sábado, julho 12, 2014

IMAGINÁRiO #513

José de Matos-Cruz | 1 Maio 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
SUBVIVÊNCIAS
Segundo as convenções romanescas da arte norte-americana, o imaginário criminal é a preto-e-branco. Por um lado simbolicamente, quanto aos contrastes radicais entre o bem e o mal; e também por motivos cinéfilos, na tradição no filme de gânguesteres configurada em Humphrey Bogart. Entre tais nexos éticos e estéticos, Jacques Tardi veio propor um estilo híbrido, através de Griffu - um cinzento neutro, tal como se perverteu o conflito eterno das luzes contra as trevas; uma sombria gama gráfica, em que se dissimula a fauna urbana de vigaristas, escroques, chantagistas… Afinal, só a violência é vermelha como a cor do sangue, cujo sabor seco e salgado também escapa à banda desenhada.
Nascido vítima em 1977 e, entretanto, alvo de muitas mortes como cobrador de dívidas, este anti-herói logra sobreviver entre a miséria humana, a marginalidade social, enfrentando cada ameaça como um patético fio de intriga, em que acaba por se enforcar. O dito é simbólico, menos grotesco que uma bala real de calibre 22! Mas tanto faz, num mundo que - para o argumentista Jean-Patrick Manchette - «entre 1920 e os dias de hoje, é totalmente dominado por sacanas». Ou, como remata Tardi, eis «uma história de gente corrupta e vilões da pior espécie». IMAG.312-336-347

CALENDÁRiO
¸08MAI2014 - Pandora Filmes estreia As Ondas de Abril/Les Grandes Ondes de Lionel Baier; com Francisco Belard e Valérie Donzelli.

¯1939-08MAI2014 - Jair Rodrigues de Oliveira, aliás Jair Rodrigues: Cantor brasileiro, intérprete de Deixa Isso Pra Lá - «Vai deixar, além da grande história, o seu sorriso contagiante!» (Tico Santa Cruz).

VISTORiA
À Noite
¨Faz baixar, radiante deus – há campos sedentos
Do frescor do orvalho, homens tombam combalidos,
Lassos deslocam-se os corcéis –
Vem, faz baixar à terra o teu carro.

Vê quem, das ondas cristalinas do mar,
Meiga, a sorrir te acena! O imo diz-te quem é?
Mais céleres voam os corcéis,
Vê, Tétis, a divina, acena-te.


Rápido, o condutor logo do carro desce,
Nos braços dela cai, Cupido assume a rédea,
Inertes mantêm-se os corcéis,
Da torrente embebe-se a frescura.

Elevada pelos céus, em seu silencioso passo,
Baixa, olorosa, a noite; a ela segue-se o lasso
Amor. Ah, sim, descansai e amai!
Febo, o amante, a repousar está.
 Friedrich Schiller

Sonho da Rosa
¨Se me recordas, entristeço e faço
por que o teu vulto sensual me esqueça
e o teu olhar, a tua boca, e essa
graça de graça que tu pões no passo.

Sonho-fumo esgarçando-se no espaço –
nas mãos em concha amparo-te a cabeça,
e sem que a minha boca desfaleça
beijo-te a boca e cinge-te o meu braço.



Já, no jardim deserto da tristeza,
vens aos meus olhos como a luz acesa
que uma penumbra dolorida apaga…

Vai-se extinguindo o meu desejo… Olha:
tu foste a rosa que ao abrir se esfolha,
nuvem perdida que no céu divaga…
 Branquinho da Fonseca
- Poemas (1926)

ITINERÁRiO
VIEIRA PORTUENSE
- Carreira Demasiado Efémera
¢ Francisco Vieira nasceu no Porto em 1765. Aos 17 anos matricula-se como aluno extraordinário na Aula Régia de Desenho e Figura, em Lisboa. Dois anos mais tarde está em Roma onde obtém um 1.º prémio de Desenho. Aí frequenta o atelier de Domenico Corvi. Aos 29 anos dá aulas de Pintura na Academia de Belas Artes de Parma. Viaja muito, frequenta cortes europeias e, em 1799, executa grandes pinturas religiosas para a Ordem Terceira de S. Francisco do Porto. Com 37 anos o pintor pronuncia o discurso inaugural da Academia de Desenho e Pintura e é nomeado pintor da Real Câmara, para executar com Domingos Sequeira pinturas do Palácio da Ajuda. Morre em 1805, no Funchal, com 39 anos.
FEV2009 - Diário de Notícias

MEMÓRiA
¨04MAI1905-1974 - António José Branquinho da Fonseca: Ficcionista, poeta e dramaturgo português, filho de Tomás da Fonseca - «Quer como poeta, quer como dramaturgo, ficaram-se devendo a Branquinho da Fonseca algumas das mais positivas realizações do nosso vanguardismo pós-modernista. Nos três primeiros anos da Presença, foram precisamente os seus versos - a par dos de Edmundo de Bettencourt e dos do António de Navarro desse período - os que melhor documentaram a inquieta continuidade do espírito do Orpheu» (David Mourão-Ferreira). IMAG.131-407-465

®05MAI1925-2010 - Jaime Salazar Sampaio: Poeta e dramaturgo português - O seu teatro era «um acto de resistência contra a censura, o que explica em parte a ambiguidade e o hermetismo dos seus textos de antes da revolução» (Maria João Brilhante). IMAG. 235-298-299-307-427

¸06MAI1895-1926 - Rodolfo Alfonso Raffaello Pierre Filibert Guglielmi di Valentina D'Antonguolla, aliás Rodolfo Valentino: Actor italiano radicado nos EUA - «Generalizar sobre as mulheres, é perigoso. Especificar sobre elas, é infinitamente pior».

¸06MAI1915-10OUT1985 - Orson Welles: Cineasta americano, actor e encenador - «Em relação aos meus filmes, creio que não se baseiam tanto numa busca como numa pesquisa… Se estivermos à procura de algo, o labirinto é o local mais adequado para a investigação». IMAG.33-44-120-186-188-231-238-243-266-272-326-332-333-373-397-424-468

¨07MAI1925-2008 - Luiz Pacheco: Escritor português - «De entrevista em entrevista é a mesma chapa, vêm com perguntas de chapa. É como a outra: “O que é que você pensa da juventude de hoje?” Eu não penso nada, eu nem conheço os meus filhos…» (a Guilherme Pereira). IMAG.68-180-198-312-411

¢13MAI1765-02MAI1805 - Francisco Vieira de Matos, o Vieira Portuense: Pintor de elementos históricos e paisagísticos, lente de desenho na Academia de Desenho e Pintura do Porto. IMAG.34

¨1759-09MAI1805 - Friedrich Schiller: Poeta e filósofo alemão - «O que rejeitares do momento, / Eternidade nenhuma o restituirá!». IMAG.71-252

PARLATÓRiO
¨As palavras ditas sem reflexão, inspiradas pela cólera, não lançam raízes em parte alguma; porém, quando sugeridas pelo ciúme, alastram quais plantas parasitas, crescem e deitam ramagem sobre a árvore que é o coração, ensombrando-o.
Friedrich Schiller

®O tema do deslumbramento da personalidade encontra-se em inúmeras das minhas peças.
[A influência do teatro do absurdo] é inegável. Não ao nível da componente metafísica, mas das técnicas do diálogo e das situações. Ponho em cena, normalmente, homens isolados que, remotamente, se quereriam integrar mas não sabem como.
Jaime Salazar Sampaio

ANTIQUÁRiO
05MAI1835 - É criado o Conservatório de Música, instalado na Casa Pia de Lisboa. Em 1836, foi instituído o Conservatório Geral de Arte Dramática - que, com a incorporação do Conservatório de Música, foi seccionado em Escola de Música e Escola de Teatro e Declamação (que incluía a Dança), a cargo dos seus mentores iniciais, João Domingos Bomtempo e Almeida Garrett, e instalado no Convento dos Caetanos. IMAG.13-40-64-100-164-171-175-187-213-383

BREVÁRiO
¯Tradisom edita em CD, José Viannada Motta [1868-1948] - Canções, Lieder, Romanzas pela soprano Ana Maria Pinto e pelo tenor João Rodrigues, com o pianista Nuno Vieira de Almeida. IMAG.158-175-182-187


EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico
                                
ATRAPALHADO NA CARCAÇA
O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 7
Moedinhas a tilintar, atiradas para o avental garrido de Graciosa, eram o seu melhor despertador. E o próprio Damião tinha um gesto reflexo de estender a manápula, caso pressentisse aproximar-se alguma alma caridosa. Nem um tostão caía em saco roto.
Ao pôr da tarde, lá se arrastava aquele par ímpar, de preferência até à Mercearia Flor Silvestre - dobrada a Esquina dos Gatos, no coração de Alfama. O Senhor Florêncio da Silveira tinha toda a paciência para lhes trocar os caóticos montes de metal por umas quantas tiras de papel, saindo ambos a ensalivar os dedos já excitados para contar as notas. Com estas, faziam uns rolinhos que, depois, guardavam ciosamente, envoltos em pratas de cigarros.
Continua

domingo, julho 06, 2014

Artistas d'O Infante Portugal nos XII Troféus Central Comics

Vários artistas que me deram a honra de ilustrar a saga d’O Infante Portugal (2007-2010-2012), estilizando e inspirando as suas implicações e desenvolvimentos com peculiar talento e sensibilidade, estão entre os nomeados para o concurso dos XII Troféus Central Comics, cujo escrutínio público termina dia 10 Julho:
- Diniz Conefrey para Melhor Argumento e Melhor Artista, e o seu álbum O Labirinto da Água (Quarto de Jade) para Melhor Publicação Nacional;
- João Mascarenhas, enquanto editor, tem a concurso o fanzine BDLP #3 (Extratus/Olindomar) em Melhor Publicação Independnete;
Ricardo Cabral concorre com Comic-Transfer (Polvo), em Melhor Publicação Relacionada;
- Susana Resende para Melhor Obra Curta por “Sayonara” (in Zona Nippon 2 - Associação Tentáculo);
- Catherine Labey, Baptista Mendes, João Amaral, Luís Diferr, Rui Lacas e Zé Manel têm uma prancha autoconclusiva incluída em Efeméride #6 – Super-Heróis no séc.XXI, parte 1 (Geraldes Lino).

Os Troféus Central Comics incidem sobre as melhores obras de BD, profissionais e amadoras, e os autores publicados em Portugal no ano transacto. A intervenção de um júri composto por personalidades de reconhecido mérito, no nosso mercado de banda desenhada, apresenta aos leitores e aos profissionais do sector um leque de categorias em que as preferências e os votos da maioria determinam os vencedores, os quais serão anunciados no próximo dia 12 (Sábado), durante o Central Comics Fest, no Porto.

Actualização:
Os vencedores do XII Troféus Central Comics foram revelados também online, no respectivo portal. Para conhecer todas as estatísticas da votação, visitem este LINK.

sexta-feira, julho 04, 2014

IMAGINÁRiO #512

José de Matos-Cruz | 24 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
ASSOMBRAÇÕES
Prosseguindo a sua deambulação - no exílio de todas as consciências sobre um passado de pesadelo, em busca da dimensão íntima que lhe restitua o ideal de paz - Luís Ferchot trocara o Velho Continente pelo Novo Mundo. Entre os becos de Harlem, pelas docas de Brooklyn ou na penitenciária de Sing-Sing, o inferno humano foi-lhe mostrado em Nova Iorque. Pelo final de Leo, um Luís maduro mas perturbado voltou a atravessar o Atlântico, até Paris, ao encontro de um irmão que desconhecia, porém capaz de desvendar-lhe os volúveis laços familiares. Mas nem tudo correu bem, e os dois tiveram que escapar para Espanha - como Etchezabal nos desvendou, por 1936, em plena Guerra Civil. Um ano depois, no mês de Julho, Luís e a fotógrafa americana Kim tentam opor-se aos sabotadores da rectaguarda, A Quinta Coluna. Nesse volúvel conflito entre opressão ou dignidade, violência ou rebelião, a aprendizagem da liberdade definir-se-á como a lição mais perturbante, no palco da história… Eis fragmentos de Luís Má Sorte /Louis la Guigne (1982) - um clássico da banda desenhada franco-belga, concebido por Frank Giroud (texto) & Jean-Paul Dethorey (ilustração). Um relato denso, complexo, sobre heróis precários, assombrados pela realidade e as memórias ancestrais. IMAG.4-16-20-46-125

CALENDÁRiO
24OUT1925-29ABR2014 - Albert Bernard Feldstein, aliás Al Feldstein: Argumentista e ilustrador americano, editor de Mad (1956-1985) - «Foi responsável pelo imenso sucesso da Mad nas décadas de 50, 60 e 70, quando a revista viveu a sua era de ouro, fixando a sua identidade editorial, alcançando tiragens de quase três milhões de exemplares, destacando-se como um viveiro de talentos e impondo-se como a mais destemida, influente e divertida publicação satírica dos EUA» (Diário de Notícias).

¢1934-02MAI2014 - Rui-Mário de Melo e Sousa Gonçalves, aliás Rui Mário Gonçalves: Ensaísta português, crítico e divulgador de artes plásticas, professor universitário - «Pertencia à aristocracia do pensamento, daquela que é cada vez mais rara em Portugal. Um pedagogo brilhante, cujas aulas estavam sempre lotadas de alunos, porque ele sabia transformar qualquer conteúdo numa coisa apaixonante» (Maria João Cantinho). IMAG.84-454

¸08MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Nirvana de Tiago P. de Carvalho; com Catarina Urbani e Daniel Martinho.

¸08MAI2014 - Terratreme produziu, e estreia Vida Activa de Susana Nobre.

¸O8MAI2014 - ZON Audiovisuais estreia Fátima No Mundo de Manuel Arouca.

MEMÓRiA
¸1911-25ABR1995 - Virginia Katherine McNath, aliás Ginger Rogers: Actriz, bailarina e cantora americana - «Uma parte da alegria de dançar, está na conversa. O pior é que alguns homens não sabem falar e dançar ao mesmo tempo». IMAG.40-331-377-415

¸27ABR1935-2012 - Theo Angelopoulos: Cineasta grego - «Os filmes pré-existem. Eu apenas os faço. Obedeço a alguma força que diz “vá lá, faz”. Não me perguntem por quê. As explicações muitas vezes tiram o mistério, o senso da poesia». IMAG.287-393

¢28ABR1855-1933 - José Malhoa: Pintor português - «Deu-se bem em todos os ciclos políticos, pintou a nobreza e o povo e, com a sua cotação, ia esvaziando os espaços de exposição para os outros artistas, que tiveram de começar a procurar locais alternativos, como a Brasileira» (Sara Pereira). IMAG.54-198-208-312-440

¨30ABR1845-1894 - Joaquim Pedro de Oliveira Martins: Escritor, político e historiador português - «O homem, conforme existiu, está para ele como o vaso está para a essência, ou para a crisálida o casulo». IMAG. 15-90-214-319-479

¾30ABR1935-2004 - José Manuel Bastos Fialho Gouveia: Profissional da rádio, apresentador da televisão, co-autor do programa A Visita da Cornélia (1977) - «Um comunicador que ajudou a revolucionar a tv» (Diário de Notícias). IMAG.14-485

VISTORiA
…Não admira, pois, que desde então Camões ficasse na alma popular como símbolo da nação, e Os Lusíadas como a sua bíblia. Não admira que tivesse passado à condição de epónimo desta pequena pátria, tão semelhante a Atenas, e mais ainda a Esparta, na agitação da sua vida política, na grandeza da sua missão colonial, e também na miséria fúnebre da sua decomposição.
Não admira que, desde o século XVII, por toda a parte onde surgisse, de entre as ruínas do edifício nacional, algum fuste de coluna ainda de pé, ou algum friso inteiro onde se visse correr agitada a tragédia de outras eras; por toda a parte onde se erguesse do matagal de urzes e cardos da história a haste florida de uma açucena de saudade ou de esperança, a corola dessa flor ou a forma dessa evocação, tivesse o perfume e a cor dos Lusíadas e se considerasse uma revelação de Camões o paracleto português. Cantando os Lusíadas, os últimos leões da Índia defenderam Columbo perdidamente; e no nosso século o invasor, querendo regalar-nos como César, prometia-nos um Camões para cada província.
Camões e D. Sebastião, os Lusíadas e Alcácer Quibir, eis aí os dois homens e os dois actos que ficaram para serem gravados na imaginação colectiva, como uma fé e uma esperança, como um mandamento e um cativeiro. Este Israel do extremo ocidente, em que a plasticidade da imaginação grega se fundira com a tenacidade obscura do fenício e com o profetismo genial do judeu, possuía afinal a sua bíblia, e também chorava as ruínas do Templo, ajoelhado aos pés do vencedor que transformara Sião numa Babilónia castelhana. O sebastianismo que foi a religião lusitana, forma epilogal do nossa patriotismo, veio até os dias de hoje propondo Camões como o precursor de tudo quanto há mais avesso ao pensamento próprio do poeta.
Fazer-se um profeta da democracia o homem em cujo cérebro ferviam os pensamentos clássicos da monarquia universal, não é mais contraditório do que arvorar-se em apóstolo do livre-pensamento aquele que levou a vida no ardor do combate religioso contra o mouro e a acabou desvairado pela quimera da conquista do Santo Sepulcro, ardendo em indignação contra os luteranos, aceso sempre em uma fé inexgotável.
E todavia, este contra-senso é só aparente e exterior. No fundo, o erro é um acerto; e a crítica, se o não dissesse, provaria um limite de vistas incapaz de descortinar as miragens vagas da imaginação dos povos. A consagração histórica de Camões vem ainda moldar-se no processo remoto pelo qual os deuses foram abstraídos da consciência nebulosa das gentes primitivas. A magia das palavras e dois ou três momentos sintéticos da vida, tanto basta para que a imaginação plástica levante um mito e de uma suposta realidade à visão dos próprios desejos que passou, aérea, nos horizontes do espírito. Essa nuvem toma corpo, a apoteose substitui-se à biografia; e a imagem verdadeira do homem que foi some-se, deixando em seu lugar a figura que o povo abstraiu da iluminação dos próprios corações.
Não admira, pois, que nós próprios, ao pretender pôr de pé a figura de Camões, obedecêssemos à vibração transmitida, e que, amalgamando a lenda com a história, déssemos porventura significado e proporções demasiadas a factos e estados de alma comezinhos. Talvez a nossa vista amplificasse as proporções da imagem, impressionada pelo prestígio que essa imagem exerce nas imaginações. Talvez; mas, se assim for, não nos arrependemos dessa culpa. Por patriotismo, em primeiro lugar; e por amor à crítica, em segundo.
Oliveira Martins
- Camões, Os Lusíadas e a Renascença Em Portugal
(1872, excerto)

PARLATÓRiO
¸Não sei se os meus filmes são memórias históricas. São réquiens, mas sem o tom fúnebre, não são lamentos pela morte de um período. No livro A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson, uma frase é sempre repetida: «Não nos rendemos. Continuamos…». É um réquiem, mas não nos rendemos, continuamos.
Theo Angelopoulos
(2011)
       
ANTIQUÁRiO
ü26ABR1925 - O coronel britânico Percy Harrison Fawcett, cartografista e explorador, penetra na selva da Amazónia, em busca dos vestígios da civilização Z, que presumia altamente culta e desenvolvida, tendo ao longo dos anos estabelecido um método próprio de abordagem ao «inferno verde». Não voltou a aparecer, tendo inspirado Sir Arthur Conan Doyle à escrita do romance O Mundo Perdido (1912). IMAG.17-66-71-116-128-140-184-227-281-298-487

29ABR1865 - O activo/passivo do Banco de Portugal é de 18:551:049$790 réis, sendo o seu capital de 8:000:000$000 réis.
 
COMENTÁRiO
¢Só visando o alargamento dos seus horizontes imaginéticos o homem pode entender e utilizar os símbolos para a sua autoexpressão no mundo.
Rui Mário Gonçalves
- Primeiro Olhar

BREVÁRiO
¨Dom Quixote edita A Infância de Jesus de J.M. Coetzee; tradução de J. Teixeira de Aguiar. IMAG.216

¯Harmonia Mundi edita em CD, Giovanni Battista Pergolesi [1710-1736]: Septem Verba a Christo por Akademia für Alte Musik Berlin, sob a direcção de René Jacobs. IMAG.296-318-327-387-490

¨Sistema Solar edita Bruges-a-Morta de Georges Rodenbach (1855-1898); tradução de Aníbal Fernandes.



      
EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico         

ATRAPALHADO NA CARCAÇA  O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 6
Um instante, porém, e Graciosa estava, já, absorta no vazio embaciado que era a sua pasmaceira crónica. Com um turvo bocejo, o contrafeito Damião recolheu-se ao mesmo torpor letárgico.
Ambos ficariam assim uma eternidade, como se vagueassem pela fronteira híbrida entre a razão ausente e a terra de ninguém. Seres e senhores de um exílio mutante, como humano ou animal.

Continua

quinta-feira, junho 26, 2014

IMAGINÁRiO #511

José de Matos-Cruz | 16 Abril 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
PERCURSOS
O ano de 1997 assinalou o reconhecimento de José Carlos Fernandes a nível nacional, como um dos mais aliciantes entre os nossos nóveis autores. Para tal contribuiu o Festival de Banda Desenhada - Amadora Bd, cuja linha gráfica foi delineada a partir da sua criatividade - iniciada em 1990, tornando-se versátil e fecunda como poucas. Assim voltou a reflectir a ilustração do belíssimo álbum Crossroads - Diário de Viagem Através de Um Mito (Dos Arquivos de Samuel Pastor) (1999), sobre uma narração de João Ramalho Santos & João Miguel Lameiras. «Acredito num Grande Desígnio para todas as coisas, embora ignore de todo qual ele possa ser…» Crossroads transpôs um deserto de inoperância e monotonia, que vinha caracterizando - com raras excepções livrescas e algumas aliciantes miragens - o panorama público da banda desenhada e do imaginário gráfico, em Portugal. Novos passos, oriundos dos quadradinhos prosseguem, pois, o culto e rasgam distintas vias na exploração de um vasto horizonte, para a nona arte. Além da coerência estética, alusiva, José Carlos Fernandes contribuiu, assim, com os seus predicados essenciais: subtileza minimal, fascínio, ironia e sensibilidade.

MEMÓRiA
¸1908-14ABR1995 - António Lopes Ribeiro: Realizador e produtor do cinema português, poeta, ficcionista e dramaturgo - «Lisboa é a mais linda, a mais fotogénica de todas as cidades do mundo. Conheço muitas, amo muitas. Mas nenhuma, podem crer, por pior que digamos dela quando nos arrelia e nos desola, lhe chega aos calcanhares. Os operadores de cinema têm em Lisboa um verdadeiro paraíso. As casas não têm aquela escura cor que tanto entristece as grandes metrópoles estrangeiras. E marinham decididamente pelas encostas, em vez de se estenderem num plaino sensaborão, que limita todas as perspectivas» (1947). >IMAG.1-27-31-48-74-76-94-115-130-131-164-166-175-189-210-221-224-227-229-256-297-307-317-328-335-339-345-347-355-412-436-457-458-501

1879-18ABR1955 - Albert Einstein: Físico teórico alemão, fundador da Teoria Geral da Relatividade, distinguido com o Prémio Nobel da Física (1921) - «A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento auxilia por fora, mas só o amor socorre por dentro. O conhecimento vem, mas a sabedoria tarda» (Sobre a Ciência). >IMAG.31-51-103-218-443-444

¯20ABR1675 - Em Lisboa, na Casa Professa de São Roque, da qual que era Superior, morre o erudito padre Balthazar Tellez, da Companhia de Jesus, autor de Summa Universae Philosophiae (1642); nascera em 1595.

¨1907-22ABR1985 - Mircea Eliade: Ficcionista e filósofo americano, de origem romena - «Lisboa conquistou-me desde o primeiro dia… No último ano da minha estadia em Calcutta, tinha começado a aprender o português com método e paixão» (Mémoire II, 1937-1960).
             
VISTORiA
¨o que se ama ainda mais,
a solidão, a comoção
da garganta embargada,
a sedução das rosas
cor de sangue, aqui onde estou
sem encontrar muito bem o peso das palavras
que te quero dizer, e eu quero dizê-las devagar,
talvez timidamente encadeadas,
agora que as sombras são mais longas
Vasco Graça Moura
- O Caderno da Casa das Nuvens
(excerto - 2009)
      
CALENDÁRiO
¨1942-27ABR2014 - Vasco Graça Moura: Escritor português, poeta e ficcionista, ensaísta e tradutor, intelectual e político - «retiro-me dos sonhos, sou / a obscura matéria de uma ausência / que se dissipa contra as pedras, / devagar» (O Caderno da Casa das Nuvens - excerto - 2009). >IMAG.42-125-239-352-366

¢09MAI-20JUL2014 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Built de Daniel Nave.

¢1919-06MAI2014 - Maria Lassnig: Artista plástica austríaca, especialista em auto-retratos, distinguida com o Prémio Oskar Koboschka (1997) - «Pinto a consciência do meu próprio corpo».

COMENTÁRiO
O ANTÓNIO E EU
¸Conheci pessoalmente o António Lopes Ribeiro num distante ano da década de ’70 do Século XX, depois do 25 de Abril, e logo tive uma das mais profundas impressões: raro encontrei pessoa tão culta, tão dinâmica, tão versátil e tão apaixonada pelas coisas, pelo cinema e pela vida.
Ele estava já meio retirado das lidas profissionais, e passava por alguns dissabores próprios da época. O meu entusiasmo e algum embaraço pareciam diverti-lo. Nasceu então uma amizade que se fortaleceu ao longo dos tempos, e se tornou de grande confiança pessoal, o que eu nunca esquecerei.
Pelo seu carácter, nos projectos que ainda tinha, o António era fascinante e autoritário. Em acordo tácito, nunca procurámos influenciar-nos nas convicções próprias, logo políticas, embora falássemos à vontade.
Isto, com a franqueza e o respeito mútuos, ajudou a consolidar a nossa relação e a levarmos por diante vários desafios, só alguns não concretizados. Entre estes, recordo a fundação dum Instituto de Filmologia, que incluía o António de Macedo. Chegámos os três a ter reuniões no Hotel Tivoli, onde morava a Beatriz Costa, mas as circunstâncias não foram propícias.
Pelo contrário, o Ciclo monográfico por que fui responsável, e organizado pela Cinemateca Portuguesa em 1983, aproximou-nos ainda mais em tarefas e expectativas. Ele concordou com o meu critério de se exibirem todas as suas fitas, sem excepção; e nunca receou que isso lhe trouxesse problemas. Foi assim possível inventariar e recuperar um vasto espólio.
Pude testemunhar a curiosidade e o interesse que o António continuava, sempre, a dedicar à modernidade ou à especificidade das manifestações artísticas: nos anos ’80 – quando pertencíamos, os dois, à Comissão de Classificação de Espectáculos – adquiria, metodicamente, a revista de banda desenhada (À Suivre); e mais tarde, já a doença o prendia em casa, surpreendi-o um dia mais entretido com uma cassete nova do Rui Veloso, do que em prestar-me a atenção que eu ia solicitar-lhe…
@José de Matos-Cruz

VISTORiA
¯Tommo occasiam dos annos, em que entro pera contar nam só as fundações, e progressos das casas, ou Collegios da Companhia, que, entam, socederam, mas também pera escrever a vida, e a morte de todos os varoens em virtude, que nestes annos, no tempo de S. Ignacio, entraram nesta Província: e assim ainda que tomo o princípio de tam longe, com tudo chego com as cousas, e noticias de muytas dellas, quasi a nossos tempos.
Balthazar Tellez
- A Chronica da Companhia de Jesu, Na Província de Portugal
(excerto - 1645-1647)

A pior das instituições gregárias intitula-se Exército, e eu odeio-o. Se um homem lograr algum prazer ao desfilar ao som de música, eu desprezo esse homem… Não merece um cérebro humano, já que a medula espinal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este cancro da civilização. Detesto todas as formas de heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é o que há de mais desprezível. Preferiria deixar-me assassinar, a ter que participar nessa ignomínia.
Albert Einstein
- Como Vejo o Mundo

TRAJECTÓRiA
Mircea Eliade
¨Pensador, ensaísta e romancista romeno, nascido a 13 de março de 1907, em Bucareste e falecido em 1986, em Chicago, licenciou-se em Filosofia, em 1928. De seguida, prosseguiu os estudos na Universidade de Calcutá, onde se tornou amigo de Dasgupta, de quem recebeu ensinamentos sobre sânscrito e filosofia. De regresso a Bucareste, fez o doutoramento em 1933, com uma tese sobre iôga. Sete anos mais tarde, mudou-se para Londres, para ocupar o cargo de adido cultural na embaixada do seu país, e, no ano seguinte, ocupou a mesma função em Lisboa, até 1944. Em Portugal, interessou-se pela literatura clássica portuguesa e escreveu a síntese Os Romenos, Latinos do Oriente e a obra Salazar e a Revolução Portuguesa, este último sem tradução portuguesa por vontade do próprio Salazar que não apreciou as observações feitas por Eliade. Nunca obteve reconhecimento pelo seu trabalho em Portugal. Em 1945, foi para Paris trabalhar para a Universidade de Sorbonne, como professor de Religião Comparada. Iniciou aqui a sua fase de escrita em língua francesa. Treze anos depois, instalou-se definitivamente nos Estados Unidos da América, onde se naturalizou, para dirigir o departamento de Religião e ensinar História das Religiões na Universidade de Chicago.
Das suas obras destacam-se as de interesse pela filosofia hindu - Il Male e la Liberazione Nella Filosofia Sãmkhlya Yoga (1930) e Il Rituale Hindu e la Vita Interiore (1932) -, os inúmeros artigos e livros sobre religião e mitos - O Mito do Eterno Retorno (1949), Tratado de História das Religiões (1949), História das Crenças e das Ideias Religiosas (1949-1983) e ainda os romances Maitreyi (A Noite Bengali, 1933), A Volta do Paraíso (1934) e A Serpente (1937), entre outros.

ANTIQUÁRiO
ABR1865 - Neste mês, o gás consumido no concelho de Lisboa, na iluminação pública, importou na quantia de 4:350$580 réis.

18ABR1935 - Rádio Renascença lança O Papagaio - Revista Para Miúdos, ao preço de um escudo, sendo director Adolfo Simões Müller; em publicação semanal até ao número 722, em 10FEV1949.

ANUÁRiO
1875 - Neste ano, o número de cabeças de gado existentes no distrito de Évora, é: cavalar - 3.715, muar - 6.260, lanígero - 268.868, vaccum - 22.430, caprino - 72.693, suíno - 74.921, asinino - 7.924.

BREVÁRiO
¨Assírio & Alvim re-edita Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). >IMAG.2-18-112-168-213-249-268-302-390-449-473