ilustrador Hermann atinge, porventura, a expressão da sua plena vitalidade: Abominable, Missié Vandisandi ou Sarajevo-Tango, o épico Les Tours de Bois-Maury - conjugando todas as paisagens intemporais, todos os horizontes da história, em conflitos, dramas, humores, emoções, confrontos. Ainda nesta modalidade, muitos dos fiéis leitores privilegiam o culto de Jeremiah - cuja exaltação aventuresca culmina em Mercenaires. Tudo começa algures numa região desolada, durante uma tempestade de areia. Jeremiah e Kurdy chegam à aldeia mineira de Sears & Como, com um velhote, Angus Greenspoon, enquanto um estranho grupo paramilitar assola a região… IMAG.319



CALENDÁRiO

¨MAI2014 - O poeta, ensaísta e historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva é distinguido com o Prémio Camões.

¸05JUN2014 - Alambique estreia A Vida Invisível de Vítor Gonçalves; com Filipe Duarte e Maria João Pinho.

¢05JUN-31AGO2014 - Museu de Évora expõe Subitamente, o Povo de José Miguel Gervásio.

µ20JUN-13JUL2014 - Em Cascais, Casa de Santa Maria apresenta Magie Naturalis, exposição de fotografia de António Lopes.
       
MEMÓRiA

1831-19JUN1875 - Levy Maria Jordão, Visconde e Barão de Paiva Manso: Escritor e jurisconsulto português, adversário da aplicação da pena de morte, político e professor universitário, historiador e advogado da Casa de Bragança, membro da loja maçónica Liberdade e da Comissão Revisora do Código Penal, autor de Portugalliae Inscriptiones Romanae (1859) ou de História do Congo - Documentos (1877) - «A nossa lei penal [Código de 1852] por certo que é melhor do que a antiga Ordenação quanto aos princípios que a dominam, mas na sua parte geral é sem dúvida a mais imperfeita da Europa civilizada» (1853).


¨1800-18JUN1875 - António Feliciano de Castilho: Escritor e pedagogo português - «Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, que é o que mais nos encanta? Não são por certo as descrições dos seus usos exclusivos, ainda que para aí se atraia fortemente a curiosidade; são, sim, os toques alusivos ao viver rural, porque enfim, aí é que é o ponto de contacto de todas as idades, e de todas as civilizações. O campo é que é o centro de unidade da espécie humana» (Felicidade Pela Agricultura - 1849). IMAG.32-39-52-59-99-118-161-260-354-406

1928-20JUN2005 - Charles David Keeling: Cientista norte-americano, químico de formação, estabeleceu a Curva de Keeling, para a investigação das alterações climáticas.

¨21JUN1905-1980 - Jean-Paul Sartre: Escritor e filósofo francês - «Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é» (O Ser e o Nada). IMAG.39-183-267-270-468

 04MAI1825-29JUN1895 - Thomas Huxley: Biólogo inglês - «Em temas intelectuais, segue a tua razão tanto quanto possas, sem temer qualquer outro tipo de consideração. E, em sentido negativo: em temas intelectuais, não finjas que é certa alguma conclusão que não tenha sido demonstrada ou seja demonstrável».

VISTORiA

Confia numa testemunha, só quando ela fala de questões em que não se acham envolvidos nem o seu interesse próprio, nem as suas paixões, nem os seus preconceitos, nem o amor pelo maravilhoso. No caso de haver algum de tais envolvimentos, deves requerer uma evidência corroborativa, em proporção exacta à violação da probabilidade evocada pelo seu testemunho.
Thomas Huxley
- Essays Upon Some
Controverted Questions

¨Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta; e aturde quem nela cai; mas, logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios; fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas; descerrou-se o negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas.
Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso; a divindade interior, a alma, têm comércios inefáveis com o íntimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão, reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.
António Feliciano de Castilho
 - A Chave do Enigma
(1836 - excerto)

Antes de Vivermos, a Vida É Coisa Nenhuma

¨O homem começa por existir, isto é, o homem é de início o que se lança para um futuro e o que é consciente de se projectar no futuro. O homem é primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podridão ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no céu ininteligível, e o homem será em primeiro lugar o que tiver projectado ser. Não o que tiver querido ser. Porque o que nós entendemos ordinariamente por querer é uma decisão consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto é manifestação de uma escolha mais original, mais espontânea do que se denomina por vontade.
Escreveu Dostoievsky: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido.» É esse o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque não encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se. Ao começo não tem desculpa. Se, na verdade, a existência precede a essência, não é possível explicação por referência a uma natureza humana dada e hirta; dito de outro modo, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos em face de nós valores ou ordens que legitimem a nossa conduta. Assim, não temos nem por detrás de nós nem à nossa frente, no domínio luminoso dos valores, justificação ou desculpas. Estamos sozinhos, sem desculpa. É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.
Se suprimi Deus Pai, cumpre que alguém invente os valores. Temos de tomar as coisas como elas são. Aliás, dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido.
Jean-Paul Sartre
- O Existencialismo É Um Humanismo
(excertos)
          
ANTIQUÁRiO

01JUL1864-30JUN1865 - Neste período, no concelho de Lisboa…
…o valor de sardinha consumida é de 61:662$400 réis.
…são importados, de vários países, 28.590.423 quilogramas de diversos cereais.
…o valor de frutos produzidos é de 25:041$700 réis.
…são gastas 150.362 caixas de carvão.
…o valor de pescado é de 15:870$070 réis.
…são consumidos 682.200 melões, 521.376 melancias, 8.700.900 laranjas, e 850.016 decilitros de vinho comum que pagaram direitos de alfândega.
        
BREVÁRiO

¨Assírio & Alvim re-edita Os Passos Em Volta de Herberto Helder. IMAG.221-440-487-504

¨A Esfera dos Livros edita Espiões Em Portugal Durante a II Guerra Mundial de Irene Flunser Pimentel.

¯Harmonia Mundi edita em CD, Bela Bartók [1881-1945]: Violin Concertos Nºs 1 & 2 por Isabelle Faust, com Swedish Radio Symphony Orchestra, sob a direcção de Daniel Harding. IMAG.128-213-236-316-335-435

¨A Esfera dos Livros edita Gungunhana - O Último Rei de Moçambique de Manuel Ricardo Miranda.

¨
Guimarães edita Exaltação da Filosofia Derrotada de Orlando Vitorino (1922-2003).