quinta-feira, junho 05, 2014

IMAGINÁRiO #508

José de Matos-Cruz | 24 Março 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
PROJECÇÕES
De memórias suadas, carne mole, medos medíocres, vícios e nicotina, surge Kilas - aturdido pela pequenês do físico, tacão alto a deitar figura, de arrogância por medida… Entre tipos marginais e mitos precários de uma saga/farsa passional, eis a criatura mais popular e característica no cinema português em liberdade. Estilizada por José Fonseca e Costa em Kilas, o Mau da Fita (1980) - um dos maiores sucessos no pós-25 de Abril, alcançando culto graças à composição por Mário Viegas. Fonseca e Costa escreveu o argumento com Sérgio Godinho - autor da música - e Tabajara Ruas, com produção entre Filmform e Penta Filmes (Brasil).
A fotografia coube a António H. Escudeiro e Mário Barroso, por Lisboa - Intendente, Alcântara, Bairro Alto, Alfama e Pampulha. No elenco, destaca-se o regresso de Milú, ao lado de Lia Gama e Lima Duarte. Galardoado com o Makhila de Honra no Festival de Biarritz em 1980, Kilas, o Mau da Fita foi distinguido com o Grande Prémio do IPC/Instituto Português de Cinema em 1981.


MEMÓRiA
¨07MAR1785-1873 - Alessandro Francesco Tommaso Manzoni, aliás Alessandro Manzoni: Poeta e ficcionista italiano - «Os vizinhos, a quem o tumor fez descobrir sabe-se lá quantas sujidades que tinham provavelmente diante dos olhos, quem sabe há quanto tempo, sem se preocuparem com isso, puseram-se à pressa e em fúria a chamuscá-la com palha a arder. A Giacomo Mora, barbeiro, que estava à esquina, pareceu, tal como aos outros, que tinham sido untadas as paredes da sua casa. E não sabia, o infeliz, que outro perigo o ameaçava, e por parte daquele mesmo comissário, ele próprio também infelicíssimo.» (História da Coluna Infame). >IMAG.26

¨1828-24MAR1905 - Jules Gabriel Verne, aliás Jules Verne: Ficcionista e poeta francês - «Um dia visitaremos a Lua e os planetas com a mesma facilidade com que hoje se vai de Liverpool a Nova York.» (Da Terra à Lua - 1865). >IMAG.28-85-245-257

¨25MAR1925-1964 - Flannery O’Connor: Ficcionista americana - «As pessoas não percebem o que custa a religião. Julgam que a fé é um cobertor que nos aconchega, quando na verdade é uma cruz que temos de transportar». >IMAG.55-179-229-317-477

¨29MAR1815-1872 - Antonio Aparisi y Guijarro, Marquês de Santa Eugénia: Jurista e político espanhol - «A educação é um seguro para a vida e um passaporte para a eternidade». >IMAG.393

¨29MAR1895-1998 - Ernst Jünger: Escritor e filósofo alemão - «Desterrado é aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista da época, na resistência que opõe ao automatismo, e de que não tenciona extrair a sua consequência ética, o fatalismo.» (O Passo da Floresta).

¨1816-31MAR1855 - Charlotte Brontё: Ficcionista e poeta inglesa - «Evito olhar para trás ou para frente, antes procuro olhar para cima». >IMAG.13-213-263
   
CALENDÁRiO
¯1926-04ABR2014 - Eugénia Lima: Acordeonista portuguesa, fundadora da Orquestra Típica Albicastrense (1956), popular com Picadinho da Beira, Dama da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1980) - «As músicas que fiz, foram feitas por amor à arte, e reflectem o meu estado de espírito na altura» (2011).

®1920-06ABR2014 - Joseph Yule Jr, aliás Mickey McBan, aliás Mickey Rooney: Actor americano de cinema, teatro e televisão, distinguido com um Oscar especial em 1939, «por trazer para a tela o espírito e a personificação da juventude» - «Não lamento nada do que fiz. Só gostaria de ter feito ainda mais».

¸17ABR2014 - Sony Pictures Portugal estreia O Fantástico Homem-Aranha 2 - O Poder de Electro / The Amazing Spider-Man II – The Rise of Electro, de Marc Webb; sobre o clássico em quadradinhos (concebido por Stan Lee em 1962, no universo dos Marvel Comics), com Andrew Garfield e Emma Stone. >IMAG.3-18-23-28-39-47-49-110-114-148-149-155-217-221-416

VISTORiA
¨Que espectáculo notável! Subíamos por rochas que se desmoronavam repentinamente em grandes massas, com um ruído surdo de avalancha. De espaço a espaço surgiam clareiras, que pareciam abertas por mãos humanas, dando a impressão de que iria ver-se de repente um habitante daquelas paragens submarinas.
Pouco minutos depois, chegávamos a um ponto alto de onde se avistava toda aquela massa rochosa, num plano de dez metros. A montanha elevava-se apenas de setecentos a oitocentos pés acima da planície; em compensação, a outra vertente descia quase o dobro.
Essa montanha era um vulcão. A cerca de cinquenta pés do topo, entre um dilúvio de pedras e lava, uma grande cratera jorrava torrentes de lava, que se espalhavam em cascatas de fogo, no seio da massa líquida. Nessa posição, o vulcão, como se fosse uma tocha gigantesca, iluminava a parte inferior da planície, até onde alcançava a vista.
Disse que o vulcão submarino lançava lavas, e não chamas. Para haver combustão é preciso o oxigénio do ar, e a chama não poderia formar-se sob as águas; mas as camadas de lava, que têm em si mesmas o elemento de sua combustão, podem adquirir coloração vermelho-esbranquiçada, podem lutar contra o elemento líquido e evaporar-se com o contacto dele. Correntes rápidas arrastavam todos aqueles gases em difusão e as torrentes de lava deslizavam até ao sopé da montanha, como se fossem resíduos do Vesúvio sobre uma outra Torre de Greco.
Perante mim, surgia uma cidade destruída, em ruínas, com seus tectos desabados, seus templos destruídos, seus arcos deslocados e suas colunas derrubadas ao solo.
Onde estava eu? Queria saber a resposta a todo custo.
O capitão Nemo aproximou-se e fez-me parar com um gesto. A seguir, apanhando um pedaço de pedra calcária, escreve numa rocha de basalto uma única palavra: «Atlântida».
Aquelas ruínas que eu contemplava como testemunhos inegáveis de uma catástrofe eram da Atlântida, região submersa que existiu separada da Europa, onde viviam os poderosos atlantes, contra os quais foram destinadas as primeiras guerras da antiga Grécia!
Jules Verne
(1870 - excerto)

¨Que significado atribuir ao facto de um milionário se expor aos maiores transtornos por causa de alguns centavos? Tinha de ser fatalmente a recordação dos tempos em que, muito antes de existirem Estados, a propriedade era essencialmente uma presa, sobretudo uma presa de caça. Agora, porém, era o Estado por excelência, porque dotado de poder ilimitado. Triunfar sobre ele, ainda que de forma insignificante, representava um ganho difícil de avaliar, mas inestimável. Partindo desta base, era possível desenvolver uma teoria do crime mais convincente do que qualquer outra de carácter social ou económica.
Ernst Jünger
(excerto - Tradução de Ana Maria Carvalho)


ANTIQUÁRiO
¨1500?-1545? - Bernardim Ribeiro: «Vestido branco trazia, / um pouco afrontada andava, / fermosa bem parecia / aos olhos de quem na olhava.» (Écloga II - excerto). >IMAG.61-337

VISTORiA
Cantiga da Menina e Moça

¨Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos d'água,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja. 
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes. 
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer. 
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro. 
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós. 
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar. 
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem. 
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes. 
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui. 
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas. 
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos. 
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
     
BREVÁRiO
¸Satyricon edita em DVD, Kilas, o Mau da Fita (1980) de José Fonseca e Costa; com Mário Viegas e Lia Gama. >IMAG.63-77-117-126-158-192-223-334

¨Edições Asa lança Relatório do Interior de Paul Auster; tradução de Luís Santos. >IMAG.119-124-205-296

¨Dom Quixote re-edita A Felicidade Em Albert Camus (1913-1960) de Marcello Duarte Mathias. >IMAG.258-441

¸Divisa HV edita em DVD, Georges Méliès [1861-1938]: El Primer Mago del Cine (1896-1913). >IMAG.36-61-163-350-397-498

sábado, maio 31, 2014

IMAGINÁRiO #507

José de Matos-Cruz | 16 Março 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
REMINISCÊNCIAS
As Aventuras de Blake e Mortimer principiaram em 1946, com O Segredo do Espadão, logo patenteando a arte monumental de Edgar Pierre Jacobs (1904-1987). Em causa, a dualidade do Bem - simbolizada na instituição militar (o bravo Capitão Francis Blake, responsável pelo MI5, serviço de contra-espionagem britânico) e no poder da ciência (o Professor Philip Mortimer, um especialista em Física e Aeronáutica, com gosto pelos fenómenos bizarros); contra a perversão do Mal - concentrada num arqui-inimigo (o sinistro e volúvel Coronel Olrik). Um presente de ameaças, cumplicidades e perigos - virtualizado entre o passado e o fantástico, o futuro e a arqueologia… Bob de Moor, Jean Van Hamme e Ted Benoît asseguraram uma continuidade, como Yves Sente & André Juillard, que imaginaram O Juramento dos Cinco Lords após A Marca Amarela - um clássico inolvidável (1956), do qual Jean Dufaux, Antoine Aubin & Étienne Schreiber recriam uma estimulante sequela com A Onda Septimus, sempre sob chancela das Edições Asa. Hábeis a lidar com os mistérios e desafios que se repercutem entre o céu e a terra, Blake e Mortimer voltam aos cenários e às tradições de Inglaterra - em Londres, «após anos de guerra e destruição», celebrando o aniversário da jovem rainha - e acabam, afinal, por protagonizar, a par com Olrik, a sua intermitente coexistência, no universo contemporâneo da banda desenhada.
>IMAG.10-66-119-218-245-281-348-427-451-460-487


CALENDÁRiO
¨1949-03ABR2014 - Jorge Faustino Fallorca Gaspar, aliás Jorge Fallorca: Poeta e tradutor português, jornalista e radialista - «Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. / Outros afirmam-me que os textos mudam ao sabor das edições, e que nenhuma se compara / à que se leu primeiro» (Telhados de Vidro - excerto). >IMAG.411

®1947-05ABR2014 - José Wilker: Actor brasileiro de teatro, cinema e televisão, protagonista de Gabriela (1975) - «O Brasil perde um actor de inteligência aguda, que impregnava as interpretações com humor e ironia» (Regina Duarte).

10ABR2014 - Na Amadora, Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem/CNBDI expõe Todos Fazemos Tudo, de Madalena Matoso.

¢12ABR2014 - No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I expõe Espaço de Jogo de Marilice Corona.
           
VISTORiA
A Outra Metade

¨Quando este corpo meu esfacelado
Baixar à leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

«Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!

Camilo Castelo Branco
- Nas Trevas (1890)

É Um Lugar Cercado de Água

¨É um lugar cercado de água por todos os lados. Ilha.
Nome próprio e singular.
Quer seja oceano, bairro, monte, eu não sei como lhe
Chamam no sul, por exemplo:
Ilha é outra coisa. É ser.
Cercar de todas as maneiras a possibilidade
De acesso.
Ilha rima com filha, partilha (esta é dos karts), matilha
Camilha, e outros rores.
Que sempre falaram de ser.
Por todos os lados como o ar.

Jorge Fallorca
- Alpendre (1988)

MEMÓRiA
¨16MAR1825-1890 - Camilo Castelo Branco: Ficcionista e poeta português - «Homem que pensa, que estuda, que trabalha, sob influência tenaz de uma ideia, que cisma na imortalidade que lhe pode dar a ciência, ou no dinheiro que lhe pode dar um livro, tal homem só serve para marido depois que o reumatismo lhe faz ver o celibato à luz da higiene».
>IMAG.27-31-41-87-111-113-145-146-161-171-179-180-185-209-227-236-237-244-256-277-293-328-334-389-390-414-421-432-453-497

17MAR1585 - Morre D. Francisco de Sá Menezes, nascido no Porto por 1510, 1º Conde de Matosinhos, poeta e camareiro-mor de El-Rei D. Sebastião, e um dos governadores que o Cardeal-Rei nomeou, por sua morte, para a gerência do reino e nomeação de sucessor.

¯17MAR1945-1982 - Elis Regina: Cantora brasileira - «Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto… / Me tomam por quem? Um imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina do Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo». >IMAG.27-459-468

¯21MAR1685-1750 - Johann Sebastian Bach: Compositor alemão, cantor, maestro, professor, organista, cravista, violista e violinista - «A música é uma harmonia agradável em honra de Deus, e um deleite privilegiado para a alma humana». >IMAG.32-58-163-198-203-212-216-220-240-248-267-268-269-277-280-284-305-308-332-334-340-363-375-384-389-392-393-423-432-457-462

¨1872-23MAR1935 - Ana de Castro Osório: Escritora, fundadora do Grupo de Estudos Feministas - «Associai-vos como mulheres, porque antes de serdes operárias já o éreis e depois continuareis a ser. E ser mulher é ser escrava nas leis, na família, no trabalho. É ser a desprezada por faltas, que para os homens nem faltas são. É ser criminosa, por factos que para os homens são virtudes. A mãe sem poder nos filhos. A esposa sem reciprocidade de direitos.» (Carta a Martins dos Santos, director de Germinal). 1911 - Radical. 
>IMAG.72-375-461

VISTORiA
O Rio Leça

¨Ó Rio de Leça,
Como corres manso;
Se eu tiver descanso,
Em ti se começa.

Sempre sossegados
Vão teus movimentos:
Não te turvam ventos,
Nem tempos mudados.

Corres por areias,
E bosques sombrios:
Não te turvam rios,
Nem fontes alheias.
- D. Francisco de Sá Menezes
  
PARLATÓRiO
Elis Regina
¯Poucas pessoas sabem quem realmente descobriu Elis. Foi um vendedor da gravadora Continental chamado Wilson Rodrigues Poso, que a ouviu cantando menina, aos quinze anos, em Porto Alegre. Ele sugeriu à Continental que a contratasse, e em 1962 saiu o disco dela. Levei Elis ao meu programa, fui o primeiro a tocar seu disco no rádio. Naquele dia eu disse: Menina, você vai ser a maior cantora do Brasil. Está gravado.
Walter Silva
    
GALERiA
Todos Fazemos Tudo foi o livro vencedor de um concurso realizado pelas Éditions Notari, em colaboração com o município de Genebra. A capital dos direitos humanos ofereceu um exemplar a todas as crianças do ensino pré-primário, contribuindo assim para a promoção da igualdade entre homens e mulheres. À importância da mensagem, junta-se a forma como ela é apresentada através do corte horizontal das páginas e da combinação das ilustrações, que transformam este livro num jogo. Mas, a maior riqueza de Todos Fazemos Tudo é o saber ser um mapa possível e sem coordenadas fixas para que cada um descubra o mundo, e o confirme diverso e sem monotonia.
Editado por Planeta Tangerina, Todos Fazemos Tudo foi distinguido com o Prémio Nacional de BD 2012 - Melhor Ilustração de Livro Infantil.


BREVÁRiO
¨Relógio D’Água edita Pnin de Vladimir Nabokov (1899-1977); tradução de Telma Costa. >IMAG.63-223-253-272-325-338-418-503-504-505

Gradiva edita em banda desenhada A Batalha - 14 de Agosto de 1385 de Pedro Massano - argumentista e ilustrador, sobre Aljubarrota. >IMAG.57-127-149-256-265-416-430

¨Parsifal edita A Mensagem de Fernando Pessoa (1888-1935); comentários de Miguel Real, ilustrações de João Pedro Lam. >IMAG.26-28-64-82-130-131-157-182-187-196-207-211-236-264-323-326-330-333-343-347-376-382-384-385-395-399-403-404-417-426-433-450-460-467-491

¯Deutsche Grammophon edita em CD, The Wigmore Hall Recital por Maria João Pires e António Meneses. >IMAG.106-411-449-463-495

¨Quetzal edita O Relatório de Brodie de Jorge Luis Borges (1899-1986); tradução de António Alçada Baptista. >IMAG.69-86-88-240-272-334-474

EXTRAORDINÁRiO
OS ALTERNATIVOS
- Folhetim Aperiódico

ATRAPALHADO NA CARCAÇA
O ESCARAVELHO FAZ-SE MORTO - 4
 Graciosa e o seu rotundo rebento passaram, então, a encolher-se em qualquer vão de escada, pela urbe piolhosa, levando a tralha que lhes restava numa trouxa de serapilheira.
No fundo, era uma lástima mordida à flor da pele. Filosoficamente, Damião achou um dia que as côdeas de seu pão, amassado pelo diabo, se pareciam com as crostas da porcaria que lhe cobriam o corpo.

– Continua

sexta-feira, maio 23, 2014

IMAGINÁRIO #506

José de Matos-Cruz | 8 Março 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
ENCANTAMENTOS
Durante décadas, e através da referência unitária a Walt Disney (1901-66), inúmeros cineastas dirigiram gigantescas equipas, tornando-se inestimável uma imagem de marca - quanto ao estilo de animação, à narração ficcional e à expressão estética. O recurso às mais recentes tecnologias, na época de feitura, converteu-se num dos principais aliciantes, com exploração no universo imaginário. A titularidade de Disney provou, sobretudo, o equilíbrio entre a liberdade criativa e uma galeria heróica indissociável dessa progenitura - que reconcilia ou absorve, mesmo, as obras literárias que lhe servem de inspiração… Em 1990, os sucessos do dissidente Don Bluth sob os auspícios de Steven Spielberg - com Fievel, Um Conto Americano (1986), ou Em Busca do Vale Encantado (1988) - terão estimulado os herdeiros de Disney, quanto a um financiamento tributário aos clássicos da animação em longa metragem. E, após provarem - através de Quem Tramou Roger Rabbit? (1988 - Robert Zemeckis) - uma opção propícia à revitalização do imaginário, precisamente em aliança com o pai de ET - O Extra-Terrestre (1982), decidiram apostar ainda mais forte num sortilégio tradicional. Assim surgiu A Pequena Sereia / The Little Mermaid (1990) por John Musker & Ron Clements…


VISTORiA
Regresso Eterno
Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpenteando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.
A noite! Se fosse noite…

Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentidos
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes reflectem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho…
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz.
Em altos silêncios puros.

Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida.
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.
Ruy Cinatti

Estarás muitas vezes à beira da morte, mas não morrerás, até que um dia chegará a tua verdadeira perdição: quando acontecer, lembrar-te-ás da promessa da tua mãe, e tornar-te-ás frade.
Nikolai Leskov
- O Peregrino Encantado
(1873 – excerto


COMENTÁRiO
A PEQUENA SEREIA
A Pequena Sereia / The Little Mermaid (1990) por John Musker & Ron Clements, parte da fábula maravilhosa de Hans Christian Andersen. Um desafio logrado em plenitude: através do recurso à maior sofisticação, voltamos ao imaginário fértil, à magia romântica e fantástica, em que evoluem as aventuras de Ariel - uma sereiazinha apaixonada por Eric, um príncipe humano e, sobretudo, deslumbrada pelo mundo aéreo que ele simboliza. Ariel tudo sacrifica ao apelo da superfície, inquietando seu pai, o Rei dos Mares, e acaba por estabelecer com a feiticeira Ursula, pérfida e voluptuosa cefalópode, um contrato quase fatídico...

A aliança entre mundos paralelos, no mar e da terra, e uma perspectiva humanista mutuamente protagonizada, por todos os seres vivos em bizarra essência naturalista, transfiguram-se com a virtualização dos sentimentos, anseios, desafios, consumados pelos desígnios do bem e do mal. Dimensões contíguas, figuras exuberantes, pais possessivos, rivais perversas - tudo se representa, ainda, pela caricatura singela mas tão aliciante sobre a realidade intemporal. Como sempre sob a chancela Walt Disney, é através de secundários que o espectáculo se anima - em caprichos, humor e solidariedade.
Aliás, assinalando o elo científico das nossas origens - com uma alegoria mítica quanto aos seres metade mulher / metade peixe, em que se estilizaram convencionalmente musas e sedutoras - os cineastas retomaram um dos mais genuínos elementos da fantasia heróica, através do signo Disney: o antropomorfismo - esse nexo prodigioso da personificação, por todas as criaturas vivas, em que se universalizaria o elã animatográfico… O envolvimento musical, logo as canções de Howard Ashman & Alan Menken, foi justamente galardoado com dois Oscars, pela Academia de Hollywood.
   
MEMÓRiA
08MAR1915-1986 - Ruy Cinatti: Poeta e antropólogo português - «Agarrei no ar um véu / esmaecido de azul, / igual ao azul do céu / iluminado pela lua. // Eu passo a vida a sonhar / iluminado pela lua.». >IMAG.95
12MAR1925-2012 - Henry Maxwell Dempsey, aliás Harry Harrison: Escritor americano de ficção científica, autor de Mundo-Nosso - «Creio que o fantástico se esgotou… Talvez tenha morrido, como género. Os actuais autores exploram-no, quando devia ser ele a explorá-los». >IMAG.422
1920-12MAR1955 - Charlie Parker: Compositor americano, saxofonista de jazz - «A música é a tua própria experiência, o teu pensamento, a tua sabedoria. Se tu não a viveres, ela jamais vai soltar-se do teu instrumento». >IMAG.32-339
1804-15MAR1895 - Cesare Cantú: Escritor e historiador italiano - «A dor possui um grande poder educativo: faz-nos melhores, mais misericordiosos, mais capazes de nos recolhermos em nós mesmos, e persuade-nos de que esta vida não é um divertimento, mas uma obrigação». >IMAG.493
1831-05MAR1895 - Nikolai Semyonovich Leskov, aliás Nikolai Leskov: Escritor russo, autor de O Peregrino Encantado - «Embora por vezes se tenha deixado levar pelo maravilhoso, a sua preferência, mesmo na devoção, é a natureza. Para ele, o homem ideal é aquele que encontra o seu caminho na terra, sem se misturar demasiado com ela» (Walter Benjamin).

COROLÁRiO
Nikolai Leskov
Leskov era uma personalidade orgulhosa, apaixonada e frequentemente irascível; no decorrer da sua vida, conseguiu indispor-se com quase toda a gente que conhecia, como também com todas as tendências e movimentos correntes na literatura russa. Isso também nos diz algo sobre a sua impetuosa independência, a sua recusa a reverenciar os lemas ideológicos do momento. A sua polémica mais conhecida, causa do virtual ostracismo que os radicais lhe impuseram durante a maior parte da sua vida, envolvia os famosos incêndios de São Petersburgo, de 1862, que coincidiram aproximadamente com a circulação das proclamações sanguinárias do Rússia Jovem, que pugnavam pelo extermínio da família real e de todos os seus partidários. A maioria acreditava que os radicais tinham começado o incêndio, e o populacho suspeitava de que a população estudantil em geral fosse simpática quanto aos supostos incendiários. Leskov, com a intenção de proteger os estudantes, publicou um artigo onde pedia à polícia que, se houvesse qualquer prova de incêndio criminoso, nomeasse os culpados para que a suspeita pudesse ser retirada das costas dos inocentes. À primeira vista, nada pareceria mais inofensivo do que tal pedido, mas o facto de Leskov ter dado algum crédito à hipótese de incêndio culposo e ter, aparentemente, apelado à polícia contra os radicais, foi o suficiente para torná-lo um homem marcado.
Joseph Frank
(excerto)
     
PARLATÓRiO
É estranho que Dostoievski seja tão lido… Em compensação, não compreendo por que não se lê Leskov. Ele é um escritor fiel à verdade!
Leon Tolstoi
     
CALENDÁRiO
1924-01ABR2014 - Jacques Le Goff: Historiador francês, distinguido com o Prémio Dr. A.H. Heineken Para a História, pois, «ao transformar a nossa visão da Idade Média, modificou a forma como lidamos com a história». >IMAG.38
03ABR2014 - ZON Audiovisuais estreia Sei Lá de Joaquim Leitão; com Leonor Seixas e António Pedro Cerdeira. >IMAG.122-269-453-490
03ABR2014 - Em Lisboa, Museu Nacional de Etnologia expõe Artes de Pesca: Pescadores, Normas, Objectos Instáveis.
    
BREVÁRiO
Disney edita em DVD, A Pequena Sereia / The Little Mermaid (1990) por John Musker & Ron Clements; com vozes originais de Jodi Benson e Christopher Daniel Barnes.

sexta-feira, maio 16, 2014

IMAGINÁRiO #505

José de Matos-Cruz | 1 Maio 2015 | Edição Kafre | Ano XII – Semanal – Fundado em 2004

PRONTUÁRiO
SUPERAÇÕES
Numa incidência fulgurante, sensual, entre passado e fantástico, o realismo primitivo e a magia intemporal, expande-se a saga de O Mercenário / El Mercenario - segundo a exploração plástica e narrativa de Vicente Segrelles, originalmente apresentada pela revista espanhola Cimoc, a partir de 1980, e relatando as façanhas de um guerreiro a soldo, projectadas sobre a mística ou enfrentando o mal. Até que, a três anos e dois dias do ano 1000, uma nefasta conjugação astral suscita ansiedade ou pânico entre os habitantes do País das Nuvens. Inspirado pela bela Nan-Tay, o Mercenário acorre, então, ao apelo para acompanhar o Grande Lama, prior da Ordem da Cratera, numa extraordinária incursão… 
Clássico e moderno, eis um prodigioso épico, em que o estilo pessoalíssimo de Segrelles - onírico e simbólico, numa perturbante mas violenta exaltação - transcende a óleo o talento do retratista, cujo herói - com a fisionomia do actor Giuliano Gemma (1938-2013) - explora outros domínios para a banda desenhada.


CALENDÁRiO
05DEZ2013-23MAR2014 - Em Lisboa, Museu da Electricidade / Cinzeiro 8 expõe, com Fundação EDP, A Escala de Mohs de Jorge Molder, sendo comissário João Pinharanda. >IMAG.165-237-252-475-491

16JAN-13ABR2014 - Em Lisboa, Museu da Electricidade expõe, com Fundação EDP, Ilustrarte 2014 - VI Bienal Internacional de Ilustração Para a Infância.

27FEV-25MAR2014 - Em Lisboa, Galeria São Mamede expõe Um Grande Inventor de Pintura - em homenagem a Mário Cesariny de Vasconcellos (1923-2006). >IMAG.17-19-20-29-66-123-179-430-442-475-486

06MAR2014 - O Som e a Fúria co-produziu, e estreia Rincón deDarwin / Rincón de Darwin de Diego Fernández; com Carlos Frasca e Jorge Esmoris.

13MAR2014 - Na Amadora, Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem/CNBDI expõe Eros Uma Vez… O Humorista Zé Manel. >IMAG.149-218-230-237-256-416-430

1921-15MAR2014 - Zé Penicheiro: Pintor, ilustrador e caricaturista português - «Nunca o geometrismo das suas composições está inquinado por uma visão esquematizadora ou redutora, friamente académica ou superficialmente decorativista. Muito pelo contrário: aí culmina uma busca exigente e constante de captação do essencial, aí se exprime um olhar agudo, depurado e depurador. Ao serviço desta opção estética, refinando-a e acentuando-a, uma paleta de grande sobriedade, de onde o artista extrai matizes e efeitos surpreendentes» (Fernando Fausto Almeida).

27MAR2014 - Medeia Filmes estreia Cadências Obstinadas / Cadences Obstinées de Fanny Ardant; com Ásia Argento e Nuno Lopes.

27MAR2014 - UkBar Filmes estreia J.A.C.E. / J.A.C.E. de Menelaos Karamaghiolis; com Diogo Infante e Stefania Goulioti.

VISTORiA
Para L.F. Lindley Cintra

Na noite a voz cristal a voz macia
de um jogral
para a vertigem antiga:
– um novo olhar barco
para a vida
nesta ilha de névoa
e maresias já esquecida.



Tua fronteira no meu braço
que te contorna: evidente
oceano. E me navega
pelas ruas da cidade
entorpecida:
– certeza na espada e na chama
da aliança
em sangue consentida.

J. David Pinto Correia
- Este Branco Silêncio

MEMÓRiA
01MAR1445-1510 - Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, aliás Sandro Botticelli: Pintor italiano, renascentista, da Escola Florentina, autor de A Primavera e O Nascimento de Vénus, protegido pela família Medici. >IMAG.189-214

1900-04MAR1945 - Mark Sandrich: Realizador de cinema norte-americano, distinguido pela Academia de Hollywood com a curta metragem So This Is Harris! (1934). >IMAG.26-40-288

05MAR1925-1991 - Luís Filipe Lindley Cintra: Professor universitário, filólogo, linguista, membro da Academia das Ciências de Lisboa (1962) - «Tenho de reconhecer humildemente que fui um homem cujas leituras, como diria o Professor Hernâni Cidade, foram quase sempre dirigidas, feitas pela necessidade de me informar sobre certos aspectos» (a José Mattoso - Penélope, 1989 - excerto). >IMAG.38-335

06MAR1925-1968 - Wes Montgomery: Guitarrista americano de jazz, Prémio New Star (1960) da revista Down Beat - «desenvolveu um estilo único de dedilhado com o polegar, bem como um modo de tocar em oitavas, que se tornariam as suas marcas registadas. A sua extrema liberdade e fluidez no instrumento chamaram, desde o início, a atenção» (Fernando Jardim) - «Se um artista de jazz está efectivamente a tocar, o executante de música clássica tem, necessariamente, de o respeitar». >IMAG.419

07MAR1875-1937 - Joseph-Maurice Ravel, aliás Maurice Ravel: Compositor e pianista francês - «Toda a criança é sensível à música - a todo tipo de música. O meu pai, muito mais culto nesta arte que a maioria dos aficionados, soube desenvolver os meus gostos e estimular precocemente a minha paixão». >IMAG.104-160-272


ANUÁRiO
85aC-43ac - Publilius Syrius, aliás Públio Siro: Escritor e pensador latino - «O juiz é condenado, quando o culpado é absolvido» (Sententiæ). >IMAG.416

1865 - Em Paris, calcula-se que morrem, por dia, cerca de 30 cavalos, podendo perfazer 12.775 por ano.
Cada cavalo produz: pele - 2$700 réis; crina - 360; carne fresca - 90; tendões - 280; óleo das vísceras - 240; cascos - 110; ossos - 10. Soma: 3$790 réis.



GALERiA
Eros Uma Vez…
- O Humorista ZÉ Manel
A sala de exposições temporárias do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem/CNBDI, um novo espaço que abriu portas em 2013, por ocasião do 24º AmadoraBD, recebe esta mostra dedicada à obra humorística de José Manuel Alves Mendes, o desenhador virtuoso que assina Zé Manel. Esta exposição, que foi produzida por Osvaldo Macedo de Sousa / Humorgrafe e integrou o 18º Salão Internacional MouraBD 2013, traça um breve percurso pelo trabalho de Zé Manel que, para além da banda desenhada, da ilustração e da caricatura, pode apreciar-se em áreas tão distintas como os vitrais, o design gráfico, a cenografia para teatro e para cinema de animação, ou a ilustração para livros escolares (quem não se lembra de Nicole, Robert, e Petit Patapouf?, personagens que animaram os livros de francês Je Commence). Composta por pranchas, ilustrações, desenhos originais e publicações, esta mostra apresenta-se em três núcleos distintos, o primeiro dedicado à banda desenhada – para um público infantil e adulto, o segundo ao humor na Imprensa – os diferentes jornais e revistas em que colaborou, e o terceiro ao erotismo – tema que atravessa grande parte da sua obra.

Zé Penicheiro
- Caricatura Em Volume
Com a sacola a dar-a-dar nos fundilhos dos calções desenfiavas-te para a beira do teu pai, carpinteiro. Do legado paterno há-de ser evidente o gosto pelos trabalhos em madeira com os quais iniciaste a tua carreira artística. Foi através dos bonecos que o público teve pela primeira vez acesso ao teu talento criativo. Desenhavas na madeira as figuras da rua - o guarda-nocturno, o pescador, a peixeira - o teu pai recortava-as e nascia a caricatura em volume reveladora do teu espírito observador.

S.M.
      

BREVÁRiO
Althum edita Bichos, Bichinhos e Bicharocos de Sidónio Muralha (1920-1982 - poemas), Júlio Pomar (ilustrações) e Francine Benoit (1894-1990 - música). >IMAG.19-312-449-478-495

Sony Music edita em CD, High Hopes por Bruce Springsteen. >IMAG.41-96-177-236-502

Estampa edita Rómulo de Carvalho / António Gedeão [1906-1997] - O Príncipe Perfeito de Cristina Carvalho. >IMAG.82-123-355

A Divina Comédia edita História da Minha Vida - Páginas Escolhidas de Giacomo Casanova (1725-1798); tradução e notas de Pedro Tamen, selecção e organização de Miguel Viqueira. >IMAG.299-347

Relógio D’Água edita Riso Na Escuridão de Vladimir Nabokov (1899-1977); tradução de Telma Costa. >IMAG.63-223-253-272-325-338-418-503-504